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  • Crítica | Atena

    Fetichismo reacionário disfarçado de denúncia. Divulgação Filmes de vingança, em particular aqueles protagonizados por personagens femininas, são um interessante meio de se analisar as mudanças no olhar cinematográfico após o Me Too. Se antes essas obras não se acanhariam em trazer cenas gráficas (principalmente aquelas envolvendo estupro e violência de gênero) para justificar as jornadas de suas protagonistas, há uma nova perspectiva que rejeita esse teor explícito em favor de outras abordagens. Não que exista uma forma certa ou errada de se abordar essas temáticas, mas a pergunta que pode ser levantada a partir dessas obras: o que acontece quando um filme, na tentativa de expor um problema, o fetichiza através da câmera? No papel, Atena, de Caco Souza, parece denunciar não só a amplitude da violência de gênero, do abuso e do feminicídio, como também o descaso das instituições em proteger as mulheres vítimas dessa violência. Para o filme, se o sistema falha para com essas mulheres, resta a vigilância, expressa aqui na figura da personagem que dá nome ao filme, interpretada por Mel Lisboa. Caçando e matando estupradores em Gramado, ela descobre, através de um jornalista (Thiago Fragoso), a localização do seu próprio abusador – seu pai –, o que a leva numa jornada de vingança pessoal, mesmo em meio aos seus próprios traumas. Na prática, porém, o tom denuncista do filme resvala numa série de escolhas narrativas e estéticas que não só minam qualquer potencial da obra, como jogam completamente contra ele. Voltando à pergunta levantada no primeiro parágrafo, fica evidente ao longo dos seus 85 minutos de duração o quanto Atena aposta no espetáculo e no fetichismo para discutir seu tema. Mesmo que não ache que um filme que discuta a problemática da violência de gênero só vai ser bom se necessariamente for dirigido por uma mulher, aqui temos uma obra encharcada do infame male gaze: a representação das violências sofridas pelas mulheres, com uma câmera que quer porque quer mostrá-las sendo agredidas, xingadas e mortas das mais variadas maneiras possíveis; os personagens todos caricaturais, mas em especial os masculinos, tratados como seres monstruosos de uma nota só que existem apenas para bater, abusar e matar de suas parceiras; o roteiro que quer enfiar xingamentos misóginos a todo instante, numa tentativa de reforçar seu ponto, mas que acaba descambando para a própria misoginia que diz criticar. Não ajuda que o filme é sustentado por um fiapo de narrativa, onde nenhuma das diversas temáticas que tenta convergir é minimamente desenvolvida. Se a exploração da violência é fetichista, o discurso de descaso das instituições é quase reacionário, e o filme até se aproxima de obras conservadoras como O Som da Liberdade ao citar redes de pedofilia, tráfico sexual e prostituição infantil. Mas nem isso é explorado, sendo apenas um dos muitos pontos jogados ao longo do filme, assim como é a figura misteriosa que aparece na abertura do filme e ajuda Atena em determinada situação, depois saindo de cena como se nunca estivesse lá. O jornalista de Fragoso (numa atuação canastrona que chega ser vergonhosa) é uma mera muleta narrativa que consome tempo de tela enquanto o filme parece indeciso sobre o que fazer com a jornada da protagonista, até enfim optar pela sua vingança pessoal no último ato. Divulgação Para piorar, o longa parece inacabado em diversos pontos, em especial na mixagem de som irregular, que oscila em diversos momentos para engolir as vozes dos personagens pela trilha sonora. Esta, inclusive, herda diretamente os piores vícios das trilhas inspiradas pelo trabalho de Hans Zimmer em A Origem, e compromete sensivelmente o tom de várias cenas ao ponto de momentos que deveriam soar sérios ou tensos se tornarem apenas risíveis pelos acordes desenfreados de cordas e elementos do jazz. A fotografia escurecida desfavorece a compreensão de várias cenas – isso quando não faz de várias delas, como as do jantar do vilão com sua família, algo semelhante a propagandas do governo federal –, enquanto a montagem não consegue imprimir um ritmo coerente ao filme, com a inserção óbvia dos flashbacks de Atena que aludem ao seu abuso, nos cortes que prejudicam as poucas cenas de ação ou na incapacidade de encaixar os diferentes núcleos que, no fim das contas, apenas incham um filme que já parece longo demais para uma produção de menos de 90 minutos de duração. Infelizmente, apesar das suas boas intenções, Atena sofre de uma direção precária que não consegue articular os diversos elementos estéticos e formais, resultando numa produção confusa e que já nasceu datada, remetendo aos filmes de vingança (mais especificamente os revenge porn) nos piores sentidos possíveis. Se há alguma lição a ser tirada daqui, é que o fetichismo nunca foi e continua não sendo o melhor caminho possível para se discutir temas importantes, especialmente quando tal fetichismo aponta mais para um reacionarismo e misoginia que deveriam estar “apenas” no problema da violência de gênero, e não também no saldo final do filme que tenta criticá-la. Nota: 1/5

  • Crítica | Todo o Tempo que Temos

    Filme tenta dar uma nova roupagem a uma história que todos já ouvimos, mas seu melhor está nas atuações de Pugh e Garfield Foto: Divulgação Inicialmente, fico feliz com o gênero romântico voltando às telonas com mais força e mesmo que não atinja seu ápice com este longa, pelo menos ensaia bem. Utilizando de uma narrativa não-linear para contar a história de amor entre Almut (Florence Pugh) e Tobias (Andrew Garfield), vemos como eles se conheceram, a gravidez e como enfrentam um câncer que volta a atingir a vida do casal. É uma trama relativamente simples e artifício de ir e voltar no tempo aparentemente só existe para diferenciar o filme de outros tantos. Abordando temas comuns que todo mundo passa, o intuito principal é a valorização do tempo, como o título diz, mesmo que a impressão que fique é de que o artifício da não-linearidade seja usado para disfarçar a falta de profundidade do enredo e cabe inteiramente a Pugh e Garfield a tarefa de dar humanidade aos seus protagonistas. A química dos dois é sentida desde o primeiro instante e ambos estão excelentes nos papeis, pena que, principalmente, Tobias seja tão raso. É praticamente um personagem de uma nota só e os conflitos com Almut surgem somente em razão da família. Justamente porque em um dos primeiros encontros ele já fala em filhos e depois que estão morando juntos e ela está doente há outra briga em relação a data do casamento. É como se ele vivesse em função dela e o roteiro não soubesse trabalhar bem as nuances do personagem e o quisesse o colocar como o “bom moço”, enquanto quase vilaniza Almut por ambicionar mais do que ser a mãe ou esposa de alguém. É uma linha tênue e por pouco não foi ultrapassada. Como o texto os trata, parece que são só personagens, mas é pela delicadeza de Garfield e Pugh que os enxergamos como pessoas. Eles falam com os olhos e quando estão marejados, é uma explosão de sentimento, mesmo que eles tentem se conter, o que deixa tudo mais real. Foto: Divulgação Em Brooklyn, de 2018, John Crowley conseguiu contar uma história singela com delicadeza e humanidade, atingindo todas as notas. Aqui, ele quase repete o feito, mesmo sendo mais melodramático e tratando de assuntos como um câncer terminal, conseguiu não ser apelativo, o que deixa a emoção muito mais genuína, por mais previsível que seja. No começo, nós já sabemos o fim e ele é realmente bonito, com uma tristeza iminente, que ressalta a perda, mas mostra que a vida continua. Crowley é elegante neste sentido. Outro ponto positivo é o humor e graças ao timing de Pugh e Garfield. Ainda que não seja tão presente assim e pouco apareça nos momentos mais emotivos, mas é um equilíbrio que funciona bem. É filmado com intimidade, focando no rosto dos atores e o fato de se passar na Inglaterra passa uma atmosfera de filme independente. No entanto, o longa realmente depende do carisma de seus protagonistas para nos envolver, já que o roteiro não os aprofunda e a escolha narrativa de não ser cronologicamente linear também não ajudou em nada. O resultado é um bom filme, mas que não consegue atingir todas as notas que queria e se segura no talento de suas estrelas. Mesmo com a elegância de não ser apelativo, parece que o longa se prende demais em certos momentos e não diz nada novo no quesito de vida e morte, ainda que tente. É um romance que poderia ser melhor, mas é o que temos e o saldo final ainda é positivo, apesar dos pesares. Nota: 3,5/5

  • Confira os filmes selecionados para a 4° edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana

