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  • Crítica | Seus Amigos e Vizinhos (1ª temporada)

    Nova série do Apple TV+ não é muito inovadora, mas diverte, ainda que sem muita profundidade. Divulgação Seus Amigos e Vizinhos é estrelada pelo vencedor do Emmy Jon Hamm como Andrew Cooper, um titã do mundo das finanças que é demitido e começa a furtar dos seus vizinhos ricos para manter seu padrão de vida e acaba descobrindo segredos que não deveria. Furtar de seu próprio círculo social estranhamente o estimula – mas aos poucos ele vai se envolvendo em uma teia cada vez mais perigosa. Para completar, Coop – como é conhecido por todos – ainda é recém-divorciado de Mel (Amanda Peet), mãe dos seus filhos, com quem tem uma relação quase amigável, digamos assim. A premissa da série já demonstra sua futilidade, e eu devo dizer que ela não consegue ir muito além disso. No entanto, o entretenimento é garantido e mesmo lembrando produções como Breaking Bad, Ozark e Succession – cada uma com suas diferenças, claro – Seus Amigos e Vizinhos não consegue ter o senso de perigo e urgência das duas primeiras ou a sagacidade de expor os ricos da última. A cena inicial é um flashforward de Coop em uma situação bem complicada, então voltamos ao presente até entendermos como ele chegou ali em episódios futuros. Longe de ser inovador, certo? Mas ainda assim te fisga graças ao texto bacana de Jonathan Tropper – criador da série – que apresenta bem a história e os personagens principais durante os dois primeiros episódios burocráticos, que são dirigidos por Craig Gillespie e ditando um tom mais leve e que funciona no começo, mas à medida que a temporada avança, a tendência é que o senso de perigo vá aumentando e a direção dos outros diretores acompanhe isso, o que não ocorre e eles continuam na pegada de Gillespie. Então, quando acontece algo que resulte do iminente risco que Coop vem correndo, ainda soa como uma mudança muito abrupta para o tom que a série adota, mesmo que a tensão surja em determinadas sequências. Este é o maior problema, mas que não é difícil de ser consertado mais a frente. Enquanto o roteiro indica que os problemas são grandes, a direção faz parecer que eles não são tão grandes assim. É a história de mais um homem branco entrando no mundo do crime, mas ele não tem a motivação plausível de Walter White, de Breaking Bad, ou a urgência de Marty Byrde, de Ozark. O que Coop tem é o carisma e talento de Jon Hamm e é graças a ele que o personagem se sobressai. Os motivos pelo qual ele embarca nesta jornada são realmente fúteis – manter o padrão de luxo – e os white people problems dele e das outras figuras da comunidade abastada pouco vão além. Em determinado momento, Coop começa a se ver do outro lado da moeda, notando os gastos supérfluos e exacerbados dos seus vizinhos e que está tirando objetos caros de gente que realmente não precisa, mas o roteiro – que flui bem, como eu disse – não é afiado o suficiente para trazer a acidez que pretendia, como Succession fazia, por exemplo, de mostrar aquele mundo de dinheiro além da casca. Eventualmente, uma personagem joga na cara de Coop que as razões para ele fazer aquilo são superficiais, então a série tem plena consciência disso, é uma pena que não faça muita coisa sobre. Divulgação Hamm, de quem eu sou fã absoluto desde Mad Men, segura bem as pontas do protagonismo e é acompanhado por Amanda Peet, como Mel, sua ex-esposa, com quem divide a guarda dos dois filhos – chatos – adolescentes. Há assuntos mal resolvidos e é notório que o sentimento ainda existe, principalmente da parte dele. O que não impede que ele esteja em um caso com sua vizinha Sam, feita pela belíssima Olivia Munn, que está em um árduo processo de divórcio após descobrir uma traição do marido. Hamm consegue a proeza de ter química tanto com Munn quanto com Peet, e a produção investe neste possível triângulo, de uma forma até madura. Lena Hall é Ali, irmã de Coop que passa a morar com ele, já que ele não pode mais bancar um apartamento para ela. É bonito o cuidado que ele tem com ela e eu gosto como a série explora essa relação. Todavia, a moça tem uma subtrama pouco interessante que só serve para preencher tempo e ressaltar sua impulsividade. É um bom elenco e que há mais nomes envolvidos, também competentes, onde todos acompanham a mistura de comédia com drama do seriado. Ou seja, as falhas não são culpa deles. E como eu já expus tais falhas, pode até parecer que não gostei, o que não é o caso. A 1ª temporada tem nove episódios, dos quais o Apple TV+ nos disponibilizou sete para fazer a crítica. O ritmo é bom e eu realmente me diverti assistindo porque curto tramas assim. As falhas que eu citei são contornáveis e a série tem potencial para mais. Por enquanto, ela é uma série prazerosa sobre o privilégio de brancos e ricos, e quando um deles adentra no mundo do crime, com eventuais momentos de tensão. Não é o grande drama que eu esperava que fosse e nem vai revolucionar a televisão, mas é definitivamente muito assistível, mesmo que sem muita complexidade. Já está renovada para a 2ª temporada, a qual espero que atinja o seu real potencial e haja mais harmonia entre roteiro e direção. Nota: 3,5/5

  • Crítica | The White Lotus (3ª temporada)

    Mesmo em sua temporada mais fraca, a sátira antológica da HBO segue como uma das melhores produções televisivas da atualidade. Divulgação Desde que sua primeira temporada estreou em 2021, The White Lotus galgou sua caminhada rumo ao panteão de séries mais notáveis da televisão contemporânea – um feito notável, considerando a vasta oferta de séries advindas dos streamings e a falta de tempo e ânimo para se ver todas. Longe de ser “só” mais uma sátira contra os ultra ricos, a série criada e dirigida por Mike White conseguiu cativar o público e as premiações com sua mistura inteligente de comédia, drama, suspense e crítica social ácida, levando-nos pelo mundo conforme deixou de ser uma minissérie para se tornar uma antologia nas mãos da HBO. Dessa vez somos levados à Tailândia, onde um grupo de novos e velhos personagens nos aguarda. Dentre os recém-chegados estão a família Ratcliff – formada pelo patriarca Timothy (Jason Isaacs), sua esposa Victoria (Parker Posey) e os filhos Saxon (Patrick Schwarzenegger), Piper (Sarah Catherine Hook) e Lochlan (Sam Nivola); o trio de amigas Jaclyn (Michelle Monaghan), Kate (Leslie Bibb) e Laurie (Carrie Coon); o casal formado pelo misterioso Rick (Walton Goggins) e a jovem Chelsea (Aimee Lou Wood); e o segurança Gaitok (Tayme Thapthimthong) e seu interesse amoroso, Mook (Lalisa Manobal), representando o lado dos funcionários do hotel. Das outras temporadas retornam Belinda (Natasha Rotwell) e Greg/Gary (Jon Gries), que se convergem em decorrência da morte de Tanya (Jennifer Coolidge) na temporada anterior. Só pelo parágrafo anterior é possível perceber não só o quão ainda mais estelar é esse elenco em relação às temporadas anteriores, mas que há muito mais núcleos a serem trabalhados nesse novo ano. O número maior de episódios (oito) é um atestado disso, embora transcorram durante uma semana tal qual na primeira e segunda temporada. Com isso, pode se sentir uma ligeira sensação de fadiga por conta do ritmo lento destes episódios, embora para quem acompanhe a série desde o início, tal ritmo não seja nenhuma novidade. The White Lotus sempre foi uma série de queima lenta, interessada em analisar a psique dos personagens; se no primeiro ano isso era feito através do conflito de classes e no segundo através do sexo, aqui é feito por intermédio da religião, conforme vemos personagens como Piper ou Frank (Sam Rockwell), amigo de Rick, usando e abusando do seu privilégio branco para se apropriar dos conceitos basilares do budismo. Tudo isso é feito através de simbolismos inteligentíssimos por parte de White, que abrem espaço para diferentes interpretações a respeito das motivações e destinos destes personagens. No entanto, é notório que com um maior número de núcleos em tela, nem todos recebem o mesmo tratamento e refinamento, gerando assim uma temporada nitidamente mais desequilibrada que as anteriores. De longe, o arco mais completo e bem-resolvido é o das três amigas, com Monaghan, Bibb e (sobretudo) Coon transmitindo com exatidão as nuances e tensões que podem haver na amizade de três mulheres adultas que se conhecem bem demais. A dinâmica de Rick e Chelsea, se no início parece tóxica devida à diferença de idade dos dois, logo se mostra a mais genuína, mesmo quando os dois passam quase metade da temporada afastados devido às motivações de vingança de Rick que o levam até Bangkok. Divulgação Por outro lado, os Ratcliff talvez sejam a epítome das irregularidades que acometem a temporada: de um lado a Victoria de Parker Posey já se converteu numa das personagens mais icônicas da série e o Saxon de Patrick Schwarzenegger é uma das figuras mais interessantes e nuançadas, mesmo quando ele está em seu estado mais desprezível de “macho alfa”. Por outro, é decepcionante ver um ator do porte como Jason Isaacs ser subutilizado, com suas cenas sendo tão semelhantes entre si (ele preocupado; ele com a arma; ele cogitando matar a família por causa de suas perdas financeiras) que em determinado momento pensei ver a mesma cena de ângulos diferentes. E, se nas temporadas passadas os núcleos de funcionários sempre nos engajavam, o mesmo não pode ser dito aqui: Tayme Thapthimthong tem em mãos um personagem apático e desinteressante – embora tenha um final poético e cínico condizente com o tom da série –, e Lalisa, bom... parece que a única justificativa razoável para sua escalação é sua fama como integrante do grupo de k-pop Blackpink, pois sua personagem é de longe a mais inútil da série inteira. Quanto ao núcleo de Belinda e Greg, embora funcionem em grande parte separados, há aqui uma ideia cíclica que, se não é exatamente bem desenvolvida no decorrer da temporada, ganha um desfecho surpreendente e mordaz, que ilustra a crítica da série ao capitalismo no seu modo mais ganancioso. A despeito das fragilidades que possui, a terceira temporada de The White Lotus não tira o mérito conquistado pela série até aqui, mantendo seu alto nível. Ainda é capaz de nos arrancar boas risadas (não vamos esquecer o monólogo de Frank no quinto episódio ou o sotaque da Carolina do Norte de Victoria tão cedo) e também de nos emocionar e angustiar à medida que o cerco se fecha com as inevitáveis mortes que devem acontecer a cada temporada. Contanto que aprenda a não pecar pelo excesso e não caia num ciclo vicioso quanto ao que pretende satirizar, espero ver muitas temporadas de ricos desmiolados e suas mortes trágicas nesses resorts paradisíacos ao redor do mundo. Nota: 4/5

