Crítica | Se Eu Fosse Vivo... Vivia (Mostra de SP 2026)

há 4 horas
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André Novais explora o afeto à brasileira das produções da Filmes de Plástico enquanto alça voos mais ambiciosos.

Ao longo da sua trajetória, a produtora mineira Filmes de Plástico tem se especializado em obras marcadas por sensibilidade e afeto, sempre trabalhados a partir do protagonismo negro. Seus filmes conseguem essa proeza de demarcarem bem o território em que são gravados e ambientados – Contagem, Belo Horizonte e Minas Gerais – e também serem muito brasileiras, como se as personagens e famílias que víssemos em cena fossem pessoas que poderiam ser os nossos familiares, vizinhos ou conhecidos.
Essas marcas são fortemente presentes no cinema do André Novais Oliveira, um dos principais nomes da Filmes de Plástico e que se tornou conhecido por constantemente empregar parentes e amigos em suas obras. Se seu longa anterior, O Dia Que Te Conheci, era protagonizado por seu irmão Renato Novaes, em Se Eu Fosse Vivo... Vivia ele escala o pai Norberto Novais Oliveira, que estrela a obra ao lado de ninguém menos que Conceição Evaristo, um dos maiores nomes da nossa literatura e cultura contemporânea e que faz sua estreia nos cinemas aos 80 anos.
Os dois vivem o casal Gilberto e Jacira, que lidam com a terceira idade e suas questões particulares na periferia de Contagem. Após um prólogo que nos apresenta suas versões juvenis em meados dos anos 70 (e cuja transição para o presente já indica que esta não é “apenas” uma história sobre o cotidiano), Novais trabalha com parcimônia a rotina do casal, a dinâmica do seu longevo casamento, permeado por aquele misto de afeto e encheção de saco que já vimos em tantos casais de idosos. Há algo de muito gostoso e bonito em vê-los se referenciar como “preto” e “preta”, na naturalidade do sotaque mineiro da região de BH nessas falas dos personagens e em suas ações e reações, as quais veríamos nos nossos avós – a teimosia para cuidar da saúde sendo a maior delas. Não sei se Norberto é tão estreante quanto Conceição, mas a dupla é um acerto e tanto, já que em muitos instantes o trabalho de ambos é tão naturalista e orgânico que a impressão que se tem é que nem estão atuando de fato.
Este bloco, que dura por cerca de uma hora, é definitivamente o ponto alto e o coração da obra, onde Novais investe nessas sequências cotidianas para nos empatizar pelo casal e pela sua relação, o que já é potencializado pela qualidade do trabalho de Norberto e Conceição. Mas, como disse antes, o diretor não está interessado numa abordagem necessariamente naturalista, e isso já fica evidente no seu trabalho de direção no prólogo. Filmado com uma câmera de mão e contando com um primoroso trabalho de fotografia de Leonor Teles e de direção de arte de Diogo Hayashi, esse prólogo não apenas reproduz com esmero e cuidado aquela ambientação setentista, mas é trabalhado com um ar de memória e sonho, o que evidentemente vai se relacionar com a guinada que o filme dá mais à frente.

Sem dar maiores spoilers, nos trinta minutos finais André Novais deixa de lado a filmagem do cotidiano para dar uma guinada rumo ao cinema de gênero, numa decisão ousada e ambiciosa que tem suas raízes fincadas mesmo quando o filme está do lado do naturalismo, mas que pode ser um choque para boa parte do público. Não me oponho a essa mudança de tom ou de registro dentro da obra, e diria que André Novais consegue sustentar tal mudança com segurança, mas o encerramento um tanto abrupto rouba do filme a circularidade que era indicada lá no começo, no encerramento do seu prólogo.
Essa natureza um tanto incompleta certamente abrirá margem para muitas interpretações, mas mesmo que essa incursão no cinema de gênero seja uma aposta que se paga (até certo ponto), a verdade é que os melhores momentos do filme residem mesmo no seu lado mais “mundano”, no dia-a-dia daquele casal tão doce de se acompanhar. Não à toa, a saída de cena de Conceição Evaristo marca exatamente o momento de mudança da obra e de enfoque do filme, mas mesmo quando ele brinca com o metafísico e o cósmico (como na excelente piada em seus minutos finais), sua vida e brilho residem mesmo é na dinâmica de Conceição e Norberto.
Se Eu Fosse Vivo... Vivia busca equilibrar a simplicidade e doçura do cotidiano com questões mais complexas e que não possuem fácil resposta. Vida, amor, memória, negritude... são temas já presentes em outros filmes de André Novais e da Filmes de Plástico, mas que aqui são trabalhados por outras perspectivas pelo diretor. Estes novos ares são bem-vindos, e talvez ganhem o apreço que merecem em futuras revisitas, mas nesta primeira incursão o que fica comigo é aquilo que ele já sabe trabalhar com maestria: o ordinário e a sensibilidade e afeto presentes nele.
Nota: 4/5



