    O festival conta com a exibição de 85 produções de curta e média-metragem. Divulgação O Festival Internacional de Cinema de Itabaiana divulgou a lista de filmes selecionados para sua 4ª edição, que será realizada entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, no Campus Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Ao todo, serão exibidas 85 produções nacionais e internacionais de curta e média-metragem. A programação do festival inclui ainda três painéis de debate, um seminário cultural e a entrega do Troféu Kurarabó, que reconhece os vencedores das categorias técnicas e os homenageados da edição. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o coordenador geral do festival, Andrei Ferreira, destacou a proposta do evento de fomentar a cultura audiovisual no interior de Sergipe. “O festival tem essa missão de descentralizar os espaços culturais e impulsionar a produção audiovisual sergipana no interior, onde quase não se produzia. Queremos oferecer ao interior um evento grande e importante, que as pessoas se sintam parte, se identifiquem e passem a ver o interior sergipano como palco de eventos culturais”, afirma. Das obras selecionadas, 30 são produções brasileiras, 30 estrangeiras, 13 sergipanas e 12 videoclipes. Confira a lista completa dos filmes selecionados para o FestCine Itabaiana: Filmes Brasileiros - América, do Sul, de Maria Clara Bastos (SP) - A Chuva do Caju, de Alan Schvarsberg (GO) - A Sua Imagem na Minha Caixa de Correio, de Silvino Mendonça (DF) - Aurora, de Alan Mendonça Furtado (RS) - Batalha de Flores, de Luis Villaverde e Moira Soares (SP) - Como Nasce um Rio, de Luma Flores (BA) - Dalva da Rua Sete, de Gab Lourenzato e Nanda Ferreira (SP) - Dona Biu, de Gabriela Taulois (RJ) - Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro (RJ) - Festa Infinita, de Ander Beça (PE) - Hélio Melo, de Leticia Rheingantz (AC) - Intercessões, de Direção Coletiva (AM) - Kabuki, de Tiago Minamisawa (SP) - Marés da Noite, de Juliana Sada e Noemi Martinelle (SP) - Mãe de Ouro, de Maick Hannder (MG) - Nação Comprimido, de Bruno Tadeu (MG) - Navio, de Alice Carvalho, Vitória Real e Larinha R. Dantas (RN) - O Céu Não Sabe Meu Nome, de Carol AÓ (SP) - O Medo tá Foda, de Esaú Pereira (CE) - O Último é Mulher do Padre, de Yasser Socarrás (SC) - Palavra, de Deivison Fonseca Fiuza (BA) - Quando Foi que Acordei, de Mariana Corrêa (RS) - Terminal, de Getsemane Silva e Guilherme Bacalhao (DF) - Travessia, de Karol Felicio (ES) - Tudo que Deus Quer Saber, de Ema Souza (RS) - Um Dia de Todos os Dias, de Fábio Narciso (MG) - Variz, de Karuá Tapuia-Tarairiú (PB) - Veredas, de Igor Rossato (SP) - Vermelho de Bolinha, de Joedson Kelvin e Renata Fortes (CE) - Zoya, de Larissa Dardania (MG) Videoclipes - Abre Caminho (BA) Música: Fall Clássico Direção: Pedro Valverde - Balanceio do Amor (SP) Música: Ayana Amorim Direção: Abraão Oliveira e Di Rodrigues - Causas da Vida (SE) Música: Ação Crítica Direção: Dhido - Ensolarada (BA) Música: Rachel Reis Direção: Bruna Sozzi - Horizon (SC) Direção: André Rodrigues Taveira - Jesus is Black (RJ) Música: Marcos Sacramento Direção: Pedro Capello - Mar Terna Idade (BA) Música: Rhamayana Direção: Glauco Neves - Mercenaries of Love (RJ) Música: Doce Delix Direção: Pedro Capello - Saint Motel - My Type (GO) Direção: Andy Wolf - Siciliano (PR) Música: Helena Sofia Direção: Rodriane DL - Sonhos na Despensa (RJ) Música: Igor Babidi & VND Direção: Gabriel Vitiello - Tales From my Hood (RJ) Música: Akkuma Direção: Kauê André Santos Araújo - Voices (Chile, Reino Unido e EUA) Música: VORTEX Direção: Adrián Ríos Ortíz - Who Are You (Alemanha) Música: Loten Namling Direção: Jakob Gehrmann Filmes Sergipanos - À luz de Vela, de Ju Morandi e Sarah Melo - Coisa de Preto, de Pâmela Peregrino - Donas da Terra, de Ana Marinho - Flow da Vida, de Eduardo Santos e Tiko SF - Mestre Orlando do Couro: Ancestralidade Viva na Pele Talhada , de Bruno Marques - Mergulho, de Breno Silva e Wilson Neto - Mexeu Comigo, de Danilo Rodrigues, João Hiago Oliveira e Sara Maylyne - Os 3 Porkinhos, de Vivian Rafaelli - Saudade de Coisas, Saudade de Casa, de Alex Frelser - Sem Corda, Sem Abadá, Sem Vergonha, de Felipe Moraes - Sobre Plantas, Mãos e Fé, de Danielle Azevedo e Gabriela Alcântara - Sonata Beladona, de Antônio Rafael - Volta Seca, a Favor do Vento - Cantigas de Lampião, de Marlon Delano Filmes Internacionais - 29 de febrero, de Diego Fandos (Espanha) - A Noa, de Dani Fortuny (Espanha) - Blava Terra, de Marine Auclair March (Espanha) - Breaking Language, de Sofia Castro (Argentina) - Ciao Peskao, de Andrea García García e Guillermo González Fidalgo (Espanha) - Días de Lluvia, de Ainara Iungman (Argentina) - Donde se Quejan los Pinos, de Ed Antoja (Espanha) - El Mal Donat, de Alfons Casal e Hector Mas (Espanha/Andorra) - El Que No Ve, de Natxo Leuza (Espanha) - Eléctron, de Mehran Ranjbar (Irã) - How Lucy Gave Birth To Us, de Donika Gashi (Suiça) - Imade, de Ignacio Acconcia González (Espanha) - La Compañia, de José María Flores (Espanha) - LÍbranos del Mal, de Andrea Casaseca (Espanha) - Los Invitados de Amaia, de George Todria (Espanha/Geórgia) - My Father Is Afraid of Water, de Prateek Rajendra Srivastava (Índia) - Nuestro Pequeño Viaje, de Martín Durán Sacristán (Espanha) - Paper Players' War, de Gerard Bernardo (Filipinas) - Rachid, de Rachida El Garani (Bélgica) - Rasti, de Paolo Bonfadini e Davide Morando (Itália) - Señora Bien, de Jose Maria Carrizo (Argentina) - Someone Else's Life, de Umi Aravena (Chile) - Sushi, de Iván Morales (Espanha) - Thanks, Jordi., de Arturo Spano (Argentina/Itália) - The Boy Who Cheated Death, de Pipou Phuong Nguyen (França/Taiwan) - The Little Shopping Trolley, de Laurence Ly (Canadá) - The Quiet Art, de Johnny Phillips, Ross Wilcox (EUA) - The Spring Never Returns, de Si Wei Yu (China) - When The Sun Above Our Memories, de Umut Yılmazer (Turquia) - Witness, de Aida Tebianian (Irã) Para conferir a programação completa e saber tudo sobre o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana, é só acessar o site oficial.