  • Entrevista | Vera Egito fala sobre “A Batalha da Rua Maria Antônia”

    A diretora conversou com o Oxente Pipoca a respeito da produção do filme e como ele dialoga com o atual clima político do Brasil. Divulgação Lançado no dia 27 de março nos cinemas brasileiros, o longa A Batalha da Rua Maria Antônia narra, através de 21 planos-sequência, o episódio homônimo, em outubro de 1968, nos colocando ao lado dos estudantes e professores do movimento estudantil de esquerda, na Faculdade de Filosofia da USP. Eles enfrentam os ataques do Comando de Caça aos Comunistas vindos do outro lado da rua, onde fica a Universidade Mackenzie. Quando o confronto explode, gritos, molotovs, pedras, paus e bombas caseiras são atiradas. Vinte e quatro horas vividas com a paixão da juventude dos anos 1960, em defesa de um ideal, na iminência da invasão dos militares ao prédio da USP. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar a diretora do filme, Vera Egito. Ela falou a respeito da escolha pelos planos-sequência para a narrativa, a ênfase nos dramas pessoais dos personagens, a maneira como ele ressoa no atual momento de polarização política do país e muito mais. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Pois bem, Vera. Eu queria começar agradecendo em nome do Oxente Pipoca pela disponibilidade para a entrevista. A primeira pergunta que eu queria fazer é: como a história da Batalha da Rua Maria Antônia chegou até você? Confesso que não a conhecia antes de ouvir falar sobre o filme e fiquei chocado com a maneira como a Mackenzie estava diretamente envolvida com os aspectos mais depressivos da ditadura. O que você pretendia ao trazer luz à essa história, retratá-la no filme? Vera Egito: Bom, obrigada pelo convite, pela conversa. Eu não me lembro de ter ouvido essa história antes de ter estudado na USP, fiz cinema lá na ECA (Escola de Comunicações e Artes), entrei em 2003. E lá essa é uma história viva, os professores comentam. Apesar da minha família ser politizada e falar sobre ditadura, eu não me lembro de ter ouvido falar desse evento especificamente antes de ter sido uma estudante da USP. Acho que, por ter envolvido estudantes da universidade, é um evento que é meio emblemático dentro dela. E aí eu comecei a ler sobre a história, ler livros que existem sobre o evento, alguns editados pela própria USP, e aí fui me interessando em escrever uma ficção que se inspirasse nesse dia da batalha, porque vi ali um retrato muito interessante da política brasileira, esses dois polos opostos, um de frente para o outro, existia uma oposição ali geográfica, uma oposição política, uma oposição ideológica. A história já trazia tudo isso que é o que a gente precisa, e para construir dramaturgia, a gente precisa de conflito, porque o conflito é que traz a transformação, a superação dos personagens. Então, foi uma história que me chamou a atenção tanto do ponto de vista político quanto como uma fonte de dramaturgia. Isso foi lá em 2009, e o tratamento do filme é de 2010. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A gente tá vivenciando um momento em que o plano-sequência está em alta no audiovisual, principalmente por conta da série "Adolescência", da Netflix, e tem também a série "O Estúdio", da AppleTV. No seu caso, quais foram as motivações para adotar esse recurso para a construção do filme? E quais foram os principais desafios de se filmar nesse formato? Vera Egito: A ideia dos planos-sequência veio da vontade de levar o espectador para dentro da escola, para você ter essa sensação de estar lá, de ser um dos alunos e viver aquela experiência em tempo real junto com os personagens. Lá pelo meio do processo, assim que eu que eu tive essa ideia [do plano-sequência], comecei a reescrever o filme pensando nisso, em cenas que tivessem continuidade Então veio dessa vontade de construir uma narrativa visual onde você se sentisse presente. E a câmera na mão também veio disso, de você ter a sensação de ser o seu olhar ali. Eu acho que a todo momento a sensação era de “como é que eu vou fazer isso?”. Uma proposta ousada para um filme de baixo orçamento, que não tinha condição de ensaiar muito, de fazer muitos testes. Mas o que a gente fez foi se planejar muito, ler muitas vezes o roteiro, ir muitas vezes na locação. Depois a gente teve dois dias com um elenco de ensaio para percorrer todos aqueles espaços, mas é muita coisa para concatenar: lente, fotografia, foco, som, a luz que vai mudando. Tudo isso é um grande desafio, você fazer uma sequência que é dentro e fora, que sobe e desce a escada com a câmera na mão, era tudo muito complexo. A todo momento a gente se perguntava se daria certo, e quando a gente assistia no vídeo que o negócio dava certo parecia que era gol no Brasil na Copa. Porque estava todo mundo muito tenso, a qualquer momento alguém podia errar, alguma coisa poderia cair, enfim. Mas a gente ensaiava tanto também que quando ia rodar já estava tudo muito consolidado. Ensaiamos quatro, cinco, seis horas seguidas, então os imprevistos iam acontecendo no ensaio. Na hora de rodar tudo dava certo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme me parece apostar mais num sentimento de coletividade, a gente vê alguns personagens com mais protagonismo, mas a narrativa não se prende a um só. Em que medida foi importante trabalhar os dramas pessoais desses personagens em meio à escalada da tensão do conflito abordado? Vera Egito: Para mim era muito importante que essa dimensão humana fosse presente, que não fossem personagens que estão ali só como heróis ou como totens. Porque para mim era muito importante que o elenco fosse jovem, fosse realmente de estudantes. Então, todo o elenco estava na faculdade naquele momento, estudava teatro. Era muito importante para mim essa veracidade, que todo mundo tivesse essa vivência. E a vivência no movimento estudantil é um momento de descobertas, de transformação, de grandes paixões, de grandes decepções. E eu acho que não mostrar isso seria não mostrar uma parte bonita do movimento e da juventude. Então, a minha ideia é que fosse um retrato da juventude de uma forma mais ampla, que não fosse só do âmbito político. E por isso também eu escolhi personagens fictícios, porque se eu fosse me ater a biografia, eu teria obviamente que ser fiel às biografias e o que as pessoas viveram ou aceitam que se fale que viveram. E não era minha intenção, eu queria poder construir os dramas pessoais ali com liberdade, por isso os personagens fictícios. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Uma das cenas mais distintas e interessantes do filme é a de sexo das personagens da Pamela Germano e da Juliana Gerais, que na minha concepção até foge estilisticamente à maneira como o filme vinha se apresentando. Diria até que há algo de surrealista ou onírico nessa cena, e queria saber: foi intencional? Porque achei uma das cenas de sexo mais bem-filmadas que vi nos últimos tempos. Vera Egito: Ah, obrigada! Que legal. Sim, essa cena ela é uma pausa mesmo ali na tensão, apesar dela ser a explosão de uma outra tensão, que é a tensão da trajetória da personagem Lilian (Pamela Germano), que tem um conflito interno ali, que ainda não sabe lidar muito bem com os desejos dela, que são desejos não normativos. Não era uma coisa simples de lidar, então quando consegue viver isso ela realmente se liberta daquela realidade. E então para mim era importante que a cena fosse mais subjetiva, mais sobre a sensação do que sobre o olhar externo sobre aquela situação, porque essa inspiração no cinema direto, no cinema verdade, vem desse olhar objetivo sobre a situação. Eu acho que ali era o contrário, precisava ser um olhar subjetivo. Ela [a cena] sai do conceito não na técnica, ela sai nessa intenção de produzir uma imagem que represente o sentimento das personagens. E eu tenho tido retornos muito, muito bonitos de mulheres que se relacionam com mulheres, dizendo que se sentiram muito representadas por isso, por ver essa fusão. As duas se fundem naquela imagem, ela se torna uma coisa só, uma coisa misturada e que isso é a sensação desse encontro sexual e amoroso, naquela urgência do momento. E acho que dá para prever que aquelas pessoas não vão conseguir se formar, não vão conseguir namorar, não vão conseguir fazer nada do que um jovem faria porque vai ser tudo interrompido pela opressão. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu estou estudando na Unicamp e recentemente presenciei todo um embate entre estudantes que estavam protestando em favor da inclusão de cotas trans e membros do MBL que foram lá no campus pra causar a típica balbúrdia deles. Isso aconteceu inclusive no dia em que eu vi o filme e isso ficou muito na minha cabeça. Como você acha que eventos como esses (que não são isolados) dialogam com o que o filme propõe retratar a respeito desse episódio? Vera Egito: Eu acho que nos últimos anos a gente compreendeu muito mais o que que aconteceu durante os anos de ditadura. Especialmente nesse momento pré-ditadura, porque de 1964 a 1968, ainda existia talvez uma ideia de institucionalidade, de que talvez eleições fossem convocadas, de que era um período de exceção, tinha muita coisa rolando ali nesses primeiros 4 anos. Aí vem o AI-5, que acontece 2 meses depois da batalha, o golpe dentro do golpe, e aí realmente a gente entra num período de exceção total. E eu acho que a gente que nasceu nos anos 1980 e 1990 não entendia direito o que que era essa sensação de ameaça de direitos, porque a gente tinha uma ideia de que se estamos em uma democracia, não tem como mudar mais isso. E eu acho que nos últimos anos a gente entendeu, inclusive com esses movimentos – bolsonaristas, MBL –, que esses CCC [Comando de Caça aos Comunistas] continuaram vivos. Talvez tenham ficado um pouco mais discretos durante umas décadas, mas eles continuaram a agir. E agora eles botam a cara na rua para ameaçar os direitos, a democracia, o debate social. Eu acho que o que a gente vê no evento da Maria Antônia, e o que a gente vê hoje nesse evento real que você me descreveu, é uma negativa e uma intransigência que não se presta ao diálogo. De um lado você tinha pautas conectadas ao ensino e do outro pautas de morte, de perseguição e de ódio. Isso não mudou no Brasil, eu acho que esse cabo de guerra segue muito vivo. Eu acho que isso faz com que o filme seja até mais importante para a gente olhar para o presente e não tanto para o passado. Quem assistiu ao filme, pense: “Quem é o CCC de hoje? Quem é a resistência de hoje?”. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, quais obras nacionais você gostaria de indicar aos seguidores do Oxente Pipoca? Sejam seus filmes brasileiros favoritos ou longas e séries que você acha que devem ser assistidos. Vera Egito: Esse ano eu assisti Baby, do Marcelo Caetano, eu achei um filme muito bonito, que retrata uma São Paulo de uma maneira que não é comum. Ele consegue ser muito realista, mas também muito poético, sabe? Eu acho que é um universo muito duro o que ele retrata, mas. ao mesmo tempo. quando você assiste ao filme você se envolve, porque existe delicadeza ali, existe humanidade na maneira como ele vê os personagens. E acho que voltando para os anos 1960, tem um filme que para mim é uma grande referência sempre na linguagem cinematográfica, que é o Bang Bang, do [Andrea] Tonacci. O protagonista é o [Paulo César] Pereio, e esse filme tem uma proposta de linguagem muito única, muito apaixonante, ele tem humor, tem transgressão visual. Ele tem uma lenda inclusive: quando as exibições eram em película, os filmes eram levados para o cinema em latas, cada uma contendo cerca de 15 minutos, e elas eram numeradas, então o projecionista tinha de ir trocando as latas durante a exibição de acordo com a ordem. Só que as de Bang Bang não eram numeradas, então se você assistisse ele diferentes vezes no cinema ia ver uma ordem diferente das sequências, porque as latas não eram numeradas. E eu sempre achei isso fascinante, essa possibilidade do filme te envolver com diferentes sentidos a depender da ordem na qual suas sequências eram exibidas.

