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- Crítica | Dentro da Baleia
Entre o ventre de uma baleia e as feridas de uma relação paterna, longa transforma uma aventura de sobrevivência em uma reflexão sobre luto, memória e os laços entre pais e filhos. Imagem: Divulgação Desde quando eu era mais nova, lembro que uma das coisas que mais me impressionavam em Pinóquio era aquele momento em que Gepeto era engolido por uma baleia. A imagem daquele homem preso na barriga de uma criatura gigantesca, em um lugar escuro e aparentemente sem saída, sempre me pareceu uma das passagens mais assustadoras de uma história que, à primeira vista, era apenas uma aventura infantil. Mas, para além do medo e do fascínio pelo desconhecido, havia algo ainda mais interessante naquela sequência: a jornada de Pinóquio para encontrar o pai e resgatá-lo de um destino aparentemente inevitável. O tempo passou, mas essa parte da história permaneceu na minha cabeça. E, curiosamente, Pinóquio também é uma história sobre a relação entre pai e filho. É justamente por esse caminho que segue Dentro da Baleia, novo longa de Brian Duffield, que chega aos cinemas brasileiros em 15 de outubro. Aqui, porém, a situação ganha contornos mais dramáticos: em vez de um boneco de madeira que se aventura para salvar o pai, temos um jovem que precisa enfrentar o luto e as contradições de uma relação familiar que nunca foi exatamente simples. Baseado no livro homônimo de Daniel Kraus, o filme acompanha Jay Gardiner (Austin Abrams), um jovem mergulhador que vai à costa da Califórnia em busca dos restos mortais de seu pai, Mitt (Josh Brolin). Durante a expedição, ele acaba engolido por um cachalote de proporções gigantescas. Com apenas uma hora de oxigênio disponível, Jay precisa encontrar uma maneira de escapar antes que seja tarde demais. Em meio à luta pela sobrevivência, as lembranças e os ensinamentos do pai passam a ocupar um espaço central em sua jornada. O que começa como um suspense de sobrevivência se transforma, assim, em uma tentativa de compreender uma relação marcada por conflitos, ressentimentos e afetos difíceis de elaborar. Ao mesmo tempo em que senti curiosidade quando descobri a premissa do longa, também tive certo receio. Afinal, construir uma narrativa em que um personagem fica preso dentro de uma baleia exige um equilíbrio delicado entre o absurdo e aquilo que conseguimos aceitar como espectadores. Como sustentar quase toda uma história em um espaço tão improvável sem que a situação se torne caricata? Felizmente, Dentro da Baleia encontra um meio-termo interessante entre essas duas dimensões. Embora não abandone completamente o caráter extraordinário de sua proposta, o filme procura estabelecer uma sensação de perigo e urgência que nos mantém envolvidas na tentativa de Jay de escapar. Não estamos diante de uma produção que depende exclusivamente do espetáculo de monstros gigantes perseguindo seres humanos. A ameaça aqui é muito mais íntima, ainda que se manifeste por meio de uma situação extrema. O cachalote é uma presença imponente, mas a tensão não nasce apenas de seu tamanho ou dos riscos físicos que representa. Ela também vem da percepção de que Jay está isolado, com recursos limitados e sem a possibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar quando as coisas ficam difíceis. Outro aspecto interessante é a maneira como o filme evita transformar a natureza e os próprios animais em vilões. Em um gênero que frequentemente coloca o ser humano no centro de tudo, como se o mundo natural existisse apenas para ameaçá-lo, há algo interessante na ideia de que o oceano não precisa ser maligno para ser perigoso. O cachalote não age como um monstro que persegue deliberadamente o protagonista. Ele faz parte de um ecossistema cujas dimensões e cujo funcionamento ultrapassam a compreensão e o controle humanos. Essa perspectiva ajuda a construir uma relação mais interessante entre o personagem e o ambiente em que está preso. Jay não está enfrentando necessariamente uma criatura que deseja destruí-lo, mas uma circunstância extraordinária na qual sua sobrevivência depende de reconhecer os próprios limites. É uma diferença importante, porque desloca o conflito da tradicional oposição entre homem e natureza e reforça a fragilidade de quem acredita ter controle sobre tudo. Ainda assim, a baleia acaba ficando em segundo plano diante daquilo que realmente move a história: a relação falida entre pai e filho. A situação funciona como um dispositivo narrativo para colocar os dois frente a frente, mesmo depois da morte de Mitt. Por meio das lembranças de Jay, o filme reconstrói a presença paterna e revela como os ensinamentos, as cobranças e as contradições do pai continuam influenciando a maneira como o protagonista enxerga a si mesmo e o mundo ao seu redor. É aqui que a comparação com Pinóquio ganha força. Na história clássica, o interior da baleia é o lugar em que pai e filho finalmente se reencontram, e a aventura de resgate se transforma em uma demonstração de afeto e coragem. Em Dentro da Baleia, a lógica é mais amarga. Jay não pode simplesmente reencontrar o pai e resolver tudo o que ficou pendente entre eles. O que resta é reconstruir essa relação a partir das memórias, tentando separar aquilo que aprendeu com Mitt daquilo que precisa superar para seguir em frente. A baleia, portanto, não é apenas o cenário de uma aventura improvável. Ela se transforma em uma espécie de espaço de confronto com o passado. Preso em seu interior, Jay precisa lidar com as marcas deixadas por uma relação que continua existindo mesmo depois de seu fim. O confinamento físico funciona como uma metáfora para esse aprisionamento emocional, enquanto a luta para escapar também se relaciona à possibilidade de encontrar um caminho próprio. Mitt é um personagem particularmente interessante justamente por não ser construído de maneira simples. Em diversos momentos, sua postura diante do filho é rude, e algumas de suas atitudes provocam mais irritação do que compreensão. Ao mesmo tempo, o filme apresenta discursos sobre o universo, a existência e o lugar dos seres humanos no mundo que fazem sentido dentro da visão de mundo do personagem e dialogam com questões contemporâneas. Essa combinação torna a figura paterna mais complexa, ainda que nem sempre convincente em todas as suas manifestações. O problema é que, em alguns momentos, o roteiro parece interessado demais em justificar ou explicar essa relação. A insistência em construir uma ligação emocional entre pai e filho acaba fazendo com que determinadas passagens soem exageradas, como se o filme precisasse nos lembrar constantemente da importância daquele vínculo. Acredito que a história ganharia força se confiasse um pouco mais nas contradições dos personagens e deixasse algumas emoções respirarem sem a necessidade de reforçá-las por meio de discursos. Mesmo assim, a proposta funciona na maior parte do tempo. A relação entre Jay e Mitt não precisa ser perfeita ou mesmo saudável para ser significativa. Pelo