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- Crítica | Mambembe
Entre memórias, afetos e um filme interrompido, Fábio Meira transforma o cinema em um gesto de permanência e reinvenção. Imagem: Divulgação Existe algo profundamente brasileiro no universo do circo mambembe, especialmente quando ele atravessa o interior do Nordeste. Não apenas como espetáculo, mas como presença que ocupa a cidade por instantes e depois desaparece. A lona erguida em terrenos improvisados, os caminhões que se tornam casas, o brilho precário das luzes na noite quente. O circo não chega como evento isolado, ele se mistura à paisagem, se confunde com o cotidiano e cria uma memória coletiva que não é fixa, mas em movimento. É nesse imaginário que se ancora Mambembe, novo longa de Fábio Meira, que estreia em 14 de maio nos cinemas. Depois de As Duas Irenes e Tia Virgínia, o diretor retorna a um projeto iniciado em 2010, interrompido ainda na origem, para transformá-lo em outra coisa. Não exatamente um filme recuperado, mas um filme reinventado a partir do próprio fracasso. A premissa original acompanhava um topógrafo errante que cruza o caminho de três mulheres de um circo mambembe. Mas o que poderia ser apenas uma narrativa ficcional se abre em outras direções quando o próprio processo passa a contaminar a obra. O filme deixa de buscar um encerramento possível e assume sua condição de fragmento, de projeto interrompido que retorna como memória, arquivo e gesto de recomeço. Há aqui uma escolha clara de linguagem. Mambembe assim como o circo, não se fixa em um território. Ele oscila entre documentário e ficção, entre bastidores e cena, entre registro e invenção. Essa instabilidade não é um efeito, mas a própria estrutura do filme. O que se vê é uma obra que se constrói diante do espectador, como se estivéssemos sempre no meio de algo que já começou antes e ainda não terminou. Dentro dessa lógica, o filme se aproxima de um diário. Não no sentido íntimo apenas, mas no sentido de processo. A direção de Fábio Meira não tenta esconder esse estado de busca. Pelo contrário, expõe. O filme parece constantemente em diálogo com sua própria origem, com suas imagens de pesquisa, com o jovem diretor que inicia esse projeto e com o tempo que atravessa tudo isso. Nesse percurso, surgem personagens reais que atravessam a fronteira da ficção e reorganizam o próprio filme. Índia Morena, figura do circo pernambucano, não apenas participa da construção da obra, mas tensiona sua lógica ao afirmar que artistas de circo devem interpretar a si mesmos. Essa ideia não fica restrita ao discurso, ela estrutura o filme por dentro. O personagem do topógrafo, por sua vez, carrega uma dimensão ainda mais íntima. Ele nasce de uma ausência, da relação com o pai do diretor, e aos poucos deixa de ser apenas personagem para se tornar espelho. O filme passa a operar nesse espaço instável entre criação e autobiografia, onde o próprio cineasta também se inscreve como presença. O que se forma é um conjunto de camadas que nunca se estabilizam. Uma artista como Madonna surge como figura quase impossível de distinguir entre o real e o inventado. As duas Jéssicas expõem esse mesmo atrito, uma impedida de sair do circo e outra recriada pela ficção, interpretada por Dandara Guerra. O filme não resolve essas fronteiras, ele as mantém abertas. O resultado é uma obra que encontra no inacabado sua força central. Mambembe não tenta reconstruir o que foi perdido, mas olhar diretamente para a interrupção. Nesse sentido, o longa também fala sobre um cinema brasileiro que muitas vezes começa e não termina, não por falta de ideias, mas por falta de estrutura, de financiamento, de condições reais de existência. É aqui que o filme se amplia. Ele não trata apenas de um projeto interrompido, mas de uma lógica mais ampla do audiovisual brasileiro, especialmente fora dos grandes centros. Quantas histórias existem apenas como possibilidade? Quantos filmes permanecem como arquivo, rascunho ou memória de algo que não chegou a se concretizar? Ao transformar esse processo em forma, Mambembe encontra uma dimensão política sem precisar anunciá-la. A precariedade deixa de ser contexto e passa a ser linguagem. O que poderia ser ausência se torna matéria. No fim, o que Fábio Meira constrói não é um filme sobre o circo, nem apenas sobre um projeto perdido. É uma obra sobre o próprio ato de filmar quando ele já não pode ser inteiro. Sobre o que permanece mesmo quando tudo parece interrompido. E sobre como, às vezes, o cinema nasce justamente do que não conseguiu se concluir. Nota: 4.5/5
