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Entrevista | “Fazer um filme é querer olhar para um mundo distante do meu”: Miguel Antunes Ramos e Daniel Pentecoste falam sobre “A Voz de Deus”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

Documentário explora as transformações no meio evangélico brasileiro através de dois pastores mirins e estreia nesta quinta (16).

Divulgação


Nesta quinta (16) chega aos cinemas o documentário A Voz de Deus, dirigido por Miguel Antunes Ramos. O filme, que já foi exibido no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (e cuja crítica você pode ler aqui) e na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, acompanha dois pastores mirins de diferentes gerações, Daniel Pentecoste e João Vitor Ota, aprofundando-se em seus cotidianos para ilustrar as significativas mudanças pelas quais o meio evangélico brasileiro passou nos últimos 15 anos e como essas mudanças são atravessadas pelo entranhamento com a política do país.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Miguel e Daniel para falarem mais a respeito de A Voz de Deus. Eles falaram sobre o longo processo de gravação do documentário – que durou cerca de 10 anos –, da escolha por trazer um olhar menos julgador e mais curioso com as vivências dos seus personagens e em como o filme destoa das representações habituais e enviesadas que evangélicos ainda recebem no audiovisual brasileiro. Confira a entrevista abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Miguel, o que te motivou a investigar este universo evangélico para o filme? Como você chegou às figuras de Daniel e João Vitor?


Miguel Antunes Ramos: Eu acho que eu comecei a imaginar o filme por volta de 2016. Tinha uma certa surpresa com o que estava acontecendo com o Brasil e se falava muito do crescimento dos evangélicos no Brasil como se fosse um certo planeta muito desconhecido. Eu fui querendo me aproximar desse mundo e olhar para ele, para mim fazer um filme tem muito a ver com querer ver, querer olhar para um mundo distante do meu. Então, inicialmente começou um pouco disso, algo estava acontecendo e eu queria entender, olhar e me aproximar.


Em um dado momento eu vi por matérias da imprensa esse mundo das crianças pregadoras, que é esse mundo em que tem algo sendo aprendido e ensinado, com uma voz que se propaga. E eu achei muito interessante, muito contraditório, e aí aos poucos eu fui me aproximando, pesquisando.


E ainda nesse contexto eu cheguei no Daniel, quando eu o conheci ele tinha 17 anos. E eu achei muito interessante a história dele até então, que era de alguém que tinha sido uma criança pregadora a vida toda, desde os 6 anos, e que naquele momento estava em crise com a vida, com os caminhos dele, estava buscando uma outra forma de viver. E eu achei uma coisa muito diferente do que eu teria imaginado.


Aí, seguindo a trajetória dele, teve esse momento em que ele foi pregar no Gideõezinhos, e seria o seu último Gideõezinhos, já que ele estava deixando de ser criança. Esse mundo tem isso de uma certa síndrome de Peter Pan, em que as pessoas crescem e de repente é um problema crescer. E aí tem um momento em que tem uma certa passagem de bastão, o pastor no palco pega o João [Vitor Ota] e fala: "Tá vendo, Daniel, um cresce e Deus manda um novo para a gente". Então, tinha uma passagem acontecendo, e eu falei: "Acho que o filme é sobre essa passagem. Eu comecei com o Daniel, que está saindo, agora tem esse novo menino entrando". E eles são muito diferentes, quase antagônicos. E eu achei isso também muito interessante, porque estava tudo mudando: o país, a tecnologia. Então acho que começou um pouco daí.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme evita alguns recursos clássicos dos documentários, como a narração em off e as entrevistas. No lugar disso, a câmera praticamente “passeia” pelas vidas destes personagens e de suas famílias, se tornando até mesmo íntima deles. Para você, Daniel, como foi o processo de ter sua vida registrada por essa câmera por tantos anos?