contrário, parte do interesse está justamente na dificuldade de conciliar o amor por alguém com o reconhecimento de suas falhas. Há relações familiares em que o afeto não elimina a mágoa, e a morte tampouco resolve os conflitos que ficaram para trás. O longa encontra nessa contradição um de seus elementos mais interessantes. As atuações ajudam a sustentar esse drama. Austin Abrams entrega um bom trabalho como Jay, transmitindo a vulnerabilidade de alguém que precisa lidar simultaneamente com o perigo físico, o luto e as lembranças de uma relação complicada. O ator consegue manter o interesse mesmo quando o filme depende quase exclusivamente de sua presença em cena, algo essencial para uma narrativa tão concentrada em um único protagonista. Josh Brolin também merece destaque. Mesmo com a presença de Mitt mediada pelas lembranças do filho, o ator constrói uma figura marcante, capaz de despertar sentimentos contraditórios. Sua interpretação ajuda a dar consistência a um personagem que poderia facilmente se tornar apenas uma representação genérica da figura paterna autoritária. A dinâmica entre os dois atores é fundamental para que o conflito emocional não desapareça diante das exigências do suspense. Imagem: Divulgação É verdade que algumas escolhas dos personagens provocam raiva, especialmente quando parece evidente que determinadas atitudes poderiam ser evitadas. Ainda assim, considero interessante como o filme consegue preservar certa credibilidade emocional mesmo quando sua premissa se aproxima de situações difíceis de imaginar. Não é necessário acreditar que tudo aquilo aconteceria exatamente daquela maneira, mas é importante compreender o que está em jogo para Jay. E, na maior parte do tempo, o longa consegue estabelecer essa conexão. Visualmente, Dentro da Baleia também encontra boas soluções para transmitir a sensação de confinamento. Apesar de grande parte da narrativa se passar no oceano e no interior do animal, as texturas ajudam a construir um ambiente desconfortável, úmido e sufocante. A fotografia e a composição das imagens contribuem para a sensação de agonia, fazendo com que o espaço pareça cada vez mais hostil à medida que o tempo de sobrevivência diminui. Por outro lado, algumas escolhas prejudicam a experiência. Em determinados momentos, a escuridão excessiva dificulta a visualização do que acontece em cena, comprometendo justamente a imersão que o filme tenta construir. O uso de voice-over também me incomodou, sobretudo quando parece sublinhar sentimentos e ideias que já poderiam ser transmitidos pelas imagens e pelas atuações. Em uma história tão dependente da experiência física e emocional de seu protagonista, explicar demais pode diminuir a força daquilo que deveria ser sentido. No geral, Dentro da Baleia é um bom filme de sobrevivência, capaz de oferecer entretenimento sem abrir mão de uma dimensão dramática mais profunda. Mesmo com alguns excessos e escolhas narrativas que nem sempre funcionam, Brian Duffield encontra uma maneira interessante de transformar uma premissa improvável em uma história sobre luto, memória e relações familiares. O resultado deve agradar especialmente a quem gosta de narrativas de sobrevivência, mas também oferece material para quem se interessa pelas contradições dos vínculos afetivos. No fim, talvez seja justamente por isso que a lembrança de Pinóquio faça tanto sentido aqui. Quando eu era mais nova, o que me impressionava era a imagem de Gepeto engolido por uma baleia, preso em um lugar impossível de imaginar, enquanto seu filho precisava encontrar coragem para salvá-lo. Em Dentro da Baleia, essa imagem ganha outro significado: não é mais apenas a história de um filho que precisa resgatar o pai, mas a de alguém que, mesmo depois de perdê-lo, ainda precisa descobrir como continuar vivendo com tudo o que aquela relação deixou para trás. Nota: 4/5
- Crítica | Talismã (Festival do Rio 2026)
Exibido no Festival do Rio 2026, o longa de Thaís Fujinaga, premiado como melhor direção na mostra Novos Rumos, transforma um reality show de talentos mirins em espelho das frustrações de uma mulher. Imagem: Divulgação O que pensar de um longa que mistura Pequena Miss Sunshine com Lady Bird, só que com a mãe como protagonista? Em Talismã, da diretora Thaís Fujinaga, essa combinação deixa de ser hipótese e vira realidade na tela. Protagonizado por Fernanda Chicolet, Sophia Fuggacy, Stepan Nercessian e Allan Souza Lima, o filme acompanha Tereza (Chicolet), mãe solo e professora de dança, cuja rotina muda quando a filha, Pina (Fuggacy), entra em um reality de talentos mirins e passa a sonhar com a final no Rio de Janeiro. Enquanto ajuda a menina nos ensaios, Tereza começa a reencontrar desejos que havia deixado para trás. Diante de uma infância fragilizada pelo "abandono" do pai, que na fase presente do enredo já se vê mais próximo da neta, por iniciativa da própria, ela enxerga na filha, mesmo que tardiamente, a oportunidade de ver realizados os sonhos que lhe foram arrancados. A pergunta que a história faz é até onde vai o desejo de uma e onde começa o da outra. Com estreia nacional no Festival do Rio 2026, Talismã saiu da mostra Novos Rumos com o prêmio de melhor direção, e a conquista é um reconhecimento justo ao trabalho de Thaís Fujinaga. O longa mostra que, por mais americanizadas que certas narrativas soem, a brasilidade dá a elas um brilho a mais, e é isso que chama a atenção desde o início. A mistura de sotaques cariocas e gaúchos, o funk brasileiro, a torcida apaixonada do público e o companheirismo entre os personagens tornam a história tão acolhedora que a montagem, mais simples, muitas vezes passa despercebida. O trabalho da diretora é claramente competente, mas nem tudo funciona. Algumas sequências constroem uma expectativa crescente que não se paga, e o retorno emocional fica abaixo do prometido. Ainda assim, suas escolhas sustentam um retrato cru e frustrante de uma mulher privada do próprio protagonismo. Idealizadora do projeto, Fernanda Chicolet entrega uma atuação segura como uma mulher cheia de ideais pessoais, que não percebe que ser mãe talvez fosse o mais importante deles naquele momento. Tereza é uma dançarina que nem nas aulas, ao lado do parceiro na dança e na vida (vivido pelo igualmente competente Allan Souza Lima), ocupa o centro da cena. Em planos cotidianos e íntimos, a atriz transmite com precisão a dúvida constante sobre até onde vai o sonho dela e onde começa a vontade da filha. O grande destaque, porém, é Sophia Fuggacy. A espontaneidade e a delicadeza de uma criança sincera, encantadora e sem papas na língua são o maior trunfo do filme. Apesar da pouca idade, a atriz mirim contracena em pé de igualdade com nomes consagrados como Stepan Nercessian, num papel acolhedor de avô dedicado e pai arrependido. Em momentos potentes e firmes, ela reafirma o peso da figura materna aos olhos de uma garota. Imagem: Divulgação No fim, Talismã põe em contraste a exposição de uma criança e uma aspiração coletiva. A trilha sonora ilustra bem isso ao colocar uma menina diante de músicas geralmente associadas a outra faixa etária. A direção, suave e sensível, também mostra o quanto a exposição às redes sociais pode ser prejudicial e reveladora. Para Tereza, a convivência com artistas que não são verdadeiramente reconhecidos vira o ponto de virada. Ela percebe que resgatar a relação com a filha era o que realmente importava, algo que, tristemente, ela não conseguiu fazer com o próprio pai. Nota: 4\5