  • Crítica | O Brilho do Diamante Secreto

    O fetiche pela forma: quando a homenagem ao gênero sufoca a narrativa. Divulgação Existe uma grande questão no cinema contemporâneo de querer emular alguns gêneros ou de até mesmo fazer uma desconstrução de gênero, o que não é uma grande novidade e também não quer dizer que tal exercício seja um demérito. O problema é quando esse exercício se transforma apenas em um excesso de ideias que são postas em suas referências visuais, e O Brilho do Diamante Secreto entra nessa seara ao abraçar o gênero policial mas se perdendo dos excessos do cinema de fetiche visual. Em seus minutos iniciais, acompanhamos o personagem John D., interpretado por Fábio Testi, um homem que desfruta seus dias na sofisticada Riviera Francesa, hospedado em um hotel à beira-mar. Entre charutos e martínis, observa despreocupadamente o cenário ao redor, até que uma mulher nua, bronzeando-se ao sol, chama sua atenção. O brilho de um diamante em seu seio acende em sua memória um passado esquecido. Subitamente, ele é transportado de volta à juventude: um tempo de missões secretas, perseguições elegantes, mulheres perigosas e vilões enigmáticos. O filme da dupla belga Hélène Cattet e Bruno Forzani foi exibido na competição da Berlinale 2025 e estreia nos cinemas brasileiros no dia 17 de julho, distribuído pela Pandora Filmes. Eu confesso que não conhecia o trabalho da dupla, portanto é meu primeiro contato com uma obra deles, e é inegável que no filme em questão eles escrevem uma verdadeira carta de amor ao gênero Eurospy, gênero cinematográfico que surgiu e teve seu auge nos anos 1960, inspirado diretamente pelo sucesso estrondoso dos filmes de James Bond. E o filme brinca justamente com as características que marcou esse gênero, como os vilões excêntricos, mulheres sedutoras, e um estilo visual frenético. Só que como falei no início, o exercício de gênero por si só não se justifica, pois o filme se apresenta como uma experiência essencialmente visual, sem qualquer tensão dramática, conduzido por uma sequência acelerada e ritmada de cenas que prestam homenagem aos clássicos de espionagem das décadas de 1960 e 1970 e aos seus códigos estilísticos. A narrativa fragmentada, que alterna entre realidade e fantasia, presente e passado, acompanha um ritmo implacável e encontra justificativa no próprio tema: a reconstrução das memórias de um espião aposentado e desorientado, cuja glória ficou no passado, mas cujas lembranças ainda o alcançam. O filme se arrasta tediosamente de uma cena trivial para outra, cada uma copiada de filmes muito melhores. Embora sua maior força esteja claramente em seus close-ups, mesmo esses são tão usados que perdem todo o impacto. Cada foto é tão estilizada que qualquer senso de espaço ou propósito é completamente perdido. Nós nos afogamos completamente nessa cascata interminável de efeitos estilísticos e nesse poço sem fundo de metadelírio, sem cabeça nem cauda. Divulgação De todo modo, ao tentar revisitar o gênero, o filme faz um apontamento interessante ao questionar, mesmo que um pouco implicitamente, o olhar masculino desse subgênero e seu lado potencialmente misógino, que se dá de uma forma interessante ao utilizar da ironia em algumas sequências do filme. Mas são tão raros esses momentos que me fazem desconfiar que há uma timidez misturada com respeito ao gênero, que faz os autores serem um pouco cautelosos e não estarem de fato dispostos a colocar o gênero às avessas, pois talvez nem seja a proposta da obra. E isso fica claro ao percebermos que em nenhum momento o filme busca dialogar com outras abordagens dentro do universo do gênero, limita-se a reproduzi-los em diferentes sequências visuais que não nos leva a lugar algum. Por sua vez, o enredo é um emaranhado de ideias inacabadas e meta-comentários que tropeça em sua própria ambição, deixando os temas dispersos e desgastados. Há, sem dúvida, uma ousadia admirável no projeto, e momentos pontuais de brilho indicam que uma obra mais consistente poderia ter emergido com uma narrativa mais coesa e um direcionamento mais claro. Em vez disso, o resultado é uma jornada caótica e exaustiva, que impressiona visualmente, mas raramente estabelece uma conexão real com o espectador. No fim, estamos mais perto de ter a resposta se é possível reviver uma estética com uma homenagem que é tão destilada em seus elementos quanto separada do mundo mais amplo que a produziu. Nota: 2/5

  • Crítica | Jovens Amantes (2022)

    Valeria Bruna Tedeschi reconstrói suas memórias em semiautobiografia, mas não impede que o filme escape da sombra dos escândalos de seus bastidores. Divulgação Nos primeiros minutos de Jovens Amantes, Stella (Nadia Tereszkiewicz) beija, discute, grita, exibe os seios para seu amante – apenas para que, com um corte de cena, vejamos um grupo de homens e mulheres assistindo à discussão, que na verdade não passa de uma encenação teatral. Ela, assim como diversos jovens nesse momento não-especificado dos anos 1980, concorre ao ingresso numa prestigiada escola de teatro em Paris, dirigida pelo renomado e autoritário Patrice Chéreau (Louis Garrel). É uma cena sintomática de uma obra que nos imerge em experiências supostamente reais, mas que nos coloca numa posição quase passiva perante os incômodos que nos gera, seja intra ou extra diegeticamente. O filme parte das experiências autobiográficas da diretora Valeria Bruna Tedeschi para acompanhar este núcleo de jovens, que, além de Stella, inclui Étienne (Sofiane Bennacer), Àdele (Clara Bretheau), Victor (Vassili Schneider), Franck (Noham Edje), Anaïs (Léna Garrel) e vários outros. Nos seus melhores momentos, o filme captura o espírito livre, caótico e confuso destes jovens em meio ao tempo em que vivem (com a sombra da AIDS pairando sobre eles), à medida que eles são dirigidos por Chéreau na adaptação de Platonov, peça escrita por Anton Checkov quando ele tinha apenas 17 anos. Mas como o título em português indica, essa é muito mais uma história de amor e tragédia, entre Stella e Étienne, e é nisso que o filme peca e demonstra suas maiores fragilidades – e também contradições, as quais extrapolam a dimensão fílmica. Em novembro de 2022, o jornal Le Parisien publicou uma matéria onde várias mulheres acusavam Bennacer de abusos sexuais e físicos, o que levou à sua exclusão das premiações às quais o filme concorreu, enquanto vários cinemas cancelaram a exibição do longa. Tedeschi, que à época namorava Bennacer, foi acusada de criar um clima de silêncio no set para que não se falasse sobre os casos, e mais tarde confirmou que, embora tivesse consciência dos boatos em torno do ator, manteve sua escalação mesmo assim. Não sou simplista ao ponto de dizer que casos como esse demandam um boicote imediato ao filme (mesmo que a França tenha um histórico desfavorável de premiar agressores sexuais mesmo após as revelações dos casos de abuso e assédio), mas é muito difícil dissociar essa dimensão extrafílmica de Jovens Amantes da sua narrativa. Ao ver a performance de Bennacer – que faz de Étienne um personagem degradado, trágico, abusivo e que está sempre a gerar desconforto nas pessoas ao seu redor –, é quase como se Tedeschi quisesse usar as acusações contra seu namorado ao favor do filme, mas quando se tem ciência do que estava acontecendo nos bastidores e no mundo real, tudo o que se tem é uma sensação incômoda de pouca ou nenhuma empatia pelas vítimas, quase como se o filme fizesse piada da situação, como nítido em várias sequências em que os risos dos personagens se contrapõem à brutalidade dos momentos ali vividos, sejam reais ou encenados. Divulgação Não ajuda que o contexto em que esses personagens vivem é de constantes abusos (como o de Chéreau contra outro personagem) “legitimados” em nome da arte, mas que numa realidade pós-Me Too, ganham uma roupagem evasiva e covarde por parte de Tedeschi. Se o intuito da diretora é apresentar um retrato cru deste tipo de ambiente, isso pouco fica evidente: a imagem granulada, os closes nos rostos dos atores, a seleção de músicas pop em momentos específicos, tudo aponta para uma certa estilização saudosista desse momento da sua vida, independentemente do quão é real ou ficcional, quase como se devêssemos naturalizar essas rotinas de abusos como ela fez. É no carisma e na força do elenco que o filme se sobressai e ganha alguma vida. As interações, camaradagens e tensões entre os jovens, que ganham pelo menos um ou outro momento para brilhar (em especial, Bretheau foi para mim a grande revelação aqui), bem como a presença de veteranos como Garrel e Mischa Lescot, ajudam a trazer vivacidade para o filme mesmo quando este se assume burguês demais. Infelizmente, sua demasiada ênfase num romance cujo fim já sabemos de antemão e a sombra dos seus escândalos – da qual o filme nunca consegue, se é que quer, escapar – prejudicam e muito a possibilidade de nos conectarmos às memórias e experiências de Tedeschi. Nota: 2.5/5

