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Entrevista | “A gente precisa de filmes que falem sobre mulheres”: diretora e atrizes falam sobre “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 11 min de leitura

Janaína Marques, Veronica Cavalcanti e Luciana Souza conversaram com o Oxente Pipoca sobre o filme, grande vencedor da 15º edição do Olhar de Cinema.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Acho que um ponto crucial do filme é essa dimensão onírica e meio surreal que ele assume desde o começo para explorar a dinâmica das personagens, enquanto segue esse formato de um road movie. Não tem como não pensar em Aftersun e nos trabalhos do David Lynch, mas eu lembrei de séries como Sopranos, The Leftovers e Mr. Robot, onde existiam episódios que mergulhavam fundo na psique dos personagens através destes elementos mais surreais. Como foi para você, junto à equipe de produção, construir esses elementos de modo que o público os absorvesse, mesmo que nem tudo fosse ser explicado de maneira lógica ou racional?

Janaína Marques: Quando começamos a fazer esse filme, uma das referências que a gente teve foi o filme Estou Pensando em Acabar com Tudo, do Charlie Kaufman, que trabalhava uma questão disruptiva em relação às personagens, a questão do tempo. Existia ali muita coisa que interessava a gente e que de alguma maneira nos cativou muito. Quando eu entrei na ICTV, na escola de Cuba, eu entrei muito interessada no cinema de Luis Buñuel, esses cineastas me chamaram muita atenção. Mas em termos formais, principalmente com a questão estética e tal, eu sinto que [Ari] Kaurismäki é para mim uma grande referência. Primeiro porque tem uma questão do artifício, que me ajuda muito nessa construção de código mental. E na questão da cor, na questão do minimalismo, também em cena, numa questão de não estar tão atado a certas questões de realismo.

A linguagem cinematográfica é o território perfeito para contar uma história sobre imaginação, sobre essa questão onírica. Nossa grande preocupação era: precisamos construir algo que de alguma maneira o espectador compreenda e se conecte emocionalmente com essa obra, mas é um filme de código mental. Não é um filme nos parâmetros narrativos e tal. Então de que forma vamos construir isso?

Então, acho que nesse sentido muita gente que está envolvida com o filme participou, como os roteiristas [Xenia Rivery, Pablo Arellano, Pedro Cândido e Taís Monteiro] e o Maurício [Macêdo], que é o produtor. Ele já chegou indicando Quixadá como uma locação e isso foi primordial até mesmo pros roteiristas. À medida que a gente ia descobrindo Quixadá, que é um lugar completamente original e potente em relação à paisagem, nos perguntávamos: "Aonde a gente pode chegar mais longe? As dunas, a floresta? E de que forma e como a paisagem do Ceará pode incrementar o filme como o código mental?".

Então, de alguma maneira, tudo isso foi pensado no desenvolvimento da história. Tudo tá no papel, tudo tá ali. O Ivo [Lopes Araújo, diretor de fotografia] veio depois, mas tudo estava no papel já e o Ivo, logicamente, com o talento dele, incrementou como essas paisagens poderiam ser ainda melhor destacadas. Mas tudo foi pensado no desenvolvimento e eu acho que todas as cabeças de equipe ajudaram nesse processo.

Eu sou uma diretora que escolho minha equipe para poder conversar com eles e aproveitar o que eu concordo, no sentido do que eles têm para me dar quando eu de alguma maneira provoco eles a essa história. E nesse sentido existe muita escuta, muita escuta mesmo, muitas leituras de roteiro, muita troca. Eu levo pinturas, eu levo música, eu levo poesia, tudo me interessa para poder facilitar minha comunicação de alguma maneira, até porque eu sinto que para mim o Foguete... é uma construção que está muito relacionada à poesia. Ele, como você falou, não está conectado para que o espectador realmente feche todas as peças. Mas ele está feito para que, assim como uma poesia, mesmo que você tenha uma frase que você leia e que e que não perceba o que não entendeu na junção, te emocione, que de alguma maneira toque a tua pele, que de alguma maneira te abrace.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O cerne emocional do filme é o processo de processo de Rosa de se reconciliar em alguma medida com as suas memórias e expectativas sobre Dalva, que se apresenta como essa figura quase “fantasmagórica”. Da perspectiva de vocês como atrizes, como foi trabalharem juntas para explorar os aspectos individuais das suas personagens e também a dinâmica entre elas, especialmente considerando que o filme é quase inteiramente sustentado em suas performances?

