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Entrevista | “A gente estava a serviço de uma história muito séria”: Marina Merlino fala sobre Emergência Radioativa

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 2 horas
  • 14 min de leitura

Uma das protagonistas da série reflete sobre atuação, dor e o compromisso de representar vítimas reais do caso do césio-137.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

A nova série brasileira da Netflix, Emergência Radioativa, estreou no último dia 18 de março e rapidamente se tornou um dos títulos mais comentados do momento. A produção revisita o acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987, considerado um dos maiores desastres radioativos da história fora de usinas nucleares, trazendo à tona não só os fatos, mas também as marcas deixadas nas vidas das vítimas.


Com forte repercussão internacional, a série alcançou o Top 4 global da plataforma e liderou o ranking brasileiro na semana de estreia. Além disso, também conquistou o primeiro lugar em países como República Tcheca e Eslováquia, aparecendo ainda no Top 10 de diversas outras regiões,  um indicativo da potência dessa história que, embora profundamente brasileira, ecoa mundialmente.


Na trama, nomes como Johnny Massaro, Paulo Gorgulho e Ana Costa dão vida a físicos, médicos e personagens diretamente atravessados pela tragédia. Entre eles, a atriz Marina Merlino se destaca ao interpretar Catarina, uma mãe que enfrenta as consequências devastadoras da contaminação de seus filhos, um papel marcado pela intensidade e pela responsabilidade de representar histórias reais.


Para falar sobre o processo de construção da personagem, os desafios emocionais da série e o impacto dessa produção no Brasil e no mundo, o Oxente Pipoca conversou com Marina Merlino. Confira a íntegra da entrevista abaixo: 


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Prazer estar falando com você, Marina. Eu sou Gabriela, faço parte do Oxente Pipoca, tô falando daqui de Aracaju, Sergipe. Então, o Oxente tem essa proposta de falar de cinema de uma maneira descentralizada, né? Falando aqui do menor estado do Brasil, trazendo esse olhar sobre cinema e série.

Queria só dar esse contexto mesmo e dizer que assisti à série no fim de semana, adorei, me emocionei muito. Acho que, além do entretenimento, é quase uma aula, assim, pra outras gerações. Até um fato curioso: eu tenho um irmão de 15 anos e ele não sabia o que tinha acontecido. Então apresentar essa história pra ele através do audiovisual é um dos grandes ganhos, né?

E aí eu queria te ouvir um pouco: como foi construir essa personagem, que nasce de uma história real tão dura, tão devastadora? E o que mais te interessou quando esse projeto chegou até você? Marina Merlino: Gabriella, obrigada em primeiro lugar. Eu acompanho o portal de vocês, o canal de vocês. Adoro ler as críticas, adoro ler as entrevistas, então eu tô muito feliz de estar aqui hoje, conversando com você. Me sinto muito honrada.


E pegando… vou pegar um gancho: hoje eu vi um post de uma pessoa contando que é uma pessoa que dá aula de geografia e que passou a série na aula de geografia em Teresina. E a gente se mandou esse post e ficou muito feliz. Porque eu acho que, ao fim e ao cabo, é pra isso que serve, né?


Tipo assim, se a série tá servindo pra pessoas que não sabiam desse caso conhecerem o caso, pessoas pesquisarem a respeito, porque é claro que a série não vai dar conta de tudo. São só cinco episódios e foram muitos dias, e continuam sendo, na verdade, né? Porque as questões que foram geradas, as questões que o vazamento do Césio gerou, continuam até hoje.


Então, se a série tá servindo para as pessoas se informarem, pesquisarem, quererem investigar, debaterem, porque as pessoas estão conversando muito, pelo menos o que a gente tem acompanhado, as pessoas estão conversando muito a respeito de como o poder público lidou, como não lidou, os protocolos que esses médicos criaram e que viraram referência mundial, porque foi uma coisa muito única. Não tinha protocolo, não tinha referência, eles tiveram que inventar.


Então, assim, se isso tá acontecendo, já valeu a pena a gente ter feito a série. Eu entendo dessa maneira.. Acho que essa é a primeira coisa que eu queria dizer. Aí depois dizer que, bicho, a Catarina foi uma grande aula, uma grande honra poder dar corpo e voz pra essa personagem. Foi um processo super intenso. Eu sou uma pessoa absolutamente obsessiva, então, quando chegou o teste pra mim, eu li tudo, vi o Linha Direta, vi o filme que foi feito três anos depois, eles fizeram um filme, que inclusive é com o Paulo Gorgulho, que faz a nossa série também, vi todas as entrevistas, todos os artigos, matérias de jornal.