- Crítica | Um Pesadelo Americano
História surpreendente é fio condutor para críticas contra a misoginia sistemática Foto: Divulgação Atenção : Essa crítica contém spoilers! Geralmente eu prefiro escrever críticas sem comentar os enredos principais da trama, mas, é impossível Um Pesadelo Americano é uma minissérie surpreendente, muito bem feita, montada e dirigida que mostra
- Crítica | Tetris
Se o espectador for capaz de deixar esse olhar crítico para o anticomunismo exagerado, porém, encontrará
- Crítica | Feito Pipa (Festival do Rio 2026)
A aposta brasileira no Oscar encontra melancolia, humor e delicadeza em uma história sobre o que aprendemos uns com os outros Imagem: Divulgação O Brasil inteiro sabe: ninguém é mais mimado que o famoso “menino criado com vó”. Vó foi mulher quando ser mulher era ainda mais difícil. Talvez por isso tenha o coração mais calejado e, ao mesmo tempo, mais permissivo. Aposentada, já não tem o estresse do trabalho para descontar em casa, mas tem tempo para a cozinha, para os amigos, para a reza e, principalmente, para os netos. Gugu (Yuri Gomes) é um menino de vó. Mas não qualquer menino: apesar de muito novo, já se entende — e, mais importante, se aceita — gay e afeminado. Cobre-se de brilho para ir à escola, refletindo a luz que carrega por dentro. Gosta de dançar tanto quanto gosta de jogar bola. Naturalmente, comemora o gol dançando — para alegria dos amigos e desprezo dos colegas que ainda não aprenderam a enxergar a beleza da autenticidade. Também não estamos falando de qualquer vó. Dona Dilma (Teca Pereira) gosta de maquiagem chamativa, brincos enormes e de se agarrar com o paquera no banco do carro depois do forró de sábado. Tem em Gugu seu melhor amigo, mas também a maior fonte de lembranças da filha que perdeu. Juntos, vó e neto são imbatíveis. A pequena cidade do sertão cearense vira palco para os dois. Dilma dá asas a Gugu, e ele sabe disso. É por isso que se encolhe sempre que está na presença do pai, Batista (Lázaro Ramos), que, em vez de admirar o voo do filho, preocupa-se com quem, sem nunca conseguir sair do chão, aponta e ri. Para o bem dos dois, estabelece-se um acordo silencioso: construir a relação baseada em ausência e distância, perto o suficiente para não parecer abandono e longe o bastante para não ferir ninguém. Não é que Batista seja um pai ruim. Sem dúvida, quer o melhor para o filho. O problema é que sua ideia de “melhor” não cabe exatamente na imensidão de Gugu. Também não é justa a concorrência que lhe foi imposta: em comparação com a grandiosa Dilma, qualquer um corre o risco de parecer pequeno. O problema das avós, porém, é que elas desabrocham cedo demais. Quando chega a nossa vez, elas já estão perto de murchar. Pouco a pouco, Dilma é consumida por um esquecimento que compromete o cuidado com o seu menino. Ela faz de tudo para disfarçar. Gugu, por sua vez, faz de tudo para fingir que não percebe. Com medo de ter seu mundo perfeito abalado, o menino inverte as posições. Ao esconder a doença de Dilma, o menino de vó, do alto de seus um metro e meio de altura, vira o homem da casa. Seu brilho se perde, literal e figurativamente, e a criança doce e energética que conhecemos no início do filme também começa a murchar, embora de uma maneira diferente. Batista sabe que precisa fazer alguma coisa. Mas o quê? Sua masculinidade não lhe permite sequer perguntar qual é a comida preferida do filho, quanto mais demonstrar culpa, preocupação ou afeto. São três gerações marcadas por desafios absurdamente geracionais e, ao mesmo tempo, amarradas por um sentimento profundamente universal: o medo do desconhecido. Gugu só sabe ser quem é. Batista só sabe educar como foi educado. E Dilma só lembra como viver com as memórias. Feito Pipa constrói esses três personagens como figuras multidimensionais, capazes de carregar contradições sem jamais se reduzirem a elas. O resultado é um drama melancólico sobre a passagem do tempo vista pelos olhos de uma criança cuja infância vai sendo roubada antes cedo demais. Só que drama e