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Entrevista | “As cozinhas solidárias não matam só a fome, mas também nutrem uma outra forma de viver:” Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel falam sobre “Não Existe Almoço Grátis”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 10 horas
  • 8 min de leitura

Filme, que estreia nesta quinta-feira (3), trata a respeito de três lideranças femininas do MTST em Brasília às vésperas da posse do presidente Lula.

Divulgação


Os profundos danos durante a gestão da pandemia de Covid-19 foram acompanhados por outro vírus terrível: a fome. A falta de políticas públicas para enfrentar essa situação levou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) a organizar dezenas de Cozinhas Solidárias, distribuindo almoços grátis por todo o país. Em Brasília, três mulheres negras, Bizza, Jurailde e Socorro, lideram uma dessas Cozinhas Solidárias, localizada na maior favela do país, Sol Nascente, a apenas 30 km do centro da capital. No contexto da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, elas estão encarregadas de cozinhar para as centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia no dia 1º de janeiro.


As vidas e o trabalho de Bizza, Jurailde e Socorro são o foco de Não Existe Almoço Grátis, documentário codirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (3) após premiada trajetória em festivais. O filme foi consagrado com prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na 56ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, além de ter recebido a Menção Honrosa do Júri Oficial. Além disso, também ganhou o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na 13ª Mostra Ecofalante de Cinema, a Menção Honrosa do Júri Oficial no 31º Festival de Cinema de Vitória e o Prêmio Destaque na 21ª Mostra do Filme Livre, além de ter sido exibido no 13º Olhar de Cinema e 27º ForumdocBH.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, que falaram a respeito do processo de chegarem até Bizza, Jurailde e Socorro e conduzir as entrevistas com as mulheres, de forma a apresentar suas nuances e facetas múltiplas à luz do período em que o filme foi produzido e do atual cenário político que o Brasil tem vivido. Confira a entrevista abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Sempre que entrevisto documentaristas fico muito interessado em saber o que os levou a escolher aquele tema para seu filme e os personagens que serão foco da obra. O que os motivou a trazer o projeto das Cozinhas Solidárias para as telas e como vocês chegaram em Bizza, Jurailde e Socorro?

 

Marcos Nepomuceno: O filme começou muito com o desejo nosso de testemunhar a posse, nós sabíamos que queríamos registrar esse momento histórico. E eu moro no Rio de Janeiro, o Pedro na época morava em Brasília, e ele costurou essas relações que já tinha de anos, tanto com o movimento quanto com a cozinha solidária e as nossas três protagonistas, que são coordenadoras dessa cozinha lá no DF. Eu lembro a primeira imagem que ele me descreveu assim: "Três mulheres incríveis, cozinheiras do movimento, com umas panelas gigantescas cozinhando para 700 pessoas na posse do Lula”. Eu falei: "Cara, a gente precisa ir e precisa fazer acontecer".


O processo do filme foi bem intenso, porque eu não me lembro a data específica, mas eu diria que, assim, em 10 de dezembro a gente teve essa conversa de pré-produção e eu falei de comprar minhas passagens e do fotógrafo [André Hawk]. E de 10 a 29 de dezembro, que foi a primeira diária, a gente fez tudo, o Pedro costurou lá com eles em Brasília e eu puxei a equipe do Rio para fazer acontecer. Então o filme é meio que uma grande cambalhota, no melhor sentido, porque a gente termina essa cambalhota de pé.

 

Pedro Charbel: Eu já as conhecia há muito tempo e já estava no MTST. Então, estava envolvido também nesse processo, nessa expectativa. E acho que o filme traz um pouco isso, quando a gente opta por acompanhar o processo. A gente não sabia um dia se ia cozinhar, quantos ônibus iam chegar, aí o gás acaba... essa é uma realidade do movimento social e era a realidade daquele contexto, inclusive, para quem não estava tão envolvido. Porque tinha aquela incerteza de vai ter golpe, não vai ter golpe, como que vai ser isso, o contexto político. Vencemos a eleição, mas o bolsonarismo ainda tá forte.


