Entrevista | “Desejo que as pessoas de Goiânia se sintam homenageadas com esse trabalho”: Ana Costa fala sobre “Emergência Radioativa”
- Giulia Meneses

- há 4 horas
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Atriz destacou importância da série para conscientização sobre o caso e reflete sobre saída do Nordeste para construção de sua carreira no eixo Rio São Paulo.

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Mesmo separadas por uma distância de pouco mais de 1.500 km, a cidade piauiense de São Raimundo Nonato e a capital goiana passaram a compartilhar uma conexão significativa. Lançada no dia 18 de março, a série da Netflix Emergência Radioativa, segundo a revista Exame, já soma mais de 10,8 milhões de visualizações e alcançou o Top 10 em 55 países.
Entre nomes como Jonny Massaro, Marina Merlino, Bukassa Kabengele e Alan Rocha, Ana Costa coloca o Piauí em evidência ao interpretar Antônia. Inspirada em Maria Gabriela Ferreira — responsável por levar a cápsula com Césio-137 à Vigilância Sanitária e que se tornou símbolo da tragédia —, a personagem traz à tona a luta e as dores de uma heroína que impactou o destino de uma cidade inteira.
Em conversa com o Oxente Pipoca, a atriz falou sobre a importância de retratar narrativas de impacto social, a responsabilidade de dar vida à Antônia, o trabalho com o diretor Fernando Coimbra e compartilhou um pouco de sua trajetória profissional.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Parabéns pela série Ana, que série maravilhosa. Quando sua entrevista chegou para mim, eu tinha acabado de ver a morte da Antônia. Aquilo me doeu de uma forma, meu Deus. Vou reviver todo aquele luto de novo conversando aqui com você!
Ana Costa: Ô, mulher, é um momento bem delicado, assim. Para você ter uma ideia, eu fiz a série, mas quando eu assisto, não tem condição. A gente já assistiu tantas vezes, o elenco já assistiu junto, já assisti com amigos, e era sempre muito profundo para mim.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então vou começar falando sobre Emergência Radioativa. Apesar de ser um caso que agora se sabe que teve uma repercussão mundial, ele certamente chegou com mais impacto na região centro-oeste, sudeste, principalmente ali em Goiânia. Para você, como nordestina e como piauiense, como essa história chegou?
Ana Costa: Eu conto sempre para as pessoas que, na época, eu tinha sete anos, e eu juro, nunca ouvi falar sobre o caso. Eu vim conhecer o caso depois que fui aprovada para esse trabalho, foi aí que entramos com uma pesquisa profunda sobre, estudando sempre, continuo até hoje. Tem tanta coisa acontecendo, e eu me percebo ainda com mais curiosidade sobre tudo. Então, eu falei com os meus pais e aí eles me falaram. Inclusive, na época que eu contei, ano passado, eles até falaram que tinham a intenção de mandar rejeitos também para o Piauí, lá em Valença. E isso é uma coisa que a gente não via. Quando você dá um Google, e vai pesquisar sobre o Césio, você não vê essa informação. E agora, recentemente, com esse boom da série, surgiram algumas postagens, as pessoas estão mandando para mim, inclusive fotos de manifestações que aconteceram lá em Valença no Piauí, que é o meu estado.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, você teve essa responsabilidade muito grande de trazer a história da Maria Gabriela, mesmo que não diretamente, já que foram mudadas algumas coisas, mas você já havia estado dentro de uma história baseada em fatos reais em Tremembé, mas agora para a Ana, interpretar um personagem tão forte, que é símbolo de um acontecimento tão devastador, qual foi o peso disso tudo para o seu pessoal e para a Ana atriz também?
Ana Costa: É um peso bem diferente do que aconteceu em Tremembé, porque a minha personagem em Tremembé não era inspirada numa pessoa real. No caso de Emergência Radioativa, sim. E vem toda essa responsabilidade, né? A gente entende que como atriz, independente de qualquer história que está sendo contada, sendo ela inspirada num caso real ou não, a gente já tem essa responsabilidade embutida porque é formador de opinião. Então, assim, tem pessoas ali te assistindo, muita gente ouve aquilo que você diz enquanto personagem, e traz para a vida. Então, imagina, representar pessoas reais num acidente que marcou tantas vidas, que está marcando ainda mais agora com a história voltando. Eu só consigo enxergar, assim, muito respeito, continuo tendo mais respeito pela história.
