Crítica | Fúria (1ª temporada)
- Gabriella Ferreira

- há 5 horas
- 4 min de leitura
Série transforma perseguição entre duas mulheres em um retrato amargo sobre violência e poder.

Quando Fúria começou, a série do Disney+ parecia seguir um caminho relativamente conhecido: uma agente do FBI perseguindo uma serial killer enquanto tenta entender o que conecta uma série de assassinatos. A premissa funciona, mas felizmente a produção criada por Elizabeth Meriwether não se contenta em entregar apenas mais um thriller policial.
Ao longo de seus oito episódios, Fúria se transforma em uma história muito mais complexa sobre violência, abuso e os mecanismos que permitem que esses ciclos se perpetuem. E é justamente essa ampliação de sua proposta que faz da série uma das melhores produções que assisti em 2026.
A trama acompanha Alice Black (Emmy Rossum), ex-detetive de homicídios de Nova York que agora trabalha como agente do FBI. Durante a investigação de mortes aparentemente desconectadas, ela chega até Catherine (Lola Petticrew), uma mulher que escolhe cuidadosamente seus alvos e parece sempre estar alguns passos à frente.
A princípio, a dinâmica entre as duas funciona como um clássico jogo de gato e rato. Alice quer descobrir quem Catherine é e impedi-la, enquanto Catherine parece cada vez mais interessada em dar continuidade com sua vingança. Só que, conforme a história avança, fica claro que a série está muito menos interessada em determinar quem é a caçadora e quem é a caça do que em entender o que levou essas mulheres até ali.
Esse é um dos grandes acertos de Fúria. A série não transforma Catherine simplesmente em uma vilã que precisa ser derrotada e tampouco apresenta Alice como uma heroína infalível. As duas são personagens atravessadas por traumas, escolhas e contradições, e suas histórias acabam se conectando de maneiras cada vez mais perturbadoras.
Além do roteiro, Fúria chama atenção pela qualidade de sua realização. A série tem uma estética bastante sofisticada, que contribui diretamente para a atmosfera de tensão construída ao longo dos episódios. A fotografia e a direção trabalham bem a sensação de desconforto e paranoia, criando uma atmosfera que combina com uma história na qual nem sempre sabemos quais personagens estão dizendo a verdade ou quem realmente está no controle. Existe um cuidado evidente na composição das cenas, nos espaços e na maneira como Alice e Catherine são colocadas dentro deles.
A produção também consegue encontrar um equilíbrio interessante entre o thriller policial e uma abordagem mais psicológica. A tensão não depende apenas de perseguições ou grandes reviravoltas. Muitas vezes, ela está nos silêncios, nos olhares e na sensação constante de que alguma coisa está prestes a sair do lugar.
Esse cuidado estético faz diferença porque Fúria não parece uma série policial genérica. Há uma identidade visual que acompanha o amadurecimento da narrativa e ajuda a transformar a investigação em uma experiência mais imersiva.
Mais do que falar sobre violência individual, Fúria olha para as estruturas que permitem que ela aconteça e continue acontecendo. Abusos são silenciados, vítimas não são ouvidas e homens em posições de poder encontram maneiras de permanecer protegidos pelas próprias instituições que deveriam responsabilizá-los.
É nesse aspecto que a série ganha uma dimensão especialmente forte. A violência não aparece apenas como um acontecimento isolado, mas como algo que se perpetua quando existe uma estrutura disposta a ignorá-la. E, para as mulheres que estão dentro dela, as consequências podem atravessar anos e deixar marcas profundas.

Por isso, a relação entre Alice e Catherine funciona tão bem. A série não está apenas interessada em descobrir quem vencerá esse confronto. Ela quer discutir justiça, vingança e obsessão, e o quanto essas coisas podem se misturar quando alguém passa anos esperando por uma resposta que nunca chega.
Emmy Rossum está excelente como Alice. A atriz constrói uma protagonista inteligente e extremamente competente, mas também marcada por feridas que interferem na forma como ela se relaciona com o trabalho e com as pessoas ao seu redor.
Lola Petticrew não fica atrás e entrega uma Catherine assustadoramente calculista, mas também cheia de camadas. A atriz consegue fazer com que a personagem seja simultaneamente perturbadora e intrigante, sem permitir que ela seja reduzida a uma simples caricatura de serial killer.
O restante do elenco também acompanha esse nível de qualidade, com destaque para Scoot McNairy, Quincy Tyler Bernstine e Jake Lacy. A série entende que seus personagens secundários precisam existir para além da investigação, dando a eles conflitos e relações próprias que ajudam a ampliar o universo da trama.
E então chegamos ao episódio final. Sem entregar spoilers, é impossível não terminar Fúria com um gosto amargo. O encerramento consegue condensar boa parte das discussões levantadas ao longo da temporada e deixa uma sensação particularmente incômoda sobre o que significa ser mulher em uma sociedade onde violência e abuso ainda podem ser ignorados, relativizados ou protegidos por estruturas de poder.
É um final que não oferece exatamente o conforto de uma justiça plenamente alcançada. E talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem. Ao mesmo tempo, a temporada termina deixando um excelente gancho para a continuação. Depois de tudo o que foi construído nesses oito episódios, fica a sensação de que Alice e Catherine ainda têm muito a revelar e, principalmente, de que Fúria ainda tem muito a dizer.
Nota: 4,5/5



