- Olivia Wilde pode alcançar feito inédito entre mulheres no Oscar 2027 por ‘O Convite’
A atriz e diretora pode se tornar a primeira mulher indicada ao Oscar por uma atuação em um filme que ela própria dirigiu Divulgação Caso seja indicada ao Oscar de Melhor Atriz por 'O Convite', Olivia Wilde se tornará a primeira mulher a receber uma indicação de atuação por um filme que ela própria dirigiu. O feito já aconteceu 20 vezes entre homens ao longo da história da Academia, segundo levantamento do AwardsWatch. A lista de homens começa ainda nos primeiros anos da premiação. Leslie Howard foi indicado por 'Pygmalion', enquanto Charlie Chaplin concorreu por 'O Grande Ditador' e Orson Welles por 'Cidadão Kane. Mais recentemente, nomes como Bradley Cooper também conseguiram esse feito. Agora, quase um século depois da criação do Oscar, Wilde pode finalmente colocar uma mulher nesse grupo. Em O Convite, adaptado do longa espanhol Sentimental, o filme se concentra exclusivamente em dois casais, Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde) e Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), ao longo do jantar cada vez mais desastroso que se desenrola durante uma noite, especialmente quando Hawk e Piña fazem uma oferta a Joe e Angela. Confira nossa crítica de 'O Convite': Nas previsões de outubro do Oxente Pipoca, Wilde aparece bem posicionada por uma indicação, enquanto 'O Convite' já aparece como um dos principais nomes da temporada. As indicações ao Oscar 2027 serão anunciadas em 21 de janeiro, enquanto a cerimônia acontece em 14 de março, mas você pode acompanhar todas as movimentações desta Awards Season no nosso site e redes para não perder nada.
- '14th' lidera indicações ao Critics Choice Documentary Awards; 'You Can See Everything' recebe cinco
Novo filme de Ava DuVernay conquistou seis indicações, enquanto documentário sobre Elizabeth Holmes aparece em cinco categorias; premiação acontece em novembro Longa dirigido por Ava DuVernay, '14th', lidera as indicações ao Critics Choice Documentary Awards 2026. O filme da Netflix apareceu seis vezes, incluindo Melhor Documentário e Melhor Direção, e larga como o título mais indicado da 11ª edição da premiação. Logo atrás aparecem quatro produções com cinco indicações cada: 'You Can See Everything', de Nathan Fielder e Lance Oppenheim', Nuisance Bear', de Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman, 'Once Upon a Time in Harlem', de David Greaves, e 'Rehearsals for a Revolution', de Pegah Ahangarani. Pensando em Oscar, o Critics Choice Documentary Awards pode não ser uma boa prévia direta, mas é importante pra traçar uma caminhada até lá, que é o que filmes como 'You Can See Everything', '14th' e 'Once Upon a Time in Harlem' estão buscando. Temos exemplos de filmes que conquistaram ambos os prêmios (como 'O.J.: Made in America' e 'Summer of Soul'), como que não chegaram nem na pré-lista do Oscar (como 'Good Night Oppy'). Entre os que vocês tem que ficar de olho temos... You Can See Everything acompanha Elizabeth Holmes trinta e quatro dias antes de ser enviada para a prisão, quando ela convida uma equipe de filmagem cética para documentar cada passo seu. O que começa como um retrato íntimo de uma criminosa enigmática se transforma em uma jornada alucinante de três anos rumo ao abismo. Já 14th, DuVernay coloca a 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos em foco, trazendo a luta constitucional dos livros de história para o presente, examinando a briga que se arrasta há mais de 150 anos em torno da emenda. Combinando pesquisas de arquivo aprofundadas com manchetes impactantes da atualidade, 14th reúne juristas, políticos, historiadores e vozes culturais em um diálogo sobre uma questão que os Estados Unidos ainda não resolveram: quem tem o direito de pertencer? A 11ª edição será realizada em 8 de novembro, em Nova York. Confira a lista completa dos indicados do Critics Choice Documentary Awards 2026: Melhor Documentário • 14th • Everest: The Other Side • Everybody to Kenmure Street • The History of Concrete • Musk • NAZA • Once Upon a Time in Harlem • Rehearsals for a Revolution • Remake • You Can See Everything Melhor Direção • Yuval Abraham e Rachel Szor (NAZA) • Felipe Bustos Sierra (Everybody to Kenmure Street) • Ava DuVernay (14th) • Nathan Fielder e Lance Oppenheim (You Can See Everything) • Ross McElwee (Remake) • Orlando von Einsiedel (The Cycle of Love) Melhor Primeiro Longa Documental • David Greaves (Once Upon a Time in Harlem) • Baz Luhrmann (EPiC: Elvis Presley in Concert) • Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman (Nuisance Bear) • Xander Robin (The Python Hunt) • Poh Si Teng (American Doctor) • John Wilson (The History of Concrete) Melhor Fotografia • David Bolen (You Can See Everything) • David Bolen e Matt Clegg (The Python Hunt) • Sophie Darlington (Lion) • Franklin Dow (The Cycle of Love) • Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman (Nuisance Bear) • Clair Popkin, Jimmy Chin e Christopher Murphy (Everest: The Other Side) Melhor Montagem • Spencer Averick (14th) • Anne de Mare e Lynn True (Once Upon a Time in Harlem) • Adam Locke-Norton (You Can See Everything) • Colin Monie (Everybody to Kenmure Street) • Jonathan Redmond (EPiC: Elvis Presley in Concert) • Cori Wapnowska (The History of Concrete) Melhor Narração • The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist (texto e narração de Daniel Roher e Caroline Lindy) • The History of Concrete (texto e narração de John Wilson) • Lorne (texto de Morgan Neville, Alan Lowe e Jake Hostetter; narração de Chris Parnell) • Nuisance Bear (texto e narração de Mike Tunalaaq Gibbons) • Rehearsals for a Revolution (texto e narração de Pegah Ahangarani) • Remake (texto e narração de Ross McElwee) Melhor Trilha Sonora • Ari Balouzian (You Can See Everything) • Dan Deacon (Time and Water) • Caroline Ho (Everest: The Other Side) • Jason Moran (14th) • Cristóbal Tapia de Veer (Nuisance Bear) • Hans Zimmer, Niccolò Pacella e George Hutson Warren (Lion) Melhor Documentário Musical • Earth, Wind & Fire (To Be Celestial vs. That’s the Weight of the World) • EPiC: Elvis Presley in Concert • Man on the Run • Oasis: Don’t Look Back in Anger • Peter Asher: Everywhere Man • Sara Bareilles: Good Grief Melhor Documentário Político • 14th • American Doctor • Ask E. Jean • Everybody to Kenmure Street • Musk • NAZA • Union Town Melhor Documentário Histórico • 14th • Once Upon a Time in Harlem • Rehearsals for a Revolution • SCTV: The Greatest Show You’ve Never Heard Of • Soul Patrol • Turning