A Ana, enquanto atriz, muito responsável...feliz por poder contar essa história dessa maneira e por participar dessa narrativa. Eu sinto que a partir de agora, em meus próximos trabalhos vou sempre lembrar da Antônia nesse lugar, independente se eu só pegar ficções e não histórias inspiradas em casos reais, eu vou sempre lembrar de contar essa história com muita profundidade, respeito à memória das pessoas, das vítimas envolvidas, e trazer isso para a vida agora, sabe? Ser uma contadora de história requer muita responsabilidade.

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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que lindo. Eu li em uma entrevista que você não reconheceu o Fernando Coimbra de primeira, né? Achei sensacional! Eu queria que você falasse um pouco como foi esse processo de audição e qual foi o momento que caiu a ficha que você ia estar trabalhando com uma equipe tão grande como essa, você trabalhou com nomes gigantes ali, como o Johnny Massaro, por exemplo, que está com tudo agora. Queria que você contasse um pouquinho mais sobre esse processo.
Ana Costa: Olha, essa história, eu falo que foi assim, a cereja do bolo. Porque pensa só, o Fernando Coimbra é gigante. Imagina se eu sei que aquele homem que está ali dentro é ele, quando eu entrei para fazer o teste. Eu ia tremer. Por que isso acontece? A gente vem de uma onda de muito selftape. Desde a pandemia, isso virou muito recorrente. Então, assim, não são todas as produções que te chamam para um teste presencial. Quando eu fiz o teste para Emergência Radioativa, eu fiz um self-tape primeiro, em dezembro, que acredito que foi um teste genérico. Todas as mulheres faziam o teste para Catarina, todos os homens faziam o Evenildo, algo assim. Fiz aqui na minha cozinha, comendo cuscuz, inclusive. Foi bem legal esse teste. Mandei para eles. E aí foram tentativas de presencial até que aconteceu no dia 5 de fevereiro, inclusive.
Só que, assim, não é descaso com a quantidade de teste, mas é que a gente já vem tão desgastado, sabe, fazendo teste, que você nem olha muito ali as informações que vêm da ficha técnica da equipe. Você olha a sinopse da personagem quando te mandam, um pedacinho falando alguma coisa dela, porque senão você tem que adivinhar o que você vai fazer. E depois de tudo vai para o texto. Quando eu vi lá o que dizia o texto, aí fui atrás da história mesmo. A minha agente, a Nani, acabou falando, “Isso é um caso real, pesquisa! ” Então, eu pesquisei antes do teste e fui. Não olhei os nomes, porque depois que acabou o teste, que fui olhar a mensagem da assistente da minha agente, eu vi estava escrito “Fernando Coimbra”, foi quando fui no Instagram e vi a cara do homem. Falei “Meu Deus, eu estava com o Fernando Coimbra! ”
Mas foi tão maravilhoso, foi genial, porque o Fernando, além desse grande diretor, ele é ator também. Então, ele te traz tanta tranquilidade. Dentro da sala tinha o diretor, uma atriz fazendo réplica para mim, que a Rebeca, que inclusive está na série também. E um fotógrafo com a câmera, em movimento, tá? Que é uma delícia.
Então, o teste foi em movimento. Muito legal. E eu já cheguei conversando.... Tinha encontrado com o Felipe Frazão... Saindo do teste também, que é um querido com quem trabalhei no meu segundo trabalho na TV... Estava bem à vontade e o teste foi muito bonito. O Fernando tem muita empatia, ele me dava coordenadas ali, a gente fez uma vez, depois ele falava “Agora vamos experimentar tal coisa”... E fomos por aí. Falei que era do Piauí, ele já foi para o Piauí também, e a gente entrou com o assunto Serra da Capivara, e quando vimos, se passaram horas no teste. E eu sou muito grata por esse momento, porque era pra ser minha mesmo, Antônia. Eu adoro quando ele diz que quando eu saí da sala, ele falou, “Achamos Antônia”.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Deve ter sido muito emocionante receber esse feedback do Fernando Coimbra.
