Entrevista | “Sempre foi muito importante um festival que fosse conectado com aonde ele está”: Antonio Gonçalves Jr. fala sobre o Olhar de Cinema
- Vinicius Oliveira

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Atualizado: há 2 dias
Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor geral do festival fala sobre a 15ª edição, que acontecerá entre 4 e 13 de junho em Curitiba e conta com inscrições abertas

O Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba anunciou que estão abertas as inscrições para a sua 15ª edição. Os interessados em participar de um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema independente do Brasil, podem inscrever suas produções até o dia 26 de fevereiro pelo site oficial www.olhardecinema.com.br. Serão aceitos curtas e longas-metragens de todas as tipologias e gêneros, inéditos no Brasil.
Desde 2012 o festival já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema, 50 mil pessoas vendo filmes online e exibiu mais de 1200 filmes de todo o mundo. Dentre as Mostras que o compõem destacam-se a Competitiva Internacional e Brasileira, Novos Olhares, Olhares Clássicos e Mirada Paranaense, dentre outras.
O Oxente Pipoca pôde entrevistar Antonio Gonçalves Jr., diretor geral do festival e um dos seus fundadores. Ele pôde falar sobre a história do Olhar de Cinema, seu papel para a visibilidade do cinema paranaense e a importância dos festivais para o ecossistema do audiovisual brasileiro. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Este ano o Olhar de Cinema completa 15 anos de existência. Em relação à primeira edição, o que você acha que mais mudou? Quais os principais fatores que você considera que permitiram ao festival chegar a este número tão importante?
Antonio Gonçalves Jr.: Eu sou um dos cofundadores do festival, então estou nele desde a criação dele, quando ainda era uma ideia, uma vontade, um desejo de fazer um festival. E eu acho que o que acabou dando essa longevidade foi muito dessa nossa vontade que estava lá no início, que era uma vontade muito genuína, muito verdadeira de querer compartilhar filmes com as pessoas. De querer primeiro possibilitar que as pessoas daqui de Curitiba pudessem ter acesso a alguns filmes que eles não teriam de outra maneira.
Antes de tudo, a gente tem uma produtora chamada Grafo Audiovisual, que começou em 2007. A a gente começou a circular com os nossos curtas em vários festivais e começamos a encontrar vários filmes que a gente achava sensacionais e queria compartilhar com as pessoas daqui. E a gente começou a estudar muitos formatos de festivais e aí pensamos num formato a gente acreditava que fazia mais sentido dentro do Brasil, do Paraná, de Curitiba.
Quando a gente montou o festival, nós éramos três estudantes de cinema, e nosso maior medo era que não desse ninguém no festival [risos]. Era nosso terror, era um pesadelo total de que não desse ninguém, porque vários festivais que tinham em Curitiba, que inclusive tinham acabado em 2010, 2009, acabaram às mínguas, às moscas, não tinha mais público, não tinha mais aderência de nada. Falamos: "Pô, a gente tem que fazer um festival que pelo menos vai a gente, né?", de alguma maneira as pessoas tinham que ir. E então pensamos muito nesse formato de festival.
E aí a gente chegou num formato que dialogava muito com a cidade, até a época do ano a gente pensou. “Pô, vou fazer no inverno”, porque verão aqui em Curitiba é morto, sabe? Vai todo mundo pra praia, que é a uma hora daqui, então todo final de semana a galera tá lá. No inverno a galera não tem para onde ir, porque inverno é frio, frio mesmo, você esteve aqui, então já entendeu como que é [risos].
Todo o formato do festival toda a linha curatorial, ela mudou muito pouco de 2012 para cá. E aí, respondendo sua pergunta depois dessa contextualização gigante, o sucesso foi muito dessa proposta ter surgido lá atrás de uma maneira muito sólida, e a gente só foi aprimorando ela ao longo desses 15 anos. Isso ajuda demais as pessoas a se conectarem com o festival, porque ele não fica mudando, não é cada ano uma coisa diferente. Não, ele tem uma construção.
A pessoa que veio na primeira edição do festival e que vem hoje, a única coisa que vai notar de mudança é que ele tá muito maior. Mas continuam a característica dos filmes, a abordagem dos filmes, a apresentação, a forma que a gente lida muito carinhosamente com cada um dos filmes que estão sendo exibidos aqui, com os realizadores e realizadoras que vem para cá, com a própria imprensa.