  • Entrevista | Jottapê fala sobre trabalho como dublador em "Sneaks: De Pisante Novo"

    Ator e cantor falou com Oxente Pipoca sobre experiência de participar da equipe de dublagem da história infantil. Divulgação Sneaks: De Pisante Novo é um filme animado estadunidense que chega aos cinemas brasileiros em 17 de abril. Com participação de Rayssa Leal na dublagem, a produção conta ainda com as vozes de Jottapê e Christian Malheiros, atores da série Sintonia, da Netflix. O longa acompanha a história de Téo (Jottapê) e Beca, dois tênis que vivem uma jornada repleta de emoção e descobertas. Enquanto Téo prefere a segurança e o conforto de sua caixa de sapatos forrada de veludo, Beca sonha em viver a vida fora da caixa e explorar o mundo. A aventura deles começa quando são inicialmente conquistados em um sorteio por Edson, um jovem prodígio do basquete, mas tudo muda quando os tênis são roubados do garoto por um colecionador de tênis que planeja desmontá-los para fazer falsificações baratas. Durante uma ousada fuga, Téo se vê separado de Beca, dando início a uma busca emocionante pelas ruas de Nova York, com a ajuda de Beto (Christian Malheiros), um tênis estiloso e apaixonado por tudo o que brilha. Sneaks: De Pisante Novo tem direção de Rob Edwards e Chris Jenkins, com roteiro de Edwards. O elenco original conta com Anthony Mackie, Laurence Fishburne, Keith David e Chloe Bailey. Na press day do filme, o Oxente Pipoca conversou com o ator e cantor Jottapê, que dá voz ao personagem principal da animação. Jottapê falou da sua experiência com dublagem e sua relação com o filme. Confira a entrevista na íntegra abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Antes de mais nada, eu queria começar falando com você sobre a sua experiência: você tem uma trajetória tanto na atuação quanto na música. Como foi, para você, receber esse convite e participar desse filme? Jottapê: Cara, eu gostei muito de receber esse convite, especialmente depois que me mostraram o roteiro. Eu sou um grande fã de tênis, gosto muito mesmo. Já tinha tido algumas experiências com dublagem quando era mais novo, mas foram coisas bem esporádicas. Agora, dublar o protagonista de uma animação foi a primeira vez — e foi uma experiência muito legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Imagino que deve ter sido uma experiência diferente, né? Ainda mais por ser o protagonista. Você se preparou de alguma forma específica? Teve algo que chamou a atenção ou que foi diferente nesse processo? Jottapê: Então, eu confesso que no início, quando vi que ia ter que dublar um tênis, eu fiquei um pouco confuso, né? Eu falei: 'Como que eu vou fazer a voz de um tênis?' Mas depois eu pensei, tipo assim, acho que até é um pouco mais fácil, porque como não existe uma referência, eu posso criar. Aí eu tentei trazer a minha própria voz, claro, essa coisa mais rouca, que foi o que eles curtiram, né? Eles acharam que já tinha uma identificação do personagem com a minha voz. Mas ali eu também trouxe algumas coisinhas, tipo uma linguagem mais infantil às vezes, puxando pro mais agudo naqueles momentos que o personagem grita e tudo mais. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E tem uma coisa muito legal: você é pai, né? Tem dois filhos. Eu imagino que, pra você, o sentimento também deve ser diferente agora, ao gravar um filme infantil e saber que, no futuro, seus filhos vão assistir. Como foi, pra você, essa experiência de saber que, em algum momento, eles vão estar ouvindo a sua voz como um tênis? Jottapê: Claro! Na pré-estreia, provavelmente eu vou levar a minha filha, a Atena, que é a maiorzinha, né? Porque o outro ainda é muito bebezinho pra levar no cinema. Mas a intenção foi justamente essa. Eu tentava imaginar as crianças assistindo, sabe? Então, tentei trazer uma linguagem que elas pudessem entender assistindo ao filme — principalmente a mensagem que ele passa. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A mensagem do filme é muito bacana, né? Principalmente nessa questão da aceitação e, ao mesmo tempo, de introduzir um pouco da cultura dos sneakers, da cultura do hip-hop — eu achei isso muito legal. Queria saber se você também faz parte dessa cultura, se é um fã desse universo. E já teve alguma coisa, tipo o Téo, que você não queria tirar do armário de jeito nenhum, queria guardar com carinho? Jottapê: Olha, na verdade, que nem eu comentei, eu gosto muito de tênis também, mas vamos dizer que eu sou um sneakerhead um pouco diferente — eu gosto de comprar e usar, né? Tipo assim, nossa, sempre que eu mexo tem aquele tênis, mas eu uso mesmo. Eu sempre falo: tem amigos meus que gostam muito de carro, aí eles compram o carro dos sonhos e falam: 'Não, não posso andar muito, senão vai aumentar o KM e depois não vou conseguir vender.' Aí eu falo: 'Você acabou de conquistar o seu sonho e já tá pensando em vender?' Então eu sou mais de usufruir mesmo, sabe? E eu sempre comento que o personagem do Téo faz o inverso da minha vida, né? Eu vim da periferia e conquistei, entrei nesse universo, nessa outra realidade. E ele tá fazendo o caminho contrário. Gabriella (Oxente Pipoca): Como foi para você trabalhar novamente com o Christian, agora em uma vibe totalmente diferente? Vocês já tinham atuado juntos em uma série mais puxada para o drama, e agora estão dublando dois personagens em um filme infantil, que também constroem uma relação de amizade bem bonita. Vocês chegaram a conversar sobre essa mudança, trocaram ideias sobre essa nova experiência? Jottapê: É, então, na verdade foi tudo bem corrido. Diferente de Sintonia, que a gente se via durante três meses, que é o tempo de uma temporada, praticamente todos os dias gravando, nesse a gente não gravou juntos, né? Eu gravei num dia, ele gravou no outro, então a gente acabou não se encontrando e nem conseguiu falar sobre ainda. A gente vai se ver na pré-estreia e vai assistir junto, então foi bem diferente. Ah, mas ficou muito legal. Gabriella (Oxente Pipoca): Ficou muito bacana, que bom! Eu amei. E outra coisa que eu queria saber: você teve uma virada recentemente na sua carreira, né? Chegou a comentar que vai dar uma pausa nos filmes e tudo mais. Como esse trabalho está significando para você nesse momento da sua trajetória artística? É uma nova virada, com outros caminhos surgindo. Você pretende conciliar a carreira de atuação com outros projetos? E tem vontade de seguir também na dublagem? Jottapê: Cara, dublagem é algo que eu gostei muito de participar. Nós estamos fazendo esse filme, então provavelmente vai ser mais uma coisa aí nesse leque artístico que eu vou buscar também. A atuação é algo que sempre vai me acompanhar, né? Essa virada de chave que você comentou é mais específica até da parte do funk, porque era uma realidade que eu mesmo vivia, né? Não é um personagem como o Doni. Então eu pretendo continuar, sim, com as atuações, com as dublagens. Agora, musicalmente, a gente vai reformular muita coisa. Gabriella (Oxente, Pipoca): Pra fechar, aqui no Oxente Pipoca a gente sempre faz essa pergunta pra quem conversa com a gente: qual a sua dica de filme brasileiro? Pode ser o seu favorito, algum que você assistiu recentemente e queira recomendar pro público… Aquele que você pensa: 'não, esse aqui o pessoal precisa assistir’. Jottapê: Entendi. Eu vou indicar dois, pode ser? Gabriella (Oxente Pipoca): Pode, claro! Quanto mais, melhor! Jottapê: O primeiro que eu vou indicar é um filme antigo já, mas é O Menino da Porteira, que foi o primeiro filme em que eu fui protagonista. Eu adoro esse filme. E o segundo, um filme nacional que eu vou indicar, é um com o Christian Malheiros — ele faz um dos protagonistas também — que é Sete Prisioneiros. Na minha opinião, é um dos melhores filmes nacionais, muito bom mesmo. Gabriella (Oxente Pipoca): E agora, pra encerrar de fato mesmo, eu queria saber uma coisa: se os seus temas favoritos — aqueles que você mais gosta de explorar na arte — pudessem falar, o que você acha que eles diriam sobre você? Jottapê: Olha…que eles já pisaram em lugares muito inusitados. (Risos)