  • Crítica | Superman

    Inofensiva, nova adaptação é leve, bem-humorada, mas repete a fórmula sem somar nem subtrair. Divulgação Acho interessante como o James Gunn se tornou algo próximo a um “autor” para algumas pessoas no tocante a filmes de heróis. Indubitavelmente ele mostra, desde os Guardiões da Galáxia (2014), ainda na concorrente, um domínio da linguagem narrativa dos quadrinhos filmada no melhor dos moldes comerciais de Hollywood, unindo humor e ação com personalidade. No entanto, ele gradativamente foi mostrando que suas qualidades também o limitam, pelo menos dentro do cinema (assisti ao seriado Pacificador recentemente e percebi que a estrutura de episódios dá um ritmo mais fluido para seus textos). De lá para cá ele se repetiu muito e não trouxe tantas variações e inovações na forma. Seu trunfo mais uma vez é no texto. Este é, até aqui, o Super-Homem mais humanizado em longas-metragens. O personagem sempre apresentou este conflito de identidade entre o homem e o ser de outro planeta, mas Gunn consegue expressar essas questões através de palavras e ações que não soam robóticas ou encapsuladas como em filmes anteriores. E o humor tem um papel fundamental nessa naturalização do questionador Kal-El. O roteiro apresenta uma proposta de introdução de um dos personagens principais num universo de heróis DC Comics previamente estabelecido, uma reapresentação, e isso traz boas oportunidades como a possibilidade de inserir novos personagens em novos contextos, mas por vezes parece lutar contra o próprio espaço diegético, buscando soluções tolas demais até mesmo para o tom da comédia. Ele tenta abordar elementos demais em pouco tempo que ao fim parece estamos vendo uma conclusão de algo que não vimos começar direito. Por fim, venhamos e convenhamos, é uma bobice que já foi repetida incontáveis vezes no cinema – e não só com este personagem – e que também se repete no longa mesmo buscando se justificar sempre que possível. Divulgação Gunn também foi esperto o suficiente em trazer um filme neutro mas que serve para o contexto que o espectador quiser inseri-lo dentro das suas convenções geopolíticas subjetivas. O roteiro parece se preocupar demais com imigração, guerras entre nações, brigas por territórios, ricões malvados, ataques em massa nas redes sociais, mas nunca encontra a abordagem correta de cutucar sem querer fazer piada, é uma sátira que não sai do papel, ou que até sai mas de maneira torta. O elenco é dedicado e ajuda bastante na construção do carisma e do bom-humor. David Corenswet parece confuso no personagem-título, e, de uma forma ou de outra, isso tornou seu trabalho excelente para vestir as roupas do herói no contexto deste filme. No mais, fiquei constrangido com várias escolhas que saíram diretamente dos quadrinhos, mas que filmadas parecem perder a força que o imaginário da figura estática evocava no leitor. O cachorro Krypto, a execução do universo compacto e o Baby Joey são alguns dos pontos que parecem deslocados e que me atrapalharam mais do que ajudaram a comprar a ideia do todo. É feito para os fãs e para quem não pensa demais em tudo que o cinema de heróis já passou até aqui. O Ávila de décadas atrás iria vibrar, hoje não me afeta mais, pelo menos positivamente. Nota: 3/5

  • “Queremos fazer com que o nosso cinema seja uma ferramenta de transformação social”: Conheça a produtora Segredo Filmes