Daniel Pentecoste: Como pregador mirim, aquele não era o primeiro contato com imprensa, com uma câmera. Mas era entrevista, e na entrevista rola aquela coisa, a gente conversa no off, e aí de repente está gravando. E o Miguel não, ele simplesmente se instalou na minha casa e de repente estava tudo sendo filmado, eu lembro até que uma hora eu saí do banheiro de toalha e tinha gente me filmando. Eu fiquei bem incomodado e, além do incômodo, eu não conseguia visualizar como que aquilo seria um filme.


E foi assim até eu estar lá em Brasília, ali por volta de 2022, 2023, quando eu assisti ao filme com o Miguel. O filme ainda não estava pronto, mas ali eu realmente entendi que que aquilo era uma jornada, mas até então não tinha noção do de como seria um filme. Então teve esse estranhamento, mas a experiência foi boa. Eu acho que eu não repetiria não, mas foi boa [risos].


Miguel Antunes Ramos: Eu lembro que nesse primeiro dia que eu filmei eles, quando terminou o pai dele chegou e me perguntou: "Ah, então quando lança o filme?”. Aí falei: "Não, não, não, você não está entendendo. A gente está só contando isso aqui. Vai levar anos ainda”.


 Divulgação


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Voltando a uma cena que o Miguel citou, eu considero bem emblemático esse único momento do filme onde vemos Daniel e João Vitor juntos. De fato, é como se houvesse uma “passagem do bastão” ou, no linguajar evangélico, uma “passagem do manto” entre as duas realidades evangélicas que eles representam. Na visão de vocês, quais as maiores diferenças que podem ser observadas entre o mundo evangélico mais atual de João Vitor e aquele de Daniel do início da década passada?


Miguel Antunes Ramos: Para mim, a principal questão é tecnológica, que era uma coisa que eu não sabia quando começou. Mas o Daniel, no fundo, ele viveu no mundo analógico, então ele gravava DVD uma vez por ano e vendia esse DVD, e aí no resto do tempo vivia a vida dele sem ser filmado tanto. Era sempre a mesma imagem. E o João é o contrário, é o mundo digital, ele se filma no celular o dia inteiro, todos os dias. É o mundo em que ele está hoje, e ele começou muito cedo nesse mundo.


Então acho interessante como um dos assuntos do filme talvez seja essa mudança tecnológica, a mediação de tudo pelo celular, que está em todo lugar hoje em dia, não só na vida do João, mas na nossa vida, na de todo mundo; ele muda tudo, é radicalmente diferente, então isso é o que mais me impressiona.


Eu acho que a gente também tentou olhar e narrar as semelhanças. Então, por exemplo, apesar de todas essas diferenças, inclusive de postura, de posição política, são duas famílias da classe trabalhadora lutando para sobreviver. São coisas que a gente foi percebendo, os ecos, apesar das diferenças havia as inúmeras semelhanças de trajetória.


Daniel Pentecoste: Essa mudança vem de um de um lugar aonde eu era um pregador mirim e fazia meus sermões, subia no púlpito e depois tinha um tempo muito longo para viver. E aí a parte do João já é mais performática, de estar à frente da câmera. E eu acho que hoje em 2026 já teve uma outra passagem de bastão, já tem uma galera que vem depois do João que é ainda mais performática do que ele. E isso diz muito a respeito do nosso Brasil. A gente vive num lugar onde todo mundo está toda hora dando opinião, todo mundo é especialista em absolutamente tudo. Acho que quando eu vejo o filme, essa passagem de bastão, eu vejo isso.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tempos atrás entrevistei um diretor, ex-evangélico, que lamentava como uma boa parte do audiovisual brasileiro, especialmente o ligado à esquerda, ainda trata os evangélicos com um tom acusatório ou condescendente e paternalista, especialmente em razão dos últimos anos e o entrelaçamento da população evangélica com o bolsonarismo e a extrema-direita. Vocês concordam com essa afirmação? Se sim, de que formas sentem que “A Voz de Deus” evita esse tipo de tratamento?