  • Crítica | Prédio Vazio

    Sem esquecer seu gênero, filme toca comentário social com inventividade e exagero. Divulgação A jovem Luna (Lorena Corrêa) parte em uma jornada em busca de sua mãe, desaparecida no último dia de Carnaval em Guarapari. Suas buscas a levam a um antigo edifício aparentemente vazio, mas habitado por almas atormentadas. Vou começar chovendo no molhado, mas acho que todo longa-metragem de gêneros pouco explorados no cenário nacional merecem seus louros apenas por estarem sendo feitos, sim. E trazer o terror para o cenário brasileiro de cartão-postal praiano é para mim o ponto mais positivo do filme. O idílico litoral em dias de Carnaval é um dos cenários onde pouco se espera que vá se desdobrar um terros sobrenatural carregado de recursos visuais. Lembro que no filme Os Descendentes (2011), de Alexander Payne, o personagem de George Clooney fala algo sobre os amigos do continente que acham que ele mora no paraíso, em férias permanentes, e vive bebendo drinks e balançando os quadris apenas por morar no Havaí. E Prédio Vazio joga um pouco também com essa premissa. Somado a isso tem o comentário social sobre a cidade fantasma pós-festa da carne, como se Guarapari só existisse plenamente dos dias de festa, e no restante do ano virasse um ponto de memória para os turistas e para os próprios habitantes. E é nesse contexto que o filme se apresenta e apresenta o espaço onde toda a trama se desenvolverá, numa relação de amor e raiva sobre o ambiente prédio e sobre a cidade. O texto também aborda a importância do protagonismo feminino, enquanto filme e enquanto metáfora social. Divulgação Rodrigo Aragão não esquece um segundo sequer de que está filmando um terror, e usa de todo seu repertório de referências para criar situações horripilantes das mais criativas possíveis. Sem economizar nas cores, texturas, sangue, e na trilha sonora sempre atenta, o cineasta consegue também inserir o humor irônico sempre que possível. É sem dúvidas um trabalho pulsante, no entanto o excesso de ideias e subtemas que se desdobram em pouco tempo faz o resultado carecer de uma unidade, muitas vezes visual, mas sobretudo narrativa. A mistura de tons também fica perceptível nas atuações conflitantes dos atores que, assim como seus personagens, parecem tentar entender onde tudo aquilo vai desaguar. Destaque, porém, para a interpretação brilhante de Gilda Nomacce que é responsável pela maioria dos melhores momentos do longa. Como falei no início, apenas a garra de dar as caras e ousar entregar um filme com estética forte, mesmo que não perfeita, e seguro de seu gênero, carregando uma ânsia de se realizar maior do que qualquer limitação, já valida a sua existência. Mesmo assim, cortes mais precisos, uma montagem mais fluida e uma sincronicidade mais amarrada na direção de elenco potencializaria ainda mais o que foi feito com feitio natural de grandeza. Nota: 2,5/5

