Crítica | Fjord (TIFF 2026)

há 13 horas
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Cristian Mungiu transforma uma história sobre imigração, religião e intervenção estatal em drama judicial competente, mas distante da força de seus trabalhos anteriores.

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Depois de assistir a tantos filmes que tentam transformar questões políticas em grandes discursos, é interessante encontrar uma obra que coloque o espectador diretamente no centro de um dilema moral. Fjord, novo filme de Cristian Mungiu, parte de uma história real para questionar até onde o Estado deve interferir na vida de uma família e, principalmente, quem tem o direito de decidir o que é melhor para uma criança.
O filme acompanha a família Gheorghiu, formada por Mihai (Sebastian Stan), um imigrante romeno, Lisbet (Renate Reinsve), sua esposa norueguesa, e os cinco filhos do casal. Depois de se mudarem para uma pequena cidade na Noruega, a família tenta se adaptar à nova realidade enquanto mantém seus valores religiosos e conservadores. O conflito começa quando uma denúncia de possível abuso faz com que os serviços de proteção infantil retirem as crianças de casa antes mesmo de uma investigação ser concluída.
A partir desse momento, Fjord abandona parte da apresentação inicial da família e se transforma em um drama judicial. E é justamente nessa mudança que o filme encontra tanto sua maior qualidade quanto seu maior problema.
A grande escolha da obra é que Mungiu não apresenta uma resposta simples para o conflito. A questão não é exatamente saber se os pais estão certos ou errados, mas até que ponto determinados métodos de criação podem ser considerados aceitáveis e, principalmente, quando o Estado deve interferir na vida privada de uma família.
Ao mesmo tempo em que conseguimos compreender a preocupação dos serviços sociais, também é possível enxergar a frustração dos pais ao perceberem que pessoas que pouco conhecem sua família passam a tomar decisões sobre seus filhos. O diretor coloca o espectador em uma posição desconfortável, obrigando-o a escolher entre dois lados que não são completamente corretos ou incorretos.
O filme também apresenta uma discussão interessante sobre imigração e religião. A família vem da Romênia, um país de tradição religiosa e valores mais conservadores, para uma Noruega marcada pelo secularismo, igualdade e forte presença do Estado. O choque entre essas duas culturas poderia render uma análise ainda mais profunda sobre racismo, xenofobia e integração, mas Mungiu acaba deixando essas questões em segundo plano.
E esse é um dos principais problemas de Fjord. Conhecendo os trabalhos anteriores do diretor, especialmente 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e R.M.N., eu esperava uma crítica social muito mais afiada. Em vez disso, o longa frequentemente se aproxima de um drama judicial tradicional, seguindo caminhos que já vimos diversas vezes em histórias baseadas em casos reais.
Apesar disso, Fjord é elevado pelas atuações. Sebastian Stan entrega uma performance bastante diferente de seus papéis mais conhecidos. Atuando em romeno, o ator consegue transmitir a frustração de um homem que tenta construir uma nova vida enquanto percebe que, independentemente de seus esforços, ainda é visto como alguém de fora. Sua atuação evita transformar Mihai em uma simples vítima, permitindo que suas contradições permaneçam visíveis.
Renate Reinsve também impressiona justamente por fazer menos. Depois de personagens mais explosivas em filmes como A Pior Pessoa do Mundo e Sentimental Value, a atriz assume aqui uma presença muito mais contida. Lisbet é quase sempre silenciosa e controlada, mas existe uma tristeza constante em sua expressão que acaba dizendo mais do que seus diálogos.
Visualmente, o filme também se beneficia bastante de sua localização. As montanhas, o mar e as pequenas casas espalhadas pela paisagem norueguesa criam um contraste curioso com a tensão que toma conta da família. É um lugar que parece tranquilo e acolhedor, mas que rapidamente se transforma em um espaço de vigilância e conflito.
Infelizmente, quanto mais Fjord se aproxima de sua conclusão, mais evidente fica sua estrutura convencional. O terceiro ato, passado principalmente no tribunal, oferece os melhores momentos de tensão, mas também reforça a sensação de que Mungiu poderia ter feito um filme muito mais provocador a partir dessa história.
No fim, o longa vencedor da Palma de Ouro funciona melhor como um dilema moral do que como comentário social. É um filme que consegue fazer o espectador questionar suas próprias opiniões, mas que raramente aprofunda as questões políticas que parecem ser seu maior interesse. Com atuações fortes de Stan e Reinsve, o longa se mantém envolvente mesmo quando seu roteiro segue caminhos previsíveis.
Fjord está longe de ser um filme ruim, mas também não possui a força que se espera de Cristian Mungiu. Uma história complexa sobre família, religião, imigração e os limites da intervenção do Estado acaba transformada em um drama judicial competente, porém convencional. No final, fica a sensação de que havia um filme muito mais interessante escondido dentro deste.
Nota: 3/5



