Então a gente fez essa opção: vamos apontar a câmera para esse lugar, para esses bastidores e entender a importância do que tem aqui, do que são as cozinhas solidárias, que não matam só a fome, mas também nutrem uma outra forma de viver, os laços de solidariedade, formação política. Vamos entender a importância do movimento social na trajetória dessas mulheres, entender a trajetória delas dentro do movimento social. Fazer sempre esse vai e vem do macro para o local, do pessoal, para o coletivo, fugindo de uma lógica individualista, meritocrática, de superação, que também é uma coisa que às vezes a gente encontra em algumas linguagens do audiovisual, e fugindo de uma coisa institucional e didática, porque a gente queria de fato promover esse mergulho, a sensação das pessoas. Eu acho que a gente ouve muito e fica feliz quando as pessoas têm essa sensação ao ver o filme, de ter vivido aquela jornada junto e sair um pouco ali com esse desejo de estar em movimento, de trabalhar junto, coletivamente.


Elas já tinham, pela comunicação do movimento, uma relação bem confortável com a câmera, mas a própria correria faz também que todo mundo que tá ali, além das outras pessoas que aparecem no filme, esqueçam que aquela câmera tá ali em algum momento. E tem o entrosamento da equipe, porque todo mundo também se deu muito bem, eu acho que o próprio movimento social tem essa essência de acolher as pessoas ali no processo, então, o filme foi de fato construído em parceria com o movimento, com elas, com todo mundo que estava ali. Os direcionamentos, tudo isso foi acontecendo de um jeito muito entrosado e acho que dá para perceber isso no filme. E isso possibilita que quem assiste também se entrose.



Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme busca fazer essa articulação entre o panorama político dos últimos anos no Brasil com as próprias trajetórias destas mulheres. Gosto de como vemos diversas nuances nelas, como, por exemplo, o fato de Bizza reconhecer ter votado em Bolsonaro em 2018 ou a fé evangélica de Jurailde. Como trazer essas diferentes facetas delas à luz de todo o processo político e de polarização que vimos acometer o Brasil? Acham que o público pode conseguir lidar com eventuais “contradições” que identifiquem nelas?

 

Pedro Charbel: Eu acho que é uma coisa que o Marcos sempre disse, que foi a gente estar disposto a mostrar isso, porque está tudo ali. Eu já as conhecia, mas o Marcos estava conhecendo de cara e falou: "Cara, é só a gente, vamos deixar a câmera aqui”. E eu acho que tem uma opção nossa no filme em geral, que é mostrar a realidade do movimento social, que é composto por pessoas como elas. Até hoje, nas cozinhas solidárias, nas ocupações do MTST, tem gente que votou no Bolsonaro, tem gente que tá no processo de conscientização política. Essa é a realidade.


Eu acho que a gente tem que parar de estigmatizar, seja no cinema, seja na nossa vida e na atuação política das pessoas, aqueles que que não estão votando do jeito que a gente vota ou que não estão se posicionando do jeito que a gente se posiciona. A grande maioria do povo brasileiro tá num processo de conscientização política num contexto muito difícil, de que você tem o mercado martelando na sua cabeça que só não conseguiu porque não se esforçou, de que depende de você, uma lógica totalmente individualista de mérito e lucro. E as pessoas estão tentando entender como se posicionar, não adoecer nesse mundo, entender que esses problemas são coletivos e, portanto, a saída para eles é necessariamente coletiva, estrutural. Então, eu acho que foi a nossa disposição de estar ali para isso.


E elas têm personalidades muito incríveis e muito diferentes, isso vai aparecendo no filme. As pessoas se envolvem muito; em todas as sessões, nos festivais, elas estavam presentes e eram sempre momentos muito especiais do público com elas, pegando as frases, os bordões que aparecem ali no meio, os momentos. Eu acho que há esse lado muito cativante delas, apesar dessas histórias super difíceis, e são histórias que dizem muito sobre o povo brasileiro. Duas delas migraram do Nordeste, a outra do Paraná, são mulheres negras, trabalharam como domésticas.