  • Lista | 14 anos de "Game of Thrones" e os 14 melhores episódios da série

    Com 159 indicações ao Emmy e vencendo 59 delas, o fenômeno mundial tem algumas das melhores horas da história da televisão. Divulgação Baseada na saga de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, a série adaptada por D. B. Weiss e David Benioff estreou no dia 17 de abril de 2017 na HBO, há exatos 14 anos. Cercada de expectativas, chegou com uma audiência moderada tendo em vista o fenômeno que viria a se tornar com o decorrer das temporadas. A mistura entre intrigas políticas, personagens complexos, jogos de poder e uma fantasia que envolvia até dragões conquistou o mundo e nos mostrou que a televisão também era capaz de fazer grandes batalhas que em nada ficavam devendo ao cinema. Nas temporadas finais, especialmente as duas últimas, a série desandou, mas em toda sua caminhada ao longo de oito temporadas, foi capaz de nos brindar com alguns episódios eletrizantes, emocionantes e marcantes, por isso resolvi elencar os 14 melhores em homenagem ao aniversário da estreia, ciente que faltaram tantos outros incríveis por aqui. Divulgação 14) “A Knight of the Seven Kingdoms” (Temporada 8, Episódio 2) Em uma última temporada cheia de batalhas e grandes eventos – o que não quer dizer que eles tenham sido bons –, é o episódio mais calmo que melhor captura a essência do fim. A noite anterior à tão aguardada batalha contra o Rei da Noite e seu exército de caminhantes brancos é marcada pela emoção, onde sentimos personagens que passamos anos conhecendo e se apegando estavam prontos para se sacrificarem. Não lembro de outra hora de GOT que fosse tão comovente assim, sem que houvesse uma morte de alguém envolvida. Aqui há o peso dela nos arredores de Winterfell e das incertezas de um futuro muito próximo. A cena em que Jaime (Nikolaj Coster Waldau) faz de Brienne (Gwendoline Christie) um cavaleiro é a cereja do bolo. Divulgação 13) “The Mountain and the Viper” (Temporada 4, Episódio 8) Quando Daenerys (Emilia Clarke) descobre a traição de Jorah (Iain Glen), a moça sofre um grande baque. É uma relação bonita e bem construída que nunca mais será a mesma e o fato dela o banir, só mostra sua força. Além disso, a maior marca do episódio é a luta entre Oberyn (Pedro Pascal) contra o Montanha (Hafbór Júlíus Björnsson). Quando tudo parecia bem, nos últimos segundos do discurso da Víbora, Game of Thrones mostra que o bem nunca vence facilmente e Gregor Clegane esmaga a cabeça de Oberyn de uma forma brutal. É mais um personagem querido que se vai de uma forma chocante e neste caso, foi vencido também pela própria arrogância. Divulgação 12) “The Children” (Temporada 4, Episódio 10) O excelente final da 4ª temporada atinge o clímax em diversos núcleos, como Tyrion (Peter Dinklage) sendo libertado pelo seu irmão Jaime e logo depois descobrindo o caso de Shae (Sibel Kekilli) e Tywin (Charles Dance), matando os dois com toda a força de seu ódio. A cena de Tywin no sanitário é genial. Além disso, ainda temos uma luta visceral entre Brienne e o Cão (Rory McCann) e a misericórdia de Arya (Maisie Williams) em escolher não o finalizar. O episódio ainda emociona com Dany acorrentando seus filhos dragões em uma bela sequência. Fantástico. Divulgação 11) “And Now His Watch Has Ended” (Temporada 3, Episódio 4) Muito acontece aqui, como Theon (Alfie Allen) sendo enganado por Ramsey (Iawn Rheon), mostrando o potencial de um dos maiores vilões da série, Margaery (Natalie Dormer) começando a manipular Joffrey (Jack Gleeson) e ainda temos a morte do Lorde Comandante Mormot (James Cosmo). No entanto, a cena que é uma das melhores da televisão é quando Daenerys solta o seu primeiro Dracarys fatal, matando os mestres dos escravos em Astapor e libertando – e ganhando – o exército de 8 mil Imaculados. Inesquecível. Divulgação 10) “The Laws of the Gods and Men” (Temporada 4, Episódio 6) Depois de ser acusado injustamente de matar Joffrey – principalmente por Cersei (Lena Headey) –, Tyrion ainda é levado ao tribunal, o que rende sua melhor cena na série. O anão cresceu e fez um discurso avassalador onde desabafou todo o ódio e mágoa que carregava de anos de humilhação, propondo um julgamento por combate, o que nos rende a luta entre Oberyn e o Montanha. O episódio ressalta a força do, até então, melhor personagem da série e com uma performance irretocável de Peter Dinklage. Tudo mudaria para Tyrion a partir de então. Divulgação 9) “Mother’s Mercy” (Temporada 5, Episódio 10) Uma palavra para vocês: SHAME! Assistir Cersei pagando pelas várias atrocidades que cometeu até então é um misto de sentimentos e uma das cenas mais emblemáticas de qualquer série. É difícil não sentir pena, como também não dá para dizer que ela não merecia e é essa complexidade humana que fazia GOT se sobressair além do espetáculo visual. A Caminhada da Vergonha é a maior humilhação que alguém pode passar naquele universo e Lena Headey faz um trabalho irretocável na sequência que mostra a personagem com tanta vulnerabilidade. O episódio ainda termina com um baita gancho: a morte de Jon Snow (Kit Harrington) – e vamos combinar que assim devia ter permanecido. Divulgação 8) “Blackwater” (Temporada 2, Episódio 9) Das primeiras temporadas, a 2ª é a que menos gosto. Dito isto, este episódio é um marco. A grande primeira batalha mostrando o enorme poder do fogovivo e Tyrion assumindo uma liderança que nem ele queria, atingindo um enorme potencial. Cersei é uma das melhores personagens da série e quando ela está a ponto de matar os filhos envenenados para que não tenham uma morte dolorosa, só comprova o alto grau de nuance dela. Ah sim, Joffrey mostra o quão incompetente é, o que não é novidade para ninguém, rs. Um espetáculo visual, mas guiado pelo drama. Excelente episódio. Divulgação 7) “The Lion and the Rose” (Temporada 4, Episódio 2) O chamado Casamento Púrpura é a união das Casas Lannister e Tyrell através de Joffrey e Margaery e claro, marca pela morte lenta e dolorosa de Joffrey, a pior pessoa da série, até então. Em uma jogada genial de Olenna (Diana Rigg), que não queria deixar sua neta casar-se com um sádico, Cersei tem sua primeira grande perda e vê seu primogênito – e favorito – morrer em seus braços e nos do pai/tio Jaime. É um momento de catarse absoluta e impagável. Divulgação 6) “The Door” (Temporada 6, Episódio 5) Na primeira temporada em que a série não tinha mais os livros para seguir, David Benioff e D. B. Weiss fizeram um trabalho relativamente bom, mas sem dúvidas com alguns dos melhores episódios e este é um exemplo. Não sei ao certo se George R. R. Martin contou a eles – imagino que sim –, mas o ‘Hold the Door = Hodor” é uma revelação genial, assim como a montagem intercalando presente e futuro através dos poderes de Bran (Isaac Hempstead-Wright) – que finalmente serviram para algo – fez valer a chatice do personagem (não que o fizesse merecedor do trono, vale dizer). É um episódio emocionante e não serve somente em função da reviravolta. Divulgação 5) “Baelor” (Temporada 1, Episódio 9) Em seu excelente ano de estreia, GOT conquistou os fãs com suas intrigas políticas e doses de fantasia e como bem disse Cersei em um episódio, “no jogo dos tronos, ou você ganha ou você morre”. No entanto, ninguém esperava que a primeira vítima fosse o aparente protagonista da produção: Ned Stark (Sean Bean). Há uma enorme quebra de expectativa e mostra o alto nível de ousadia do que estávamos assistindo. Ninguém esperava e é de partir o coração ver uma Arya ainda criança olhar seu pai ser morto escondida em meio a multidão de King’s Landing, enquanto Sansa (Sophie Turner) grita desesperada do lado de Ned. Mudou para sempre o rumo da série. Divulgação 4) “Hardhome” (Temporada 5, Episódio 8) A 5ª temporada não é nem de longe minha favorita e este episódio chegou sem que eu esperasse por ele. Não li os livros e sempre evitei spoilers do que viria a seguir, então como a Batalha de Durolar nos deu tudo que o inverno prometeu quando chegasse (porque se dependesse de “The Long Night”...), eu não poderia estar mais fascinado. Jon lutando contra o Rei da Noite, tudo escalonando rapidamente em cenários gélidos e gigantes e um sentimento de derrota tomando conta. A cena final grita desesperança em um episódio brilhantemente dirigido Miguel Sapochnik, atingindo a perfeição. Divulgação 3) “The Winds of Winter” (Temporada 6, Episódio 10) O apoteótico final da 6ª temporada, que para muitos poderia ser o final definitivo. Cersei explode o Grande Septo de Baelor em uma jogada de mestre da Rainha, derrotando inimigos como Margaery (RIP), o Alto Pardal (Jonathan Pryce) e levando uma parte da população de King’s Landing junto, embora isso tenha lhe custado mais um filho, pois Tommen (Dean-Charles Chapman) se suicida. A confirmação de que Jon Snow era de fato um Targaryen é fantástica é muito bem amarrada e Daenerys finalmente embarcando para o Norte dava a sensação que a série caminhava muito bem para o final. Estávamos enganados, mas aqui valeu muito a pena. Divulgação 2) “Battle of the Bastards” (Temporada 6, Episódio 9) A famosa Batalha dos Bastardos talvez seja o porquê Jon Snow ressuscitou. Não para a série, mas pelo menos para mim. Grandiosa em escala e um espetáculo visual que não deixa o arco dramático de lado. Na árdua luta contra o enorme exército de Ramsey, acontecem uma sucessão de perdas, mas quando Sansa aparece para salvar o dia é impossível não vibrar. Não dá tempo nem de respirar com o ritmo frenético. Mas finalmente o bem triunfa e testemunhar Sansa assistir a morte de seu estuprador é para encerrar uma das horas mais catárticas da TV mundial. Divulgação 1) “The Rains of Castamere” (Temporada 3, Episódio 9) Outro dos melhores episódios da história da televisão, esse aqui de pega pela dor e uma das cenas mais chocantes de qualquer produção audiovisual. Ninguém esperava (quem leu os livros sabia, mas estamos falando da série). O Casamento Vermelho chegou e foi cruel, sangrento e revoltante. Walder Frey (David Bradley) arma com os Lannisters e consegue eliminar Catelyn (Michelle Fairley), Robb (Richard Madden) e sua noiva grávida. É simplesmente brutal. O episódio é todo construído para a gente achar que daria tudo certo, mas o sentimento de “isso tá fácil demais” já incomodava e não faz parte de GOT. Tudo culmina aqui e é o resultado dos jogos políticos e dolorosos que fizeram a série ser o fenômeno mundial que ela se tornou. Um marco.

  • Crítica | Cidade dos Sonhos (2001)

    Um filme que já nasceu clássico pelo olhar e pela ideia de ousar sonhar de um gênio. Divulgação Nesta quinta-feira, 17, Cidade dos Sonhos retornou aos cinemas remasterizado e em 4K. Lançado originalmente em 2001, o longa se tornou um dos mais emblemáticos da carreira de David Lynch, e lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor direção. Lynch, que faleceu no início deste ano, provavelmente tinha ideia de que Cidade dos Sonhos é mais do que apenas mais um filme na sua carreira. Ele é considerado por muitos um dos melhores longas de todo o século 21, talvez um dos melhores de toda a história do cinema. Parece muito hype para quem não viu? Talvez. Mas a genialidade da trama que saiu da mente de Lynch junto de uma estética tão única e característica torna Cidade dos Sonhos quase um fascínio místico. Originalmente filmado em 1999 como um piloto para a TV, Cidade dos Sonhos foi rejeitado. No ano seguinte, David Lynch recebeu dinheiro para filmar novas cenas e transformar o projeto em um filme para os cinemas. Ele o fez — e criou um dos filmes mais grandiosos, bizarros e perturbadores já feitos. À primeira vista, o longa parece alinhar-se a uma estrutura relativamente tradicional: a jovem Betty (Naomi Watts), cheia de sonhos hollywoodianos, chega a Los Angeles para tentar a sorte como atriz. Logo se envolve com a misteriosa Rita (Laura Harring), que sofre de amnésia após um acidente de carro na estrada Mulholland Drive. O que se apresenta como um thriller gradualmente se desfaz em uma espiral onírica de imagens desconexas, simbolismos densos e identidades fragmentadas. Dissolvendo as fronteiras entre sonho, realidade, identidade e narrativa com uma precisão inquietante, Cidade dos Sonhos é um filme sobre Hollywood e a indústria cinematográfica, mas não só o espaço físico Hollywood como, principalmente, a ideia de Hollywood no imaginário americano. O filme opera sob uma lógica não linear, onde a primeira metade encena um desejo idealizado e a segunda colapsa essa fantasia em uma realidade crua e brutal que doi em assistir. O que começa como um conto de fadas noir se transforma em um pesadelo existencial, onde o tempo se dobra, os personagens se confundem e a identidade se revela como uma construção frágil, sujeita às pressões do desejo, da culpa e do fracasso. Lynch desconstroi a narrativa hollywoodiana clássica por meio da forma e do conteúdo. O uso do som é meticulosamente manipulado para gerar estranhamento, e a trilha de Angelo Badalamenti cria uma atmosfera de constante deslocamento emocional. A mise-en-scène é labiríntica, espelhando o estado mental das personagens, e a montagem, com seus cortes abruptos e passagens inexplicáveis, encarna o próprio colapso da narrativa racional. A chave para compreender Cidade dos Sonhos está na instabilidade das identidades. Betty e Rita, na primeira metade do filme, funcionam como projeções idealizadas: a atriz inocente e talentosa que chega à cidade dos sonhos e a mulher misteriosa que precisa ser protegida. Elas existem dentro de uma espécie de simulacro hollywoodiano, onde tudo é artificialmente belo e promissor. A própria cidade de Los Angeles, com suas colinas, névoas e mansões, torna-se um espaço de delírio e distorção. Divulgação Cidade dos Sonhos pode ser lido como o ápice de um processo que Lynch já vinha experimentando em obras anteriores, como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) e Estrada Perdida (Lost Highway, 1997). Em todos esses filmes, há uma desconstrução da identidade, uma violência subterrânea que brota sob a superfície da vida cotidiana e um fascínio por figuras femininas dúbias e ambíguas. Assim como em Veludo Azul, onde a cidade aparentemente pacata esconde horrores inomináveis, em Cidade dos Sonhos a cidade do glamour se revela como uma fábrica de frustrações, desejos inconfessos e ruínas psíquicas. O uso do som ambiente, dos silêncios pesados e da montagem disjuntiva são marcas da linguagem lynchiana em estado puro. Há um jogo constante com a performance: Naomi Watts entrega uma atuação camaleônica, transitando entre a doçura ingênua e o desespero psíquico absoluto. Seu teste de atuação no meio do filme (uma cena dentro da cena) exemplifica a tensão entre ilusão e verdade, arte e vida, que atravessa toda a obra. Quando a narrativa se desfaz e as identidades se embaralham, o que se apresenta é um colapso subjetivo. O espectador é empurrado para um terreno de instabilidade ontológica: quem são essas mulheres? Onde começa a ficção e termina a realidade? Teriam elas existido, ou são fragmentos de uma mesma consciência despedaçada? A performance de Naomi Watts é central nesse processo. Na transição de Betty para Diane, há uma mudança não apenas na atitude e no tom, mas na própria energia vital da personagem. Ela se torna uma mulher corroída pela inveja, pelo ressentimento e pela culpa. Em contraste, Laura Harring se transforma de figura frágil e amnésica em uma presença sedutora, quase cruel. Mais do que um mistério a ser resolvido, Cidade dos Sonhos é uma experiência a ser sentida, uma meditação sobre os mecanismos do desejo e a falência das promessas de Hollywood. Lynch não oferece respostas, mas fabrica um espelho quebrado onde cada fragmento reflete um aspecto distorcido da nossa própria sociedade. Em Cidade dos Sonhos, o ‘American Dream’ implode em delírio, e o espectador, perdido nesse labirinto de símbolos e silêncios, emerge transformado ou perturbado de um filme que é inesquecível e que perdurará na história do cinema por muitos e muitos anos. Nota: 5/5