Fui parar num documentário que um gringo, agora eu não lembro se ele é dinamarquês, português, polonês, sueco, mas tinha umas entrevistas que eu não achei em lugar nenhum nesse documentário dele. Então fiquei assim, antes mesmo de pegar a série, quando chegou o teste, eu entrei nesse vórtex de estudar, de saber o que aconteceu depois, como foi o processo de responsabilização, como estão essas pessoas agora.


Porque a gente fala ali da família, mas teve muita gente contaminada, os bombeiros que trabalhavam, as pessoas que cozinharam pra essas pessoas no estádio, enfim. E aí, quando me chamaram, foi duas semanas antes da gente começar a filmar só. Então foi realmente muito intenso.


Como processo de criação, enfim, eu poderia ficar aqui falando horas a respeito disso. Acho que, sobretudo, foi sobre uma responsabilidade muito grande, né? A gente, no núcleo da família, virou família de verdade. A gente ficou amigo até hoje, a gente viu a série juntos aqui em casa.


Porque acho que teve algo em comum entre nós, que foi essa sensação de uma responsabilidade muito grande de contar essa história de uma forma digna, que honrasse a história dessas pessoas. E aí, como processo criativo, enfim, foi um processo de muita obsessão, de muito estudo, de muita obsessão por essa linha do tempo.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você comentou dessa responsabilidade que vocês sentiram, né? E eu queria saber, pra você como atriz, o que muda quando você recebe um papel assim, baseado em uma história real?

Porque é diferente de quando você pega um roteiro totalmente ficcional, né? Então queria entender como é esse processo pra você, o que muda na construção, no envolvimento…

Marina Merlino: Olha, eu acho duas coisas, assim. Eu acho que a primeira coisa é que foi muito louco, porque logo o meu último trabalho antes de fazer a série foi um longa-metragem argentino-brasileiro, de uma personagem que é mãe, que tava grávida, que andava muitos quilômetros a pé em busca de atendimento médico.


E muito numa condição de muito desassistida. Então foi muito louco, assim, como teve uma reverberação, porque tem muitas coisas em comum com a Catarina, né? Muitas mesmo.


Então eu acho que me sinto muito honrada de ter papéis que têm essa densidade e de ter a oportunidade de contar a história dessas mulheres, porque não são poucas essas mulheres, né? Esse filme era na Argentina, mas acho que tem uma coisa latino-americana e muito brasileira, dessas mulheres que são a base do mundo e que são as pessoas que fazem o mundo funcionar e que muitas vezes estão nessa condição absolutamente desassistida e que, mesmo assim, conseguem atravessar e conseguem seguir sustentando o mundo.


No caso de Emergência Radioativa, tem essa especificidade de ser baseado em histórias reais. E eu digo histórias no plural, porque eu acho que a Catarina tem muitas coisas muito em comum com uma história específica, que é a da mãe dessa criança, né? A forma como aconteceu.


Então tem muita gente que relaciona as duas, porque de fato tem muita inspiração na história da Lúcia das Neves. Mas não é um biopic, né? Não é uma biografia dessa pessoa em específico. Essas personagens são todas condensações dessas pessoas, tanto os médicos, os físicos, quanto as vítimas.


Então, por exemplo, a Catarina sai do estádio e ela é liberada para convívio social, mandam ela pra rua. A história da Lúcia não foi essa, ela ficou isolada três meses no estádio. Mas outras pessoas foram liberadas para o convívio social.


Essa coisa dela ir para o Rio de Janeiro, então ela é muitos caquinhos de muitas histórias pra construir essa Catarina, apesar de ter algo muito emblemático, que é a história da Celeste, que é inspirada também na da Leide.


Então foi um estudo dessas histórias todas, de ouvir todas as entrevistas possíveis. E acho que a minha obsessão no processo criativo era pela linha do tempo, porque tem grandes saltos, né? Então, do episódio 2 para o episódio 3, para o episódio 4, por exemplo, passam 10 dias. Muita coisa acontecendo nesses 10 dias que a gente não vê na tela.


Tem muito da vida da Catarina, que é essa vida secreta dela aos nossos olhos, e que acontece muita coisa ali. Ela constrói muita coisa, ela vai atrás de muita coisa. E é um exercício da musculatura da imaginação, de filmar de uma cena pra outra pensando que se passou tudo isso na vida dela.


