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Crítica | De Volta à Bahia

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 7 horas
  • 3 min de leitura

Menos um romance, mais uma peça publicitária ou vídeo institucional.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Como um aficionado por geografia e espaços urbanos desde pequeno, sempre me interessei pela maneira como o cinema pode se apropriar das cidades como personagens próprios das obras que nelas se passam. Para citar dois exemplos do cinema brasileiro, temos a reconstituição assombrosa do Recife dos anos 1970 em O Agente Secreto, ou as engrenagens desumanizadoras de São Paulo em São Paulo Sociedade Anônima. Não é apenas filmar naqueles espaços, mas incorporar suas histórias, suas identidades e culturas de tal maneira que eles são indissociáveis destes filmes.


A julgar pelo seu título, De Volta à Bahia se propõe a fazer o mesmo, desta vez com Salvador como centro da sua narrativa. A capital baiana é palco do encontro entre Maya (Bárbara França) e Pedro (Lucca Picon), dois talentos promissores do surf que se conhecem após ele salvá-la de um afogamento e a ação ser gravada e se tornar viral. Ao descobrirem que possuem em comum a figura de PH (Felipe Roque) como mentor, os dois se aproximam e eventualmente se apaixonam, mas precisam lidar com seus dramas pessoais e familiares para poderem sustentar não apenas a relação, mas a paixão pelo surf.


A direção de Eliezer Lipnik e Joana di Carso busca ao máximo extrair alguma potência da beleza cênica de Salvador, ancorando-se numa constante sucessão de planos gerais e tomadas aéreas da cidade e seus entornos e enfocando seus pontos naturais e turísticos: a praia da Barra, o farol de Itapoã, a igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o Pelourinho, o Forte São Marcelo e por aí vai. Isso não seria um problema em si, especialmente quando situa os personagens geograficamente na cidade ali pelo começo. O problema reside na insistência dessas imagens até um ponto de exaustão, até que chega um momento em que é difícil saber se estamos vendo um filme ou apenas um vídeo institucional ou peça publicitária.


As imagens são tão repetidas que acabam por serem completamente esvaziadas de algum sentido, especialmente quando fica evidente que vemos lugares da cidade em que os personagens não estão, sendo exibidos apenas porque sim. Nada contra se mostrar a beleza de Salvador – eu, como baiano (mesmo do interior), não vou deixar de enaltecer a capial do meu estado –, mas o filme parece tão focado em exibir essas imagens com sua montagem dinâmica, além de uma trilha sonora jovial e contemporânea (também repetitiva à exaustão, com uma mixagem sonora bastante pobre) que qualquer fiapo de narrativa fica em um segundo ou terceiro plano, como se seu real intuito fosse meramente ser uma campanha turística em prol da cidade.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Não ajuda que, nas ocasiões em que o filme se lembra de que possui uma narrativa a contar, o que vemos em tela pouco se salva. Picon e França até conseguem convencer um pouco na química dos personagens (a criação de expectativa para o primeiro beijo, mesmo repetida ad nauseam pelos personagens, se paga com um excelente beijo), mas todo o resto dos seus dramas pessoais e familiares é, na melhor das hipóteses, um amontoado de ideias recicladas e trabalhadas sem algum frescor.


Não que um gênero como o romance ou comédia romântica seja conhecido por sua inovação, pelo contrário: ele é dependente de fórmulas já consagradas. Mas é perceptível a incapacidade da direção em trabalhar organicamente os conflitos internos e externos dos protagonistas, ou até de usar seus coadjuvantes – resultando num antagonismo caricatural por parte de Beth (Mariana Freire), num alívio cômico que se limita ao constrangedor no caso de Arthur (Juliano Laham) ou no papo coach motivacional de Instagram de PH (Felipe Roque). É possível perdoar muitos pecados numa comédia romântica, mas não o de fazer personagens com os quais não nos importamos nem um pouco.


Deste modo, De Volta à Bahia se configura como um filme perdido entre o que deseja ser e o que apresenta em tela. Trata-se de uma comédia romântica que não convence nem no romance nem no humor, ancorando-se em ideias muito rudimentares do gênero sem trabalhá-las adequadamente. Mas certamente seu maior problema consiste em se exibir tal qual uma propaganda institucional que não tem nada a oferecer sobre Salvador para além dos lugares mais famosos da cidade, filmados com a estética de um vídeo publicitário e sem qualquer vestígio de emprego da linguagem cinematográfica. 


Nota: 1/5


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