melancolia não combinam muito com Gugu e Dilma. Por isso, o roteiro de André Araújo encontra no humor seu melhor aliado, arrancando risadas sinceras mesmo quando a garganta já está embargada. Outra grata surpresa é descobrir um sertão que não precisa ser apresentado pela velha cartela sépia de sempre. Feito Pipa é um filme colorido, vibrante e cheio de vida, recusando aquela fotografia quase monocromática que tantas vezes transforma o semiárido brasileiro em sinônimo visual de sofrimento. A direção de arte, o figurino e a maquiagem acompanham essa escolha com inteligência: as crianças, especialmente, parecem vestir a própria infância, com cores, brilhos e combinações que têm a espontaneidade de quem ainda não aprendeu que existe uma maneira “certa” de se apresentar ao mundo. Nada disso soa artificial ou distante da realidade daquelas famílias. Ao contrário: a exuberância visual nasce justamente daquilo que existe de mais cotidiano. Imagem: Divulgação O timing e a química dos três protagonistas são irretocáveis. A naturalidade de Yuri Gomes é daquelas que fazem o espectador se perguntar se ele sabia que estava atuando ou se simplesmente estava sendo ele mesmo. Seu prêmio no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI) e a Menção Honrosa no Festival de Gramado são completamente merecidos. Lázaro Ramos, muito distante dos Foguinhos e Roques que ajudaram a consolidá-lo como um dos grandes nomes do cinema e da televisão brasileiros, encontra a força de Batista na contenção: no maxilar travado, na testa franzida, na postura rígida de quem aprendeu a esconder tudo aquilo que sente. Já Teca Pereira atravessa diferentes Dilmas dentro da mesma personagem: há a mulher apaixonada pela vida, a avó cúmplice, a mãe enlutada e, aos poucos, a pessoa que convive com a agonia de uma memória que começa a lhe escapar. Mas, com todo respeito aos veteranos, quem rouba a cena mesmo é o elenco infantil. Há uma sequência, logo depois de um dos momentos mais tensos do filme, em que as crianças assumem brevemente o controle da narrativa, no momento mais divertido do longa. A sequência funciona porque não tenta fabricar uma piada para aliviar a tensão: o humor nasce da lógica própria daquele universo infantil, de sua capacidade quase indecente de transformar qualquer situação séria em brincadeira. É uma pequena e poderosa demonstração de como Feito Pipa entende que criança não é sinônimo de ingenuidade passiva. Eu diria que o ponto alto da direção de Allan Deberton está justamente em como ele soube aproveitar o elenco jovem sem infantilizar a narrativa. A presença das crianças injeta frescor em uma história que poderia facilmente cair em um dramalhão piegas. Em vez disso, encontra um equilíbrio delicado entre a dor e a leveza, especialmente no ritmo da montagem. O filme dá tempo para que cada sentimento apareça, seja contemplado e amadureça, mas nunca se demora tanto a ponto de transformar melancolia em peso. Quando parece que a tristeza vai tomar conta, uma piada, uma dança ou uma pequena desobediência infantil abre uma fresta de luz. É também nesse equilíbrio que o contraste mais bonito do filme se constrói: de um lado, a pobreza material de um sertão semiárido, marcada por limitações concretas; do outro, a abundância quase inesgotável da imaginação infantil. Gugu pode ter pouco, mas seu mundo é enorme. Há música, dança, amigos, brilho, futebol, sonhos e uma avó que lhe ensina que existir não precisa ser uma coisa pequena. No fim, Feito Pipa é um filme sobre o que nos mantém no ar e sobre aquilo que nos puxa de volta para o chão. Sobre as raízes que recebemos sem escolher, os caminhos que tentamos abrir para quem vem depois e as coisas que inevitavelmente deixamos pelo caminho. Gugu aprende cedo demais que até quem nos ensinou a voar pode, um dia, precisar que a gente segure a linha. Não sei usar outro adjetivo para Feito Pipa além de “lindo”. Talvez “agridoce” caiba – um agridoce delicioso. Feito Pipa estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de novembro, e merece ser visto por todas as famílias. Nota: 4.5/5 | Leia também: Entrevista | Allan Deberton, Teca Pereira e Lázaro Ramos falam sobre “Feito Pipa”
- Crítica | Medusa Deluxe
Uma revigorante uma dose de originalidade e ineditismo em pleno 2023. Voltemos ao ponto dessa crítica.