Eu e Iberê, que dirigiu o episódio 3 e algumas cenas, até a gente tava se falando essa semana, ele falou que lembrava de mim com meu caderno, com meus papéis. Porque eu andava pra lá e pra cá com um calhamaço desse tamanho de papel, que eram as minhas anotações, que era ter anotado a minha linha do tempo.


Então, antes de filmar, eu lia tudo que tinha acontecido na vida da Catarina até ali pra entrar em cena. E depois inventava e estudava tudo o que aconteceu que a gente não ia ver, pra entender qual era a transformação que tinha acontecido com ela de um lugar pro outro, da última vez que a gente viu até a próxima.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você comentou que parte do elenco se reuniu pra assistir à série junto, né? E eu até tinha elaborado uma pergunta sobre isso, porque a série chegou ao top 1 da Netflix e também entrou em rankings em vários países, não ficou só no Brasil, teve esse alcance global mesmo.


Inclusive, vendo comentários em aplicativos e nas redes, dá pra perceber gente de vários lugares do mundo assistindo e comentando, e é muito interessante ver essa circulação da história. Queria saber se você e o restante do elenco têm acompanhado essa recepção e como tem sido pra vocês ver essa repercussão tão ampla.

Marina Merlino: Aquele processo de fazer, mas é muito diferente de ver essa recepção. Nossa senhora, Gabi, a gente tá muito embasbacado, assim, muito emocionado.

Estamos acompanhando pra caramba, estamos muito, muito felizes. Principalmente porque é muito emocionante saber que a gente está no top 1 no Brasil e que as pessoas estão vendo essa história e que tá tendo esse efeito das pessoas irem atrás de saber da história real. Isso, assim, a nossa experiência aqui tem consequências, inclusive, na vida de processos que ainda estão em aberto.

E daí a gente conhece a nossa história, né? Tem muita gente que não sabia que isso tinha acontecido no Brasil, muita, muita gente mesmo. E é muito recente, faz 40 anos. Então, por que a gente não estuda isso na escola, por exemplo? Por que isso não tá no programa escolar, da gente estudar tudo desse caso? Tanto a questão radioativa como como se lida com uma calamidade como essa, né? A gente precisa saber, precisa se orientar.


Mas aí, voltando pra sua pergunta, estamos muito felizes. A gente tá no top 10 em 26 países. A gente tá no top 1 em alguns rankings da Netflix, da série de língua não inglesa, e também em quarto global nas séries de língua não inglesa.


Como eu disse, a gente criou um vínculo muito forte, assim, no núcleo da família. Então, na quarta-feira, no dia da estreia, tava todo mundo aqui em casa, a gente tava assistindo juntos.

Inclusive, eu aproveito pra dizer que a qualidade da série tem muito a ver com a sensibilidade e excelência da equipe e do elenco. É uma equipe muito grande pra fazer essa série, de muitas pessoas muito dedicadas, que fizeram um trabalho de excelência.


Sou uma grande admiradora dos meus colegas e parceiros. E a gente tinha um diretor muito sensível e muito generoso, que é o Fernando Coimbra, que foi muito respeitoso com as questões que eram levadas. Eu posso falar de onde eu tava, nesse núcleo da família, e foi muito generoso com o que era levado. A gente conseguiu criar muitas coisas junto com ele.

E também dizer que tenho uma profunda admiração pelos meus colegas de elenco, porque a atuação é um ofício que se faz na troca, né? Ela acontece no entre, entre eu e o outro, entre eu e o personagem, entre a pessoa e o espaço, entre a pessoa e o espectador.


E foi um privilégio muito grande trocar com essas pessoas, porque esse núcleo da família… eu sou muito admiradora deles, de todo o elenco, né? Mas é porque a gente tava muito juntinho, muito pertinho.


Então a gente tá muito feliz.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu tava vendo também uma entrevista sua anterior, em que você fala da força dessa personagem, né, mesmo dentro de todo aquele trauma. E eu queria saber, pra você como atriz, como é construir esse tipo de emoção sem cair no exagero ou numa coisa caricata, o que não acontece na série.

Porque, pra mim, uma das cenas mais fortes foi a do enterro. Foi tão impactante que eu nem consegui chorar, eu fiquei meio estática, assim, vendo uma mãe enterrando a filha, com todo aquele contexto em volta. E depois, quando fui ver os registros reais, eu vi o quanto aquilo tava próximo do que de fato aconteceu, e isso me deu ainda mais choque.

