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Crítica | House Of The Wind (Festival de Veneza 2026)

Foto do escritor: Giulia Meneses
Giulia Meneses
há 23 horas
3 min de leitura

Diretor Auguste Bernard Kouemo Yanghu apresenta um balanço perfeito entre formas de abandono e a necessidade de pertencer 


Divulgação


O que acontece quando a casa, que deveria representar pertencimento, passa a ser construída para convencer quem foi embora a voltar? Esse é o dilema principal da protagonista de House Of The Wind, Josette, uma camaronesa que persiste em seu país natal enquanto seus filhos estão espalhados pelo mundo. Por meio de uma vídeo chamada, existe uma distância que nenhuma conexão de internet consegue diminuir. É desse espaço entre quem parte e quem permanece que Kouemo Yanghu constrói em House of the Wind.


Em Camarões, Josette é uma mulher idosa que vive sozinha enquanto os filhos estão espalhados por diferentes partes do mundo. Na tentativa de reuni-los novamente, ela decide construir uma casa que possa servir como ponto de retorno para um dos filhos. É durante esse processo que conhece Sarah, uma jovem que também enfrenta o afastamento de seus familiares e está prestes a se casar com um estrangeiro. De um acordo marcado por interesses particulares, nasce uma relação inesperada entre duas mulheres de gerações distintas, unidas por diferentes formas de solidão, desejo de pertencimento e busca por autonomia. 


O próprio espaço se torna personagem nessa história. A partir de uma fotografia banhada por tons quentes e de uma ambientação que preserva as particularidades de Camarões, Kouemo Yanghu constrói um olhar atento para as contradições do país. A desigualdade não aparece apenas como pano de fundo, mas atravessa a própria composição do filme, seja nas marcas estruturais da precariedade, seja na distância que separa Josette dos filhos, cuja partida também remete à chamada fuga de cérebros. Sem transformar essas questões em discurso expositivo, o diretor permite que elas surjam naturalmente do cotidiano da protagonista. É justamente nessa contenção que o diretor faz um ótimo trabalho ao construir um retrato ao mesmo tempo íntimo e sociopolítico, de uma forma sutil e impactante. 


Sarah está longe de ser uma personagem secundária, ainda que, à primeira vista, possa ocupar esse lugar dentro da narrativa. Assim como Josette, ela carrega as marcas do afastamento familiar, mas sua trajetória aponta para uma direção diferente. Como os filhos da protagonista, Sarah experimentou a vida fora do país e foi assim que conheceu o estrangeiro que a pediu em casamento. 


De maneira mais silenciosa e de forma um pouco ilegal, ela constrói seu próprio caminho para seguir em frente sem os pais, ao mesmo tempo em que estreita os laços com alguém que, em movimento contrário ao seu, faz de tudo para trazer os filhos de volta à sua realidade. É justamente nesse contraste que a personagem ganha força: enquanto Josette tenta reconstruir os vínculos com quem foi embora, Sarah parece aceitar que, para construir o próprio futuro, talvez seja necessário aprender a viver com a ausência.


Divulgação


Além do simbolismo familiar, mesmo que complexo, algumas passagens do longa acabam se tornando monótonas e repetitivas. Ainda assim, a fotografia calorosa mantém seu poder mesmo nesses momentos, fazendo com que os espectadores raramente sintam que a narrativa parece se prolongar. Em determinadas cenas, também não é tão evidente qual sentimento o filme pretende gerar: seria apenas a saudade da família ou a melancolia por aquilo que um dia foi sonhado e nunca chegou a se concretizar? Essa certa indefinição, talvez possa afastar o espectador em alguns momentos, mas em parte é compensada pela força das atuações. Há uma verdade e uma intensidade tão presentes no trabalho das atrizes que muitas dessas oscilações acabam sendo absorvidas pela própria experiência emocional do filme.


Por fim, o questionamento: O que acontece quando a casa, que deveria representar pertencimento, passa a ser construída para convencer quem foi embora a voltar?, é respondido por um final um pouco confuso, e definitivamente triste. É uma pergunta que o filme deixa suspensa. O próprio vento que atravessa as casas, levando aqueles que decidiram sair, mas também revelando quem escolheu permanecer. Os últimos momentos não trazem exatamente as respostas que procuramos durante o filme, especialmente na relação entre Josette e Sarah, mas a narrativa não falha ao homenagear as mães que fazem de tudo para que seus filhos criem asas ao mesmo tempo em que sentem falta de suas presenças. 


Nota: 4/5 


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