    As produtoras Lilih Curi e Josi Varjão falam sobre a importância de pautar acessibilidade e protagonismo feminino nas telas. Divulgação Criada em 2013, a produtora audiovisual Segredo Filmes vem trilhando um caminho insurgente no cinema brasileiro. Com um olhar atento às urgências do presente, destaca-se por colocar mulheres no centro de suas narrativas e por fomentar debates sobre acessibilidade e justiça social, dentro e fora das telas. Em conversa com o Oxente Pipoca, as fundadoras Lilih Curi e Josi Varjão revisitam os primeiros passos da produtora e antecipam os lançamentos previstos para 2025. Falam também sobre os muitos entraves de se fazer cinema no Brasil e sobre o compromisso de abordar, em seus roteiros, temas que atravessam suas próprias vivências. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Primeiramente, eu gostaria de começar perguntando sobre como surgiu a Segredo Filmes. Como essa iniciativa se tornou real? Josi Varjão: Então, a Segredo Filmes nasceu em 2013. A gente tinha o desejo e a vontade de fazer filmes. Nós duas viemos do teatro, eu sou atriz na minha primeira formação e já tinha essa vontade de fazer cinema. A gente queria muito fazer filmes de questões autorais, questões que nos atravessam... Então, criamos a Segredo Filmes e já estamos indo para o décimo curta-metragem – todos com temáticas de gênero, deficiência e violência. E a gente começou fazendo cinema de uma forma natural, não foi algo muito intencional desde o princípio. A Lilih queria muito fazer um filme para mim, que eu atuasse, porque eu sempre era convidada para fazer filmes em que eu estava em uma condição de subalternidade. Eu, como uma atriz negra, sempre em lugares que eu não gostaria de estar. Então a Lilih pensou: eu vou fazer um filme e escrever um roteiro para você protagonizar, e não será nesse lugar. O primeiro roteiro que ela escreveu foi “Anastácia”. A gente tem esse curta e um projeto de longa-metragem também com ele. Lilih Curi: Sim. Durante o meu processo no teatro, eu sempre tive curiosidade em escrever os textos. Lia muitos clássicos e, enfim, tinha um trabalho forte com a dramaturgia clássica, mas sempre tive essa inquietação de querer falar com a minha própria voz. No cinema, eu senti essa possibilidade maior. Eu vi que existia um espaço em que eu pudesse roteirizar e dirigir as minhas próprias obras. No cinema, eu senti que eu poderia ser autoral, na realidade. Eu fiz o meu mestrado sobre narrativa visual nas obras de Frida Kahlo, então eu já tinha um estudo sobre narrativa e imagem. Essa conexão entre sonoridade, imagem e texto, tudo isso eu já estava trabalhando no mestrado. Na época anterior a isso, eu também atuava. Minha primeira formação é o teatro, gosto muito da atuação, inclusive, mas eu senti que precisava estar do lado de fora para construir essas narrativas. A gente veio desse processo. Então, quando eu via a Josi sofrendo determinados tipos de preconceito de gênero e de raça – porque tudo que era ofertado para ela como atriz não era nada empoderador – eu falei: então vou escrever para você. Foi ali que a nossa parceria começou. Quando eu comecei a escrever personagens para que a Josi interpretasse. Josi Varjão: E sempre a Lilih ficou nesse lugar do roteiro e da direção, e eu sempre acompanhando o processo, lendo todos os roteiros e trocando muita ideia. A gente é um casal, então a gente trabalha juntas e vive um amor também, então tem muita troca e muita confiança. É uma construção diária. Eu também sempre estive nesse lugar de assistente de direção, de colaboradora nos roteiros, de atriz… Lilih Curi: Sim, Josi também é diretora de casting, produtora de elenco… Então a Segredo Filmes nasce dessa urgência de a gente querer fazer com que as obras se tornassem reais. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): A Segredo Filmes já está no mercado há mais de dez anos. Vocês podem falar um pouquinho sobre os projetos iniciais e trazer um panorama sobre a fase atual da produtora? Lilih Curi: Os três primeiros filmes que a gente fez foram completamente sem nenhum real. Então Carmen, Teresa e Carolina foram assim. Carmen é a mulher que não foi escutada, Teresa é a mulher que foi esquecida, Carolina é a mulher que tomou partido de si mesma para não ser invisibilizada. Então a gente tem, nesses três primeiros filmes, uma mulher que sofre em um relacionamento abusivo até Teresa, que é uma mulher que foi esquecida na ilha, como várias outras mulheres que esperam seus maridos que viajam para o Sul e o Sudeste com a promessa de voltar e não voltam. Sobre Carolina, é um curta inspirado na história de uma amiga, Carolina Teixeira, que é dançarina, performer e pessoa com deficiência. Ela traz essa poética do corpo com a dança. A minha pesquisa sobre Frida Kahlo também se entrelaçou com esse projeto… Então, esses são os três primeiros filmes que a gente faz sem dinheiro. E aí depois vem Distopia, que a gente estreia no Festival de Brasília, durante a época da pandemia. A gente ganha o Prêmio Candango de Melhor Som e o filme viaja por vários lugares. Em todos esses filmes, Josi estava como preparadora de elenco, assistente de direção e na produção… A empresa foi sendo forjada ali no fazer. Josi Varjão: E Distopia é o nosso primeiro filme que não tem nome de mulher. Lilih Curi: Sim! Ele é o filme “menino”, vamos dizer assim. São temas muito delicados e sensíveis tratados neste filme. O primeiro tratamento do roteiro eu escrevi em Cuba, em 2012, quando faço Teresa. Então tem todo um processo laborioso na construção de um filme. Já em 2017, a gente ganha um edital do Ministério da Cultura, e foi a primeira vez que a gente esteve em um set de filmagem – e foi bárbaro, foi um processo lindo. Depois disso, acabei sendo convidada para dirigir alguns filmes em Salvador, e as coisas começaram a melhorar por causa dos editais. Josi Varjão: Depois, a gente faz Preciso Falar Sobre ELA, sobre o primo da Lilih, que tem Esclerose Lateral Amiotrófica. Fazemos esse trocadilho com o pronome “ela” e a sigla dessa condição. Lilih Curi: Como nós éramos conhecidas pelo cinema de gênero, muita gente achou que era porque a gente era casada [risos]. Então veio a surpresa de que era um filme urgente. Josi Varjão: Esse filme estreou agora no Canal Futura, a gente já aprovou esse filme em um edital de licenciamento, então ele vai estar disponível nas TVs públicas da Bahia. E, quando ele foi publicado na internet, que era uma das regras do edital, a gente conseguiu mais de 20 mil visualizações. Recebemos muitos depoimentos e ficamos muito felizes com o resultado. No filme, a gente não fala apenas da ELA, a gente fala da vida também, sabe? O personagem Marden resiste à doença há muitos anos. Ele até já passou do tempo “programado” das pessoas que têm a doença. E ele está na luta, vendo sua filha crescer, já publicou livro e estamos aí, rodando esse filme nos festivais. Ele está muito feliz em compartilhar essa história. Lilih Curi: Sobre os projetos novos, depois de Preciso Falar Sobre ELA, a gente finalmente tem a estreia de Anastácia. Na realidade, tivemos uma pré-estreia no Short Film Market do Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand, na França. Engraçado que o filme foi pensado lá atrás, mas agora que a gente está finalizando, conseguindo apoio e aprovação em edital. Josi Varjão: A gente foi amadurecendo o projeto também durante os anos. Fizemos uma pesquisa de dois meses em uma Instituição do Ministério Público – o GEDEN – e eu acabei ficando um ano fazendo essa metodologia de aproximação com mulheres que sofreram violência e denunciaram. Então, tudo isso foi essencial para a construção do curta e do longa também. E Anastácia é um filme sobre denúncia, acima de tudo. Sabemos que existe a violência contra a mulher, mas a gente quer levantar essa bandeira do ato de denunciar. Queremos fazer com que o nosso cinema seja uma ferramenta de transformação social. Lilih Curi: E dessa necessidade que temos, nasce também o filme Restauro, um filme sobre a ausência de fotografias de infância. É a primeira vez da Josi como diretora junto comigo. Josi Varjão: Em um primeiro momento foi desconcertante, mas entendi que faz parte. Fiquei muito feliz de dirigir pela primeira vez, e como se trata da minha história, foi bom experimentar isso. Aqui em Salvador, infelizmente, quando chove, muitas pessoas que moram na periferia... a água invade. Eu morava em uma casa de madeira, e essas fotografias que tínhamos foram se desmanchando. Então, acabou que virou uma homenagem à minha mãe, mas é um projeto que transforma a dor de não ter a memória registrada em papel. Lilih Curi: Esse filme está quase pronto [risos]. E ele nos fez rever nossas escolhas estéticas, a força da imagem e do som. A gente extrapola, somos muito livres no documentário. A gente explora a ficção também e vamos brincando com a linguagem. Então, Anastácia e Restauro estão na manga para estrear esse ano. Além dessas duas produções, temos Moira, que é um filme sobre a maternidade e a cegueira. O filme é baseado na história da nossa amiga Moira Braga e envolve a linguagem artística, juntamente com a dança e a maternidade. Josi Varjão: Ao todo, junto com Angélica, que é uma ficção sobre adoção, que vou atuar, e Menino, que é sobre a história de uma criança que nasce sem vida e o luto que é atrelado a isso, temos esses 10 projetos. Eu me formei como atriz e depois entrei para o curso de licenciatura. Eu gosto muito de ensinar e preparar. Então temos esse projeto chamado Jornada de Atuação, voltado para o preparo de audiovisual. Nosso foco é a produção de filmes, mas temos projetos de formação, distribuição, cineclubes e vários eventos educativos. Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): A Lilih comentou que, ao trazer histórias com mulheres no centro da narrativa e abordar temas como acessibilidade, isso não foi algo necessariamente intencional no início, mas surgiu de forma natural, por serem temas que ressoavam com vocês ao longo dos anos. De onde vem esse compromisso e como ele se reflete no dia a dia, especialmente ao contar histórias que muitas vezes são invisibilizadas no cinema e em outras formas de arte? Lilih Curi: Eu acho que é pelo próprio fato de sermos duas mulheres lésbicas e, também, pela questão de que meu pai, por exemplo, já utilizava aparelhos auditivos. Então, a questão da deficiência se perpassa pelo lado familiar do meu pai. Josi Varjão: E o meu pai teve um acidente de cavalo com 15 anos e passou um tempo andando de muletas. Então, quando a gente viu, estávamos fazendo filmes sobre questões relacionadas à deficiência e priorizando os filmes que pudessem ter recursos de acessibilidade. Fomos fazendo de forma natural e depois percebemos que havia questões pessoais ali também. Lilih Curi: Sim, e também questões relacionadas à violência. A gente via coisas nas telas, realizadas por homens, em sua maioria brancos, que objetificavam o corpo da mulher. E outras violências também, além de silenciamentos nos sets. Foi uma coisa progressiva. Em um primeiro momento, queríamos fazer um filme em resposta a essas agressões. O curta “Carmen” surge como uma resposta mesmo a esse tipo de situação. Josi Varjão: E hoje nosso set é majoritariamente feminino, preto, LGBT+ e com pessoas com deficiência. A gente se junta com os nossos para fazermos a diferença. Queremos trazer essas pessoas para áreas diversas, em todos os sentidos. É onde a gente se sente à vontade para criar. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Quais são os principais desafios que a Segredo Filmes enfrenta em todo o processo, desde a concepção das ideias até o lançamento dos projetos e a manutenção da produtora em atividade? Lilih Curi: O maior desafio é o fomento contínuo. A gente só está conseguindo fazer cinco curtas agora, depois de Preciso Falar Sobre ELA. Só conseguimos por causa da Lei Paulo Gustavo ou da Lei Aldir Blanc. Ainda bem que saímos de um lugar de inexistência da cultura, e acreditamos que conseguiremos dar vazão aos projetos que temos. Existe uma demanda muito grande de todos os tipos de conteúdo, porém é complexo, já que ainda não temos acesso ao “privado”, vamos dizer assim. Muita gente depende dos editais públicos, municipais e federais. Josi Varjão: Defendemos muito a questão das cotas para mulheres também. É importante, porque somos mais da metade da população, então não faz sentido as mulheres continuarem sendo subalternizadas na produção de conteúdos. Lilih Curi: A gente cada vez mais quer esse lugar de direito. Precisamos que meninas e crianças se vejam espelhadas, e não apenas espelhadas nas relações de mulheres com homens. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Na opinião de vocês, o audiovisual brasileiro está se encaminhando para um lugar mais diverso? Josi Varjão: Acredito que sim. Aos poucos, já consigo enxergar algumas mudanças em relação aos últimos anos. Viemos de um lugar de inexistência nos últimos tempos. Hoje, estamos fazendo filme sem guerrilha. Lilih Curi: Acredito que estamos no caminho. Está havendo um tempo de restauração de equipe, dos servidores públicos culturais e de tudo que a gente precisa tratar para que as políticas públicas aconteçam. A preocupação que a gente continua tendo, como uma produtora independente, é abrir espaço, mesmo com essas grandes empresas. Estamos lutando pela regulação do VOD e também pelas cotas para mulheres. A fatia desse grande queijo precisa ser melhor repartida. A indústria do audiovisual é riquíssima, gera emprego, então as pessoas precisam se acostumar com a ideia de que a cultura não é um luxo. Ela é tão importante quanto a educação. Um país sem cultura é um país sem identidade. Seguimos na luta. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para finalizarmos, gostaria que vocês indicassem filmes brasileiros, sendo eles curta ou longa-metragem, para a galera que acompanha o Oxente Pipoca. Lilih Curi: Eu vou recomendar um filme que vai ficar dois anos no Globoplay, autorreferencial, que é o Preciso Falar Sobre ELA. Acho que é muito importante a gente levar adiante essa luta, essa pesquisa e a luta de pessoas que vivem com doenças raras. Josi Varjão: Um que vou indicar é Homem com H, que fala sobre coisas que nos atravessam também. O Ney Matogrosso abriu caminhos para que as pessoas tivessem coragem de ser quem são. Lilih Curi: Eu também gostaria de indicar Pedágio. Nos identificamos com essa cumplicidade de um casal que constrói personagens fortes, que tratam da LGBTfobia, algo que nos atravessa muito. Eu amo também Pacarrete, do Allan Deberton, que é um amigo nosso. É fantástico. A Edileuza Penha de Souza também fez filmes que foram premiados. Ela é nossa protagonista em Teresa e agora é cineasta com O Vão das Almas. Josi Varjão: Sim, Mulheres de Barro também. Poderíamos ficar horas falando sobre amigos que fazem coisas muito interessantes. Marte Um… Enfim. São vários.

