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Entrevista | “O filme nasceu já com essa vontade de focar nesses rostos”: Pedro Diógenes fala sobre seu novo filme, “Adulto/Homem”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 5 min de leitura

Longa estreou na 15º edição do Olhar de Cinema e discute o ofício da atuação através da combinação e descolamento entre imagem e som.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Um dos longas a serem exibidos na Mostra Competitiva Brasileira da 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, Adulto/Homem marca o retorno do diretor cearense Pedro Diógenes com uma proposta inventiva e experimental. No filme, vemos ao longo de um único plano-sequência os rostos de 20 atores que aguardam para serem chamados para um teste de elenco, enquanto seus voice over debatem o ofício da atuação, reflexões e anedotas pessoais ou tomam outros caminhos narrativos. Você pode conferir a crítica do filme aqui.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Pedro para falar sobre a proposta temática e estética do filme, sobre como foi pensado o gradativo descolamento que se vê entre a imagem e o som, e sobre como ele espera que o público venha a compreender mais do ofício do ator. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O Pedro Guimarães, que é meu professor na UNICAMP e pesquisador de performances e jogos atorais, diz que o rosto do ator é o “lugar nobre dos sentimentos de veiculação dos afetos, sentimentos e emoções”. Pensando nisso, como você buscou trabalhar os rostos dos atores selecionados para o filme? Pensando até em como você os filma num único plano-sequência, com aquele movimento de câmera super lento que dá espaço para absorvermos cada um dos rostos e o que eles estão expressando.

Pedro Diógenes: Eu acho que a vontade era de pegar esses rostos e transformar eles quase como se cada um fosse uma paisagem, em que a gente pudesse enxergar muitas coisas dentro desses rostos. Então nos interessava muito esses pequenos gestos, as diferenças de olhar de cada um, a própria diferença física e, nesse filme que está falando sobre esses processos de seleção, como também há uma falta de lógica completa nesses perfis. Então, é um filme que busca muito essa coisa desses pequenos gestos do rosto e dessa busca também de dilatar esse tempo pra gente ver esses rostos e começar a poder olhar coisas que a gente não veria se fosse um plano muito rápido: poder olhar as marcas, as rugas, os pequenos detalhes de cada um desses rostos. Então, eu acho que tem muito esse desejo mesmo.

Acho que o filme nasceu já com essa vontade de focar nesses olhares, nesses rostos, de ter essa proximidade, e isso vem também de uma influência de outros filmes. Até se falou hoje [na coletiva de imprensa] do Jogo de Cena. Tem um filme que o nome é 20 Cigarros do James Benning, que são realmente 20 pessoas fumando cigarros, só os rostos delas. E tem um filme do Abbas Kiarostami, Shirin, que são só os rostos de mulheres vendo a um filme no cinema. Então me encanta muito essa coisa desses rostos, e o cinema como essa possibilidade de você chegar perto desses rostos.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O som é um dos aspectos mais cruciais do filme, e é muito interessante como ele gradativamente vai se “descolando” da imagem à medida que deixamos de ouvir necessariamente o rosto do ator que está em tela para que haja sobreposições, outras formas de narração para além das respostas deles às suas perguntas e por aí vai. Como você e o Tiago Campos e Breno Furtado pensaram e organizaram essa dimensão e materialidade sonora do filme? As narrações foram gravadas antes ou depois das capturas de imagens?

Pedro Diógenes: Eu acho que é um filme que parte de um dispositivo muito rígido na imagem: o dispositivo do plano sequência, tem um tempo calculado. Então, a imagem do filme para parte dessa rigidez, e aí o que a gente pensou foi que o som poderia trazer um outro lado, poderia trazer a dinâmica que a imagem não tinha. Então a gente pegou o esse som e ficou livre para brincar à vontade com ele, tanto com a camada das falas, mas também com a camada da música. Então foi o processo de montagem, que aí teve a montagem do som com o Vítor Costa Lopes; o Tiago fez a mixagem e uma parte também de edição de som, e o Breno Furtado fez a captação na hora.

A captação do som foi feita em três momentos. Teve o primeiro momento que foi uma conversa geral deles na noite anterior à que a gente foi filmar, quase uma terapia de grupo dos 20 atores [risos], conversando sobre a profissão, e também fizemos uns exercícios físicos. No dia seguinte, a gente só filmou à tarde, então durante a manhã, focamos nas conversas individuais, então toda essa parte dos depoimentos foi gravada antes da imagem. 

Mas aí durante o processo de montagem, a gente ficou com vontade de ter mais camadas nisso. E aí a gente foi gravar com mais dois atores, que foram o Demick Lopes e o Rafael Martins, para eles lerem uns pedaços de roteiro do filme Teobaldo Morto, Romeu Exilado, que é um filme do Rodrigo de Oliveira, de formas diferentes, em situações diferentes. E aí entrou mais essa camada.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu acho que o filme é muito bem-sucedido em mostrar que existem diferentes percepções sobre o ofício de atuar, ao mesmo tempo em que mostra como há essas experiências comuns e coletivas para estes 20 homens. Você considera que esse projeto vai ajudar o público a entender e se empatizar mais por estes lados mais “desconhecidos” da atuação e o que estes atores enfrentam e vivem? E se sim, o que exatamente em seu filme você acha que vai despertar essa compreensão e empatia por parte do público?

Pedro Diógenes: O filme nasceu na estreia aqui. E quando eu faço um filme, não tenho a menor ideia de como é que ele vai chegar no espectador, é sempre uma dúvida gigante. Então eu estou descobrindo agora essa qual é a relação dele com o público. A sessão foi maravilhosa, me surpreendeu, porque eu sei que é um filme que difícil, é um filme diferente. Mas eu fiquei muito encantado como a estreia foi muito bonita e aconteceu de muitos atores e atrizes virem falar comigo. Eu estava ouvindo reações que diziam como se sentiram acolhidas pelo filme, como o filme estava falando por eles e elas e representando e isso para mim foi muito foda. Mas também vieram muitas outras pessoas de outras profissões falar: "Olha, é ator, mas é muito parecido com minha profissão".

Eu estou começando a acreditar que um espectador que esteja disposto a se jogar nele tem ao que se apegar, ao que se envolver, ao que se emocionar, ao que se reconhecer. Então, partindo dessa sessão de ontem, eu estou começando a acreditar que o filme tem essa capacidade de chegar em qualquer espectador que esteja disposto a adentrar naquele tempo e naquele universo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados indicações de filmes brasileiros que eles achem que o público deva assistir. Podem ser favoritos da vida, algum que assistiu recentemente e amou, ou filmes que dialogam com o que você trouxe aqui para o festival. Quais suas indicações?

Pedro Diógenes: Eu vou indicar um filme que eu vi aqui no Olhar de Cinema que me deixou muito impactado, que se chama Reparação, de Marcos Curvelo. Um filme muito corajoso, muito íntimo, muito forte, muito inventivo ativo e foi muito emocionante. Então, acho que quem puder depois ver, acho que o filme vai começar a circular agora, estreou aqui no Olhar, eu acho que é um filme que merece muito ser visto.



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