Point: Generation 9/11 Melhor Documentário Biográfico • Avedon • Jean-Michel Basquiat • Lorne • Marty, Life Is Short • Mel Brooks: The 99-Year-Old Man! • Musk Melhor Documentário de Arquivo • EPiC: Elvis Presley in Concert • Making Marie Antoinette • Man on the Run • Once Upon a Time in Harlem • Rehearsals for a Revolution • Remake Melhor Documentário de Ciência/Natureza • The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist • Ghost Elephants • Lion • Nuisance Bear • Secrets of the Bees • Time and Water Melhor Documentário Esportivo • The Dynasty: UConn Huskies • Everest: The Other Side • Give Me the Ball! • Rafa • Standout: The Ben Kjar Story • Tyson Melhor Documentário de True Crime • Baby Doe • Funny Money: The Dane Cook Story • The Idaho Murders: College Nightmare • A Killer Story • Lost Women of Alaska • Murder in Glitterball City Melhor Curta Documental • The Baddest Speechwriter of All • A Derailment • Escalation • Miller Night Football • Oh Whale • The Second Life of Freddie Nole • A Short Documentary About a Giant Pencil • They’re Here
- Crítica | Medley (Festival do Rio 2026)
Adaptação do livro de Keka Reis, longa de Ana Luíza Azevedo equilibra temas dolorosos e descobertas juvenis em uma narrativa sensível sobre amadurecimento. Imagem: Divulgação Ambientado em 1990, Medley acompanha Lola (Mel Maia), uma adolescente de 15 anos que encontra na natação e na leitura algumas de suas principais formas de expressão, enquanto convive com uma pergunta que permanece sem resposta: como seu pai morreu? Durante as férias, uma viagem para uma cidade do interior, inicialmente pensada como uma breve pausa da convivência com a mãe e o irmão, acaba se tornando uma experiência de transformação. Entre memórias esquecidas e novas descobertas, Lola passa a compreender melhor não apenas sua história familiar, mas também a si mesma. Dirigido por Ana Luíza Azevedo e adaptado do livro homônimo de Keka Reis, que também assina o roteiro, o longa é um retrato sincero e sensível da juventude e das marcas deixadas pelo abandono parental. Visto no Festival do Rio 2026, Medley encontra na trajetória de sua protagonista uma maneira delicada de abordar questões dolorosas sem deixar que o peso dos temas se sobreponha às descobertas e às inquietações próprias da adolescência. Um dos principais méritos do filme está na direção, que demonstra segurança ao conduzir a narrativa sem exagerar nos conflitos ou recorrer a soluções dramáticas fáceis. Há uma compreensão clara do que a história pretende contar, e o longa não parece interessado em ser maior do que aquilo a que se propõe. Essa escolha, longe de limitar suas possibilidades, permite que os sentimentos e as transformações de Lola se desenvolvam com naturalidade. A leveza não significa ignorar a complexidade das relações familiares, mas encontrar uma maneira acessível de tratar dessas experiências sem esvaziar suas consequências. Os aspectos visuais também contribuem para a construção desse universo. A ambientação nos anos 1990 ajuda a estabelecer o contexto da história sem depender apenas da nostalgia, enquanto a relação da protagonista com os espaços, especialmente aqueles ligados à natação e à sua estadia no interior, acompanha o movimento de descoberta que orienta a narrativa. A direção encontra um equilíbrio entre a dimensão íntima dos conflitos e a abertura para novas experiências, fazendo com que o ambiente participe da jornada de Lola. É um trabalho de condução que favorece a identificação com a personagem e mantém a narrativa coesa, sem excessos que desviem a atenção do que realmente importa. O roteiro também acerta ao não transformar a autodescoberta adolescente em uma trajetória de respostas fáceis. As questões que atravessam a vida de Lola envolvem ausências, ressentimentos e lembranças que nem sempre podem ser organizadas de maneira simples. Ao tratar esses elementos com sensibilidade, Medley reconhece que crescer também significa rever as próprias certezas e descobrir que as relações familiares são mais complexas do que parecem à primeira vista. As atuações reforçam essa percepção. Mel Maia demonstra cada vez mais seu amadurecimento como atriz, distanciando-se do estigma de atriz mirim e escolhendo projetos que evidenciam seu talento. Como Lola, ela sustenta as contradições de uma adolescente que tenta compreender o passado enquanto começa a descobrir outras possibilidades para o próprio futuro. Alana Cabral também se destaca, contribuindo para a força do elenco jovem. Mariana Lima, por sua vez, entrega uma atuação especialmente interessante como a mãe da protagonista. A personagem desperta antipatia nos primeiros momentos, mas a narrativa modifica gradualmente a percepção do público sobre ela. Sem apagar seus defeitos, a interpretação encontra nuances que tornam essa relação mais complexa e revelam como a compreensão de uma pessoa pode mudar à medida que conhecemos outras partes de sua história. Imagem: Divulgação No conjunto, Medley é um filme honesto, bem dirigido e consciente de suas escolhas. Talvez não se aprofunde em todas as questões que apresenta, mas encontra na simplicidade uma qualidade própria e entrega uma história consistente sobre amadurecimento, memória e abandono. Seu maior acerto está em compreender que falar sobre temas difíceis não exige necessariamente uma abordagem pesada: a delicadeza também pode ser uma forma de olhar para a dor. Com estreia nos cinemas brasileiros marcada para 29 de outubro de 2026, o longa tem potencial para dialogar especialmente com o público jovem, não por oferecer respostas definitivas, mas por abrir espaço para o reconhecimento de sentimentos e experiências que nem sempre encontram lugar nas conversas familiares. É uma obra que cumpre bem o que promete e encontra na trajetória de Lola uma história sensível sobre crescer, revisitar o passado e aprender a olhar para as pessoas para além das primeiras impressões. Nota: 3,5/5
- IDFA (International Documentary Film Festival Amsterdam) seleciona documentário brasileiro "Morro Grande" para mostra competitiva internacional
