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  • Foto do escritorMaria Luysa Canario

Crítica | Entre Mulheres

As mulheres conversam e finalmente, nós as escutamos

Foto: Divulgação


Por um tempo indeterminado, as mulheres de uma comunidade religiosa isolada foram drogadas com tranquilizante para vacas e estupradas regularmente durante o sono. Ao fazer denúncias para seus líderes, elas eram informadas de que estavam sendo violentadas por fantasmas, demônios, sendo punidas por erros que cometeram enquanto estavam acordadas. E elas acreditaram nessa mentira até que duas meninas conseguiram ver um dos estupradores fugindo após o ato. Alguns dos homens foram presos e os que não foram foram à cidade para pagar a fiança. As mulheres da colônia, sem supervisão por um curto período de tempo, têm cerca de 48 horas para decidir como será seu futuro. A história, adaptada de um livro homônimo de Miriam Toews, que por sua vez baseou sua escrita no caso real ocorrido na Colônia de Manitoba, na Bolívia, é dura. E o longa consegue ter sucesso sendo exatamente o que seu nome apresenta: Mulheres conversando.


Em um filme sobre empatia, raiva e perdão, a diretora Sarah Polley tem um cuidado que raramente vemos em diretores masculinos, fugir da facilidade que seria retratar uma cena de estupro para causar impacto e então se abster de dramatizar qualquer violência, optando por apresentar as consequências internas em cada mulher e na comunidade em geral ao invés do terrível incidente. Essa delicadeza, apresentada através do debate entre as mulheres escolhidas para representar a comunidade, é o ponto mais forte do filme.


Com uma dinâmica quase que teatral, Entre Mulheres traz uma rotação de fortes atrizes para o debate - Claire Foy, Jessie Buckley, Rooney Mara, Michelle McLeod, Judith Ivey e Sheila McCarthy entregam performances intensas e conseguem representar bem um roteiro impactante ao discutir se devem fugir ou ficar e lutar contra os homens da colônia. Com cada uma trazendo seus pontos de vista, o longa mostra com sutileza como o luto e o trauma se formam e enraízam de formas diferentes em cada uma, como a tristeza pode se transformar em ódio ou cansaço ou até em perdão, e como não podemos vilanizar nenhuma das personagens por terem seus pontos de vista, porque afinal, e digo isso como uma mulher “do mundo real”, estamos todas cansadas de precisar lutar por direitos que nunca deveriam ser questionados.

Foto: Divulgação


Algumas ferramentas utilizadas para criar o clima do filme são as incríveis trilha sonora, produzida pela já vencedora de um Oscar Hildur Guðnadóttir, e os figurinos, que apesar de simples conseguem mostrar com sucesso o contraste existente entre a situação vivida pelas mulheres da colônia e o ano em que elas estavam. Esteticamente, o filme traz uma paleta de cores sóbrias que busca transmitir esse sentimento de tristeza e escuridão. Porém que resulta em tudo ser um pouco visualmente desagradável, sendo até um dos fatores que podem tornar o filme “chato” para algumas pessoas.


Outro ponto que me desagrada é, ironicamente, o único personagem masculino presente no debate. August (Ben Whishaw) é um ex-colono que voltou depois de ir para faculdade para ensinar na escola da comunidade. Por ser amigo de Ona (Rooney Mara) ele é escolhido para acompanhar a reunião e auxiliar escrevendo tudo que fosse necessário, afinal as mulheres não sabem ler ou escrever. August não me incomoda por inteiro, apenas essa sensação de “mas nem todo homem é ruim” e “desculpa por ser homem” que o personagem pode passar em alguns momentos, afinal, nós sabemos que nem todos os homens são ruins, mas quando estamos falando de uma comunidade inteira de mulheres sendo drogadas e estupradas desde seus 4 anos de idade, qual a necessidade de debater esse fator?


Por fim, Entre Mulheres tem seus defeitos, mas os supera sendo um filme honesto e cru sobre a cura, e isso é o que encanta. Não precisamos ver o mal acontecendo ou seus feitores sendo julgados, ver um grupo de mulheres que sequer sabiam o que era o abuso tomando partido de suas vidas é o suficiente. Afinal, ser mulher ainda requer continuar em movimento quando você está tão cansada, fraca e machucada. Que possamos continuar falando até que isso mude.


Nota: 4/5

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