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Entrevista | Felipe Sholl, Caio Macedo e Diva Menner falam sobre “Ruas da Glória”

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura

Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor e protagonistas destacam identidade das locações cariocas e força das narrativas LGBTQAPN+.

Imagem: Divulgação
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Entre as águas da Baía de Guanabara e as paredes coloniais e barrocas da Imperial Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, um dos bairros mais conhecidos da Zona Central do Rio de Janeiro guarda histórias tão diversas como os seus arredores. Em seu novo longa-metragem “Ruas da Glória”, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (02), o diretor Felipe Sholl retrata as nuances de um ambiente ilicitamente acolhedor, que guarda relações complexas como o luto, pertencimento, e solidão no mundo da prostituição. 


Na trama, o professor Gabriel (Caio Macedo), se muda para o Rio de Janeiro após a morte de sua avó, e vê sua vida mudar quando conhece Adriano (Alejandro Claveaux), um misterioso garoto de programa. Quando Adriano desaparece, Gabriel inicia uma jornada de investigação que o leva a se tornar ele mesmo um acompanhante. Em conversa com o Oxente Pipoca, o diretor e os atores Caio Macedo e Diva Menner contaram como suas vivências pessoais contribuíram para a construção de seus personagens e a importância de diversificar as narrativas LGBTAPN +. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Bom dia gente! Primeiramente, parabéns pelo filme. Eu vi ontem, foi maravilhoso. Queria começar perguntando para o Felipe...de fato, as ruas da Glória são o personagem principal desse filme. Apesar de desertas e mais obscuras, elas também exalam esse êxtase, esse mistério um pouco acolhedor. Como esses locais são reflexo de todo esse universo abordado no filme e qual a importância de retratar narrativas como essa?  



Felipe Sholl: Como você falou, você tem toda a razão. Essas ruas da Glória são o personagem frontal, principal. Eu sempre quis falar sobre esse lugar, sobre esse centro do Rio. O nome do filme é Ruas da Glória, mas também se passa em outras áreas do centro...Lapa, Glória, Cinelândia, que é um lugar onde tem esse encontro muito peculiar entre...esse mundo da prostituição. O lugar que tem o comércio de drogas, mas também é um lugar onde as pessoas LGBTQIA+, podem encontrar acolhimento. Tem uma ativista, a Dianara Siqueira, que eu conversei muito com ela quando estava pesquisando e preparando o filme. Ela é uma trabalhadora do sexo e travesti. Ela tem um lugar de acolhimento de pessoas trans que foram expulsas de casa, a Casa Nem. E ela diz que, as pessoas têm medo de andar nas esquinas vazias, na rua, porque esse lugar de prostituição, ela falou, as esquinas são a minha casa, são o lugar onde eu encontrei acolhimento. 

Então, a ideia de falar dessas Ruas da Glória, desse bar da Glória, que é esse lugar tão especial, lugar meio quase mágico, era isso! Trazer esse lugar que é visto como preconceito, como submundo, mas é um lugar de acolhimento, de afeto, de pertencimento. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Uma pergunta para os dois (Felipe e Caio). O personagem do Adriano é muito intenso. E essa intensidade dele acaba infectando, vamos dizer assim, o personagem, o seu personagem Caio. Eu queria saber para vocês como foi construir essa relação entre os personagens. Como foi construir a relação entre esses personagens e como foi passar isso para a tela, no caso do Caio? 


Caio Macedo: A gente levou muitas questões pessoais para a construção desses personagens. Eu tinha muitos pontos em comum com o Gabriel. Eu sou um migrante também, nordestino, que estava indo trabalhar no eixo São Paulo-Rio. Eu também estava passando por um luto nesse momento de início do filme. Então, tinha muitas características ali que me aproximavam muito do personagem. E na construção que a gente estava conversando com o Felipe, tinha muito esse lugar do realismo também, de dar esse tom quase documental para o filme. Então, a construção de Gabriel, para mim, foi uma construção, um mergulho interno. Foi saber identificar essas questões que batiam em mim, que estavam me machucando, que ainda eram feridas abertas ali, e emprestei essas feridas para o Gabriel. 