Então eu queria te ouvir um pouco sobre isso: como é acessar esses lugares mais profundos de emoção, especialmente em cenas tão difíceis como essas?

Marina Merlino: Olha, Gabriella, eu acho que não entrar num lugar de exagero tem a ver com isso que eu falei, com a escola onde eu aprendi, quando eu estudei o ofício da atuação. É essa ideia de que a coisa não é sobre mim. Não é sobre a Marina, não é sobre o meu sentir, não é sobre o que eu quero mostrar.


Eu acho que o ofício da atuação é você estar a serviço de contar uma história, sabe? É assim que eu entendo. E ali a gente tava a serviço de contar uma história muito, muito séria, que diz respeito a muita gente. Então foi muito desafiador. Eu acho que tem uma parte desse trabalho que tá no campo do mistério, porque se você tentar controlar o que vai acontecer, não dá, porque não é na cabeça, é inimaginável. É inimaginável o que essa pessoa passou, o que uma mãe que enterra seu filho ou sua filha sente, passa, ou como ela atravessa isso.


E aí, nesse sentido, acho que devo muito ao Fernando, que é o diretor geral e que dirigiu esse episódio, que tava conduzindo essa cena. Porque, enfim, como eu disse, ele é muito generoso, muito sensível, e ele deixou a coisa acontecer como acontecesse.


Ele falou: “Faz o que for verdadeiro pra você”. E a gente fez muitos takes e aconteceram muitas coisas diferentes. Aconteceu de chorar, aconteceu de não chorar, aconteceu de desabar, aconteceram muitas coisas.E tem uma parte disso que é do campo do mistério, que é no campo de obedecer ao que o seu corpo manda fazer, sabe? Porque é indomável.

Eu espero muito ter feito jus e honrado esse momento, porque foi muito desafiador. Pra mim, pessoalmente, tem uma coisa que, enfim, falando fora do ofício, mas de como foi pra mim, é que meu pai se foi em fevereiro do ano passado e a gente tava filmando isso em junho, menos de seis meses depois.


Então mexeu em muitas coisas. E aí eu acho que tem um desafio que é justamente da gente ter muito respeito pelo que tá acontecendo ali, sabe? Pra mim, não ir pro exagero tem a ver com esse respeito, porque tem tanto sentimento ali, tem tanta raiva, indignação e, ao mesmo tempo, uma dor tão indescritível que não é controlável, né? Não é racionalizável.

Imagem: Divulgação
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Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E eu vi que você tem uma trajetória que atravessa outros lugares também, né? Você comentou desse trabalho argentino-brasileiro… então queria saber se existe um desejo seu de seguir atuando em produções de outros países, ampliar ainda mais esse alcance.

E também queria entender como você acha que esse papel pode impactar a sua carreira daqui pra frente, e o que você espera para os próximos passos.

Pô, sim, eu tenho muita vontade. Essa experiência de filmar na Argentina foi extremamente feliz, foi muito especial essa troca. O Pedro Wallace, que é o diretor do filme, roteirista, idealizador, virou meu grande amigo até hoje. A gente tem um outro projeto que está sendo gestado, que também é uma coprodução Brasil, Argentina, Chile e Polônia. Tá aí no forno, estamos esperando sair.


E eu tenho muita vontade, sim, Gabi. Eu tenho muita vontade de fazer cinema no Brasil e de ir fazer cinema em outros lugares também, porque acho que a troca é sempre muito enriquecedora. Você conhecer equipes argentinas, filmar em território argentino, conviver com o cinema argentino… A gente filmou numa cidade de 5 mil habitantes, na fronteira da Argentina com o Brasil.


É muito especial essa possibilidade do audiovisual, do deslocamento, né? Tem muitas delicadezas, mas é muito feliz também. E nesse caso, o filme foi muito feliz porque foi um vínculo muito respeitoso com a cidade também, que continuou. O filme Las Preñadas estreou lá num telão na praça, sabe? Ficou muito lindo.


Então, sim, eu tenho muita vontade. Eu gosto muito de fazer cinema, gosto muito de fazer cinema autoral e acho que foi um pouco por onde eu comecei, onde eu atuei mais. E eu tô muito feliz de fazer a série porque é a primeira vez que eu estou fazendo um trabalho que tem esse nível de alcance, de visibilidade. E estou feliz pra caramba, porque isso significa mais possibilidades de troca, significa que tem mais pessoas conhecendo o meu trabalho.