Com direção de Isabel Joffily e Rita Toledo, o filme joga luz sobre o colonialismo químico através da trajetória de um agricultor que se tornou ícone do punk rural em uma comunidade marcada pelos impactos dos agrotóxicos. Imagem: Divulgação O documentário "Morro Grande", dirigido por Isabel Joffily e Rita Toledo, foi selecionado para a Competição Internacional do 39º IDFA (International Documentary Film Festival Amsterdam). A última vez que um filme brasileiro esteve presente na principal mostra competitiva do IDFA foi em 2011, com “As Canções”, de Eduardo Coutinho. A première será no dia 16 de novembro, com outras cinco exibições. O IDFA, maior e mais importante festival de cinema documentário do mundo, acontece anualmente em Amsterdã, na Holanda, e neste ano acontece de 12 a 22 de novembro. Filmado entre 2022 e 2026 e produzido pela Coevos Filmes em coprodução com a Basalt Films (Holanda), Eline van Wees, Canal Brasil e RioFilme, “Morro Grande” faz um retrato contundente do Brasil profundo e do abismo social que assola o país a partir da rotina de agricultores de Morro Grande, no interior do Rio de Janeiro, e joga luz sobre o colonialismo químico. Na prática, países do Norte Global proíbem o uso de agrotóxicos dentro de suas fronteiras, mas os produzem e os exportam para países do Sul Global. "Morro Grande" acompanha a jornada de Rodolpho, um escritor nascido em uma comunidade rural brasileira cercada por plantações de chuchu pulverizadas com agrotóxicos. Após a morte de seu amigo Vaguinho, um jovem e talentoso agricultor que se destacou como líder de um movimento punk rural nos anos 2000 com a banda Formigas de Fogo, Rodolpho decide reconstituir a vida e a morte do companheiro de juventude - que se suicidou tomando pesticida em uma garrafa de Coca-Cola. Ao entrelaçar a trajetória de Vaguinho com outras histórias locais, o longa expõe uma visão alarmante sobre a rotina dos trabalhadores de Morro Grande, que vivem no limite da morte, ao mesmo tempo em que destaca a força e a permanência da resistência comunitária. “No Brasil, as taxas de suicídio são duas vezes mais elevadas no campo do que nos centros urbanos. Em Morro Grande existem jovens agricultores que se expressam através da literatura, da arte e da filosofia para falar da realidade rural. Nossa atitude enquanto diretoras foi nos juntar a esse grupo para tentar entender aquelas questões de saúde mental que acometem os lavradores. A partir da jornada de Vaguinho, líder de um movimento de punk rural do início dos anos 2000 que se matou tomando o agrotóxico Round Up em uma garrafinha de Coca Cola, o filme revela as garras imperialistas que subjugam as nossas soberanias criativa e de produção de alimentos”, diz Isabel Joffily. “A insurgência de Vaguinho busca romper um ciclo predador onde apenas grandes conglomerados estrangeiros se beneficiam. ‘Morro Grande’ fala do conceito de colonialismo químico - a ideia de que muitos pesticidas produzidos na Europa e nos EUA são proibidos nestes países mas são livremente vendidos e consumidos no Brasil, onde contaminam pessoas, animais e o ambiente. O filme fala de um modelo de produção agrícola que nos é imposto pelos EUA desde o pós-guerra (Revolução Verde), mostrando as consequências deste modelo para a vida das pessoas de Morro Grande, mas revelando sua capacidade de resistir através da arte", comenta Rita Toledo.
- Com voz original de Matheus Nachtergaele, animação brasileira “O Filho da Puta” recebe o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio
Longa também conquistou Menção Honrosa na primeira edição do Prêmio Olhar Brasil. Imagem: Divulgação O longa-metragem de animação “O Filho da Puta”, assinado por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite, conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio 2026, onde participou da competição de ficção na Première Brasil e Menção Honrosa na primeira edição do Prêmio Olhar Brasil, concedida por jornalistas do Correio da Manhã. O júri elogiou a direção de arte do projeto por sintetizar a pluralidade do país durante a busca pela paternidade em uma "pátria de órfãos". O grupo destacou o desempenho do cão Bacalhau, dublado por Matheus Nachtergaele, como uma das composições vocais mais marcantes da edição, ao lado do desenvolvimento da figura feminina da mãe do protagonista. “O Filho da Puta” participa em seguida da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e terá sessões nos dias 22 e 24 de outubro com a presença dos diretores. O filme também foi o vencedor do prêmio da O2 Pós no 16° Brasil Cine Mundi, que viabilizou a pós-produção do longa, que fez sua estreia mundial na Mostra Competitiva de Longas-Metragens Contrechamp do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy 2026, na França. A história se passa no interior mineiro e acompanha Ismael, jovem criado no prostíbulo Casa Rosa. Ao lado do cão Bacalhau, ele inicia uma jornada para localizar o pai desconhecido, enfrentando revelações pelo caminho. Com produção da Otto Desenhos Animados, de Porto Alegre, em coprodução com a mineira Anaya Produções, o longa tem roteiro de Carla Guimarães e trilha sonora original de João Omar. O elenco de vozes reúne também Eduardo Moreira, Gabriel Martins, Inês Peixoto, Raquel Pedras, Teuda Bara e Zora Santos. A distribuição nacional é da Lança Filmes. Sessões na Mostra: Dia 22 - 16h40 no Reserva Cultural Dia 24 - 20h35 no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca
- Curta-SE 25 anuncia nova data de realização para março de 2027
Festival realizado em Sergipe divulgará filmes selecionados ainda neste mês. Imagem: Divulgação O Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe (Curta-SE) anuncia a nova data para a realização de sua 25ª edição, que acontecerá em março de 2027. Promovido pela AVBR Produções, o festival havia divulgado anteriormente sua realização para novembro de 2026. A mudança ocorre em razão das vedações eleitorais previstas na Lei nº 9.504/1997, conhecida como Lei das Eleições, que dispõe sobre condutas vedadas durante o período eleitoral. Nesse contexto, não foi possível viabilizar o financiamento necessário para a execução do projeto na dimensão planejada para celebrar os 25 anos do festival. Diante desse cenário, a organização optou por transferir a realização para março de 2027, preservando o projeto aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). A decisão busca assegurar que o festival mantenha a dimensão e as ações previstas para esta edição histórica. “Sabemos o quanto o público, os realizadores e toda a cadeia do audiovisual esperam por essa edição, especialmente por ela representar os 25 anos do Curta-SE. Por isso, entendemos que o melhor caminho é preservar o projeto e garantir que ele aconteça com a dimensão que essa trajetória merece. Março será um momento muito especial para celebrarmos juntos essa história e tudo o que ainda queremos construir para o audiovisual em Sergipe”, afirma Rosângela Rocha, diretora executiva do Curta-SE. O processo de seleção dos filmes para a 25ª edição já foi realizado. Ao todo, o festival recebeu 1.133 inscrições de produções, entre curtas e longas-metragens iberoamericanos, curtas sergipanos, trailers e videoclipes, concluídos entre 2024 e 2026. A lista dos filmes selecionados será divulgada ainda este mês. A realização do Curta-SE 25 em março de 2027 seguirá o projeto aprovado na Lei Rouanet, contemplando as ações previstas para a edição e reafirmando o compromisso do festival com a difusão, a formação e a valorização do audiovisual. Ao longo de 25 anos, o Curta-SE consolidou-se como a principal iniciativa de promoção do cinema em Sergipe, contribuindo para aproximar o público da produção audiovisual brasileira e iberoamericana e para projetar o estado no cenário cinematográfico nacional e internacional. Em breve, nos canais oficiais do festival (@festivalcurtase e curtase.com.br), também serão divulgadas a data, a programação completa e as demais informações sobre o Curta-SE 25.