Fizemos um laboratório muito interessante que a gente conheceu também esses garotos da vida real, a gente viu cada situação completamente diferente. Eu quebrei muitos preconceitos. Esse mundo para mim também, o Rio de Janeiro já era novo, e essas ruas do Rio de Janeiro também foram muito novas, então me colocar, colocar a minha dor naquele lugar hipotético ali, foi realmente assim... um mergulho em terra, sabe? E eu tentei encontrar em mim a minha fragilidade para emprestar, para justificar aquela fragilidade e até que ponto a gente pode ir nesse caminho autodestrutivo em prol de tampar esses buracos existenciais, sabe?...A gente até falava muito disso, né, Felipe? Que era um pulo no abismo, um pulo num lugar desconhecido de nós mesmos. Claro que a gente sabia o que a gente ia fazer, tinha um roteiro, tinham objetivos com aquela cena, com aquele projeto, mas o abismo de nós mesmos, a gente não tinha como prever. E nos colocar o risco de abrir essa ferida em prol daquele processo ali foi algo, para mim, que foi muito forte. Poucos projetos que eu pude ver essa linha tênue, assim, entre o personagem e eu, sabe? E isso, para mim, eu acho que foi muito importante para a construção desse filme. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Caio, ainda bem que você falou dessa parte do luto, queria falar um pouquinho mais sobre isso com você. Seu personagem, a partir do momento que ele vai perdendo as pessoas, ele perde um pouco de si também. Eu queria que você falasse um pouco de como foi incorporar a solidão desse personagem, em que ao mesmo tempo que ele vivia esse luto, ele tentava explorar e se encontrar nesse novo universo. 


Caio Macedo: Eu acho que a solidão do Gabriel, ela parte de um lugar que ele não sabe o que ele é. Ele se sente sozinho porque ele não se sente primeiramente com ele ali, entendeu? Justamente porque ele não teve uma bagagem, uma construção ali familiar, talvez só pelo lado da avó dele, né? Mas o restante ali foi um abandono enquanto presente. A gente pode se sentir abandonado com a sala cheia. E eu acho que isso foi uma realidade do Gabriel. Eu, como passei muitos anos em Recife, a gente brincava muito. Onde é que o Gabriel iria morar se ele morasse em Recife? E, para mim, era sempre Boa Viagem. Boa Viagem tem um lugar muito bonito, pela praia, por esse estereótipo de Recife solar e tal, mas ela esconde uma classe média muito hipócrita. A gente tem aí muitas situações que aconteceram recentemente de abandonos mesmo familiares, desde o abandono físico de você ver uma criança despencando de um prédio, até pessoas que são abandonadas realmente pela orientação sexual. 



Então eu acho que eu parti desse lugar, dessa família desestruturada, de classe média alta, e as consequências que isso pode gerar a uma criança nesse contexto. E eu acho que o Gabriel foi criado nesse contexto de abandono. Por ser criado nesse contexto de abandono, ele não conseguiu criar uma camada de identificação sobre quem ele é mesmo. Então, ao passo que ele buscava o Adriano, ele estava buscando a si mesmo. Ele precisava de um espelho para saber quem ele era. Só que eu acho que esse espelho que ele escolheu naquele momento era um espelho embaçado, um espelho curvo. E para ele era muito difícil, assim, saber o que separava ele desse objeto de desejo dele, até porque quando ele começa a entrar no thriller na paranoia, na obsessão ele quer virar o Adriano se veste como ele, usa o perfume dele, dança como ele no rolê, porque é a referência que ele tem de homem gay bem sucedido assim, de alguma forma ele viu ali o que ele nunca foi e o que talvez ele precisasse ser para se identificar. 

E eu acho incrível o quanto isso é quebrado durante o filme, o quanto esse desejo dele de se identificar entre ruína, quando ele se detalha com a realidade do abandono. Porque, de certa forma, ali a relação deles é uma relação de muito abandono também, né? De abandono empático, de abandono de saúde mental mesmo. Então, quando ele percebe isso, ele consegue se encontrar no final através disso, sabe? Através dessas próprias experiências ruins, assim. E eu acho isso muito legal nesse filme. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Diva, a Mônica, além de ser uma mulher super poderosa, ela é uma figura materna e acolhedora. Foi um ponto de apoio muito importante, principalmente para o Gabriel. Eu queria que você falasse um pouquinho como foi a construção dessa personagem. 


Diva Menner: Então, eu me identifiquei muito com a Mônica, porque ela tem mais ou menos algumas nuances que a Diva Menner tem na vida, né? Não só a Diva Menner artista, como a Marcela Aguiar, na vida social, no meio da roda dos amigos, nas baladas. Então, assim, eu sempre percebi que tem pessoas, até também pela minha idade, que eu tenho quase 40 anos de idade, e eu me relaciono também com pessoas muito mais velhas que eu, no meu nicho de amizade, tanto com gays, travestis, é um tratamento de proteção. Às vezes eu estou curtindo a minha roda de amigos e acontece alguma coisa e eu sempre tendo a meter a cara, entendeu? Para tentar defender os meus. Então, eu sou muito isso. Eu me identifico muito com a Mônica nesse sentido. 