Ana Costa: Nossa, muito. Assim, no set ele é tão parceiro, não é aquele.... Porque eu venho do teatro, né? Então estou muito acostumada com o estereótipo do diretor que é carrasco, que tem que ser. Ele é autoridade máxima dentro de um set. Então, óbvio que a gente respeita essa hierarquia, mas com o Fernando parecia que a gente estava ali, em um grupo de teatro, todo mundo fazendo junto, daqui a pouco vai tocar o terceiro sinal e vai todo mundo fazer e entregar o seu melhor. Foi assim, eu nunca mais vou esquecer essa experiência.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Na mesma entrevista, você falou um pouco que esperava que a série atraísse o olhar das pessoas. Levando em consideração que a série alcançou o top 1 da Netflix, e se consolidou no ranking de muitos países, eu queria que você falasse um pouquinho, acima de tudo, como você espera que as pessoas daquela região que foram diretamente ou indiretamente afetadas por essa situação enxerguem o trabalho de vocês?
Ana Costa: Você sabe que quando a gente começou a fazer esse trabalho a nossa maior preocupação era de fato com as pessoas de Goiânia com as famílias que foram atravessadas com esse acidente. Porque para nós jamais faria sentido se não chegasse neles da maneira como a gente gostaria que chegasse, que foi uma maneira respeitosa, cuidadosa, com muita sensibilidade com respeito, acima de tudo. Então, não vou mentir para você, a gente ficou apreensivo de como eles receberiam. E tem sido esplêndido receber mensagens dos goianos. Eu recebo muitas mensagens de Goiânia, do Goiás, no geral, no Instagram. Eles se sentem sim representados. Claro que não dá para agradar todo mundo, mas mais que agradar, a gente entende que o importante está sendo feito, que as pessoas enxergarem que o trabalho é para além de entretenimento.
Realmente, a gente está ali usando a função da arte mesmo como um produto de transformação social. Porque eu tenho falado com muita gente que nunca ouviu falar sobre esse acidente, com pessoas que tinham ouvido e não lembrava mais. Então, assim, como é importante ter Emergência Radioativa aí no topo para a gente não esquecer…. Eu acho que ninguém nunca mais vai esquecer desse acontecimento, né?
Eu desejo que as pessoas de Goiânia, as pessoas que foram afetadas de maneira direta, até indiretamente, com esse acidente, se sintam homenageadas com esse trabalho. Porque a nossa intenção, de fato, sempre foi contar essa história para que ela jamais possa ser esquecida, para que a gente não caia no vacilo de repetir algo tão doloroso.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Verdade. Para a gente aqui do Oxente Pipoca, hoje eu falo de Sergipe, que é o menor estado do país. É maravilhoso poder falar uma nordestina presente em uma produção desse nível. Não é seu primeiro trabalho numa plataforma grande, mas eu queria que você contasse um pouco da sua trajetória desde São Raimundo Nonato, não é isso? Até aqui. E hoje você se estabeleceu 100% no Eixo Rio-São Paulo?
Ana Costa: Sim, 100%. Eu tô aqui desde 1999, que eu acho que tu nem era nascida. Eu tô aqui há bastante tempo. Tanto que, assim, sofro bullying pelos meus amigos do Piauí, porque meu sotaque ficou aquela coisa misturada. Mas não tem como, ainda mais trabalhando com arte. Às vezes você pega um trabalho que as pessoas pedem que você “neutralize” o seu sotaque. Então a gente tem que trabalhar dessa maneira. Mas eu saí de lá com 18 aninhos, tinha acabado de me formar como professora lá em São Raimundo. A vida toda eu fui ligada à arte. A gente dançava, interpretava, criava historinhas na escola.
Dos 17 aos 18 trabalhei com comunicação diretamente, trabalhei em rádio, tive programa Jornalístico, programa musical Jornalista. Então quando eu cheguei aqui em São Paulo, lembro de ter na minha mente essa ideia de buscar cursos de teatro. Eu queria ir para a televisão queria mesmo, mas eu entendi pelo menos aqui que o teatro era o início de tudo, que é a base, e graças a Deus eu escutei, porque eu fiquei de 2006 até 2018 só fazendo teatro. Participei de vários coletivos aqui em São Paulo, coletivos muito importantes, que formaram a atriz que eu sou hoje.