- Crítica | Santo (Festival do Rio 2026)
Narrativa intensa e carregada de sentimento é ilustrada com requinte visual cheio de texturas, e elenco vibrante. Imagem: Divulgação Um acidente de trânsito aproxima dois jovens entregadores em São Paulo. Yuri (Pedro Tófani), descolado e provocativo, e Davi (João Pedro Mariano), um evangélico trabalhador, se costuram entre os extremos da religião e da liberdade que a rua traz. Em um curta-metragem, mais do que em qualquer outro tipo de produto audiovisual, cada segundo é caríssimo. Por isso, o apelo visual precisa ser tão instigante quanto a história que se pretende contar, sem depender exclusivamente do texto para conduzir o espectador. Em “Santo”, porém, imagem e palavra caminham juntas. A narrativa estrutura um universo visual cheio de personalidade, no qual as texturas, as cores e os enquadramentos não servem apenas de ornamento, mas ajudam a dar forma aos sentimentos e às contradições dos protagonistas. A escolha por filmar em película Kodak 16 mm acrescenta organicidade a essa construção, com uma paleta de tons claros e cores tórridas, cuidadosamente desenhadas. Há uma materialidade nas imagens que aproxima o espectador daquele universo e torna a experiência diegética ainda mais sensorial. No roteiro, a religião permeia a narrativa e orienta a maneira como Davi enxerga o mundo, até culminar em um apocalipse que encerra a vida dos personagens como eles a conhecem. Não por acaso, o final também funciona como começo dessa história, ou pelo menos de um novo momento. O fim dos tempos chegou e, seja de maneira metafórica ou não, representa tanto uma ruptura quanto a possibilidade de um novo início. João Pedro Mariano é um dos nomes em ascensão no cinema brasileiro e vem construindo, em pouco tempo, uma filmografia variada e marcante, sem passar despercebido pela crítica e pelo público. Aqui, seu personagem, em constante transformação, conduz o enredo entre momentos de incerteza e demonstrações de coragem. Pedro Tófani é uma revelação primorosa. Yuri parece mais autoconsciente e bem resolvido do que Davi, e Pedro transmite essa segurança no olhar e na fala, com uma naturalidade de quem tem muitos anos na carreira de ator profissional. Talvez o que faça falta seja mais momentos de intimidade entre os dois protagonistas, com diálogos que aprofundem a relação para além do momento-chave no closet. Algumas falas parecem cumprir a função de apresentar as nuances desses personagens, mas nem sempre encontram espaço para aproximá-los ou dar um acabamento melhor a seus percursos. Ou talvez seja apenas eu querendo mais. A diretora Malu Alves tem experiência notável com trabalhos curtos no audiovisual, mas torço para que em breve ela direcione seu leme para médios e/ou longas-metragens porque seu talento, criatividade e desenvoltura técnica estão clamando por uma durações maiores, e eu também. Estarei acompanhando atentamente. Nota: 4,5/5
- Crítica | Ted Lasso (4ª temporada)
Temporada não restaura a série aos dias de glória dos seus primeiros anos, mas mostra que ela ainda tem boas histórias a contar. Divulgação De queridinha do público em suas duas primeiras temporadas, Ted Lasso foi alçada quase a uma “serie non grata” depois de sua terceira temporada... controversa, para dizer o mínimo. Mesmo achando ela melhor que uns 90% das pessoas, é inegável que uma série de decisões narrativas e criativas minimamente questionáveis minaram muito do carinho que o público e a crítica tinham pela série, o que, aliado a um final que parecia quase conclusivo, só reforçava a ideia de que era hora de Ted Lasso acabar. Mas é claro que a AppleTV não ia largar da sua galinha dos ovos de ouro e, três anos após o seu aparentemente encerramento, a série está de volta. A questão é: ainda há espaço para Ted Lasso na grade televisiva atual? A julgar pelos 10 episódios desta quarta temporada, a resposta é um “sim, mas modere suas expectativas”. Abraçando o intervalo de tempo entre este novo ano e o anterior, temos aqui um Ted (Jason Sudeikis) dividido entre o trabalho ordinário no supermercado e uma presença mais próxima do seu filho Henry (Grant Feely), por quem voltou da Inglaterra e deixou o Richmond para trás. Mas quando Rebecca (Hannah Waddingham), Keeley (Juno Temple) e Higgins (Jeremy Swift) aparecem em sua porta, fica claro que a história de Ted com o Richmond não acabou, só será recomeçada em um novo desafio: treinar o time feminino do clube, que passa longe de desfrutar do mesmo prestígio (e oportunidades) do masculino. Após um primeiro episódio que investe mais na vida de Ted no Kansas e em sua hesitação para assumir o novo cargo (e em que, ao contrário da maioria, gostei da inversão de perspectivas ao trazerem os protagonistas britânicos como os “peixes fora d’água”), logo somos levados junto com Ted – e família, desta vez – de volta para a Inglaterra no segundo episódio. E conta muito ao favor da série como ela rapidamente nos insere naquele clima familiar, leve e bem-humorado do universo do Richmond. Sim, ainda há a presença dos elementos dramáticos que se tornaram mais proeminentes na segunda e terceira temporadas, mas parece haver um entendimento dos showrunners de que parte essencial da correção de rota que a série precisava envolvia uma ampliação dos elementos mais cômicos. Aliás, “correção de rota” parece ser o mote da temporada, já que parte do esforço dela reside em corrigir as decisões mais criticadas da temporada anterior e suas consequências. Seja a decisão de enfim separar Beard (Brendan Hunt) e Jane (Phoebe Walsh), a redução na duração dos episódios (embora estes ainda superem e muito a faixa dos 20-30 minutos dos episódios da primeira temporada), a já mencionada ênfase mais no humor e menos no drama: são muitos os momentos em que é perceptível como os showrunners e roteiristas quiseram entregar o que os fãs queriam após um ano anterior tão desbalanceado e criticado. Em nenhum lugar isso fica tão evidente como na gradativa reconciliação de Keeley e Roy (Brett Goldstein). Este, aliás, parece permanecer na série apenas pela sua subtrama com Keeley, já que sua presença continua em certa medida vinculada mais ao time masculino. Mas é sempre um prazer inegável ver Goldstein em tela com seu tipo turrão e “straight guy”, e a química entre ele e Temple é (quase) suficiente para perdoarmos a demora para que o casal volte a ficar junto. Porém, se por um lado, Ted Lasso está interessada em oferecer familiaridade e conforto ao público a quem decepcionou, a série tem novas cartas na manga que possam justificar sua renovação. A principal delas é a ênfase no time feminino, e ainda que dentro deste grupo principal ainda não haja destaques a níveis individuais como ocorreu com o time masculino nas três temporadas passadas – embora goste bastante de personagens como Lizzie (Faye Marsay), Boots (Jude Mack), Gemma (Abbie Hern) e as gêmeas irlandesas Niamh (Aisling Sharkey) e Siobhan (Rex Hayes) –, é de se valorizar que a série dá a essas jogadoras personalidades próprias ao invés de transformá-las em meras cópias de Jamie Tartt, Sam, Dani Rojas (há até uma piada envolvendo esse que mostra a vontade da série de não refazer o mesmo caminho) e outros. Divulgação Dentro disso, a série consegue usar esse espaço para problematizar e trazer diversas críticas à precarização que envolve o futebol feminino, bem como a misoginia ainda introjetada na mente das pessoas ao lidarem com este universo e quererem compará-lo ao futebol masculino. Ela também consegue incorporar com muita naturalidade as sexualidades destas mulheres sem fazer disso uma bandeira proselitista, mas como aspecto essencial de suas identidades e muito bem-integrado às suas vidas. Nesse aspecto, a introdução de Alice (Tanya Reynolds) como a nova treinadora-assistente de Ted e Beard é o aspecto mais essencial pelo qual se pode medir o sucesso deste retorno da série. Embora haja momentos em que seu arco na temporada possa flertar com o de Nathan (Nick Mohammed) nas temporadas anteriores, ela é uma personagem autônoma, com sua própria personalidade, e talvez o grande trunfo da série neste novo ano. Muito disso vem da atuação de Reynolds, que consegue infundir a personagem com nuances, inseguranças, destaques e falhas que a enriquecem e constroem um contraponto interessante entre sua sisudez e pragmatismo e o otimismo e ingenuidade de Ted. Mesmo que a justificativa para ela não assumir de cara o time feminino não cole muito, ver sua evolução (e os percalços) no caminho até chegar no seu merecido final fazem por si só valer a pena voltar a Ted Lasso depois de tanto tempo. Ainda assim, estes acertos não eximem a temporada de falhas notáveis que a impedem de alcançar o mesmo nível que as duas primeiras tinham. É estranho ver como Rebecca é tão mal trabalhada aqui, seja no seu âmbito pessoal – tudo envolvendo seu relacionamento com Matthijs (Matteo van der Grijn) me faz revirar os olhos mais do que já me fazia na temporada passada – ou profissional, com suas resistências ao time feminino ou a relação com Zelda (Tracey Ullman). Esta última, inclusive, é disparada a pior adição deste novo ano, tanto pelo seu tom exagerado que está acima da média da própria série ou pelo encadeamento do seu arco e os plot twists relacionados a ele que, no fim das contas, não surpreendem ninguém. Ainda assim, talvez o problema mais nítido a essa altura do campeonato em Ted Lasso é a incapacidade da série de saber o que fazer com seu próprio protagonista. A terceira temporada já tinha alçado Ted a uma posição de coadjuvante, mas havia ali algum rascunho de arco narrativo (mesmo que fosse o próprio Sudeikis tentando expurgar seus sentimentos por ter sido traído pela Olivia Wilde e, bom, sabemos no que deu). Desta vez, o retorno de Ted parece mais uma conveniência narrativa, visto que a temporada marca um novo ciclo para a série onde talvez ele não fosse mais de fato necessário. Sim, Ted é sempre uma presença agradável em tela com seu humor bobo, otimismo espirituoso e empático, referências específicas e sotaque interioriano – e um nítido amadurecimento tanto enquanto indivíduo quanto enquanto treinador, isso devemos admitir, mas a série parece ter crescido tanto para além dele que sequer se esforça para mantê-lo como protagonista. Entendo que criar um spin-off poderia não render o mesmo público do que retornar com um nome tão forte, mas me pergunto até quando a série vai querer continuar se chamando Ted Lasso enquanto escanteia seu próprio personagem principal. Apesar desses percalços, porém, Ted Lasso consegue justificar em boa parte seu retorno, apostando no seguro e na correção da sua rota para exibir suas marcas familiares e pontos fortes, enquanto injeta sobrevida através do núcleo do futebol feminino para cravar um novo espaço. Ainda falta um longo caminho para superar todos os fantasmas deixados pela temporada passada e reconquistar a glória das duas primeiras, mas talvez esse nem seja o objetivo neste novo começo para a série. Dentro daquilo que foi oferecido nesta nova leva de episódios, me contento (e, sobretudo, me divirto) com o que ela irá me entregar daqui em diante. Nota: 3.5/5
- Hoje é dia de Maria de Maria: Nanda Costa estrela novo faroeste de Luiza Shelling Tubaldini
Estreando no Festival do Rio, longa ambientado no pós-cangaço leva o protagonismo feminino ao universo do Nordestern. Imagem: Divulgação Na tarde de 8 de outubro, o histórico Cine Odeon recebeu a sessão-debate de Maria de Maria, novo filme de Luiza Shelling Tubaldini (Love Kills), protagonizado por Nanda Costa. Ambientado em 1940, logo após a dissolução do cangaço no sertão nordestino e durante a Marcha para o Oeste — iniciativa do governo Vargas para integrar e povoar o Centro-Oeste do país —, o longa acompanha Maria, que vê na migração a oportunidade de deixar o passado para trás e prosperar, garantindo um futuro melhor para o filho que carrega na barriga. Em busca de uma nova vida, ela conhece Zé (João Campos), um intelectual do Rio de Janeiro que acredita haver ouro naquela região. Juntos, os dois enfrentam a fome, as incertezas e as adversidades enquanto tentam domar a natureza e tornar produtivas suas novas terras antes que o tempo e os recursos se esgotem. Embora ambientado no Centro-Oeste, Maria de Maria pode ser compreendido como um “Nordestern” (também conhecido como “western cangaceiro”): um gênero que incorpora elementos e convenções dos clássicos faroestes estadunidenses a histórias ambientadas no sertão nordestino. Maria, natural de Jacobina (BA), leva consigo o sotaque e a força de sua terra, elementos que ajudam a evocar