Como fazer acontecer um festival de cinema no agreste sergipano?
- Ana Beatriz Andrade

- há 5 horas
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Uma memória pessoal e uma entrevista com Andrei Ferreira, idealizador do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana.

Durante boa parte da minha infância e adolescência, os filmes sempre ocuparam um lugar muito especial no emaranhado de coisas que acabaram formando o que eu sou hoje. E parte disso também foi formada pela cidade em que morei por 21 anos e que sigo morando até hoje, entre idas e vindas.
Itabaiana, localizada no agreste sergipano, é aquela cidade que foi crescendo seus limites ao longo dos anos. Eu sempre morei no Centro, onde a vida comercial sempre foi agitada e ajudava a compor um dos grandes estereótipos associados aos moradores da cidade. Por vezes, me perguntavam se eu tinha algum parente comerciante ou caminhoneiro. Embora a resposta fosse negativa no meu contexto atual, a pergunta era justa. Muitos dos parentes dos meus amigos eram mesmo.
Durante a minha infância, morar no Centro de Itabaiana sempre me garantiu facilidades e, o melhor de tudo, uma locadora de filmes literalmente em frente à minha casa.
A Fênix Vídeo Locadora foi a parte mais legal do meu dia por muitos anos. Ainda lembro da sua logomarca azul, estampada na placa lateralizada, e da ordem de organização dos filmes. Os filmes de animação ficavam logo à frente, na prateleira direita. Do outro lado, tínhamos os filmes de comédia e ação, mas, na época, eles não me interessavam muito.
O meu negócio era alugar o mesmo filme naquela prateleira da direita: "Aconteceu de Novo no Natal do Mickey". Sim, era a continuação de "Aconteceu no Natal do Mickey", que eu nunca nem tinha assistido. Os filmes de terror ficavam próximos ao caixa. Eu não arriscaria levar nenhum deles, mas, enquanto meu pai puxava uma nota de dois reais para garantir a diária do meu filme, eu esbugalhava os olhos e lia, temerosamente, a sinopse de "Chucky: O Boneco Assassino".
Eu não sabia dizer qual era o meu momento favorito daquela visita. Tudo era bom demais: desde escolher o filme até analisar as capas mais legais. Até o calendário me fazia esperar pela sexta-feira desde a infância, antes mesmo de pensar nos dias úteis. Sexta-feira significava que podíamos ficar com o filme até a segunda, sem precisar devolvê-lo no dia seguinte.
Logo depois, a Fênix e outras locadoras começaram a sumir. Eu lembro também da RM Locadora e da Vídeo Laser, todas no Centro da cidade. Vivíamos um momento em que a TV a cabo estava cada vez mais popular, assim como a internet. Consequentemente, aquele tipo de aluguel se tornou insustentável.
Com a internet, a informação chegou rapidamente. E, para alguém que sempre gostou de assistir a filmes, a ideia de um festival de cinema era tudo de bom. Eu lia sobre esses eventos em que realizadores, críticos e amantes do cinema se reuniam para debater sobre filmes e conversar com atores e diretores. E, por muito tempo, desejei que a minha cidade pudesse me dar isso, assim como ela me deu a Fênix Locadora.
Eis que, em 2021, Itabaiana ganha o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana, idealizado por Andrei Ferreira.
Acompanhei as primeiras edições de longe, pelo Instagram, sem nunca conseguir ir pessoalmente, até que, na quarta edição, em 2025, finalmente cheguei lá, acompanhando o evento pelo próprio Oxente Pipoca. Foi ali que tive esse gostinho de estar em um lugar cheio de gente com o mesmo gosto em comum, algo que talvez eu nunca fosse encontrar em outro contexto. Foi também nessa edição que conversei com Andrei pela primeira vez.
Já este ano, acompanhei dois dias da quinta edição do festival, e o crescimento de audiência e de alcance do evento era palpável. Quando estava de saída, comentei com Andrei que queria entrevistá-lo mais uma vez, dessa vez depois do festival, para falarmos das expectativas e do que ainda estava por vir.
Dito e feito. Marcamos uma ligação para conversar sobre os bastidores, as expectativas e os próximos passos.
Quando finalmente conversamos, uma semana já tinha se passado desde o encerramento da quinta edição, tempo suficiente para os sentimentos assentarem. Perguntei a Andrei como era fechar essa marca, meia década de festival, e a resposta veio carregada de entusiasmo.