Miguel Antunes Ramos: Eu concordo sim. Acho que um pouco da minha sensação lá atrás que eu estava descrevendo em 2016 era um pouco essa. Quer dizer, o mundo evangélico era cada vez mais narrado como uma coisa importante, decisiva do país, das guinadas políticas que estavam acontecendo, mas completamente ausente da nossa cinematografia. Quando estava presente era sempre de uma forma, sei lá, um pouco negativada, mas também com um certo preconceito de classe em alguns filmes.


E acho que o meu interesse foi olhar de perto e tentar traduzir com justeza as várias complexidades desse mundo, sem diminuir também os diversos problemas, inclusive a forma como como a política atravessou esse universo. Enfim, eu não estava tentando fazer apologia de nada, muito pelo contrário. Mas eu acho que o que tentei fazer foi um retrato justo de um mundo que é acima de tudo muito complexo.


Daniel Pentecoste: Para mim A Voz de Deus é um olhar sensível e respeitoso do Miguel acerca de um universo que não é dele. E ele teve todo o cuidado e carinho para registrar e para apresentar tanto eu quanto o João Vitor. No mundo binário que a gente vive, você está sempre agradando um lado, desagradando o outro, mas o filme não tem isso. Não é uma apologia e nem uma denúncia, ele é um olhar do Miguel e aí você que assiste tira a sua própria conclusão do que entende.


A gente rodou alguns festivais e eu vi as mais diversas conclusões das pessoas, e de alguma forma tá todo mundo certo, cara. O padre Leonardo Boff diz que todo ponto de vista é a vista de um ponto, então, partindo dessa premissa, todo mundo vê da forma de onde se enxerga no mundo o filme.


Mas sobre a religião sempre ser olhada com esse olhar de que ou são vilões ou são muito ignorantes, aí é um problema mais estrutural da igreja evangélica, que hoje é um fenômeno. É como se a igreja não se ajudasse muito com o que sai na grande mídia. É claro que a gente tem uma igreja na base da sociedade, que está na periferia, que está nos bairros, que estão nas ruas, mas o público evangélico que aparece hoje na grande mídia, que está falando em nome do evangelho é de fato uma galera um pouco problemática, então eles não se ajudam muito.


Miguel Antunes Ramos: Acho curioso que eu tinha essa sensação lá em 2016 e agora 10 anos depois essa sensação continua. Porque você conta no dedo de uma mão os filmes que que estão retratando esse universo evangélico. Eu ainda acho pouco para um assunto tão decisivo, sendo que toda eleição que chega é um dos principais assuntos políticos. O voto evangélico, por exemplo, é um tema tão forte pro país, são 40 milhões de pessoas, é uma é uma conjunção, inclusive, da classe trabalhadora. E ainda vejo uma ausência muito grande de retratos cinematográficos sobre.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o nosso público deve assistir. Quais seriam suas indicações?


Miguel Antunes Ramos: Eu gosto muito dos filmes do Adirley Queirós, o último filme dele eu gosto muito, Mato Seco em Chamas. Gosto muito também do filme do Afonso Uchôa, o Arábia, e o Baronesa da Juliana Antunes, eu também indicaria.


Daniel Pentecoste: Eu conheço os filmes brasileiros mais conhecidos, como Meu Nome Não é Johnny. Recentemente teve O Agente Secreto também. Mas eu se eu pudesse indicar mesmo o filme, eu ia indicar de um diretor que eu gosto muito, por quem tenho o maior apreço, que é o Miguel Antunes Ramos [risos]. Além de A Voz de Deus, que para mim é o seu melhor filme, ele tem um filme chamado A Flecha e a Farda. Fala sobre os povos indígenas, do trabalho militar com os povos indígenas na época da ditadura, uma coisa do nosso país que eu nem imaginava, e o Miguel retratou nesse filme. Então, assistam.

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