Crítica | The Unknown (TIFF 2026)

há 13 horas
4 min de leitura
Thriller existencial de Arthur Harari transforma uma história de troca de corpos em uma experiência desconcertante sobre identidade e solidão.

Divulgação
É difícil explicar exatamente o que acontece em The Unknown sem tirar parte da graça de descobrir o filme por conta própria. O novo longa de Arthur Harari começa como um thriller estranho sobre uma doença misteriosa e, aos poucos, se transforma em algo muito mais difícil de definir. Quando percebi que já não estava tentando entender exatamente para onde a história estava indo, mas simplesmente aceitando suas regras, percebi também que era justamente aí que o filme funcionava melhor.
A história acompanha David (Niels Schneider), um fotógrafo recluso que passa seus dias registrando espaços esquecidos das periferias de Paris. Durante uma festa, ele conhece uma mulher misteriosa, Eve (Léa Seydoux), com quem se envolve sexualmente. Na manhã seguinte, porém, David acorda no corpo dela. Sem entender o que aconteceu, ele começa uma busca para encontrar seu próprio corpo e descobrir como voltar para ele.
A premissa parece saída diretamente de um filme de ficção científica dos anos 1980. Existe algo de Possessão e Videodrome na maneira como Harari transforma o corpo em uma fonte constante de desconforto, mas The Unknown está menos interessado no terror físico do que na sensação de não reconhecer a si mesmo.
O conceito de troca de corpos permite que Harari explore a identidade de uma maneira que dificilmente funcionaria através de uma narrativa tradicional. O que somos quando nosso corpo deixa de corresponder à pessoa que acreditamos ser? Até que ponto nossa identidade está ligada à nossa aparência? E, talvez mais importante, o que acontece quando as pessoas ao nosso redor deixam de reconhecer quem somos?
Essas perguntas ficam ainda mais interessantes porque o filme nunca parece interessado em oferecer respostas. Quanto mais David tenta descobrir uma explicação lógica para o que aconteceu, mais a narrativa parece escapar de suas mãos. O filme não cria uma grande mitologia para explicar o vírus ou estabelece regras detalhadas para sua existência. Em vez disso, Harari transforma essa falta de respostas em parte da experiência.
Visualmente, The Unknown é impressionante. A fotografia digital de Tom Harari cria uma sensação constante de deslocamento, como se a câmera também não soubesse exatamente onde deveria estar. Os enquadramentos são estranhos, os espaços parecem vazios e existe uma inquietação constante mesmo quando nada particularmente assustador está acontecendo.
O mais interessante é que essa estética combina perfeitamente com o protagonista. David já era alguém deslocado antes mesmo de perder seu corpo. Ele fotografa lugares esquecidos de Paris, espaços que parecem não pertencer a lugar nenhum, tentando encontrar significado em ambientes que a maioria das pessoas simplesmente atravessa. Quando seu próprio corpo se torna um espaço desconhecido, essa obsessão ganha um novo significado.
Mas talvez o maior destaque do filme sejam as atuações. Léa Seydoux e Niels Schneider enfrentam um dos desafios mais difíceis que um ator pode receber: interpretar alguém que está dentro do corpo de outra pessoa. Não basta mudar a voz ou os gestos. Eles precisam incorporar pequenos comportamentos que indicam que outra consciência está ocupando aquele corpo.

Divulgação
Seydoux, especialmente, consegue transmitir uma estranheza fascinante quando passa a carregar os movimentos e a personalidade de David. Schneider enfrenta um desafio ainda maior quando precisa interpretar diferentes identidades dentro de seu próprio corpo. A atuação nunca deixa de lembrar que estamos vendo uma pessoa tentando existir através de um corpo que não corresponde a ela.
Quando Malia (Lilith Grasmug) entra nessa equação, o filme leva o conceito ainda mais longe. A nova troca de corpos adiciona outra camada à história e faz com que a pergunta inicial “como voltar ao meu corpo?” Comece a parecer menos importante do que “quem eu sou sem ele?”.
Apesar de toda essa ousadia, The Unknown não é perfeito. A narrativa é bastante solta e, durante seus quase 150 minutos, existem momentos em que o filme parece simplesmente vagar sem uma direção muito clara. A ausência de uma mitologia mais definida pode ser libertadora, mas também pode deixar algumas passagens com a sensação de que estamos esperando por uma resposta que nunca virá.
Para mim, porém, essa incerteza acaba fazendo parte do encanto. Um filme sobre pessoas que perderam a conexão com seus próprios corpos talvez não pudesse ser completamente confortável ou linear. Harari parece querer que o espectador também experimente essa sensação de deslocamento.
A trilha sonora de Andrea Poggio reforça essa atmosfera, criando uma sensação de ameaça que raramente se transforma em terror convencional. Embora a premissa possa fazer parecer que estamos diante de um filme de horror, The Unknown é muito mais interessado no desconforto psicológico de estar preso em uma realidade que não conseguimos compreender, tornando o filme tão perturbador. O maior medo é perceber que nossa identidade pode ser muito mais frágil do que imaginamos.
Arthur Harari pega uma premissa que poderia facilmente resultar em um thriller de gênero convencional e transformar-la em uma experiência existencial, estranha e profundamente desconfortável. Mesmo quando a narrativa perde um pouco o rumo, o diretor nunca perde o controle da atmosfera.
The Unknown é um filme que não quer ser explicado, quer ser sentido. E quanto mais ele mergulha nessa sensação de não pertencimento, mais fascinante se torna. Uma obra ousada, visualmente inquietante e sustentada por performances excepcionais, que transforma a tradicional troca de corpos em uma investigação sobre o que realmente permanece quando tudo aquilo que nos define desaparece.
Nota: 4.5/5



