Andrei Ferreira: É interessante porque é um trabalho importante. Muita gente fala, principalmente não só da organização, mas de como as pessoas são tratadas. E até agora não houve nenhuma reclamação. Então, é um sinal positivo, pelo menos do tratamento que a gente dá às pessoas. Como a gente acolhe as pessoas na cidade. As expectativas, inclusive, foram superadas. Porque a gente tem a expectativa de público, e o público foi o dobro da expectativa. Eu acho que a principal surpresa mesmo foi a participação do público, no geral. Como o público participou do evento. Na sexta foi basicamente o caos, porque todas as sessões foram lotadas. A sala usada esse ano é o maior auditório do estado, com capacidade para 500 pessoas, e ainda assim ficou apertada em alguns momentos. É curioso pensar que, no ano anterior, o espaço menor que usaram já tinha se tornado pequeno demais dentro de um único ano.
Mas o que mais me chamou atenção na fala de Andrei foi como ele descreve o público do festival. Diferente de outros festivais de cinema, cujo público é majoritariamente formado por quem já faz cinema, por quem já está dentro da cadeia de produção audiovisual, o público de Itabaiana é outra coisa.
Andrei Ferreira: Você que foi há alguns dias, eu acho que você deve ter percebido que a maioria das pessoas realmente que estavam no festival não fazem cinema. Diferente dos outros três que acontecem, que realmente são de pessoas que fazem cinema que são o público-alvo. Já o nosso, não sei qual o segredo ou qual o caminho que a gente está traçando, mas realmente a gente tem um público muito maior de pessoas que gostam de cinema, mas que não fazem cinema como realização artística.
Penso que isso diz muito sobre Itabaiana. Diz sobre uma cidade que, mesmo sem um curso de cinema, sem uma tradição de produção audiovisual instalada, decidiu se interessar, aparecer e ocupar as cadeiras de um auditório de 500 lugares.
Enquanto ele falava sobre esse processo, lembrei de como pude ver rapidamente a preparação da equipe que faz o festival acontecer. A intérprete de Libras ensaiando a tradução simultânea das sessões, e a equipe de comunicação correndo para transformar cada detalhe do evento em conteúdo para as redes sociais.
Foi justamente pensando nisso que perguntei a Andrei se, depois de cinco edições, existia vontade de contar essa história também.
Andrei Ferreira: Talvez a gente vai ter um documentário sobre o Festival de Cinema de Itabaiana, já pensando longe. Porque realmente, cinco anos, ele tem essa marca. É realmente uma ideia que a gente tem para a próxima edição, de fazer um documentário. Inclusive é uma ideia do Max, que é da nossa equipe, de realizar esse documentário. É uma ideia que ele já vem falando desde a terceira edição.
Perguntei também o que ainda falta, o que ele ainda não conseguiu trazer para o festival depois de cinco anos.
Andrei Ferreira: A nossa maior missão é a busca pelo orçamento para que a gente consiga trazer os realizadores de fora do país. Eu acho que falta. Quando a gente fala em festival internacional, as pessoas só vão começar a lidar com essa ideia de fato, quando elas verem os realizadores de fora dentro do evento. Eu acho que seria um momento muito legal de intercâmbio. Já existe o intercâmbio do cinema brasileiro, acontecendo dentro do festival. Nessa edição, a gente tem realizadores de novos estados, mas ter os realizadores também dos outros países vindo participar, eu acho que seria um momento de ápice não só do festival, mas do cinema sergipano no geral.
Encerramos a conversa falando sobre o que sustenta um festival como esse. Perguntei sobre iniciativas de patrocinadores, editais e políticas públicas de fomento à cultura. Andrei também trabalha como agente territorial de cultura do Ministério da Cultura, e foi enfático sobre isso.
Andrei Ferreira: O principal é realmente entender o objetivo do festival que você quer traçar, porque é a coisa mais importante quando a gente fala de editais. Entender qual é o objetivo, qual é o diferencial que o seu festival tem para os outros. Não é só um espaço de exibição. E realmente ler o edital, acho que é o essencial. É o básico do básico. De que realmente o segredo para passar em editais é realmente ler os editais. E também entender quais projetos estão passando em determinados editais, analisar os últimos resultados, ver como esses projetos foram escritos. E buscar esse incentivo em vários editais, não tentar só o edital municipal. Tentar em outros âmbitos, até nacionais mesmo, para buscar esses incentivos para que o seu evento, o seu projeto continue acontecendo. Quando um festival cria um público, ele cria público também para os outros festivais. Então é importante, por fortalecimento também do audiovisual, se outros festivais em outros municípios surgissem também.
Terminamos a chamada, e fiquei pensando em como a minha amada cidade serrana, capital nacional do caminhão, famosa pelo comércio, pela feira livre, pelo Parque dos Falcões e pela fé fervorosa em Santo Antônio, também pôde construir para si um lugar no mapa da sétima arte.
E acho que a Ana Beatriz que adorava passar as noites escolhendo filmes na Fênix, lá pelos anos 2000, ficaria muito feliz em saber que, duas décadas depois, a sua própria cidade também tem um festival internacional de cinema. Ainda que, naquela época, ela voltasse quase sempre para o mesmo filme.



