- Crítica | Hope – O Primeiro Impacto
Na Hong-jin honra e incorpora os códigos do cinema de ação e de monstro hollywoodiano em blockbuster Não é nenhum spoiler dizer que as ameaças enfrentadas por estes personagens são monstros, pois Hope é , em essência, um filme filiado à tradição do cinema de monstro. Ainda assim, a antropofagia permanece; e se os comentários críticos ao Ocidente podem ser mais contidos Cameron Britton (e não, não vou dizer quem eles interpretam) não deixa de ser em si um toque ácido que mostra
- Crítica | Cartório das Almas
Entre a eternidade e o direito de partir Imagem: Divulgação Em um futuro no qual a humanidade conquistou a possibilidade de viver para sempre, a morte se transforma em uma escolha que precisa passar pela burocracia. É a partir dessa premissa que Leo Bello constrói Cartório das Almas, ficção científica brasileira que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 29 de outubro. O longa acompanha Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos que trabalha em uma instituição responsável por registrar os motivos daqueles que decidem renunciar à eternidade. Proibida por contrato de interferir nas decisões dos clientes, ela começa a ter a própria visão sobre a vida e a morte transformada pelas histórias que escuta diariamente. Com apenas 1h17 de duração, o filme encontra na própria premissa um caminho para refletir sobre a morte, o sentido da existência e, sobretudo, o direito de escolha. Em um mundo no qual viver para sempre se tornou uma possibilidade, a morte voluntária deixa de ser apenas um fim e passa a representar uma decisão que precisa ser compreendida dentro das experiências individuais. A proposta provoca questionamentos interessantes justamente por inverter a lógica de uma sociedade que costuma tratar a preservação da vida como um objetivo absoluto. A direção flerta com o cinema experimental, tanto na construção narrativa quanto na maneira de apresentar esse universo. Em vez de recorrer a explicações excessivas para estabelecer as regras dessa realidade, o longa investe na atmosfera e na observação. Essa escolha pode exigir paciência do espectador, mas também contribui para a sensação de estranhamento que sustenta a experiência. Brasília é fundamental nesse processo. Os espaços da capital federal são explorados de maneira a reforçar a impessoalidade e o caráter burocrático desse futuro distópico. A arquitetura e os ambientes ajudam a construir um universo que parece simultaneamente familiar e deslocado, como se a frieza institucional da cidade tivesse sido levada às últimas consequências. A ambientação, nesse sentido, não funciona apenas como pano de fundo, mas como parte importante da imersão proposta pelo filme. A fotografia também merece destaque ao valorizar os espaços escolhidos pela produção e contribuir para a atmosfera da narrativa. Há um cuidado visual que fortalece a identidade do longa, enquanto a relação entre os personagens e os ambientes ajuda a transmitir suas inquietações sem depender exclusivamente dos diálogos. Imagem: Divulgação No centro dessa construção está Gabriela Correa, que entrega uma atuação bastante interessante como Laura. A atriz desenvolve a personagem com sensibilidade, tornando perceptíveis as transformações provocadas pelo contato constante com pessoas que decidiram abrir mão da eternidade. Mais do que representar uma mulher que vive há mais de um século, Correa precisa transmitir alguém cuja relação com o tempo e com a própria existência começa a ser colocada em xeque. Seu trabalho oferece humanidade a uma personagem inserida em um universo deliberadamente distante da realidade cotidiana. Ainda que nem todas as escolhas narrativas tenham o mesmo impacto, Cartório das Almas encontra força na disposição de abordar questões complexas sem oferecer respostas fáceis. O filme provoca reflexões sobre autonomia, finitude e os limites da interferência sobre as decisões alheias. Ao imaginar uma sociedade em que a eternidade é possível, a obra desloca certezas sobre a preservação da vida e coloca a autonomia individual no centro de seu debate. Com uma premissa provocadora, uma identidade visual bem definida e uma protagonista que sustenta o interesse dramático, o longa encontra seu espaço dentro da ficção científica brasileira. Seus resultados são irregulares, mas há ideias e escolhas estéticas suficientes para tornar a experiência instigante. Mais do que imaginar um futuro distante, Cartório das Almas usa essa realidade para questionar certezas do presente. Nota: 3/5
- Crítica | O Convite
Divulgação Como já comentei em outras críticas, o advento dos streamings, a reformulação da ideia de
- Crítica | À Primeira Vista
