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Entrevista | “A gente vive também do que vem do povo”: Tiago Melo e Rejane Faria discutem a ficção científica sertaneja de “Yellow Cake”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Filme abriu a 15ª edição do festival Olhar de Cinema e foi rodado no sertão paraibano.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O que acontece quando Bacurau se encontra com Chernobyl? O resultado, de certa forma, é algo como Yellow Cake, longa-metragem do pernambucano Tiago Melo que foi rodado no sertão da Paraíba. O filme é estrelado por Rejane Faria e conta com nomes como Tânia Maria, Valmir do Côco e Severino de Dadá no elenco, além de contar com a produção executiva de Kleber Mendonça Filho. O filme foi escolhido para abrir a 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, e você pode conferir a crítica aqui.


A trama de Yellow Cake é ambientada num futuro próximo, onde o Brasil foi tomado pelas doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti. A cidade de Picuí, sertão da Paraíba, recebe um grupo de cientistas estrangeiros para uma experiência que erradicaria o mosquito, mas quando o teste fracassa, coisas estranhas começam a acontecer, e resta a Rúbia (Rejane Faria), uma pesquisadora brasileira, tomar as rédeas da situação para impedir que o desastre tome proporções catastróficas.

Sendo um longa fortemente calcado no cinema de gênero (com seus elementos de ficção científica e thriller, e até abraçando um lado mais sobrenatural), é inevitável não pensar em algumas obras que poderiam ter servido de influência a Yellow Cake. E, embora as associações com Bacurau possam ser as mais rapidamente apreendidas por conta dos nomes no elenco e na produção, a principal referência de Tiago foi outra: Abrigo Nuclear (1981), do diretor baiano Roberto Pires. 

“Quando eu assisti, pensei: ‘como é possível um filme nordestino fazendo ficção científica, essa coisa futurista?’. Foi um filme precursor, visionário”, disse Tiago, que apontou outras obras que lhe serviram de inspiração, como 2001: Uma Odisseia no Espaço e as produções de Steven Spielberg. Ele citou em particular Contatos Imediatos de Terceiro Grau, por conversar bastante com Yellow Cake, sobretudo na apresentação de Picuí enquanto paisagem.

É inegável, porém, que essas referências hollywoodianas do cinema de gênero não deixaram de serem “antropofagizadas” por Tiago para fazer do filme uma verdadeira ficção científica sertaneja, que põe em conflito os saberes populares e a racionalidade científica ocidental. É uma visão partilhada por Rejane Faria, cuja personagem Rúbia passa por um significativo arco de transformação à medida que se entranha nos mistérios que cercam Picuí e o sertão. 

A atriz destacou como os elementos mais fantásticos e sobrenaturais do filme já vão sendo delineados em sua primeira metade, e até conversem com aspectos reais, em especial a figura de Seu Nozinho (Severino de Dadá), o misterioso “cientista popular” que ajuda Rúbia em sua jornada e que é baseado numa figura que de fato existiu na cidade, e que conta com um museu voltado à sua pessoa. “Acho que isso ficou forte no roteiro dele [Tiago], de que a gente não vive só a base desses conhecimentos científicos, da intelectualidade. A gente vive também do que vem do povo. A nossa história no Brasil é muito construída na oralidade, e a gente precisa ter atenção a isso”, afirmou ela.

Esses elementos da oralidade e do saber popular dentro de uma roupagem sci-fi ajudam Yellow Cake a se distinguir de um sem-número de produções audiovisuais que reforçam estereótipos a respeito do Nordeste. Neste sentido, Tiago cita o caso de Kleber Mendonça Filho como uma figura que rompeu barreiras para poder se pensar outras formas de representação do Nordeste no cinema brasileiro, destacando também polos regionais de produção, como Ceará, Pernambuco e Paraíba, sobretudo no campo do cinema de gênero.

“Acho que isso é a liberdade da gente poder fazer os filmes que quer fazer, contar as histórias que quer contar. Acho que o cinema deu uma bela encaretada em muitos momentos, mas esse modelo de filme comercial onde são todos muito parecidos – e muitos deles usam o humor nordestino como chacota ou estereótipo – é um modelo passageiro que acho que está passando. E eu acho que é tão bom quando a gente justamente parte para uma outra camada”, destacou ele.


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