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Crítica | O Fim da Rua

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Filme de David Robert Mitchell finalmente devolve aos dinossauros a aventura divertida, criativa e emocionante que o cinema parecia ter esquecido.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Existe uma pergunta que o cinema de dinossauros vem tentando responder há décadas: como fazer uma boa aventura com criaturas pré-históricas sem simplesmente repetir Jurassic Park? A resposta parecia cada vez mais difícil. Desde Jurassic Park III, em 2001, poucos filmes conseguiram transformar dinossauros em uma aventura realmente memorável. A própria franquia que tentou renovar esse universo na última década, Jurassic World, acabou presa a uma nostalgia que parece nunca encontrar seu próprio ritmo.


Os três filmes da nova trilogia fizeram muito sucesso nas bilheterias, especialmente porque dinossauros continuam sendo uma das apostas mais seguras do cinema comercial. O problema nunca foi o público. Foi a qualidade. Depois de duas continuações pouco inspiradas, Jurassic World: Renascimento surge como uma nova tentativa de recuperar o encanto da franquia, mas também não consegue entregar tudo aquilo que promete.


No fim das contas, não deveria ser tão difícil. É só fazer um bom filme de aventura com um roteiro que funcione. Parecia difícil demais, até chegar O Fim da Rua.


Dirigido por David Robert Mitchell, cineasta responsável por Corrente do Mal (2014) e Under the Silver Lake (2018), o filme parte de uma premissa deliciosamente absurda: após um misterioso evento cósmico, uma rua suburbana é arrancada de seu cotidiano e transportada para um lugar desconhecido, onde seus moradores descobrem que estão cercados por dinossauros. No centro da história está a família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway), Dan (Ewan McGregor) e os filhos, que precisam sobreviver enquanto tentam entender o que aconteceu com o lugar que chamavam de casa. 


É uma ideia simples, mas Mitchell entende algo fundamental: não é preciso inventar uma mitologia gigantesca para fazer um bom blockbuster. É preciso saber contar uma história. E O Fim da Rua sabe.


O grande mérito do filme está justamente em recuperar uma sensação que o cinema comercial parece ter perdido. Há algo de Amblin em cada esquina de Oak Street. A fotografia, os planos longos pelos subúrbios, os carros antigos, a trilha sonora grandiosa e até o uso de split diopters criam uma atmosfera que remete diretamente ao cinema de aventura dos anos 1980. 


Mas David Robert Mitchell não transforma essa referência em simples nostalgia. O diretor absorve aquele espírito e o mistura ao seu próprio cinema. O resultado é um filme que consegue ser divertido, assustador, cruel e, principalmente, surpreendentemente humano. Porque, embora os dinossauros sejam obviamente a grande atração, O Fim da Rua é também uma história sobre uma família que está desmoronando.


Denise e Dan não estão exatamente vivendo o melhor momento do casamento. A comunicação entre os dois está quebrada, os filhos estão cada vez mais distantes e aquela imagem de família suburbana perfeita começa a revelar suas rachaduras. Quando o mundo literalmente deixa de fazer sentido, eles são obrigados a fazer aquilo que não conseguiam fazer dentro de casa: conversar, confiar uns nos outros e permanecer juntos.


Anne Hathaway funciona como a espinha dorsal dessa família. Sua Denise é a força que mantém todos de pé, especialmente quando a situação exige que ela abandone qualquer ideia de normalidade. A atriz encontra o equilíbrio perfeito entre a mãe protetora e a mulher aterrorizada diante de uma situação que não consegue compreender.  (E, sim, existe um momento em que Anne Hathaway simplesmente explode um T-Rex com uma espingarda). E é exatamente esse tipo de absurdo que faz o filme funcionar.


Ewan McGregor também está muito bem, especialmente porque seu personagem complementa a energia de Hathaway sem disputar espaço com ela. Os dois possuem uma dinâmica convincente e conseguem vender tanto os momentos de tensão quanto aqueles pequenos instantes de humor que impedem o filme de ficar pesado demais.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Mitchell também entende que dinossauro funciona melhor quando é tratado como ameaça. Em vez de transformar cada criatura em uma atração de parque temático, o diretor brinca com suspense, escala e expectativa. Algumas sequências são genuinamente tensas e fazem um ótimo uso do espaço suburbano, transformando casas, ruas, quintais e carros em elementos de sobrevivência.


O filme também não tem medo de ser cruel. Apesar da estética de aventura familiar, O Fim da Rua ultrapassa algumas expectativas do que normalmente se espera de um blockbuster desse tipo. Há violência, imagens sangrentas e momentos capazes de arrancar o espectador da cadeira. E talvez seja essa mistura que torne o filme tão especial.


O Fim da Rua parece, ao mesmo tempo, Tubarão, Os Goonies, Jurassic Park, Sinais e aquele tipo de aventura de verão que Hollywood simplesmente não faz mais. Só que não é uma colagem vazia de referências. Mitchell usa esse imaginário para construir algo próprio. É uma carta de amor aos blockbusters de outra época, mas sem esquecer que nostalgia, sozinha, não sustenta um filme.


Há problemas, claro. O mistério envolvendo o fenômeno que transporta Oak Street para aquele mundo é tratado de maneira um pouco superficial. Algumas respostas parecem menos importantes para o roteiro do que deveriam e, quando chega a hora de explicar o que realmente está acontecendo, o filme opta por caminhos que podem deixar parte do público insatisfeita. O encerramento também chega de maneira abrupta, deixando a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas melhor.


Nada disso, porém, destrói a experiência. Porque O Fim da Rua entende algo que a franquia Jurassic World parece ter esquecido: um filme de dinossauros não precisa ser uma grande operação de nostalgia, nem precisa explicar cada detalhe de seu universo. Ele precisa ser divertido.E esse é, talvez, o maior triunfo de David Robert Mitchell. 


Depois de tantos anos esperando que os dinossauros voltassem a proporcionar uma grande aventura, finalmente temos um filme que entrega exatamente isso. O Fim da Rua é engraçado, emocionante, assustador, visualmente inventivo e surpreendentemente tocante. Uma máquina de entretenimento enxuta e feroz, que sabe quando acelerar, quando desacelerar e, principalmente, quando simplesmente deixar um dinossauro entrar em cena.

No fim, talvez a solução sempre tenha sido mais simples do que parecia: era só fazer um bom filme.


Nota: 4/5


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