Entrevista | “Por que não ser também rebelde na gramática cinematográfica?”: Marcelo Gomes fala sobre “Dolores”
- Vinicius Oliveira

- há 13 horas
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Diretor falou ao Oxente Pipoca sobre o processo de trazer o roteiro de Chico Teixeira às telas ao lado de Maria Clara Escobar.

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Dando continuidade às entrevistas com a equipe e elenco de Dolores, o Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com Marcelo Gomes, codiretor do filme junto com Maria Clara Escobar. Ambos assinam o roteiro, escrito originalmente pelo diretor Chico Teixeira, falecido em 2019, e conclui a sua “Trilogia dos Afetos”, também composta pelos longas A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014).
O filme, que estreia na próxima quinta-feira (04), acompanha sua personagem-título (Carla Ribas), a qual lida com o vício em jogos de azar; a filha Deborah (Naruna Costa), que aguarda a saída do companheiro da prisão; e a neta Duda (Ariane Aparecida), que alimenta o sonho de ir para os EUA. O Oxente Pipoca entrevistou as três atrizes e você pode conferir aqui.
Nesta entrevista, Marcelo Gomes falou sobre como conciliar a visão original de Teixeira para o filme com a sua identidade autoral e a de Maria Clara Escobar. O diretor também discutiu sobre como conciliaram os arcos individuais das protagonistas com suas dinâmicas coletivas, bem como as questões raciais que emergem do filme. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme adapta um roteiro escrito por Chico Teixeira antes de sua morte. O que te motivou a trabalhar nesse roteiro? Em que medida você sente que honraram o trabalho e o espírito de Chico ao mesmo tempo em que imprimiam suas identidades autorais ao filme?
Marcelo Gomes: Eu trabalhei no primeiro filme de Chiquinho [Chico Teixeira], que foi A Casa de Alice, e eu acho que tem elementos no cinema dele que têm muito a ver com o meu cinema e o da Maria Clara. Primeiro, é um cinema de personagens. E segundo, não são personagens perfeitos, são personagens contraditórios; existem deficiências emocionais, sociais e financeiras dentro desses afetos que eles sentem.
Então, o Chiquinho começou a trabalhar comigo e para ele interessava dois elementos. Primeiro, esse universo fora das prisões, esse mundo de solidariedade feminina que existia fora das prisões entre as mulheres, e onde existe até um acordo tácito de solidariedade. E outro elemento que ele queria pesquisar era a questão dos bingos clandestinos.
Bom, aí o Chico partiu, mas antes de partir me deu essa missão e disse: "Marcelo, você tem que deixar Dolores ganhar vida". Mas os anos se passaram, então quando a gente pega esse material tem que primeiro construir várias camadas dessas personagens, entender quem são elas e se apropriar delas. Então gente imaginou que essas personagens são originárias de Brasis diferentes: Dolores é o Brasil da redemocratização, que ela viu surgir; Deborah é esse país das políticas sociais mais profundas; e Duda vem dessa geração que vê o neoliberalismo forte crescendo, essa americanização da sociedade, esse belicismo. Então, esse eu acho que foram os três elementos que a gente trouxe para dar mais uma camada no universo do Chiquinho.
E outra coisa que eu acho que foi fundamental para a gente se apropriar da história e dos personagens, e construir esse roteiro a seis mãos, é que a Dolores sonha. E a gente achava que esse sonho, premonição ou visão que ela tem devia ser muito importante, e não só ela, as outras deveriam ter sonhos, sonhos, projetos de vida. Maria Clara fez um filme onde a personagem sonha muito, é um documentário onde ela se apropria de coisas dos sonhos ficcionais para ajudarem ela na vida real. Eu tinha acabado de fazer um filme chamado Criaturas da Mente, em que a gente fala de sonho e inconsciente. Então a gente pensou que isso é muito importante trazer essa camada do sonho para o filme, até para a gente entender a dor, entender esse inconsciente e abraçar esse desejo.
Outra coisa é que tanto eu e Maria Clara queríamos fazer um filme numa região da classe média baixa, na cidade de São Paulo. Eu nunca fiz um longa de ficção em São Paulo, mesmo tendo morado muito tempo na cidade, e a Maria Clara também não. A gente queria fazer uma classe média que fosse brilhante, fosse colorida, nada de coisa soturna ou sombria. E eram mulheres que vivem a vida ali. A vida tá ok, a casa delas é ok, não tem problema nenhum, mas elas querem uma vida melhor. A gente queria discutir, refletir sobre a vida com personagens que atuem no mundo. E aí tem a ver com meu cinema, com o cinema de Maria Clara, tem a ver com minha Paloma [do filme homônimo], com minha Verônica [de Era Uma Vez Eu, Verônica]. Então foi tudo isso que fez com que a gente se apropriasse do projeto de Chiquinho, construísse um projeto que também fosse nosso, e o roteiro se transformou num roteiro de seis mãos.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme lida com essas três protagonistas femininas ligadas pelo sangue, mas que lidam com dramas muito próprios e particulares. Em que medida vocês buscaram equilibrar a abordagem individual dos arcos dela com este elemento de coletividade que permeia as três?