Em 2022, o morno Olá, Adeus e Tudo Mais não fez jus à qualidade do produto literário, mas entrega um Passado em apenas 24 horas, o longa mostra entre encontros e desencontros que, talvez, exista amor à
- Crítica | Caos e Destruição
ao gênero da ação nos cinemas com Caos e Destruição, longa que vinha sendo gestado lentamente desde 2021 Essa, aliás, tem sido uma constante crítica aos filmes de ação há um bom tempo, mas Evans faz dessa fraqueza Isso, junto ao elemento da máfia chinesa envolvida na trama, mostra que, mesmo que tenha retornado ao entanto, quando este vem – em especial em duas sequências específicas, a da boate e a da cabana –, Evans mostra
- Crítica | Alien: Romulus
universo alien mas ainda assim proporcionando novas ideias, o que acabou me lembrando um pouco Rogue One (2016 um terror mais frontal e visceral dos xenomorfos, inserindo diversas cenas de body horror, no qual o monstro propõe uma experiência de terror muito sólida por não se limitar ao terror apenas pela existência dos monstros
- Crítica | Bandida: A Número Um
Excelente condução e elenco brilhante fazem o espectador querer mais (porque de fato merecia) Foto: Divulgação Aos nove anos, Rebeca (Maria Bomani) é vendida pela avó para o bicheiro que comandava a Rocinha. Disputada por bicheiros e traficantes, a comunidade passa por mudanças de poder. Rebeca vira mulher do traficante chefe e, com a morte dele, sua sucessora. Confesso que já tive minha cota de filmes brasileiros sobre tráfico, crime organizado e favelas. Entre produções aclamadas e comédias satíricas para lá de vergonhosas o tema, e suas infinitas possibilidades de abordagem, me cansou. E foi cheio de ressalvas que cheguei para a sessão de Bandida: A Número Um e para a minha surpresa fui completamente contrariado, ainda bem. Logo nos primeiros instantes é perceptível que o diretor João Wainer estava apresentando uma produção complexa no melhor sentido da palavra. Ao abrir com uma narração da protagonista numa cena em preto e branco e com enquadramentos fechados Wainer avisa ao público que apesar da temática agressiva esse é longa intimista, emotivo e perspicaz. A direção de elenco fez um trabalho primoroso, e cada ator que aparece merecia um parágrafo de destaque para si, mas vou resumir nas duas forças imperantes: Maria Bomani e Jean Amorim. Não vou entrar em méritos feministas afinal este não é meu local de fala e não quero meter os pés pelas mãos, mas a história de uma mulher que direta e indiretamente comandou o tráfico de drogas, cenário literalmente dominado por homens, em uma das maiores favelas do Brasil é uma história de força e empoderamento, e para isso era necessária uma atriz que ao mesmo tempo que expressasse vulnerabilidade, expressasse também tenacidade. E Maria transmite todas as verdades e da personagem Rebeca sem qualquer amarra ou trava. Ela consegue ser agressiva, afável, sensual, impositiva em pouquíssimo espaço de tempo (o filme tem menos de uma hora e meia de duração) sem perder a coesão e rigidez. E entre os incontáveis nomes do elenco masculino, Jean Amorim rouba a cena. Até mesmo quando o personagem “Pará” não tem linhas de diálogo o olhar carismático e aficionado do ator brilham e se molda perfeitamente à vivacidade da atuação de Maria. Foto: Divulgação A condução de Wainer apresenta uma fluidez tão suave que faz o curto filme passar ainda mais rápido. Fico sempre receoso quando digo nos textos que tal cineasta parece brincar na direção porque pode soar como uma ação descompromissada ou sem cuidado, mas me refiro ao lado lúdico que o resultado apresenta, ao dinamismo apresentado em contrapartida às direções mais sistemáticas e rigorosas quanto ao estilo. Wainer usa imagens documentais reais dos anos 90 para ambientação, explora planos detalhes, câmera rápida, músicas como acessório móvel, e diversas outras convenções que operam numa sólida consonância para a criação de texturas e camadas do rico roteiro. O maior obstáculo do filme é sem dúvidas a limitação da duração. Os dois primeiros atos conseguem se moldar aos seus 30 minutos de duração cada, porém o ato final merecia pelo menos mais uns 20 minutos de modo que a conclusão não ficasse corrida e engolindo detalhes essenciais para uma melhor desenvoltura de situações cruciais para o fechamento do enredo. De toda forma, o resultado é superpositivo e traz consigo frescor ao subgênero de ação policial bem conhecido nosso. Além do frisson já esperado pelas sequências explosivas – que trazem um desenho de som claro e límpido –, o romance e a excitação são bem concebidos, o drama bem embasado, e o suspense segue um percurso estiloso e bem resolvido. É um filme que fala pouco, mas que diz muito e com eloquência. Nota: 4/5