Em 2018, depois de algum tempo, fui testando pra séries, mas não aprovava, porque eu fazia tudo muito grande. De tantos nãos eu fui aprendendo. Daí consegui meu primeiro trabalho, que foi Carcereiros 2, para a Globoplay. Com a Neide Aparecida, que era coadjuvante. Então, assim, são dois episódios e a personagem muito importante para a resolução de um contexto ali envolvendo um dos protagonistas, que é o Tony Tornado. No mesmo ano eu fiz Show da História, que eu faço uma indígena marajoara, onde eu conheci o Frazão, que eu te contei aqui a pouco. Participei de Ninguém Tá Olhando, que também é uma série premiada da Netflix, DNA do crime, sempre pequenas participações.
Às vezes, chegava teste pra grandes personagens, mas eu ouvia “ Ana foi maravilhosa, a Ana foi ótima, mas infelizmente esse papel a gente não vai conseguir agora para ela. Será que ela topa fazer tal coisa” E a gente vai topando até chegar num lugar que a gente diz, não mais. Eu tenho 45 anos, tenho essa estrada toda, aprendendo, porque a gente nunca vai parar de aprender. Mas chega em alguns momentos que você precisa dizer uns nãos para poder que os sims. E aconteceu isso com a minha Emergência Radioativa. Quando eu recebi a aprovação e estava lá a atriz principal, eu juro, estava na fila de cinema com uma amiga. Eu só não cai para trás, porque eu sou nordestina resistente.
Desde então estou no Rio de Janeiro fazendo esses trabalhos. Ano passado eu filmei um longa e fiquei um mês lá, que era um desejo muito grande daquela criança interior. Porque a gente criança no Nordeste, cidadezinha bem pequenininha, você cresce vendo novela, né? Você cresce vendo Leblon, Manuel Carlos. Ipanema, o céu, o cristo lá na ponta. E eu vivi a minha experiência, assim. É um longa que sai em breve e a gente vai poder falar sobre ele.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Estamos presenciando uma ascensão muito grande de artistas nordestinos, de filmes nordestinos. Só que o Nordeste é composto por nove estados que nem sempre são muito desbravados. Eu queria saber se tem alguma história do seu estado que ainda não foi contada e que você acha que merecia ser contada. E se você tem projetos para trabalhar em papéis nordestinos?
Ana Costa: Eu sempre falo o seguinte, tem muita coisa para ser contada. Eu adoraria que fizessem um trabalho relacionando a Serra da Capivara. Os nômades ali, sabe? A ancestralidade daquela região. Eu desejo muito fazer uma personagem sertaneja e trazer todas essas camadas dessa mulher que nem preciso contar muito, mas que você olha e já identifique, sabe? Toda a força que tem atrás dela. Então, o meu desejo é latente. Adoraria filmar no Nordeste, mas principalmente ali, no sertão do Piauí, desbravando aquelas serras, contando um pouco dessa história relacionada à Serra da Capivara. A gente tem hoje um turismo cultural e histórico muito forte. Então, ia ser incrível para mim nas telas do cinema, uma personagem de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara, Cânions do Viana, sabe?
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, por último, nós temos uma tradição aqui no Oxente Pipoca de pedir para nosso entrevistado uma indicação de filme ou série brasileira que você ache que o nosso público deveria assistir.
Ana Costa: A série que eu quero indicar pra vocês é Emergência Radioativa. A gente é muito rico, né? Muito rico. Mas eu quero continuar indicando a Emergência Radioativa, sim. Temos muito tempo ainda aí pela frente com esse assunto em alta. Eu indico as pessoas procurarem sempre projetos que tenham, além do entretenimento, esse objetivo também histórico, cultural, acima de tudo, com raízes, com histórias que atravessaram pessoas, para que a gente possa, a partir da arte, ter modificações perfeitas na nossa vida, no nosso dia a dia, no nosso comportamento como cidadão. Então, assistam, compartilhem, contem para os amigos, mostrem para os filhos, tem muita criança assistindo. Recebo muita mensagem dos pais falando “minha filha assistiu, meu filho assistiu”, e eles falam “ai tadinho deles”. Continuem acompanhando a gente, nosso elenco é tão potente, tão poderoso, com outros nordestinos lá no elenco. Eu estou muito feliz mesmo com a repercussão e desejo que as pessoas continuem vendo a nossa série.



