o imaginário característico dessas produções. Consolidado no cinema brasileiro a partir da década de 1950 com O Cangaceiro (Lima Barreto), o Nordestern tem entre seus expoentes títulos como Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha) e até mesmo O Cangaceiro Trapalhão (Daniel Filho). Shelling, porém, acrescenta ao gênero uma perspectiva há muito necessária: o protagonismo feminino. Durante o debate após a exibição, a diretora contou que cresceu assistindo a filmes de faroeste e sempre sentiu falta de mulheres em papéis centrais. Ficava imaginando como seriam aquelas histórias se as personagens não fossem tão passivas. A inquietação permaneceu com ela. Anos depois, agora diretora de cinema, decidiu fazer algo sobre – afinal, se o western é sobre “você impor o seu respeito com as próprias mãos” e a história do cinema “subestimou muito a força feminina”, como observou, a ideia de colocar uma mulher no centro desse universo era quase uma equação matemática. Em suas palavras, “tudo fez sentido” quando encontrou Nanda Costa. A força e a feminilidade da atriz, características bastante elogiadas pela diretora, se complementaram perfeitamente para dar vida à personagem que Shelling tanto desejava ver nas telas. Nanda, por sua vez, já tinha experiência interpretando uma cangaceira: em 2017, viveu Luzia em Entre Irmãs, de Breno Silveira. Desde então, porém, duas transformações pessoais marcaram sua trajetória: tornou-se mãe de duas meninas e se mudou para a Bahia em busca de um ritmo de vida mais tranquilo. Ambas foram determinantes para a construção de Maria. Relutante em aceitar trabalhos que a mantivessem longe das filhas, a atriz resistiu até mesmo à ideia de considerar o longa. Quando finalmente leu o roteiro, porém, não conteve as lágrimas. Sentiu que precisava contar aquela história, que define, com precisão, como uma narrativa de “pós-cangaço”: “Era como se a Luzia tivesse a chance de refazer sua história”. Nanda agradeceu a Shelling pela “oportunidade imensa” de “reconquistar o protagonismo depois da maternidade”. Também elogiou a direção “precisa, cirúrgica, que sabe exatamente o que quer, mas tem uma generosidade para deixar colocarmos o que a gente sente”. Diante da câmera, conta a atriz, “vai vindo um bicho, uma força, uma coisa poderosa” – uma energia que confere a Maria, e ao próprio filme, a vitalidade necessária. Maria de Maria estreou no Festival do Rio, onde concorre na Première Brasil, na Competição de Longas-Metragens de Ficção.
- Spcine Play inaugura estante dedicada a Joaquim Pedrode Andrade com 8 títulos fundamentais do Cinema Novo
Streaming público da Prefeitura de São Paulo amplia catálogo com oito obras do cineasta e reforça posicionamento como streaming público cult. Imagem: Divulgação A Prefeitura de São Paulo, por meio da Spcine, empresa pública de audiovisual vinculada à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, anuncia a ampliação do catálogo da Spcine Play com estante dedicada ao emblemático Joaquim Pedro de Andrade. A partir de sexta-feira (9/10), será disponibilizada a seleção que reúne oito obras do diretor ー todas restauradas recentemente ー e marca um novo momento da plataforma, que passa a se posicionar cada vez mais como um streaming público cult, aproximando o público de grandes clássicos e de diferentes momentos da história do cinema nacional. Um dos principais nomes do cinema brasileiro, Joaquim Pedro de Andrade (1932–1988) construiu uma obra marcada pela liberdade formal e pela investigação crítica da identidade nacional. Integrante fundamental do Cinema Novo, o diretor realizou filmes que atravessam diferentes gêneros e linguagens, do documentário ao longa-metragem de ficção, sempre combinando rigor cinematográfico e olhar analítico sobre a sociedade brasileira. Sua filmografia permanece como referência para diferentes gerações de cineastas e espectadores. Entre os títulos que passam a integrar a plataforma estão cinco longas-metragens: Garrincha, Alegria do Povo (1962), O Padre e a Moça (1966), Macunaíma (1969), Os Inconfidentes (1972) e Guerra Conjugal (1975); e três curtas-metragens: Couro de Gato (1962), Cinema Novo (1967) e A Linguagem da Persuasão (1970), oferecendo um panorama da diversidade da produção do cineasta em diferentes momentos de sua trajetória. A nova estante amplia o acesso à obra de Joaquim Pedro de Andrade e reforça uma das vocações da Spcine Play: disponibilizar gratuitamente ao público filmes fundamentais para compreender a formação e a diversidade do cinema brasileiro. “A filmografia de Joaquim atravessa o modernismo e as contradições do país com uma liberdade formal muito particular. Reunir e contextualizar sua obra na plataforma permite amplificar o acesso e a compreensão da força e a atualidade de um pensamento cinematográfico profundamente brasileiro. Esta nova fase da plataforma parte de uma compreensão mais ampla do que deve ser uma política pública de difusão no ambiente digital. Não se trata apenas de disponibilizar filmes, mas de construir contexto, criar percursos curatoriais, valorizar a memória audiovisual e aproximar o público da diversidade do cinema brasileiro”, afirma Leandro Pardí, Superintendente de Inovação e Negócios Criativos da Spcine. A chegada desses títulos à Spcine Play também contribui para a preservação e a difusão do patrimônio audiovisual brasileiro, ao disponibilizar ao público obras que passaram por processos de restauração e recuperação de imagem e som. A restauração cinematográfica é fundamental para garantir a permanência desses filmes e permitir que novas gerações tenham acesso às obras em condições adequadas de exibição, preservando não apenas os filmes, mas também parte importante da memória cultural do país. “Preservar e restaurar essa obra é um compromisso contínuo para manter viva a identidade cultural do nosso país, a memória e a história do cinema nacional. A restauração dos filmes do Joaquim Pedro de Andrade ganha seu sentido pleno quando as obras reencontram o público. A chegada dessa mostra à plataforma da Spcine é uma oportunidade fundamental para dar acesso a um catálogo crucial da nossa cinematografia, para que as novas gerações possam redescobrir a força, a ironia, a inquietação e a poesia que sempre marcaram o seu cinema.", completa.












