Crítica | Coyote vs. Acme
- Gabriella Ferreira

- há 19 horas
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Quando o Coiote enfrenta a Acme, o cinema ganha uma batalha que quase perdeu.

Há filmes que chegam aos cinemas acompanhados de uma grande expectativa. E há aqueles que chegam depois de uma verdadeira batalha para sequer existirem. Coyote vs. Acme pertence à segunda categoria. O longa foi produzido pela Warner Bros. e acabou engavetado pelo estúdio mesmo depois de concluído, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da onda de cancelamentos de produções em Hollywood. A pressão do público e a repercussão negativa em torno da decisão ajudaram a fazer com que o filme finalmente encontrasse o caminho para as salas de cinema. E, considerando o resultado, seria um desperdício deixá-lo escondido.
Com estreia marcada para 27 de agosto nos cinemas brasileiros, o filme acompanha o atrapalhado Coiote, que finalmente decide levar a Acme Corporation aos tribunais depois de anos sendo vítima dos próprios produtos da empresa. Para isso, ele conta com a ajuda de um advogado sem muita experiência, interpretado por Will Forte, enquanto a gigantesca corporação é defendida por um poderoso advogado vivido por John Cena. A partir daí, uma perseguição típica de desenho animado se transforma em uma batalha judicial que mistura o mundo real com o universo completamente absurdo dos Looney Tunes.
É justamente nesse encontro entre animação e live action que Coyote vs. Acme encontra uma de suas maiores forças. O filme utiliza muito bem a animação em 3D para inserir os personagens clássicos em ambientes reais, sem fazer com que eles pareçam simplesmente elementos digitais jogados sobre a imagem. Existe uma preocupação genuína em integrar Coiote, Papa Léguas e companhia ao mundo humano, mantendo a lógica física exagerada dos desenhos e, ao mesmo tempo, criando uma identidade própria para o longa.
O resgate dos personagens clássicos dos Looney Tunes também funciona como uma ponte interessante entre gerações. Para quem cresceu acompanhando esses personagens, existe uma dose considerável de nostalgia. Para uma nova geração, o filme pode funcionar como uma apresentação desse universo. O problema é que são tantas referências, personagens e pequenas brincadeiras com a história da franquia que quem não possui familiaridade com os Looney Tunes pode sentir, em alguns momentos, que perdeu alguma coisa.
Ainda assim, o roteiro encontra um equilíbrio bastante eficiente entre nostalgia e novidade. A metalinguagem é uma das melhores ferramentas do filme, especialmente porque a própria existência do Coiote como personagem permite brincar com a lógica dos desenhos, com Hollywood e até com a maneira como grandes corporações tratam suas próprias criações. As piadas jurídicas e as referências ao universo dos Looney Tunes são particularmente inteligentes, enquanto a violência cartunesca continua sendo uma fonte inesgotável de humor para o público infantil.
E talvez essa seja uma das características mais interessantes de Coyote vs. Acme: ele é um filme pensado para funcionar em diferentes níveis. As crianças podem se divertir com a sucessão de acidentes, perseguições e destruição completamente absurda. Já os adultos encontram graça nas referências, na metalinguagem e nas piadas sobre o sistema jurídico e corporativo. Não é necessariamente um filme que provoca gargalhadas durante toda a sessão, mas é consistentemente espirituoso e consegue arrancar boas risadas justamente por ser mais inteligente do que simplesmente barulhento.
Por trás das piadas, Coyote vs. Acme ainda encontra espaço para discutir algo surpreendentemente atual: a relação entre indivíduos e grandes corporações. A Acme deixa de ser apenas a empresa responsável pelos produtos que explodem na cara do Coiote e passa a representar uma estrutura empresarial gigantesca, capaz de assumir riscos, esconder responsabilidades e tratar pessoas como danos colaterais. É uma crítica ao capitalismo corporativo que não pesa a mão, mas está presente o suficiente para dar ao filme uma camada adicional.

Isso também torna a própria história de bastidores ainda mais curiosa. Afinal, estamos diante de um filme que fala sobre o poder de uma grande corporação enquanto, na vida real, quase foi vítima das decisões de uma delas. A produção acabou se tornando uma espécie de caso de metalinguagem involuntária: um longa sobre um personagem tentando enfrentar uma empresa poderosa que também precisou enfrentar o poder de um grande estúdio para chegar ao público.
E é justamente aí que Coyote vs. Acme se torna maior do que sua própria história. Um filme sobre o Coiote tentando derrotar uma corporação quase foi derrotado por uma corporação de verdade. A ironia seria perfeita se o longa tivesse permanecido engavetado. Coyote vs. Acme não é uma obra prima, nem precisa ser. É um filme divertido, criativo e surpreendentemente consciente do próprio absurdo. Seu maior mérito está em entender que adaptar personagens clássicos não significa simplesmente reproduzir aquilo que já funcionou, mas encontrar uma nova maneira de brincar com eles. Em uma Hollywood cada vez mais dominada por franquias calculadas e decisões corporativas, existe algo genuinamente especial em assistir a um filme que parece ter escapado por pouco da máquina que poderia tê-lo destruído.
No fim, talvez a melhor forma de definir Coyote vs. Acme seja justamente como aquilo que ele quase deixou de ser: um filme que conseguiu sobreviver. E, depois de toda a sua história de bastidores, vê-lo finalmente chegar às telas no dia 27 de agosto é, por si só, uma pequena vitória do cinema e do Coiote.
Nota: 4/5



