Veronica Cavalcanti: Para mim foi encantador pensar na construção de uma personagem que ia atuar no plano da imaginação, que podia tudo e que podia muita coisa. Ela tinha uma liberdade para se transformar numa coisa que não era real, numa personagem, numa fantasia, enfim, se transformar numa criança, se transformar numa boneca se transformar no que ela quisesse. Isso foi encantador para mim logo de início, e depois desafiador.

Eu fiquei pensando muito assim no em numa Rosa que tivesse duas versões: a Rosa do plano real e a do plano da imaginação. E o desafiador para mim foi que em alguns momentos do o roteiro pedia que a Rosa do plano da imaginação fizesse muita coisa e era segura do que ela queria viver ali, mas tinha uns momentos em que ela ficava estranha, e para mim aquele momento ali era como se a consciência da Rosa do plano real quisesse atacá-la [risos]. 

Então esses momentos aí foram desafios, mas muito bom estar nesse jogo do plano do imaginário, e poder circular, em termos de atuação, por esses estados da personagem, essa coisa meio louca mas muito sentimental, carregando todas aquelas questões que a Rosa do plano da realidade tinha, mas se divertindo, porque aquilo ali era o que ela precisava.  E nossa relação desde o início foi de muita amizade, de muito companheirismo enquanto atrizes, de muita troca, e acho que a gente conseguiu levar para o nosso trabalho, na atuação.


Luciana Souza: É interessante pensar que Dalva é uma construção de Rosa, está na cabeça dela, é um fantasma como você falou, e o roteiro e a direção também trazem esses elementos, mas eu como atriz vou também com tudo isso aí, ver como é que a personagem se resolve nessa história. E o nosso encontro, eu sempre repito isso, não foi um encontro técnico ou profissional. A gente se encontrou e começou a falar de nós, das nossas vidas. Não tinha indicação nenhuma para isso. 

Apesar de que, anteriormente, a gente teve um primeiro encontro virtual, a gente teve uma preparação com Armando Praça, o preparador de elenco e foi muito interessante. Ele foi ali nos provocando, tirando coisas, trazendo músicas, trazendo reflexões, ali esmiuçando o roteiro, os diálogos, a gente foi também já com essa bagagem para depois esse encontro prático. Mas o nosso encontro se deu com esse jogo, e também com a trajetória que o filme faz, da passagem por esses lugares e paisagens.

Eu conhecia Fortaleza, mas não conhecia ainda outros lugares do Ceará. Fiquei muito encantada ao andar naquelas dunas, foi um grande desafio para mim. Eu gosto de fazer caminhada, faço trilha, mas lembro que foi um limite ali, e a equipe ficava embaixo dizendo: "Vai!" [risos], sendo que eu tenho que correr e não sofrer. E um sol a pino, sabe? [risos]. Foi desafiador isso, mas eu adoro. Eu acho que o trabalho do intérprete é isso. Eu preciso de ofícios, de uma direção que questione, que motive, que nos mova, porque a gente tem muita coisa dentro de nós para dar. Então, se eu escolher esse ofício, eu quero tirar essas coisas e fazer da melhor possível. Não quero dizer que eu faço esse filme da melhor forma possível, porque eu olho e falo: "Poxa, eu queria fazer assim melhor. Eu podia relaxar mais os meus ombros”. Eu sinto que às vezes estou tensa, mas talvez o filme também tem o propósito dessa tensão.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Acho que um ponto muito importante do filme é as identidades queers das duas personagens. É interessante pensar que são mulheres na meia-idade, que saíram de casamentos frustrados, e que estão ou estavam se permitindo viver outros aspectos de suas sexualidades. Em que medida vocês consideram ser importante trazer esse tipo de representação para as telas? 