Então, todo mundo que compõe essa comunidade, que forma o Olhar de Cinema, a gente sempre realmente presta tenta trabalhar com de uma maneira muito cuidadosa com cada um dos públicos. Você como imprensa tem necessidades, desejos, ambições diferentes de um realizador ou do público geral. E a gente tentou entender essas vontades, essas visões de cada um desses públicos, e a partir daí montar algo que fosse legal de alguma maneira para todo mundo se sentir acolhido dentro do festival sem perder aquela proposta curatorial que a gente tinha, e que sabia que era muito difícil num primeiro momento, mas que hoje acredito que foi muito acertada.
Nossa abertura era pra 300 pessoas – acho que no primeiro ano foi umas 250, nem chegou a 300 – e hoje já tá com 1600, e com o mesmo tipo de filme. Porque o público foi crescendo, as pessoas foram entendendo o que é o Olhar de Cinema e o boca-a-boca foi a nossa maior propaganda. As pessoas verem, falarem, comentarem, curtirem. E isso faz com que o nosso público vá aumentando ano a ano e isso ajuda muito nessa consolidação.

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição passada apresentou recorde de público e de exibição de longas e curtas-metragens. Quais suas expectativas para este ano, especialmente considerando que se trata da 15ª edição? Haverá novas Mostras, por exemplo?
Antonio Gonçalves Jr.: A gente tá bem animado com essa edição e pensando em várias coisas. A gente tem pensado os filmes, as mostras dos filmes, mas quanto a elas não vai ter nenhuma grande mudança, até porque não gostamos de mudar muito na estrutura do festival. Eu acho que o grande atrativo do festival é justamente essa estrutura que foi criada, quem frequenta o festival uma ou duas edições se entende muito bem dentro dessa estrutura. Então, a gente gosta de manter esse lugar acolhedor para a pessoa no sentido de que ela chega no festival e já sabe mais ou menos como que ele funciona, e isso é bom para as pessoas.
Mas, claro, todo ano a gente tenta colocar alguma coisa diferente. Nesse ano temos apostado muito mais esse ano nas experiências, porque um festival também tem um desafio muito grande, principalmente com esse novo público, que é um público é muito jovem. Como tirar essas pessoas da sala, da frente do streaming, da TV? Então, não basta só o filme, a gente tem que trazer alguma experiência, alguma proposta a mais.
No ano passado a gente começou com o MECI (Mercado do Cinema Independente), fez um protótipo, e nesse ano a gente quer consolidá-lo como esse espaço de mercado que atende o cinema independente brasileiro e internacional, então a gente vai dar um passo também para fora do MECI, para abrir um pouco mais as fronteiras.
Então são pequenos ajustes que a gente vai fazendo, e eu acho que também isso é muito bacana do Olhar de Cinema, porque acaba que a gente tem uma continuidade, vai construindo o tijolinho por tijolinho. A gente todo ano muda alguma coisa, mas nunca faz uma coisa completamente radical. A gente não quer que ele perca a sua característica, o perfil dele, a proposta. Mas sim, vão ter surpresas, vão ter novidades e já estamos trabalhando em algumas delas que vão ser bem legais, mas muito focado também nessa experiência e no fortalecimento do MECI.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Nós temos vistos polos regionais do cinema despontarem nos últimos anos, como o cinema cearense ou mineiro. Em relação ao cinema paranaense, pude ver o espaço significativo que ele teve na edição passada, principalmente através da Mirada Paranaense. Como você espera que o Olhar de Cinema continue a alimentar e expandir esse espaço de forma a dar ainda mais visibilidade ao audiovisual do estado?
Antonio Gonçalves Jr.: Essa foi sempre uma preocupação nossa desde o primeiro ano. A Mirada Paranaense, por exemplo, existe desde 2012. Então, ela vai completar 15 anos também, assim como várias outras mostras que a gente tem no festival. Digo isso porque para nós sempre foi muito importante um festival que fosse conectado com aonde ele está.
Para também ter essa conexão, a gente entendeu que precisava ter esse espaço, e tinha de ser um espaço nobre. Então as exibições da Mirada Paranaense não são no dia da semana à tarde, mas nos finais de semana ou à noite. Com isso, a gente acabou tendo um respeito, um contato, uma comunicação muito direta com os realizadores e as realizadoras locais. Então eu sou muito feliz com relação a isso, muito grato no sentido de que a gente conseguiu atingir o nosso objetivo, que é o de que todo mundo que faz filme aqui no Paraná tem interesse em estrear no Olhar de Cinema.
