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Crítica | O Beijo da Mulher Aranha (2025)

  • Foto do escritor: Ávila Oliveira
    Ávila Oliveira
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Empolgante e descompassado, musical se salva pela cafonice da metanarrativa


Divulgação


Durante a ditadura na Argentina no início dos anos 80, um prisioneiro político e militante marxista chamado Valentín (Diego Luna) divide a cela com um homem chamado Molina (Tonatiuh), um vitrinista gay condenado por sua orientação sexual. À primeira vista, suas realidades parecem inconciliáveis, mas encontram uma forma de resistir ao cotidiano brutal do cárcere refugiando-se nas histórias da trama de um musical de Hollywood que Molina recria em sua mente. 


Adaptado para os cinemas pela primeira vez em 1985 pelo diretor Hector Babenco, o romance de mesmo nome teve uma versão fílmica que foi sucesso de críticas e de prêmios. O longa-metragem estrelado por William Hurt, Raul Julia e Sônia Braga concorreu a 4 Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, e venceu na categoria Melhor Ator, premiando Hurt. É até hoje um dos mais cultuados filmes da década de 80. De lá pra cá o romance argentino de Manuel Puig ganhou uma versão de teatro musical no início da década de 90, e é esta peça que agora ganha uma versão cinematográfica.


Bill Condon é um cineasta fã declarado de musicais. Ele dirigiu e escreveu a versão para o cinema do musical Dreamgirls (2006), escreveu o roteiro de Chicago (2004), dirigiu o live action de A Bela e a Fera (2017) e foi um dos responsáveis pelo roteiro de O Rei do Show (2017). Entre filmes bons e péssimos, Condon nunca deixou seu exagerado cafona de lado em todas as suas produções, seja no texto exageradamente romântico ou no visual exuberante, suas produções são carregadas de um sentimentalismo manipulador típicos da Hollywood clássica.


A nova versão da história deposita ainda mais força na metanarrativa, na história contada por Molina que, na maioria das vezes, se resolve bem melhor do que a narrativa da prisão. Jennifer Lopez dá vida ao papel de Ingrid Luna, a atriz do filme “O Beijo da Mulher Aranha”, narrado pelo vitrinista. E ela é a inquestionavelmente estrela do(s) filme(s). Lopez canta, dança muito e entrega um papel cheio de garra, de vontade, e, talvez, cheio de significado para ela. Ingrid Luna é vibrante, vulnerável, excitante e melancólica ao mesmo tempo, e Jennifer Lopez entendeu com precisão as nuances de sua personagem. Mas não menos relevante, brilhante e atraente é Tonatiuh em suas várias interpretações.


A produção, no entanto, não se desenvolve tão bem no plano da “realidade". O tom sempre lúgubre eventualmente se torna enfadonho e sem modulação. É apenas no ato final, quando a ação e o volume emocional pendem mais para o plano da prisão, que ele ganha força e interesse. As construções imagéticas dos dois espaços, o da cela escura versus o do technicolor efusivo, ajudam o filme a se equilibrar quando as diegeses parecem não caminhar no mesmo compasso. Os números musicais são grandiosos e executados com bastante competência e talvez sejam o elo que amarra, às vezes a muito custo, o que não pesa igual.


Sendo bem negativista, histórias de opressão, repressão, preconceito e escapismo parecem não perder o timing. Sempre parece haver em algum tempo, em algum lugar do mundo, um grupo sofrendo represália por parte de outro grupo momentaneamente dominante. Então o texto de O Beijo da Mulher Aranha segue sem perder o frescor, mesmo se passando num contexto sociopolítico específico, as comparações e analogias a outros tempos e momentos seguirão existindo. Para o bem da arte e para o mal estar social.


Nota: 3,5/5



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