  • Crítica | A Roda do Tempo (3ª temporada)

    Série surpreende com sua melhor e mais sólida temporada até o momento e se mostra a mais interessante da fantasia na atualidade. Divulgação Quando lançada em 2021, A Roda do Tempo correu o risco de ser eclipsada pelo potencial de O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder, o que parecia quase irônico, considerando que os livros originais de Robert Jordan sempre sofreram comparações com o universo de Tolkien. Mas a confiança da Amazon Prime Video foi o suficiente para renovar a série (um hit surpresa em seu primeiro ano) para mais duas temporadas. Essa confiança se mostra válida, pois, embora a segunda temporada tenha passado longe de ser brilhante, corrigiu diversos problemas da primeira, e agora em sua terceira a série encontra seu tom e identidade com uma surpreendente maturidade e solidez. Mantendo a estrutura da temporada passada de apostar em núcleos separados, aqui temos em torno de quatro blocos principais: Rand (Josha Stradowski), agora revelado ao mundo como o Dragão Renascido, viajando ao Deserto Aiel para cumprir as profecias do seu povo nativo enquanto é acompanhado de Moiraine (Rosamund Pike), Egwene (Madeleine Madden) e Lan (Daniel Henney); Perrin (Marcus Rutherford) retornando à sua terra natal de Dois Rios, que vem sendo assolada pela ameaça dos Mantos Brancos e dos trollocs; as intrigas políticas na Torre de Tar Valon, ampliadas pela chegada de Elaida Sedai (Shoreh Aghdashloo) para lançar suspeitas sobre Siuan Sanche (Sophie Okonedo); e a missão de Nynaeve (Zoe Robbins) e Elayne (Ceara Coveney), acompanhadas de Mat (Dònal Finn) e Min (Kae Alexander), rumo à cidade de Tanchico para impedir que Liandrin (Kate Fleetwood), agora revelada como uma traidora a serviço do inimigo, ponha as mãos numa arma que a permita controlar Rand. Ainda que inegavelmente nem todos os núcleos recebam o mesmo desenvolvimento (os em Tanchico e Tar Valon acabam sendo os mais prejudicados em termos de tempo de tela), a temporada consegue equilibrá-los de maneira mais orgânica e com um ritmo mais regular do que a passada, beneficiando-se também do fato de que, mesmo com seus tropeços, as duas primeiras temporadas já nos apresentaram o bastante dos personagens e deste vasto mundo. Isso faz com que a série aqui evite muito da exposição didática que normalmente acomete o gênero da fantasia, inserindo termos, conceitos e lugares com a confiança de que o público irá acompanhar. Às vezes ela vai longe demais (como a introdução de toda uma raça de seres mágicos logo no último episódio quase sem nenhum contexto), mas no geral isso se configura um sinal da maturidade que a série atingiu e também da sua capacidade de não subestimar o público. Também é evidente que o streaming da Amazon injetou uma quantidade significativa de dinheiro que permite à série esbanjar proezas técnicas e visuais que em nada devem às suas contemporâneas Anéis do Poder e A Casa do Dragão. Ainda que em algumas cenas o orçamento ainda pareça limitado (como na perseguição de um trolloc a um grupo de pessoas ou uma batalha noturna, ambos no penúltimo episódio), longe se vai o CGI capenga da primeira temporada que chegou até a virar motivo de piada. Conforme exploramos mais desse mundo, seja em locações ou através dos efeitos visuais, o orçamento da temporada felizmente acompanha esse crescente escopo e senso de grandiosidade. Divulgação A evolução da temporada também se reflete no desenvolvimento dos personagens e também das performances do núcleo mais jovem, sempre um ponto focal das minhas críticas à série. No meu texto da segunda temporada comentei que não conseguia ver Stradowski à altura do peso de protagonista que Rand exigia (mesmo que este em si não fosse nem de longe um dos melhores personagens da obra original); aqui, porém, ele parece enfim entregar seu peso, especialmente no quarto e último episódios – o quarto, aliás, pode vir a ser o grande destaque da temporada, conforme apresenta mais do passado deste mundo pelos olhos de Rand. Da mesma forma, tramas que já tinham sido exploradas à exaustão, como o luto de Mat por sua esposa e a inabilidade de Nynaeve com seus poderes, parece enfim serem resolvidas. Dito isso, é inegável que o elenco adulto continua a brilhar, com destaques para Pike, Okonedo (ambas relacionadas à cena mais devastadora da temporada) e Aghdashloo, que impõe presença e autoridade em cena com sua personagem ambígua e se revela a melhor adição à série na temporada. O terceiro ano de A Roda do Tempo pode não solucionar todos os problemas da série, mas certamente se sobressai em relação aos dois primeiros, indicando que a produção enfim se encontrou e acertou o tom que busca imprimir a uma narrativa tão complexa e grandiosa. Resta torcer pela renovação de modo que todos os 14 livros da saga possam enfim ser adaptados, mesmo que com as mudanças necessárias e bem-vindas; afinal de contas, não é exagero dizer que à esta altura do campeonato a série se mostra a mais interessante de se assistir atualmente dentro do gênero da fantasia. Nota: 4/5

  • Crítica | Looney Tunes – O Filme: O Dia Em Que a Terra Explodiu

    Longa extrai o melhor do clássico desenho original e se sobressai em meio à onda de animações insípidas em 3D. Divulgação Não sei até que ponto os cartoons de Looney Tunes são conhecidos e apreciados pelas novas gerações, mas particularmente foram os desenhos que mais moldaram minha infância. Incontáveis foram os meus sábados matutinos regados às maluquices de Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola e Piu-Piu, Coiote e Papaléguas, Hortalino Troca-Letras, Frangolino, Pepe Le Pew e tantos outros personagens que se tornaram grandes ícones culturais ao redor do mundo. Diante do impacto que eles deixaram sobre gerações de crianças, chega ser curioso que apenas em 2025 tenhamos enfim o lançamento teatral de um filme dos Looney Tunes – lançamento que quase não ocorreu, em mais uma dessas decisões de David Zaslav na Warner Bros. que só posso classificar como estúpida. Aqui, o diretor Peter Browngardt (também a mente responsável pela mais atual versão dos Looney Tunes em exibição na TV) bebe diretamente da fonte dos clássicos filmes B de ficção científica dos anos 50 – como O Dia em que a Terra Parou e Invasores de Corpos – para contar uma espécie de história de origem para Patolino e Gaguinho (ambos dublados por Eric Bauza no original e por Márcio Simões e Manolo Rey, respectivamente), criados como irmãos e que agora precisam lutar para manter a casa que herdaram do pai adotivo. Para isso, passam a trabalhar numa fábrica de chicletes, onde juntos com o interesse amoroso de Gaguinho, Petunia (Candi Milo/Adriana Torres), se veem envolvidos numa conspiração que aponta para uma figura alienígena invasora que quer controlar os corpos e mentes dos terráqueos. Em tempos onde a animação 3D tomou conta do mercado e a hegemonia da Disney/Pixar levou a um sem-número de obras que buscam se validar perante o público tentando agradar mais adultos do que crianças com “mensagens profundas”, é gratificante ver uma animação como O Dia Em Que a Terra Explodiu que assume desavergonhadamente as inspirações cartunescas e exageradas dos desenhos de Looney Tunes. O longa não está necessariamente preocupado em atualizar esses desenhos para as novas gerações (mesmo com sacadas contemporâneas divertidas, como a sequência dos protagonistas tentando ser influencers ou o uso de canções de Bryan Adams e R.E.M.), mas justamente em capturar o espírito deles da maneira mais honrosa e acurada possível. Está tudo ali: o humor bobo e exagerado, a comédia física – e até mesmo violenta – e pastelão, o pé muito bem fincado no nonsense e a articulação das mais variadas referências culturais. O filme até se usa dessas inspirações para brincar com o terror, suspense, ação e outros gêneros, sem nunca perder de vista a comédia – e tudo isso enquanto brinca com as possibilidades da animação 2D, que lhe confere um aspecto ainda mais “clássico” e referente aos desenhos originais. Divulgação Talvez o seu maior pecado seja justamente se alongar para além do que já lhe seria cabível, com uma reviravolta nos 20 minutos finais que desconstrói toda a relação antagônica criada com o alienígena invasor, mas que acaba saturando um tanto do ritmo ágil da obra. Além do mais, na dublagem brasileira é perceptível um descompasso entre os trabalhos de vozes dos coadjuvantes, pouco convincentes, e dos personagens principais. Ouvir as vozes de Manolo Rey e Márcio Simões foi um verdadeiro deleite que me remeteu à minha infância, e é nítido como o trabalho já estabelecido deles com esses personagens basicamente engole os trabalhos de vozes dos outros personagens (ainda que tenhamos o grande Mauro Ramos dublando alguns dos coadjuvantes também). Sob muitos aspectos, O Dia Em Que a Terra Explodiu parece uma anomalia para as animações contemporâneas, mas justamente por isso o longa se mostra uma experiência tão refrescante, que se mostra à altura do legado deixado pelos desenhos de Looney Tunes. São apenas algumas atualizações aqui e acolá para traduzir tudo que esses desenhos faziam de tão bom e memorável para as novas gerações, mas este é sobretudo um filme interessado em divertir e nos fazer rir com seus exageros – e isso ele faz muito bem. Nota: 3.5/5