Quando você se identifica com o teu personagem chega a ser mais difícil até porque às vezes você quer dar outras características para a construção da personagem e você se identifica tanto que fica um pouco mais natural também, fica mais genuíno, então foi bem bacana todo esse processo de construção. Fora que ela tem uma coisa que eu não tenho, essa questão de estar sempre mudando o cabelo a cada dia. Eu gosto de manter a minha característica, mas quando ela veio com essa questão de estar sempre de cara nova a cada momento, isso foi muito mágico, muito gostoso. 

Imagem: Divulgação
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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, vocês estavam presentes no Festival do Rio em uma edição que trouxe narrativas LGBTQIA+, muito importantes. Eu entrevistei o Márcio (Reolon) e o Filipe (Matzembacher) de Ato Noturno também. Eu queria que vocês falassem um pouquinho o que vocês esperam que o país veja com tantas narrativas LGBTQIA+ sendo retratadas.  


Diva Menner: No meu caso, como uma mulher trans e preta, é muito importante que as pessoas vejam o filme e se deparem com uma travesti sendo enaltecida o tempo inteiro, uma travesti num lugar de destaque, eu falo da Mônica, e desensiliar também o fato de ela não estar inserida no contexto da prostituição, entendeu? A Mônica, ali ela é um ser celeste, ela aparece nos momentos mais oportunos, nos momentos certos, para tentar se infiltrar no meio desse relacionamento, porque ela se apaixona realmente pelo personagem do Caio, pelo Gabriel, e ela tenta salvar essa pessoa das garras do vilão, e ao mesmo tempo, trazer para aquele nicho dela. Ela é muito humana. 

É desvencilhar mesmo o que as pessoas acham que travesti é barraqueira. A Mônica é super leve quando ela quer ser. Ela é um turbilhão de emoções. É tudo de zero a cem. Mas, quando ela ama, ela ama de verdade. E é gostoso ver isso na tela, né? Porque você está acostumado a ver travesti sendo barraqueira, travesti nos noticiários fazendo barraco, ou quando não, sendo assassinada, não é com um tiro, são com 15 tiros na cabeça. Então, é humanizar mesmo. Eu falo que é muito importante isso, quando as pessoas verem a Mônica e se identifiquem e levem isso para a vida. 


Felipe Sholl: Eu adorei que você mencionou o Festival do Rio. O Ato Noturno é um filme que a gente ama e fico muito feliz de ver a gente podendo levar mais histórias LGBTQIA+, para as telas e mais histórias diferentes, né? Estávamos também com O Faz-Tudo, do Fábio Leal, foi um filme que passou junto com o nosso no festival. Enfim, a gente tem uma pluralidade hoje de filmes e personagens, visões de mundo, maneiras de retratar a comunidade LGBTQIA+, que é muito bom a gente ver isso nas telas acontecendo, ao mesmo tempo tem um lado preocupante quando a gente olha para a realidade em volta e a gente vê que eu acho que a nossa situação como comunidade em relação à sociedade está sempre num movimento de melhora, mas às vezes tem uns soluços que a coisa vai para trás. A gente tem hoje, paradoxalmente, um aumento dos casos de homofobia e transfobia. Eu acho que a arte pode ser uma maneira de ampliar o debate para aumentar a tolerância, aumentar a convivência e ajudar a gente a sermos melhor inseridos na sociedade, porque ainda temos muito que conquistar. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Por último, eu queria que vocês indicassem alguma produção brasileira que vocês acham que o pessoal que acompanha o Oxente Pipoca deveria ver. 


Caio Macedo: Eu quero muito indicar a Tatuagem do Hilton Lacerda. É um filme que eu amo muito e eu acho que, de certa forma, ele conversa muito com o nosso. Foi um dos primeiros filmes, inclusive, LGBTQIA+, a retratar homens gays. É um romance gay brasileiro. Então, eu gosto muito. Ele apresenta o Recife numa época muito difícil, que foi durante o golpe militar e que existia essa resistência do grupo de teatro Chão de Estrela e acho que, de certa forma, o Chão de Estrela ali era uma família para pessoas que estavam no abandono, né? Assim como o Gabriel estava, então como tantas outras pessoas se encontram. E eu acho que o Chão de Estrela e o Bar da Glória tem muito em comum. E eu brinco muito com o Felipe que eu queria ver muito uma série misturando todos esses personagens, assim, continuar com esse lugar mágico, sabe? 


Diva Menner: Geni e o Zepelim, mas ainda não está nos cinemas. Mas eu estou muito ansiosa para assistir. E a protagonista trans, né? E preta. 


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