Crítica | Muito Prazer
- Aianne Amado

- há 6 horas
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Novo filme de Jorge Furtado tem humor, crítica social e uma premissa contemporânea, mas não alcança a potência de seus clássicos.

Se houvesse um Monte Rushmore dos roteiristas e diretores do cinema brasileiro, o rosto de Jorge Furtado certamente estaria lá, esculpido em pedra. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Furtado dominou as diversas linguagens e formatos que o audiovisual permite. Na comédia cinematográfica, assinou clássicos como Saneamento Básico, O Homem que Copiava e Lisbela e o Prisioneiro. Na televisão, escreveu de quadros do Fantástico a séries e minisséries, passando pela comédia em A Invenção do Brasil e chegando ao drama de Sob Pressão. Como documentarista, dirigiu e roteirizou Ilha das Flores, pelo qual recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim.
E, apesar dessa variedade, existe algo profundamente “jorgefurtadiano” em sua obra — uma espécie de impressão estilística que um espectador atento é capaz de reconhecer mesmo antes de saber quem está nos créditos. Talvez esteja no humor, no tom, no ritmo, na maneira como o absurdo se infiltra no cotidiano. Talvez seja a combinação de tudo isso. É difícil definir, mas fácil reconhecer.
Longe de ser um problema, essa recorrência é justamente o que os cinéfilos mais tradicionais tanto amam no tal “cinema de autor”. A assinatura de Furtado atravessa gêneros, formatos e décadas sem deixar de ser identificável. Seu cinema tem uma lógica própria, na qual o humor e a crítica social quase nunca aparecem separados – um serve de veículo para o outro.
Esse traço é particularmente evidente em Muito Prazer, seu novo filme como roteirista e diretor. Mais uma vez, Furtado parte de uma situação aparentemente banal para construir, através do absurdo, um comentário sobre o presente. Um motorista de aplicativo (Daniel de Oliveira) herda um motel abandonado que, por acaso, também se tornou a moradia de Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que decidiu permanecer no local depois de meses de salário atrasado. Afundados em dívidas, os dois resolvem reabrir o estabelecimento.
Reformas, faxinas, promoções – nada parece suficiente para tornar o negócio rentável. Até decidem ir um pouco além: filmar e divulgar na internet os casais que frequentam o motel, convencendo-se de que estão apenas ocupando uma conveniente zona cinzenta moral e o judicial. Quando percebem o potencial de lucro, vão mais além. Depois, um pouco mais. E mais uma vez. Com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), especialista em computação, a escalada parece não ter fim. Sem dúvidas, uma premissa bastante “jorgefurtadiana”.

Muito Prazer é um filme profundamente interessado no espírito do seu tempo, atravessado por inteligência artificial, plataformas digitais, exposição da intimidade e transformação da vida privada em conteúdo. Há algo quase premonitório nesse exercício de imaginar até onde essa lógica pode nos levar. Mas, justamente por estar tão preso ao presente, Muito Prazer talvez não tenha a mesma capacidade de permanência de alguns dos filmes mais conhecidos de Furtado. O que hoje parece uma sátira afiada pode envelhecer junto com as tecnologias e comportamentos que o filme tenta capturar.
O maior problema, entretanto, está na execução. O roteiro é inteligente e preserva o ótimo humor que se espera, mas nem sempre encontra nos atores a tradução necessária para seu potencial. Não se trata de questionar a capacidade de Daniel de Oliveira ou Luisa Arraes, cujas trajetórias tornam o talento indiscutível. O problema talvez seja menos de competência do que de sintonia: juntos, não encontram completamente o registro exigido pelo texto.
Há uma artificialidade deliberada na maneira como os personagens de Furtado falam e se comportam. E essa artificialidade é essencial. Quem lembrar das divagações de Leléo, vivido por Selton Mello, ou das divertidíssimas discussões entre os personagens de Fernanda Torres e Wagner Moura em Saneamento Básico, vai saber do que estou falando. São figuras que não precisam parecer naturais, mas devem ser convincentemente artificiais.
Quando bem executado, esse registro transforma a artificialidade em uma sátira irresistível – um diálogo impossível, o qual não conseguimos parar de assistir. Para isso, porém, é preciso um timing extremamente específico, com um ritmo suficientemente veloz para que a estranheza se transforme em humor, mas precisamente controlado para que o espectador compreenda a piada antes que ela se perca. É um equilíbrio difícil, e não é por acaso que alguns dos melhores exemplos estejam justamente nas mãos de nomes como Mello, Torres e Moura.
Em Muito Prazer, Oliveira e Arraes não parecem encontrar essa balança por completo. A artificialidade do texto, que deveria produzir sátira e inventividade, permanece muitas vezes apenas como… artificialidade. E isso tem uma consequência maior do que simplesmente tornar algumas cenas menos engraçadas: os personagens não convencem e tampouco despertam a empatia necessária para sustentar a própria narrativa. O filme pede que nos importemos com aquelas pessoas para que sua escalada moral tenha algum peso. Mas, à medida que elas ultrapassam cada novo limite, estamos mais interessados em descobrir qual será a próxima situação absurda do que em acompanhar as consequências de suas escolhas.
É por isso que a participação especial de Drica Moraes no terceiro ato é tão bem-vinda. Em poucos minutos, ela encontra com muito mais precisão o tom que o roteiro vinha procurando. Sua presença injeta energia na narrativa e mostra, ainda que tardiamente, como aquele humor pode funcionar.
No fim, Muito Prazer é um filme que parece ter todos os elementos para ser marcante, mas entre a perspicácia do argumento e sua realização existe uma distância que o filme não consegue superar. O problema, talvez, esteja justamente na régua “jorgefurtadiana”: de quem já nos deu tanto, esperamos sempre um pouco mais.
Nota: 2,5/5



