  • Entrevista | Lírio Ferreira fala sobre "Serra das Almas", memória, cinema e resistência

    Diretor pernambucano conversou com o Oxente Pipoca sobre seu novo longa, que chega aos cinemas em 24 de abril. Divulgação Responsável por longas que moldaram o cinema brasileiro, em especial o pernambucano, o cineasta Lírio Ferreira retorna às telas de cinema com Serra das Almas neste 24 de abril. Na trama, uma cidade no interior de Pernambuco é cenário de ação, drama e terror, acompanhando uma emboscada completa que envolve bandidos, uma investigação jornalística e políticos corruptos. O plano de roubar um conjunto de joias, porém, leva esse grupo a uma sequência de situações inusitadas e catastróficas. Ao contrário do ditado popular, entre mortos e feridos, nem todos irão se salvar. Neste thriller com toques de humor, uma aventura se desdobra aos poucos para o espectador enquanto seus personagens confrontam seus passados. Um golpe e um sequestro, então, prendem numa mesma casa duas jornalistas (Julia Stockler e Pally Siqueira), um casal (Jorge Neto e Mari Oliveira), dois ladrões (Ravel Andrade e David Santos) e um desconhecido envolvido por acaso (Vertin Moura), obrigando-os a enfrentar o tempo e a si mesmos. Em uma conversa com o Oxente Pipoca, Lírio traçou paralelos entre a história do filme e o momento em que vivemos como sociedade, seus outros trabalhos e a importância do cinema como ferramenta de transformação. Confira a entrevista na íntegra: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você descreveu Serra das Almas como um filme que carrega uma “esperança desajustada” do tempo pós-pandemia. Que tipo de esperança é essa? Como ela se manifesta dentro de um universo tão marcado pela violência e pelo caos? Lírio Ferreira: Eu não sei se tem um tipo de esperança, sabe? Eu acho que o final do filme traz uma certa esperança. Não sei exatamente que tipo de esperança. Eu acho que o horizonte continua nublado, tenebroso. As armações são constantes. Acho que tudo está muito complicado. Eu não sei que tipo de esperança é essa, mas eu acho que existe uma certa esperança no final, por conta do momento que a gente estava passando. É um filme de três anos atrás. É um filme que, quando a gente filmou, teve a passagem de uma eleição, e eu acho que isso, pelo resultado, traz um pouco de esperança — mas, de novo, eu não sei que tipo de esperança é essa. Agora, obviamente, é um filme que conversa com a pandemia. É um filme que se passa entre quatro paredes. É um filme em que as janelas estão ali, mas estão gradeadas. Tem uma paisagem do lado de fora que convida a sair, mas os personagens, de alguma maneira, não saem — como acontecia na pandemia. E aí a gente tenta entender essas coisas, do tempo, da natureza... e refletir sobre isso. E até pra que essas coisas — essa destruição, essa amargura, esse ódio — não voltem a acontecer. É difícil... difícil. Esperança, a gente tem. Qual? Não sei. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou que todo filme é um retrato do seu tempo. Como você enxerga a função do cinema brasileiro hoje, especialmente diante do momento político que vivemos nos últimos anos? Lírio Ferreira: É uma coisa de resistência. Sempre foi, né? Agora, o cinema político — principalmente com os filmes que tiveram, né? — teve uma safra maravilhosa. O filme do Valtinho, do Walter Salles, que pegou ali seis milhões de espectadores e fez uma carreira gloriosa internacionalmente. O filme Malu. Eu acho que é uma característica do cinema brasileiro. Tá se retomando, tá se falando sobre isso. O cinema sempre foi uma ferramenta pra isso. Na época do Cinema Novo, nossos mestres falavam do Brasil — e, quando não falavam diretamente, falavam por metáforas. E é muito importante que o cinema exerça isso. Que os cineastas exerçam essa ferramenta, que acessem o cinema como um elemento transformador. Porque, volto a dizer: nada tá garantido. O mal, o ódio, as pessoas perversas — as almas sebosas — nos vigiam. E, a qualquer descuido, elas tendem a voltar, a sair dos seus lugares sórdidos. Então a gente tem que estar atento. O cinema é uma ferramenta pra proteger a gente. E, se não proteger, que sirva pelo menos pra refletir. Pra mostrar que esse não é um caminho. Que é um caminho que já foi pisado — e que não tem por que voltar. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme tem ecos de western, cinema noir, nouvelle vague e do nosso próprio cinema novo. Como você costura essas referências tão distintas sem perder a sua assinatura? Lírio Ferreira: Com a mão. Eu costuro com a mão. Não tem mais máquina de costurar. Você pega e sai costurando. Eu ficava olhando pra minha avó, como ela costurava assim... Não é brincadeira. Dá pra ir, mas não é simples. É um cinema muito, muito manual. Muito amador, muito doméstico e, mais do que tudo, carregado de afeto. De respeito. Respeito pelo outro, por quem está assistindo. A maneira como o Serra das Almas foi construído permite isso. Permite conversar, buscar referências... do cinema americano dos anos 70, do western, do John Ford, do thriller... Acho que essa coisa do terror no cinema brasileiro hoje também tá presente. O filme se permitiu isso. Teve essa possibilidade da gente brincar seriamente com esses elementos. Mas sempre costurando à mão. Acho que é com a mão mesmo que a gente faz o melhor cinema. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): ​Parabéns pela vitória de Serra das Almas no Prêmio Netflix da 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo! Com isso, o filme será exibido em mais de 170 países, ampliando significativamente o alcance do cinema brasileiro. Gostaria de saber como você enxerga o impacto dessa distribuição global para o cinema autoral brasileiro, especialmente para obras que emergem de contextos regionais como o nordeste? Essa visibilidade internacional pode influenciar a forma como futuras produções são concebidas e realizadas? Lírio Ferreira: É fantástico. Eu acho que a casa do filme... no meu caso, é o cinema. É a sala de cinema. Eu me formo bem na sala de cinema. Tenho uma relação, uma dependência física mesmo com a sala de cinema. Eu preciso respirar aquela atmosfera. É algo que me fez muita falta na pandemia, inclusive. Mas, assim, as possibilidades que a tecnologia, que os streamings e as novas janelas proporcionam hoje... é fantástico. O filme tem a chance de ser exibido em quase 190 países, em várias línguas, e conversar com povos do outro lado do mundo. Levar esse filme, que foi feito ali no Agreste de Pernambuco, pra ser exibido em Melbourne, por exemplo. Eu sempre cito Melbourne, acho que Melbourne é o grande espelho do meu cinema. Aquele "terra é lugar de mala sombra", sabe? Eu acho isso realmente fantástico. Essas infinitas possibilidades, essas infinitas janelas. É um ganho muito, muito bacana. Acho que o cinema é essa maneira de levar sua aldeia, levar sua ideia para o mundo inteiro. E aí o resto... agora é trabalho dos tradutores, vai ter legenda pra caramba, mas, tirando isso, vai ser muito bacana. Vai ser muito bom. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): ​Lírio, você é um dos responsáveis por um dos filmes que marcou a minha vida. Baile Perfumado é um dos longas favoritos do meu pai (e meu também) e eu já assisti inúmeras vezes. Ele é um longa que marca a retomada do cinema pernambucano, sendo extremamente importante para todo o contexto histórico do próprio cinema brasileiro. Recentemente, Corisco & Dadá, também de 1996, foi remasterizado em 4k e relançado nos cinemas. Será que em breve podemos ter ‘Baile Perfumado’ de volta às telonas? Lírio Ferreira: No ano que vem vão fazer 30 anos do Baile Perfumado. O filme já teve uma, uma atualização em 2K, ali quando ele fez 20 anos, mas a gente tem vontade de passar ele pra 4K também, relançar no cinema. Em paralelo a isso, está se construindo em Recife um documentário para celebrar a efeméride dos 30 anos, dirigido por Camilo Cavalcanti, e procurar contar um pouco dessa história, né? A história desse filme que marcou uma época. Uma época em que não existia faculdade de cinema em Pernambuco, e o Baile também foi uma universidade pra gente. Imagina que num filme que eu trabalhei, trabalharam Paulo Caldas, Gilton Lacerda, Adelina Pontual, Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Pido Queiroz... Muita gente passou pelo Baile, se formou no Baile. E teve a importância de conversar com o Manguebeat naquela época, de marcar. E eu fico muito feliz que marcou a geração de muita gente. Muita gente começou a fazer cinema por conta disso, se interessar por cinema por conta disso, e ter orgulho do cinema de Pernambuco voltar, a fazer parte da cinematografia, da geografia do cinema brasileiro. Então é isso. O ano que vem a gente pensa em lançar o filme, e em 2027 possivelmente vai ter esse documentário celebrando a efeméride dos 30 anos: O Perfume do Baile. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Aqui no Oxente Pipoca, a gente sempre encerra com uma pergunta que é tradição da casa: qual é um filme brasileiro — de qualquer época — que te atravessou de forma especial e que você gostaria de compartilhar conosco? Pode ser um clássico, uma joia esquecida ou algo que te inspira até hoje. Lírio Ferreira: Nossa, são tantos filmes... é muito difícil essa pergunta. Mas eu vou com o a primeira coisa que me veio na cabeça: A Lira do Delírio, do Walter Lima Júnior. É um filme maravilhoso. Um filme que mexe com o tempo de uma maneira absurda. Foi filmado em 1972, mas só foi finalizado em 1977. É sobre carnaval, tem várias camadas, várias etapas. O tempo também age sobre ele — a ideia do Valtinho, ali no começo, era fazer um determinado tipo de filme, mas o tempo de feitura foi modificando tudo, até virar um thriller. É um filme que eu carrego com muito carinho, entre tantos outros do cinema brasileiro. Mas o que me vem na cabeça agora é esse: A Lira do Delírio, do Walter Lima Júnior.