  • Novo longa de Sérgio de Carvalho e Pedro Von Kruger ganha sinopse e novas informações; confira

    Em conversa exclusiva com o Oxente Pipoca, o diretor de “Noites Alienígenas” deu mais detalhes sobre a produção do filme, intitulado “A Estirada” Divulgação Após o sucesso do longa acreano Noites Alienígenas – vencedor de cinco prêmios no Festival de Gramado em 2022 –, Sérgio de Carvalho está de volta com seu novo projeto. Intitulado A Estirada, o filme ganhou sinopse oficial, obtida com exclusividade pelo Oxente Pipoca em conversa com o próprio diretor. Você pode conferi-la abaixo: Na Amazônia, dois jovens liderados por um guerrilheiro do Sendero Luminoso transportam drogas por uma rota dominada pelo narcotráfico, atravessando a floresta e territórios indígenas, como o dos Ashaninka, que resistem à violência e à destruição. Entre ameaças externas e dilemas morais, a jornada os levará ao limite da sobrevivência e da redenção. Divulgação Coprodução da Saci Filmes, Eita Pau Produções e ComDomínio Filmes e com distribuição da Vitrine Filmes, A Estirada será codirigido por Carvalho e Von Kruger (diretor de fotografia de Noites Alienígenas), com produção executiva de Karla Martins e Samanta Sironi. No elenco já está confirmado Adanilo, que também trabalhou em Noites Alienígenas. A produtora e atriz Karla Martins é um dos grandes nomes envolvidos no longa. Com uma carreira construída fora do eixo, ela destacou em entrevista ao Mídia Ninja, que o que a inspira, como produtora, é "contar e visibilizar o lugar onde eu estou porque, de certa maneira, quando eu visibilizo meu território, eu visibilizo, também, de maneira macro, o país". Segundo Carvalho, a equipe de A Estirada está agora na Amazônia peruana, fazendo o processo de casting – em específico o elenco peruano – e pesquisa de locação. O filme será rodado em Cruzeiro do Sul, no Acre, nas aldeias Apiwtxa e Ashaninka, também no Acre, e em Pucalpa, no Peru. Divulgação Descrito pelo diretor como um “river movie”, a previsão para as gravações de A Estirada é entre o final deste ano e início de 2026. Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp

  • Análise | A 5ª temporada de "O Urso" precisa ser a última

    Com o anúncio da renovação oficial, resolvi analisar os erros e acertos da série durante seus quatro anos. Divulgação Depois de duas temporadas iniciais espetaculares, O Urso decaiu bastante em seu 3º ano e voltou aos eixos neste 4º que estreou agora, mas mostrou que não tem fôlego para muito mais. Quando estreou quietinha lá em 2022, não demorou muito para ser descoberta pela audiência após a aclamação da crítica especializada e muita gente ficou viciada na história do chef que volta para tentar salvar uma lanchonete herdada do falecido irmão. Os episódios agitados de meia hora, equilibrados com a tensão de comandar uma cozinha profissional – ou semiprofissional, na época – com personagens carismáticos e complexos foi a receita para o sucesso. Tinha seus momentos de comédia, mas a veia dramática sempre foi muito mais forte, e essa intensidade era sentida para além do roteiro. A direção deixava a adrenalina no teto e o perfeito exemplo disso é o irretocável sétimo episódio “Review”. A temporada encerra com um belíssimo e emocionante monólogo de Carmy, o protagonista de Jeremy Allen White. Neste ano de estreia, o foco é mais nele e em Syd (Ayo Edebiri), a relação dos dois – uma coisa meio Peggy/Don em Mad Men – e como ela é construída naquele ambiente, que já abria espaço para debater temas como luto e saúde mental, que são dois pontos basilares. A série ganhou o Emmy de Melhor Comédia e aflorou o debate: afinal, O Urso é uma comédia ou um drama de episódios de meia hora? Isto poderia render até outra análise, mas na minha visão, foi um dos motivos da queda de qualidade que falarei mais a frente. A 2ª temporada teve mais episódios e investiu seu tempo em expandir a história principal, desenvolvendo mais os coadjuvantes, como Marcus (L-Boy) e o primo Richie (Ebon Moss-Bachrach). Quando Carmy quis transformar a lanchonete em um restaurante, foi a deixa perfeita para a evolução da trama andar de mãos dadas com os personagens. A equipe precisava ser aprimorada e mesmo que Tina (Liza Colón-Zayas) e Ebra (Edwin Lee Gibson) não tenham – até então, pelo menos – episódios individuais como os fantásticos “Honeydew” e “Forks”, seus arcos também avançaram. A complexa relação de Syd e Carmy também ganha mais nuance, enquanto a cabeça do rapaz não consegue encontrar a estabilidade de comandar um restaurante e ter um relacionamento amoroso com Claire (Molly Gordon), seu amor de infância. É com “Fishes”, outro memorável episódio que adentramos de vez no caos da família Berzatto, físico e mental. Carmy, Michael (Jon Bernthal) e Nat (Abby Elliott) – que ganha mais visibilidade neste 2º ano – são colocados no olho do furacão de um jantar familiar liderado por sua mãe, Donna, interpretada por ninguém menos que Jamie Lee Curtis. O episódio e a temporada são recheados de participações especiais surpresas que serviam realmente a propósitos narrativos para além do choque. É uma temporada que conseguiu deixar o que funcionava no ano anterior ainda mais impressionante e elevou a série a outro patamar, como uma das melhores da atualidade. Divulgação Com O Urso no auge, a 3ª temporada estava rodeada de expectativas e, naturalmente, Christopher Storer, o criador da série, quis expandir ainda mais a série, o que não deu certo. Gosto bastante do primeiro episódio, silencioso, mas perturbador, ainda com o peso da morte de Michael sobre Carmy. No entanto, com exceção de mais dois belos episódios isolados, os ótimos “Napkins” e “Ice Chips”, desta vez focados em Tina e Nat, respectivamente, a série parecia estagnada e todos os outros sete episódios pareciam os mesmos. Carmy e Richie passaram a temporada toda com exaustivas discussões que partiam do nada a lugar algum e colocou em jogo a evolução de ambos, assim como o restaurante, que só apresentava mais problemas. Syd teve um arco iniciado, mas que só foi realmente desenvolvido de fato na temporada seguinte. O debate “é drama ou comédia” afetou a série como nunca e as tentativas de humor soaram forçadas, desesperadas e desnecessárias, perdendo qualquer sutileza e parecendo existir apenas para tentar manter-se na categoria de comédias do Emmy. O último episódio é um desastre, onde há uma reunião de chefs reais que pareciam não saber o que fazer diante das câmeras – e não têm que saber mesmo porque não são atores, então a culpa é de quem os colocou lá – e tudo parecia o mais engessado possível, com diálogos vergonhosos. E o estopim do enredo de Carmy com seu ex-chefe abusivo também não ajudou nada. Clichê do clichê. Todo mundo sabia que O Urso era capaz de mais. Felizmente, a 4ª temporada, que estreou semana passada no Disney+, parecia ciente dos erros da anterior e estava disposta a consertá-los. Storer deixou a trama principal mais centrada – mesmo pouco avançando – e conseguiu evoluir os personagens em consonância, exaltando o laço que une aquelas pessoas, seja de maneira mais intimista como no excelente episódio focado em Syd, intitulado “Worms”, ou de maneira mais expansiva como em “Bears”, a sétima hora que foi uma excelente quebra de expectativa. É óbvio que estávamos esperando o mais absoluto caos quando se sabia que a família estaria reunida em um só local – desta vez um casamento –, mas o que recebemos foi uma hora muito comovente que soou quase como um abraço. A temporada deixa a desejar com Tina, que mal teve um arco para chamar de seu, e com Claire, que a esta altura já deveria ter se mostrado menos perfeita e é isso que dificulta o envolvimento com a personagem individualmente. O casal não me incomoda e é bom ver Carmy finalmente resolvendo suas questões, seja com ela ou com sua mãe, principalmente. O último episódio é justamente sobre isso: colocar os pingos nos is, mas agora com os outros coprotagonistas, Syd e Richie. Se passa em um único cenário onde os três expõem tudo e é o mais caótico que chegamos perto. A decisão de Carmy de partir é uma ótima deixa para uma eventual última temporada, assim como a expansão da franquia pode ser um ponto chave para quem fica no restaurante – em uma trama onde Ebra teve a chance de brilhar, o que foi bastante satisfatório. A produção acaba de ser renovada para o seu 5º ano, ainda sem anúncio que seja o derradeiro, mas o terreno está preparado, e por mais que eu ame os episódios isolados da série, não dá para se valer só deles para manter no ar se não houver um propósito para que eles existam. Concentrar-se em contar uma boa história que sabia para onde ir parecia claro nos anos iniciais, mesmo com o desvio no 3º, o 4º reacendeu a chama do que parece ser uma direção para o fim e o que não pode acontecer é transformar uma série tão promissora, que não tinha essa pretensão, de ser apenas mais uma sobre um ambiente de trabalho, que se contenta em repetir o que deu certo no passado. É melhor terminar cedo e figurar entre as grandes do que ser engolida e cair no esquecimento.