E isso gera um problema bom para nós, porque como chegam muitos filmes daqui, têm vários em estreia. E tirando as exibições especiais, a gente tem que acabar programando esses filmes de alguma maneira, desde que estejam alinhados com o festival também, claro. Então acaba que a gente recheia a programação do festival com filmes paranaenses em todas as mostras. Antigamente, cinco, seis anos atrás, as os filmes paranaenses acabavam ficando muito na Mirada, mas com as políticas públicas sendo um pouco melhor estruturadas em âmbito nacional e até local, se teve um fruto muito grande agora nos últimos anos de filmes paranaenses.
Então temos uma safra de filmes muito bons, muito potentes, e que cabem em diversas mostras do festival, desde a Olhares Clássicos até a Mostra Competitiva. Mas o espaço da Mirada Paranaense sempre vai permanecer porque ele é intocável. Ele dá muito espaço também para jovens realizadores, principalmente os curtas-metragistas que tão começando, galera das faculdades aqui de Curitiba, das faculdades do interior, principalmente de Foz do Iguaçu.
Então, para nós também isso é legal, porque aí o pessoal vem para cá, com esse primeiro contato, tá no festival, tem o debate depois e que coloca eles de alguma forma para refletir sobre aquilo. Os coloca numa situação que é importante para o realizador iniciante, ter essa experiência. Tem os críticos que fazem cobertura, que falam sobre os curtas, e a gente acha sensacional quando isso acontece. É um processo de aprendizado.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, pensando de uma maneira mais geral no atual do cenário do cinema brasileiro, como você enxerga o papel do Olhar de Cinema e outros festivais para a visibilidade do nosso cinema?
Antonio Gonçalves Jr.: A gente tem hoje no cinema brasileiro uma produção muito grande, talvez nesses últimos anos estejamos vendo a maior de todos os tempos, muito por conta da [Lei] Paulo Gustavo. E tem muitos filmes que acabam passando em festivais e acabam nem conseguindo espaço comercialmente, porque temos poucas salas de cinema no Brasil, bastante concentradas em poucos polos. Então temos muitos filmes que são exibidos num festival e nunca mais são exibidos, sequer passam numa sala de cinema ou se passam é só por uma semana para cumprir tabela.
Então o festival tem uma importância, porque você também tem muitos filmes que são extremamente interessantes, extremamente ousados, inventivos e que não faz sentido esses filmes não existirem. Senão a gente vai ser sempre querendo uma mesmice né, se existir só o que passa na sala comercial a gente tá ferrado, porque 95% do que passa na sala comercial é Hollywood, para começar. Então aonde vai ficar a vanguarda, onde vai ficar a invenção, onde vai ficar a inovação de linguagem do cinema? Por isso que é extremamente importante o papel dos festivais de dar espaço para isso.
Com essa quantidade de filmes é impossível colocar todos eles na sala de cinema, assim, na estrutura que a gente tem hoje. Eu adoraria e eu acho que deveriam, mas sejamos realistas que não vai rolar. Então, acho que esse é um papel muito importante do festival de ser essa resistência, de ser esse espaço aberto para uma gama muito maior de filmes do que aquilo que a gente vai ter na sala na sala de cinema comercialmente e nos streamings.
Falando especificamente do Olhar de Cinema, para nós é muito importante também de alguma maneira ajudar esses filmes, porque a gente escolhe hoje filmes de realizadores que estão às vezes não no seu primeiro longa, mas no seu segundo, terceiro, quarto e que também têm essa dificuldade de entrar na sala de cinema, de ser visto. Então a gente tenta trazer uma visibilidade para esses filmes, e tentamos criar todo esse evento por trás. O nosso maior interesse também é isso, que os filmes, depois daqui, consigam ir para a sala de cinema, consigam ser exibidos no streaming, consigam ir para fora do Brasil. Então, a gente tenta sempre criar uma a melhor condição possível de exibição, de convidados, de equipes, para que esses filmes realmente saiam daqui fortalecidos.
Com isso em mente, também pensamos muito no entrecruzamento entre o cinema independente brasileiro e mundial, para que haja esse diálogo entre as diferentes linguagens, diferentes propostas cinematográficas em diferentes países, porque isso oxigena muito a cabeça. Se você pensar em juntar o filme lá do Curdistão que a gente trouxe com o filme da Argentina, com o filme brasileiro de Alagoas, isso dá uma mexida na cabeça. Enfim, são alguns pilares principais que a gente tem aqui.



