Janaína Marques: Eu sinto que o filme, além da sororidade, fala também de ancestralidade. Fala muito dessas mulheres que vieram antes de você e que desbravaram o território para que de alguma maneira você possa andar nesse território de uma forma mais livre. Eu sempre vi a Dalva como uma mulher livre, uma mulher anárquica, uma mulher que faz o que deseja, que é capaz de amar seja onde for e gerar o amor seja onde for. Ela se coloca à frente e provavelmente por se colocar tão à frente pode ser uma mulher que está ali numa posição onde vai receber mais julgamentos, vai receber mais imposições da sociedade, mas ela se mantém firme e desbrava esse território. São essas mulheres que abrem caminho, de alguma maneira, literalmente. E eu acho muito bonito que Dalva represente o conceito de amor livre.

A questão de ela amar outras mulheres para mim não se insere só numa questão de Dalva ter um amor livre, mas também de alguma maneira ela deixar de mensagem para as que virão, de que você pode amar quem você quiser, pode casar com quem quiser, pode não ter filhos se quiser, pode ser livre e decidir o que quiser da vida. A questão para mim no filme tem muito a ver com isso. que o que Dalva deixa de ensinamento para Rosa é: "Filha, é, você é livre para você ser o que você quiser ser".

Rosa, de alguma maneira, começa a experimentar o mundo e se reconhecer nele, e renasce, mas agora não imposta pela sociedade. Experimenta coisas que não são convencionais, que não vêm da tradição, mas vêm do desejo. Vem do simples fato de que ela deseja experimentar e vai experimentar.  E é por isso que eu sinto que o que acontece com Rosa é algo revolucionário. 


Luciana Souza: Eu acho que as relações homoafetivas estiveram na vida desde sempre, mas a gente vem construindo uma história de tabus, de que isso era outra coisa, ou era pecado. Tem tantas histórias nos são reveladas hoje e que trazem essa temática, mas que terminam muito conflituosas, e eu acho que o filme traz essa relação homoafetiva de uma forma natural, se propondo a discutir sexualidade, mas como uma coisa natural da vida.

E isso é que está na nossa imaginação, porque a gente imagina um monte de coisa e não diz. A gente não diz por medo, por tabu, por não saber se aquilo vai chegar bem, enfim. Então, eu acho que vem essa perspectiva, que é um experimento, é natural e é uma busca também de uma felicidade, porque elas saem de relacionamentos que foram nocivos, que foram tóxicos. Então é uma experimentação, é uma busca de outras relações que sejam também boas para si.


Veronica Cavalcanti: Aproveitando tudo que foi falado, eu acho que Rosa está no movimento de experimentar tudo o que acontece naquela viagem ali. Se ela foi afetada, ela experimenta, se joga. Ela também flerta com o profeta da chuva [Jonas, personagem vivido por Ridson Reis], está experimentando. Ela não está definindo nada ali, está só se deixando ser afetada pelas coisas que aparecem. E quando ela dá o beijo em Gislane (Christiane Lavor) ela se joga, vai com força, não pensa duas vezes, justamente num momento em que a personagem estava falando de superação. Então é como se fosse uma coisa de admiração também quando ela faz aquilo, quando você valoriza a pessoa e se encanta por ela. 


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme estreou em Berlim e agora aterrissou no Brasil primeiro aqui em Curitiba. Quais as suas expectativas para a recepção por parte do público brasileiro com o filme daqui em diante, até tomando a recepção do público daqui do Olhar de Cinema como um termômetro?

Janaína Marques: A recepção em Berlim foi incrível. A gente ficou tão feliz quando soube que ia estar na Sessão Fórum da Berlinale, porque é uma sessão que pensa de que formas a linguagem cinematográfica está avançando no mundo, que está pensando o cinema de risco, o cinema autoral, um cinema mais representativo. E a gente foi tão bem recebido.