  • Crítica | O Urso (4ª temporada)

    Em temporada sobre reconstruções e curas de laços, série permanece fiel a si mesma e ao amor que nutre por seus personagens. Divulgação Teria sido muito cômodo para O Urso permanecer ancorada no caos indutor de ansiedade pelo qual sua primeira temporada se tornou tão conhecida. Mas a série se propôs a ser algo mais a partir da segunda temporada, relegando este caos a momentos específicos enquanto buscava explorar mais e mais as nuances de seus personagens e do seu cotidiano. Nem sempre esse esforço foi tão bem-sucedido (a terceira temporada, mesmo estando bem acima da média que as pessoas lhe dão crédito, ainda tem seus tropeços), mas neste quarto ano O Urso paga seus dividendos ao trazer uma temporada que aposta em reconstruir laços danificados, em oferecer a possibilidade de paz a indivíduos que sequer souberam experimentá-la em suas vidas. Partindo do suspense que fechou a temporada passada, sobre a crítica culinária que poderia definir o futuro do The Bear, esta quarta temporada busca apresentar mudanças a praticamente todos os personagens, que reavaliam não apenas seus lugares no restaurante, mas em suas vidas como um todo. Seja Carmy (Jeremy Allen White) ponderando sobre sua conduta enquanto chef e os traumas com o qual não quer lidar; Syd (Ayo Edebiri) ainda presa entre a oferta de ir para um novo restaurante ou permanecer lidando com o The Bear, bem como desafios familiares; Richie (Ebon Moss-Bachrach) lidando com o casamento de sua ex-esposa e seu lugar no The Bear; Marcus (Lionel Boyce) e Tina (Lisa Colón-Zayas) buscando se superar em suas habilidades; e muitos outros. Praticamente todos os personagens principais e coadjuvantes estão em um ponto de inflexão que pode definir o restante de suas vidas. Uma das principais críticas que vejo à O Urso é o pouco avanço da sua trama principal, crítica esta acentuada na última temporada. Mas sempre enxerguei a série como um estudo de personagens (e, mais especificamente, personagens que lutam contra ciclos de abusos e traumas que duram uma vida toda) de modo que, se a narrativa parecia não avançar, era porque esses personagens não conseguiam avançar e superar seus demônios. Esta talvez seja a maior diferença entre a quarta temporada e a terceira, especialmente quando se pega a jornada do próprio Carmy: onde no ano passado víamos o personagem praticamente estagnado em sua vida profissional e pessoal, afundando e levando outros consigo, aqui vemos o início de uma jornada de cura que passa antes de tudo pela comunicação. A maneira como Jeremy Allen White dá pausas, engasga, explode e depois se retrai à medida que expõe sentimentos brutais contra os quais lutou por muito tempo é uma verdadeira aula de atuação, e facilmente relacionável para quem aprendeu a internalizar suas emoções mesmo que ao custo da própria saúde mental. Da mesma forma, Ayo Edebiri mostra mais uma vez que é uma das maiores da sua geração, com um timing cômico e dramático impecável. O episódio roteirizado por ela e Lionel Boyce (“Worms”) é um dos grandes destaques da temporada, sendo a merecida vitrine que a personagem merece, junto com o seu monólogo devastador que ela entrega no sexto episódio (“Sophie”). Há algo na relação de Syd e Carmy que transcende laços filiais ou mesmo românticos, e quando chegamos ao último episódio podemos ver o quanto essa dinâmica entre os dois evoluiu de um mentor e protegida para dois iguais que se complementam de maneiras que apenas um shipp jamais daria conta. Poderia falar muito mais de cada personagem, mas a verdade é que, em meio à discussão interminável (e, sinceramente, um bocado estúpida), sobre se O Urso é um drama ou uma comédia, a série permanece fiel a si mesma ao focar e confiar no seu elenco e nos personagens aqui retratados. Seja num episódio como o sétimo – que, sem dar maiores spoilers, é uma espécie de anti-“Fishes”, aquele do jantar da segunda temporada –, em momentos singelos como o anúncio de um chef novato destaque, uma mensagem de áudio para dar força a alguém numa situação difícil, uma neve falsa para agradar a uma cliente que acabou de vencer um câncer, ou na verbalização de sentimentos há muito reprimidos, a série entende que são os laços entre as pessoas, as famílias que formamos (para muito além da nossa família de sangue), que nos sustentam nessa vida mesmo nos piores dias. Divulgação A má repercussão da terceira temporada pode enviesar a maneira como muitos verão essa, mas tem-se aqui uma série que aprendeu com seus erros tanto quanto seus personagens aprendem com os deles. Nem tudo é devidamente superado – há momentos em que ela se rende demais aos seus vícios técnicos e plásticos, um ou outro núcleo parece se repetir e alguns personagens parecem um pouco escanteados –, mas mesmo em suas imperfeições O Urso segue sendo uma primazia da televisão contemporânea. Drama, comédia, drama cômico, comédia dramática: sinceramente, por que se importar tanto com isso? É boa televisão, ancorada em um texto excelente, atuações marcantes, esplendor técnico e uma compreensão e reiteração de seus pontos fortes que fazem desta quarta (e talvez penúltima) temporada outro grande acerto. Nota: 4.5/5 Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp

  • “Quem sabe um filme assistido aqui não transforme a vida de alguém?": Andrei Ferreira comenta expectativas para a 4ª edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana

    Idealizador e coordenador geral do evento fala sobre a programação deste ano e o futuro do audiovisual sergipano. Divulgação Entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, a cidade de Itabaiana se transforma em palco para a 4ª edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana. Com mais de 80 produções selecionadas, entre curtas e médias-metragens, o evento vem se consolidando como um espaço importante na difusão do audiovisual no interior sergipano. O festival tem como propósito descentralizar o acesso à cultura, promover o intercâmbio entre realizadores de diferentes regiões e impulsionar a produção cinematográfica sergipana, especialmente fora da capital. Em conversa com o Oxente Pipoca, o idealizador e produtor Andrei Ferreira fala sobre os caminhos já trilhados pelo festival, os critérios de curadoria e suas expectativas para o futuro do evento. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): O Festival de Cinema de Itabaiana está se encaminhando para sua quarta edição. Como você vê a evolução do festival nesses anos? Ele se transformou como você imaginava? Andrei Ferreira: Bom, vejo o festival em uma evolução muito positiva, especialmente em relação ao reconhecimento do público, mas não só isso. Um festival de cinema é um evento diferente de outros, como festivais de música, por exemplo, que atraem pelas atrações que estão no palco. Um festival de cinema tem uma característica própria: formar público. Geralmente, os cineastas que participam não são agentes culturais locais, são de fora. Estava até lendo um livro da Spcine sobre a Mostra de São Paulo. A diretora da Spcine está desde a quarta edição, e ela relata que a Mostra só se consolidou como o que é hoje depois da 16ª edição. E estamos falando do maior evento de cinema do país. Sofremos muito entre 2019 e a pandemia, e só conseguimos voltar com força mesmo no ano passado. Fizemos duas edições seguidas – 2024 e 2025 – e isso muda tudo. O público já tem outra expectativa, cineastas de fora já demonstram interesse em vir… Ter um festival que conquista certa notoriedade e continua acontecendo ano após ano é o mais importante. Formar público leva tempo, mas já vemos uma grande diferença da primeira edição para esta. A expectativa das pessoas é outra, e isso nos deixa muito felizes. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Como funciona o processo de curadoria? Há algo que o público talvez não saiba sobre os bastidores da seleção? Andrei Ferreira: Acho que o nosso festival, junto com a Janela Internacional de Recife, é um dos únicos festivais internacionais do Nordeste. Isso já diz muito. Mesmo recebendo apenas curtas e médias-metragens, o festival tem uma proposta bem diferente dos outros da região. Trazer filmes de fora muda bastante o processo de curadoria, porque precisamos pensar em temáticas que envolvam não apenas nosso estado ou país, mas o mundo. Buscamos filmes com linguagens universais, que sejam interessantes e relevantes para a sociedade. Além disso, tentamos fazer com que os filmes dialoguem entre si. A programação do Festival de Itabaiana reflete esse pensamento curatorial. Não fazemos sessões separadas apenas para filmes internacionais, brasileiros ou sergipanos. Acreditamos que as culturas devem, em algum momento, se interseccionar, permitindo comparações. É muito importante que os filmes estejam misturados nas sessões. Cultura é isso: troca de experiências. Faz sentido que diferentes filmes estejam juntos, pois podemos nos identificar com o outro, mesmo que ele não compartilhe nossa nacionalidade, cultura, crenças ou hobbies. Nossa curadoria tem muito esse olhar. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Como você enxerga o papel de festivais de cinema fora do eixo Rio-SP no cenário audiovisual nordestino e brasileiro? Andrei Ferreira: Pergunta interessante. Quando pensei nesse festival, eu era aluno de Cinema, estava no terceiro período. Já no primeiro e segundo semestres da faculdade, tinha feito alguns filmes e comecei a inscrevê-los em festivais. O próprio curso de Cinema não tinha uma cultura de festivais. Era um curso que formava os alunos tecnicamente e teoricamente para o meio acadêmico e comercial, mas as pessoas não viam o que era produzido na UFS. Então, se nem isso era visto, será que acompanhavam o cinema sergipano? E até mesmo o cinema brasileiro, quando não é um filme feito com 5 milhões de reais, o que pra gente é extraordinário, mas que para outros países é pouco? Eu, sendo do interior, junto com um colega de sala também de Itabaiana, percebíamos que o interior não era visto como espaço de produção audiovisual. O que é estranho, porque em todos os outros estados do Nordeste existem festivais no interior, e Sergipe não tinha. Além disso, pensamos em descentralizar a produção audiovisual e levar o festival para um lugar com poucos eventos culturais. Por que não fazer isso no interior, se a capital já tem três festivais? Outro objetivo é fazer com que os produtores pensem cultura como algo possível, algo com que se pode trabalhar e viver. O festival tem essa missão de descentralizar os espaços culturais e impulsionar a produção audiovisual sergipana no interior, onde quase não se produzia. Queremos oferecer ao interior um evento grande e importante, que as pessoas se sintam parte, se identifiquem e passem a ver o interior sergipano como palco de eventos culturais. Temos 75 municípios, não podemos ficar focados em um só. Ainda existe essa visão de que o eixo Rio-SP é o único lugar onde as coisas acontecem, mas é fundamental que os festivais nordestinos, que estão ganhando visibilidade, mostrem que temos grandes eventos por aqui. E muitos deles feitos no próprio Nordeste. Temos o Cine Ceará, o Cine PE em Pernambuco, o Panorama na Bahia voltando com força, o Festival de Penedo em Alagoas, a Aruanda na Paraíba, a Mostra de Cinema de Gostoso no RN… e também Guarnicê, um dos mais antigos do Brasil. Então, é importante não só que o Brasil veja o Nordeste como espaço de produção, mas que o próprio nordestino veja isso. Que ele entenda que não precisa sair da região para fazer seu filme acontecer. Uma coisa que sempre falo é que nós, cineastas sergipanos, não devemos ir a um festival só quando temos um filme exibido. Devemos ir para prestigiar outros realizadores. Quando fazemos essa difusão, conseguimos criar uma identidade para o cinema sergipano. E a partir disso, vender Sergipe como locação de filmes também. Canindé já tem certa notoriedade. Guerreiros do Sol foi gravada lá, mas há muitos lugares interessantes que ainda não foram explorados. A Serra de Itabaiana, por exemplo, seria incrível. Temos muitos locais bacanas para filmar. Então, esse processo começa com difusão e reconhecimento, tanto do público quanto dos próprios cineastas. Isso é fundamental. Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Andrei, queria perguntar quais são os futuros planos e expectativas para o Festival de Cinema de Itabaiana? Andrei Ferreira: Para esta edição, esperamos que o público compareça e que os próprios cineastas participem. Estamos com muita expectativa. Montamos uma programação bem legal e esperamos que as pessoas se identifiquem, assistam, compartilhem. Batemos recorde de filmes exibidos: são 85 filmes de 20 países diferentes, entre curtas e médias-metragens. Estamos muito felizes com o resultado. Expandimos a programação com sessões noturnas, traremos debates, um seminário sobre políticas culturais… Enfim, entregamos o máximo com os recursos que tínhamos. Eu estava até comentando com um colega; a produção do festival já está finalizada, agora é esperar acontecer. Para as próximas edições, temos ideias muito bacanas, como laboratórios de roteiro e um fórum de discussão não apenas para quem faz cinema, mas para quem trabalha com cultura em geral. Há muitos planos legais vindo por aí. A maior expectativa é a participação do público, que as pessoas gostem, voltem e tragam mais gente nos próximos anos. Às vezes, o festival gera frutos que a gente nem espera, como foi o caso do Tácio. É ele quem vai guiar nossos debates nesta edição. Ele estava na primeira sessão, era uma pessoa que gostava muito de cinema, mas depois criou um canal e um cineclube de cinema – o Cine Varanda. Agora, ele também trabalha com cinema de arte e motiva as pessoas a irem ao evento. Uma das temáticas deste ano é “O Cinema Transforma”, então essa é a missão. Quem sabe um filme assistido aqui não transforma a vida de alguém? Se isso acontecer, já teremos cumprido nosso objetivo. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): E, para finalizar a nossa entrevista, vou pedir que você indique três filmes para a galera que acompanha o Oxente Pipoca. Andrei Ferreira: Eu assisti esse filme ano passado no Festival Panorama e ele está na minha cabeça até hoje. Estranho Caminho, do Guto Parente. É um filme que trabalha um cinema de autoria e autorretrato, muito lindo e acho que todo mundo deveria assistir. Também vou recomendar o curta White Eye, feito em 20 minutos de plano sequência e é um dos filmes mais bonitos que já vi. E por fim, vou indicar o longa The Rescue, sobre os meninos que ficaram presos na caverna da Tailândia, acho que está no mais alto nível do documentário, feito de uma forma diferente do usual.

  • Crítica | Jurassic World: Recomeço

    Recomeço da saga jurássica (em todos os sentidos) diverte ao se colocar de volta no subgênero de animais assassinos. Divulgação Jurassic World: Recomeço acompanha Zora Bennett (Scarlett Johansson), uma especialista em operações secretas que lidera uma missão arriscada para coletar material genético de dinossauros em uma ilha remota e perigosa. O local, outrora um centro de pesquisas do Jurassic Park, abriga espécies deixadas para trás, incluindo três colossais criaturas cujo DNA contém uma substância de valor inestimável. Não sejamos hipócritas em achar que o sétimo filme de uma franquia que já dura mais de 30 anos vai trazer alguma novidade para o jogo a essa altura do campeonato. Então por mais que este filme prometa ser um recomeço explicitamente tem-se que levar em consideração que por nenhum meio esta é uma história original, posto também que é uma continuação dos longas anteriores. É um enredo que repete erros e acertos de seus antecessores. Então mesmo o aguardado retorno de David Koepp (responsável pelo texto do filme original) ao roteiro não traz tanto frescor à narrativa naturalmente limitada e, assim como os animais, enfraquecida pelo tempo. Dito isto, é animador ver os dinossauros inseridos outra vez como monstros em vez de filme “pet friendly". Isso trouxe de volta a aventura e o suspense dos anos 90 que haviam se perdido nos mais recentes numa tentativa de humanizar e sentimentalizar os grandes répteis como se não fossem grandes erros humanos movidos pelo capitalismo (como quase todos). É a direção de Gareth Edwards e o carisma do elenco que são os principais responsáveis por acertarem o tom da dinâmica. Recentemente o cineasta britânico dirigiu Resistência (2023), uma ficção científica polida e densa demais para ser aproveitada, e desde o seu Godzilla (2014) que mostra traços comuns em seu estilo de filmagem que aparecem aos montes aqui. Cores saturadas em filtros de amanhecer e entardecer, cores saturadas em fumaças espaçadas que escondem personagens e objetos e planos abertos mostrando cenários de grande escala são apenas alguns deles. Edwards sabe trabalhar com o macro, sabe trabalhar o detalhe numa perspectiva distante, e adora se exibir com isso (nos melhores dos sentidos), logo o gênero “grandes aventuras caras” provavelmente sempre vai servir muito bem a ele. Divulgação Quanto ao elenco, Scarlett Johansson e Jonathan Bailey sabem exatamente as roupas que precisam vestir para cumprir a missão de conduzir este filme, sem mais nem menos. Todos os nomes que orbitam ao redor destes dois também fazem o feijão com arroz necessário para o minimamente bom desempenho do todo, até mesmo os nomes que compõem o elenco com a mera função narrativa de morrer. Se esforçando para olhar como um produto isolado de seu contexto mercadológico, Jurassic World: Recomeço consegue ser um filme resoluto e bem resolvido, levando em consideração todos os contrapontos já citados. Mas quando se para para analisar que virão incontáveis outros filmes para extrair leite de uma pedra que já não consegue fornecer muita sustância, ele se mostra um recomeço já cansado. Nota: 3/5

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