Sou muito grata porque estou sendo recebida com muito carinho pelo público que assiste à série. Então estou muito, muito grata, muito feliz. Eu tava nervosa. E que isso gere novas trocas pra todos nós, novos trabalhos, outras possibilidades também. Minha primeira série foi de comédia, então transitar é muito gostoso, né? Transitar entre obras dramáticas e obras de comédia, transitar entre o cinema e o streaming, transitar entre o teatro e a televisão.

Eu sou feliz no trânsito. É onde eu sou mais feliz. Então, se você me pergunta o que eu desejo, eu desejo continuar transitando, e cada vez mais, voando cada vez mais longe. 


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A série faz parte dessa leva de produções baseadas em fatos reais, que vem crescendo no Brasil. E eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso. E aproveitando, queria te ouvir também sobre como você enxerga o momento atual do cinema brasileiro. A gente passou recentemente por um período de muito destaque internacional, com filmes chegando ao Oscar e ganhando visibilidade lá fora, mas ao mesmo tempo existe muito cinema sendo produzido aqui que não necessariamente chega nesses espaços.

Então, como você vê esse cenário hoje, esse equilíbrio entre o reconhecimento internacional e a diversidade do cinema que é feito no Brasil?

Marina Merlino: Olha, eu acho que essas obras baseadas em coisas reais, em fatos reais, o Brasil tá falando de si próprio. É algo que muito me alegra, porque significa que a gente tá olhando pra nossa própria história, entendendo ela como uma história que vale a pena ser contada.


E isso faz a gente conversar sobre ela, faz a gente, quer seja pra se orgulhar dela, quer seja pra questioná-la.E digo isso tanto no sentido de séries que contam casos específicos, quanto filmes e produções que contam sobre um recorte específico, quanto filmes que elaboram períodos da nossa história, como temos tantos nesse passado recente, como O Agente Secreto, como Ainda Estou Aqui, como muitas obras nos últimos anos.


E, cara, o cinema… o Brasil tem um cinema maravilhoso. E eu tive a sorte, a oportunidade, nos últimos anos, muito com Las Preñadas, de ir pra diversos festivais de cinema. A gente foi pro festival de Cuba, eu tive a oportunidade de ir pra um festival na Espanha, que me deu um prêmio. Então eu fui até lá, a gente deu um jeito de eu ir. E o cinema brasileiro é muito respeitado fora daqui.


Então fico muito feliz que a gente esteja começando, que a gente volte a frequentar o cinema, porque o brasileiro foi muito ao cinema durante muito tempo. E nesses festivais, tem muita gente fazendo filmes incríveis, curtas, longas, documentários, fora do eixo Rio-São Paulo. Tem grandes cineastas, produções muito maravilhosas, criações tanto de roteiros originais.


A gente tem uma frente de documentário no nosso país muito fértil, muito profícua. Então, quer seja na ficção, quer seja ficcionalizando eventos reais, quer seja tentando fazer recortes fidedignos de fatos reais, quer seja no documentário, eu acho que o cinema brasileiro é tudo nessa vida. Não troco por nada.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E pra gente caminhar pra última pergunta, que é uma que eu sempre faço aqui no Oxente Pipoca, que já virou meio que uma tradição…Queria te pedir uma indicação de um filme ou série brasileira pro nosso público — não vale a que a gente tá comentando agora.Pode ser algo que você goste muito, algo que tenha te marcado, ou até que tenha te atravessado de alguma forma nesse processo de construção da personagem… enfim, pode ser o primeiro que vier na sua cabeça.

Marina Merlino: É, eu roubei, porque eu ouço suas entrevistas, então sabia que você ia me perguntar isso. Fiquei quebrando a cabeça pra pensar. E posso fazer mais de uma?

Então, tem um filme chamado Jogo de Cena, do Coutinho, que é assim… eu lembro que, quando eu assisti, explodiu minha mente sobre o que é esse ofício e me deu mais vontade ainda de trabalhar com o que eu trabalho.


Tem um filme chamado Compasso de Espera, que é com direção do Antunes Filho, é o único filme que ele dirigiu, estrelado pelo Zózimo Bulbul, que é indescritível. Tem no YouTube.


E, contemporâneo, tem também um filme que eu assisti e fiquei sem conseguir falar depois que eu saí do cinema que foi Mato Seco Em Chamas .


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