É engraçado porque tanto na Berlinale como em Curitiba está fazendo um frio danado, e o filme é muito caloroso. Então de alguma maneira é muito especial pra gente entrar no cinema e ver todo mundo abrigado, mas ver uma tela tão cheia de luz, tão cheia de cor. E eu tenho a sensação de que o Olhar de Cinema é a representação da Sessão Fórum aqui no Brasil, é um festival que pensa o cinema, é um festival que pensa a diversidade, a representatividade, não só entre os autores, mas também na forma do filme. 

E a gente sempre sonha em estrear o filme no seu no seu habitat. Aterrissar no Brasil, poder falar o idioma, poder escutar as pessoas, poder de alguma maneira sentir qual é a recepção que as pessoas tem com a comédia que também existe no filme, como é que isso toca, é, se emociona, se não emociona, se as pessoas embarcam nessa viagem ou não, o que elas pegam, o que elas não pegam. É agora que a gente tem essa troca.

Agora que eu acho que o filme cumpre o seu papel, que é o mais social mesmo, daí vamos conversar, vamos trocar: “O que ficou para você? O que que de alguma maneira tocou na sua pele? Fala para mim”, e isso vai impulsionando e emocionando também a gente nesse sentido. Então, chegar no Brasil é o que eu sempre desejei. 

O filme vai estrear nas salas comerciais ainda no final do ano, em dezembro. E o que eu desejo é que até lá a gente também possa fazer uma trajetória em outros grandes festivais, e que isso se cumpra com novos públicos, e que a gente possa, de alguma maneira, receber o carinho também. Não só o carinho, mas também o que as pessoas tiverem para dizer pra gente. Em relação ao filme, tudo isso importa pra gente. 

Agora a gente está recebendo, porque o filme já cumpriu seu papel, a gente soltou para o mundo. Mas foi lindo ver o filme numa sala tão bonita, num lugar tão bonito e numa projeção belíssima. Isso é muito importante para a gente, de que tudo saia bem, que a imagem que a gente fez se veja e se escute bem, e que a sala esteja cheia. Então, se você me perguntar se era o que eu desejava, eu direi que sim, era o que eu desejava, e aconteceu.


Luciana Souza: O filme estreou em Berlim e foi na época do Carnaval. Eu sou carnavalesca de carteirinha [risos], mas foi meu Carnaval lá, porque foi muito contagiante. Então, essa trajetória vem para cá também, e a gente tem recebido de muitas pessoas esse calor que lá também foi impressionante, porque as pessoas vinham falar com a gente. A gente também teve uma sessão de debates, de entrevista, mas o público vinha falar com a gente, e aqui também a gente tá tendo isso. Só que aqui a gente tá tendo isso numa dose um pouco maior, até porque é mais o nosso território, porque a gente fala a mesma língua. 

A minha expectativa é que esse filme corra em festivais. Eu estava falando com Maurício ontem que é bom primeiro passar por festivais antes de chegar no cinema para todo mundo, porque a gente vai também apurando também o nosso olhar, o nosso entendimento também sobre essa história, afinando também nosso discurso e tendo essa oportunidade de estar em outros lugares e conversando com outras pessoas. Mas eu o que eu desejo que esse filme tenha um alcance e chegue para muitas pessoas que não tenham tanto acesso ao cinema.

A gente tem tido uma política pública que tem melhorado um tanto isso, mas ainda sentimos que tem uma dificuldade de filmes nacionais chegarem a uma grande população. E eu acho que a população precisa de filmes dessa natureza. A gente precisa de filmes também que falem sobre ressignificação, transformação, aprofundamento de relações, imaginação, enfim, que falem sobre mulheres. A gente precisa ter mulheres protagonistas nas histórias, no fazer, na direção, na direção de arte também, etc. O Brasil tem muito a a se beneficiar com esse filme, com filmes nacionais feitos com essa intenção.


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