Então, isso é uma realidade muito comum para a população brasileira, essa diversidade que você falou de fé, voto, enfim, tudo isso diz muito sobre o Brasil. Mas o que diz mais sobre tudo é Socorro não querer tomar champanhe em taça de plástico, ou a Jurailde reclamar que o filho cortou o limoeiro dela, porque todo mundo tem relações meio parecidas. Acho que esses pontos de conexão de lembrar que as pessoas são assim, elas são complexas e estão na correria, é o que faz o filme ser tão lindo.


Marcos Nepomuceno: Eu acho que isso faz o filme chegar mais longe, o fato dele não antagonizar com as visões de mundo. Porque eu acho que a gente vive muito esse momento onde a primeira frase que você fala numa conversa já determina quem você é e com quem você pode falar, com quem você não pode falar, com quem quer falar, com quem não quer falar. Eu acho que a tentativa do filme e dessa câmera – que se posiciona ali e deixa a realidade se apresentar – é renovar essa esperança da rua. Eu acho que a gente tá um pouco doente de não ir para rua, a gente tá muito ensimesmado dentro dos seus pequenos universos. O filme é um convite pra gente realmente querer conhecer o outro.


Talvez, se a gente demorar um pouco mais no olhar e na escuta, vai ver que não é tão diferente um do outro, nas questões mais profundas. Somos diferentes nas realidades que cada um vive, mas todo mundo pode se identificar com essas histórias, seja você pobre ou rico, da situação que você tem na sua vida, de onde você veio. Mas todo mundo sabe o que é saúde mental, que tá todo mundo enlouquecendo no mundo de hoje. Em maior ou menor grau, está todo mundo sofrendo alguma coisa, todo mundo sabe aonde dói em si. Então você se conectar com essas histórias reais, complexas, contraditórias... não tem nada mais humano do que você ser contraditório. Eu acho que isso aproxima e para a gente foi muito natural tudo que aconteceu no filme e a forma como elas se apresentaram, porque é o humano.


E eu acho que com o filme chegando nesse momento, quatro anos depois, a gente voltando numa eleição, é muito importante se lembrar de observar o outro, sair de dentro de si um pouco. E eu acho que o cinema é essa arte do encontro, de você lembrar que existem outras realidades e que essas outras realidades podem até te dar uma ideia sobre a sua. E eu acho que elas me ensinaram muito isso. A Bizza fala que não tem um lugar de romantizar o movimento social, ela fala: "Eu brigo o tempo inteiro com a Juraílde, só que a gente tem um sonho, a gente tem um projeto juntas". Então, acho que é um pouco essa mensagem: um sonho que se sonha sozinho não vai para frente. A gente tem que sonhar junto e caminhar junto na direção desse sonho.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Para encerrar, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?

 

Pedro Charbel: Pensando em um que esteja disponível online, acho que eu falaria O Dia Que Eu Te Conheci, que é um filme lindo da galera da Filmes de Plástico. Acho que é o tipo de cinema que eu que eu acredito e é bem imperdível de ver, dá para ver com todo mundo, chamar a família. Acho que tá no Globoplay, então dá para dá para ver com facilidade, assim, acho que esse é dos grandes do nosso cinema contemporâneo.


Marcos Nepomuceno: Sou péssimo de fazer só uma escolha, mas eu vi recentemente, não tinha assistido esse filme ainda, que é Eles Não Usam Black-Tie, do Leon Hirszman. Eu achei belíssimo, por todas as questões, acho um cinema corajoso, um cinema que se propõe a debater socialmente, sem medo da pauta. Eu acho que a gente tá muito acuado de falar e abordar as questões que “não pode”, porque vai polemizar. Eu acho que com responsabilidade, com ética e com delicadeza, a gente pode falar sobre qualquer coisa no cinema.


E um que eu amo sempre, porque tem essa coisa da escuta e da das versões assim, é o do Eduardo Coutinho, Jogo de Cena. Eu adoro esse filme, acho simples, é um filme bom porque ele é barato, e essa solução do pouco recurso que infelizmente a gente muitas vezes, como novos realizadores, têm. Então, é um bom filme para despertar esse dispositivo barato e que você chega num resultado excelente no Jogo de Cena.

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