  • Entrevista | Diretor e elenco de “Carême – O Rebelde da Culinária” conversam sobre a nova produção do AppleTV+

    O processo de produção da série, desafios e a representatividade na França do século XIX foram os temas abordados na entrevista com o Oxente Pipoca. Divulgação Estreia no próximo dia 30 a série francesa Carême – O Rebelde da Culinária, criada por Martin Bourbolon (Os Três Mosqueteiros). Baseada no livro Cooking for Kings: The Life of Antonin Carême, The First Celebrity Chef , de Ian Kelly, a série mescla fatos e ficção para seguir a vida do personagem homônimo (Benjamin Voisin), considerado o primeiro chef celebridade da história, conforme ele navega em meio às tensões e intrigas políticas na França sob o domínio de Napoleão, no início do século XIX, valendo-se de suas habilidades culinárias e também do seu charme para espionar a serviço do misterioso Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (Jérémie Renier). A crítica da temporada pode ser acessada aqui. O Oxente Pipoca, junto a jornalistas de diversos outros países, participou de uma mesa redonda coletiva com Bourbolon, Voisin, Renier e as atrizes Lyna Khoudri (Henriette) e Alice da Luz (Agathe). Quando questionado sobre a decisão de apresentar uma França napoleônica mais etnicamente diversa do que aquela apresentada na historiografia oficial, Bourbolon afirma que não se tratou de uma estratégia política por parte dele ou do AppleTV+, mas uma questão de trabalhar com os atores e atrizes certos. No caso de Agathe, braço direito de Carême em sua cozinha, o fato da personagem realmente ter existido foi fundamental para a escolha de Alice para o papel, enquanto Lyna Khoudri já havia trabalhado com Bourbolon nos filmes de Os Três Mosqueteiros e por isso foi selecionada para interpretar Henriette, interesse amoroso do protagonista que conta com uma agenda própria. Bourbolon também comentou sobre a proposta da série de apresentar a figura de Napoleão apenas em relances no decorrer dos episódios, sem nunca mostrar seu rosto. “Todos nós compartilhamos a ideia sobre o fato de Napoleão ser muito, muito famoso; mesmo que você não seja amigo dele, você já deve ter ouvido falar desse nome, ‘Napoleão Bonaparte’. E essa série não era sobre Napoleão, era sobre Carême, mesmo que estivesse sob o reinado de Napoleão. E ao mesmo tempo, nós também tivemos vários filmes e séries de TV diferentes sobre Napoleão com outros atores muito famosos. Então pensamos no fato de que seria interessante ter uma sombra de Napoleão, mostrando apenas seu braço, seu pescoço, suas costas. Como nos filmes de James Bond, onde você nunca via o Dr. No, o rosto dele – apenas seu braço, seu corpo, e isso dava ao público muito mais medo. E eu estava animado com essa ideia e é a razão pela qual seguimos com essa visão”, disse ele. Já Voisin e Khoudri discutiram suas cenas favoritas da primeira temporada. Khoudri apontou uma das últimas cenas de seus personagens, no último episódio, que ela e Voisin consideraram que não estavam muito bons, mas como envolvia uma sequência de dança e diversos figurantes, acabou se mostrando uma grata surpresa de se gravar, especialmente pelo fato de que era uma cena importante para seus personagens. Já Voisin destacou as cenas em que ele não está em tela, elogiando sobretudo o trabalho de Mischa Lescot, que interpreta Joseph Fouché, Ministro da Polícia do regime napoleônico e principal antagonista da série. “Ele chegou quase perto da caricatura, mas sempre tornou tudo muito interessante para mim, como o mocinho na história. Você via o vilão que era rotulado como vilão, mas ele é um ótimo ator e há essa espécie de tensão entre nós dois. Fiquei muito feliz com isso, e eu adoro as cenas em que ele está”, declarou ele. Divulgação Por fim, Renier e da Luz discutiram os principais desafios enfrentados por ambos no processo de gravação da série. Para da Luz, tratou-se de manter os relacionamentos entre os personagens se desenvolvendo, não apenas na cozinha, mas também fora dela: “Eu não tinha certeza de como Agathe se comportava fora da cozinha, porque esse era seu lugar seguro. Então eu estava me perguntando como ela se comportaria lá fora, nas ruas. Como ela andaria? Como ela falaria com alguém que ela nunca conheceu? E eu me lembro de uma cena em particular, que era uma cena de conversa a pé e era muito emocional. Sua cozinha, embora fosse um lugar seguro, não era mais naquela cena em particular. Então ela realmente precisava ser muito determinada; tudo na vida dela estava indo de cabeça para baixo”, afirmou ela. Já Renier pontuou que seu principal desafio foi pensar “fora da caixa” em relação às representações oficiais de Talleyrand, que é costumeiramente retratado como um aristocrata e acabou entrando para a história por suas lealdades mutáveis durante o período da Revolução Francesa e do Império Napoleônico. Segundo o ator, ele queria tornar o personagem crível, através de seus maneirismos e modo de falar, por exemplo. “Eu queria apenas dar a ele um tipo diferente de cor, algumas qualidades humanas, e isso foi um desafio para mim. E o principal era que eu só queria me divertir. interpretando esse papel. Sabe, eu nunca interpretei o ‘vilão’, que é ambíguo, que é ligeiramente maligno, e eu queria brincar com todos esses códigos principais e me divertir. Esse era meu objetivo”, disse ele.

  • Crítica | O Contador 2

    Continuação é mais descompromissada com a seriedade e mais simpática. Divulgação Christian Wolff (Ben Affleck) tem um talento especial para resolver problemas complexos. Quando um velho conhecido seu é assassinado, mas antes de morrer deixa uma mensagem enigmática para “encontrar o contador”, Wolff se sente compelido a resolver o caso. Ao perceber que medidas mais extremas são necessárias, ele recruta seu irmão distante, durão e altamente letal, Brax (Jon Bernthal), para lhe ajudar. Em parceria com a Diretora Adjunta do Tesouro Americano, Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), eles descobrem uma conspiração fatal e se tornam alvo de uma rede implacável de assassinos decididos a fazer qualquer coisa para manter seus segredos enterrados. Mesmo tendo sido lançado em 2016, o primeiro longa-metragem da franquia possui um charme pré-moldado de filmes hollywoodianos do início dos anos 2000, constituído por ações comedidas, roteiro enxuto, reviravoltas no terceiro ato e um flerte com a comédia independente do seu gênero principal. A continuação, no entanto, mantém muito deste estilo tardio, mas apresenta uma liberdade maior para brincar com a forma e com o texto. O roteiro de O Contador 2 tem a tolice ingênua das comédias românticas, o timing e o ritmo de comédias tradicionais, e ainda assim consegue espaço para as sequências de ação, barulhentas e frenéticas. O longa se assume farofa e se diverte com isso. O suspense policial que impulsiona a narrativa funciona apenas como ponto de partida, uma vez que a relação dos seus protagonistas chega a ser tão importante quanto o desenrolar da história de fundo. Divulgação A trama parece ter sido criada apenas para gerar um encontro entre os personagens e situações de desenvolvimento da relação entre eles, enquanto resolvem um caso qualquer. Ben Affleck e Jon Bernthal repetem os papéis da produção anterior, desta vez Jon ganhando mais espaço de tela e sendo responsável pela maior parte do carisma em cena. Faltou ao filme, no entanto, uma surpresa que causasse um impacto ou quebra de expectativa no público, como acontece no longa de 2016. A produção deixa passar também a oportunidade de explorar arranjos visuais que atribuíssem personalidade ou relevância em meio a tanta porradaria. É mais um tradicional filme comercial estadunidense exaltando o complexo de salvador branco que conquista pela canastrice simpática. Nota: 3/5

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