Marcelo Gomes: Era muito importante que elas não fossem uma massa de personagens, todas iguais. Então a gente tem a questão de idades, de gerações, de caminhos. Dolores busca construir seu próprio caminho, que é meio contraditório e faz ela errar; Deborah tem esse lado mais romântico, de querer constituir uma família; e Duda vai em busca do seu desejo, confiando muito no projeto profissional.
Então, isso foi feito primeiro, diferenciar os sonhos, o inconsciente e o universo delas. Até diferenciar elas em termos de universos sonoros. Toda sonoridade da casa da Débora é uma sonoridade, a da casa da Dolores é outra, a sonoridade do Clube de Tiro é outra. Então todas essas personagens estão envolvidas numa sonoridade que dá universos diferentes e musicalidades diferentes. A música de Dolores é “felicidade não existe, o que existe na vida são uns momentos felizes”, então ela tá por tudo ou nada. A Débora escuta músicas românticas, ele tem um desejo de construir uma família, e a Duda tá naquele hip-hop, ela sobe naquela naquele teto como se ela quisesse voar, expandir os horizontes. E como ela é a personagem de maior ação no filme, é ela quem vai juntar todas elas no final para uma possibilidade de sonho coletivo.
Os Yanomamis fizeram muito a cabeça da gente, tínhamos lido muito eles para fazermos nossos filmes anteriores, e eles dizem que sonho e realidade são a mesma coisa. E é isso que a gente quis fazer no filme, em termos de narrativa e de visualidade. Porque no cinema clássico a pessoa dorme, a imagem fica blur, e você vê o sonho dela. E por que a gente tem que seguir essa norma? Por que não ser também rebelde na gramática cinematográfica, como as personagens são rebeldes nesse desejo de se aventurar?
Então, a gente construiu pouco a pouco uma visualidade onde começa o filme num sonho, mas também pode ser Dolores que tá entrando no grande palco, e de repente ela tá lá de olhos abertos, olhando pra gente e dizendo: "Eu tenho premonições, eu tenho visualizações e essas visualizações fazem parte da minha vida". E a partir daí é o momento zero, onde tudo vai se confundindo, tudo vai se misturando, o glitter entra no dia-a-dia do bairro dela, o bairro dela entra nos sonhos. Personagens se confundem, roupas perdem a sua continuidade, e no final as pessoas me perguntam se é sonho ou realidade, mas não importa. Importa que eu entrei nesse barato de aventura dela, era isso que a gente queria.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Na minha entrevista com Carla, Naruna e Ariane conversamos sobre como as questões raciais das personagens, mesmo não estando explícitas no filme, se fazem muito presentes e revelam muito das dinâmicas raciais do Brasil. Foi intencional da parte de vocês trazerem esse contexto de uma avó branca, uma mãe negra e uma neta parda? Como você sente que estas questões raciais permeiam as personagens e o filme?
Marcelo Gomes: Maria Clara fez o casting para os meus três últimos filmes, e antes de qualquer coisa a gente queria homenagear o Chico no casting. Então colocamos a Carla Ribas, que fez o primeiro filme dele [A Casa de Alice], e a Gilda Nomacce, que fez o segundo filme dele [Ausência], e também o Matheus Rodrigues, que faz o Roger. Então a gente queria presentear o cinema do Chico, que ele estivesse fisicamente presente.
Depois a gente fez um processo de casting sem pensar nada em um biotipo, vimos várias atrizes de 20 a 22 anos, convidamos para fazer o teste, e a mesma coisa para a personagem da Débora. Quando a gente foi ver os testes que a gente mais gostava, pensamos: "Por que não a Naruna, uma atriz maravilhosa e com quem a gente quer trabalhar?”. Por que ela não pode ser filha da Dolores, se na nossa vida real, nessa nossa miscigenação brasileira louca que existe, a gente vê situações como essa? E por que não a Duda ser também? Como a gente não vê o marido da Dolores e o pai biológico da Duda, isso é completamente possível. Então o talento das atrizes inicialmente fez a gente trazer isso, E a gente viu que não tinha nenhuma complexidade em termos narrativos, porque isso faz parte da nossa formação étnica brasileira.
E a partir daí, lógico que a gente coloca isso dentro da narrativa. Por exemplo, tem um foco numa foto do Geraldo, marido da Dolores, que parece com a Débora. E pouco a pouco a gente foi trabalhando isso, e não precisa de explicações. Para quê explicar isso, se isso é dito dentro da nossa sociedade brasileira? E por que não pode ser também dito dentro da ficção?
Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Marcelo Gomes: Eu acho que nossos filmes precisam sempre de público. A gente tem muitos lançamentos e pouco dinheiro para divulgar, é muito difícil concorrer com cinema hegemônico. Então, eu queria indicar um filme que tá em cartaz, o Mambembe do Fábio Meira. Assistam ele. É um filme muito bacana, muito bonito e também brinca com ficção e realidade, realidade e ficção, e também esse sonho dessas pessoas que trabalham com o circo.



















