Crítica | Chicas Tristes (Mostra de SP 2026)

há 4 horas
3 min de leitura
Fernanda Tovar rejeita a espetacularização da violência e aposta no poder dos laços de uma amizade feminina em coming-of-age sensível.

Na esteira do #MeToo, muitas obras passaram a propor novas formas de representar a violência contra corpos femininos em tela. Dentre as múltiplas abordagens, talvez uma das mais básicas e clássicas seja também uma das mais eficazes: às vezes, em um filme, não mostrar algo nos impacta muito mais do que mostrar. É o que Fernanda Tovar faz aqui em Chicas Tristes, mas esse é apenas o ponto de partida para o que ela deseja tratar em sua obra.
Seu foco é, antes de tudo, na amizade de Maestra (Rocio Guzmán) e Paula (Darana Álvarez), que treinam juntas no time de natação do seu colégio e almejam o sonho de competirem no Brasil. Companheiras inseparáveis em todos os aspectos, as duas celebram a festa de ano-novo junto ao seu time quando uma experiência traumática sofrida por Paula põe em xeque a relação de ambas, visto que cada uma se posiciona de uma forma diferente: Paula quer apenas fingir que aquilo não aconteceu e que ninguém mais saiba, enquanto Maestra aos poucos quer que a justiça seja feita, mesmo que isso signifique passar por cima das vontades da amiga.
Mas apesar da construção desse conflito entre as duas meninas, Tovar não está interessada em fazer dele o ponto central da obra, tampouco a violência praticada contra Paula. Inclusive, ela nem de longe busca apostar num discurso maniqueísta; sim, há um homem agressor na obra, mas ela também a povoa de personagens masculinos na obra que fornecem laços significativos e saudáveis às protagonistas (o irmão de Maestra e o pai de Paula). O que realmente importa para a diretora ao longo da obra é construí-la em torno da conexão das duas personagens, das suas vivências compartilhadas e da dor que passam a lidar e superar juntas, mesmo com suas divergências.

Nesse sentido, a química entre Guzmán e Álvarez é faiscante: adolescentes são sempre criaturas complicadas de se representar em tela, ora pendendo para uma caricatura insuportável ou para uma pessoa adulta demais para aquela idade, mas as duas atrizes conseguem retratar as diferentes facetas dessa fase, seja nos gostos, nos comentários, nos sonhos (a imagem do Brasil como expressão do sonho, reforçada até no uso de canções de Alceu Valença e Arlindo Cruz, é uma grata surpresa), nas ações impulsivas e melodramáticas, e em tudo permanecem como figuras às quais nos apegamos. É uma amizade que transpira afeto e genuinidade, de modo que os instantes em que ela é abalada nos afetam justamente por nos importarmos com ambas.
Justamente pelo filme brilhar tanto ao retratar a relação das duas meninas, seus instantes de maior fragilidade vêm da decisão de enfocar mais Maestra do que Paula. Que a primeira é a protagonista é algo perceptível desde o começo (como, por exemplo, o fato da câmera focar nela alheia à violência sofrida por Paula), mas quando a câmera se detém mais sobre suas reações ao trauma da amiga, é como se o filme de certa forma reforçasse a sua própria crítica de que Maestra, mesmo que inconscientemente, pode ser o tipo de amiga que faz algo ser sobre ela, ao ponto de passar sobre as vontades de Paula. E não que fosse necessário explorar ou espetacularizar o sofrimento desta, mas há um certo desequilíbrio no tempo e peso de cada uma em tela.
Chicas Tristes pode honrar seu título em alguns momentos, mas Fernanda Tovar também direciona seu olhar para as múltiplas alegrias de uma amizade, neste caso específico a feminina, e a força e o porto seguro que emerge de uma relação que, mesmo entre altos e baixos, é pautada por uma sensibilidade e afeto que são universais. Mesmo com o caráter relativamente ambíguo do final, o que fica é a certeza da potência dessa amizade e a riqueza destas duas meninas, o que faz deste um dos melhores coming-of-age dos últimos tempos.
Nota: 4/5



















