Entrevista | “Sempre tivemos essa preocupação de se difundir a produção audiovisual baiana”: Esmon Primo fala sobre a 17ª edição da Mostra Cinema Conquista
- Vinicius Oliveira

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Coordenador da Mostra contou as origens do evento e discutiu seu papel no ecossistema audiovisual conquistense e baiano.

Créditos: Nagual Pardo
Ao longo dos anos, a Mostra Cinema Conquista se firmou como o principal evento cinematográfico de Vitória da Conquista-BA e um dos mais importantes do interior baiano. A sua 17ª edição, que será realizada entre 6 e 11 de setembro, contará com uma novidade: a realização da sua primeira Mostra Competitiva, que premiará o melhor longa-metragem e curta-metragem dentre os exibidos na Mostra.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Esmon Primo, um dos fundadores da Mostra e seu coordenador. Esmon contou sobre as origens da Mostra, ligadas ao cineclube Janela Indiscreta, a realização da primeira Mostra Competitiva e os planos para o futuro, bem como o papel do evento no panorama audiovisual de Vitória da Conquista e da Bahia. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A Mostra Cinema Conquista é uma das principais realizadas aqui na Bahia. Você poderia falar um pouco de como ela nasceu? Quando entrevistei Rafael Carvalho, curador da edição do ano passado, ele falou sobre o papel do cineclube Janela Indiscreta na realização da Mostra e de outras atividades audiovisuais aqui em Conquista, além dos desafios dela não ser realizada em alguns anos.
Esmon Primo: A Mostra vai realizar sua 17ª edição, mas na verdade seria a 23ª, porque ela nasceu em 2004. E ela nasceu como se fosse uma consequência de um monte de coisas audiovisuais que já vinham sendo feitas na cidade, principalmente na UESB [Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia], devido a um trabalho de um cineclube, o Janela Indiscreta, de onde eu e outras pessoas viemos. E a gente já vinha desde 1992 fazendo um trabalho de cineclubismo e que foi ampliando: não era só passar filme, tinha formação, se trazia cursos e oficinas, e aí começamos a fazer documentários, pequenos documentários. Aqui é a cidade onde nasceu Glauber Rocha, então também começamos a pegar essa questão de Glauber, e aí pensamos: “por que não fazer um festival?”.
E aí em 1995 – ou seja, três anos depois da criação do Janela – escrevemos essa ideia de festival e mandamos para o Ministério da Cultura tentando aplicar para a Lei Rouanet, que tinha sido criada só uns anos antes. Mas não tivemos os recursos captados, e creio que tem a ver com o fato de ser uma cidade do interior da Bahia pleiteando um festival numa época em que eram feitos bem poucos, muito diferente de hoje em dia, onde só na Bahia você tem uns 60.
Então em 2004 a gente começou a fazer a Mostra, e a primeira edição foi no Cine Madrigal [cinema de rua de Conquista, atualmente fechado], acho que foram mais de 20 filmes, entre curtas e longas-metragens. Mas já em 2005 não teve, por causa de todo o panorama político da época, e voltamos em 2006. Mas em 2007 o Madrigal já não conseguia ficar em pé, o gerente até falou pra gente que assim que a Mostra acabasse eles fechariam as portas. E nós já vamos para quase 20 anos desse espaço maravilhoso ainda fechado, por falta de interesse do poder público em resolver essa questão, que poderia ter sido resolvida há muito tempo.
Então a gente veio para o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, e, embora de um ponto de vista arquitetônico ele seja bem diferente de uma sala de cinema, é onde fazemos a Mostra desde então. Mas ela não se limita apenas ao Centro de Cultura: como a própria ideia dela veio da universidade, investimos também na parte de formação, no compromisso com o público em várias localidades. Então realizamos parte da Mostra nas dependências da UESB, bem como praças públicas e até nos distritos de Conquista.
Sobre a questão da Mostra não ter sido realizada em alguns anos, isso tem a ver com os desafios de fomento à cultura e eventos públicos gratuitos. Como a Mostra é um evento gratuito, precisa de recurso público para que seja feita, e esse recurso pode vir de várias maneiras, como se viu de uns anos para cá com a LPG [Lei Paulo Gustavo] e a PNAB [Política Nacional Aldir Blanc].
Posso dar um exemplo, que foi a Paulo Gustavo, ela teve um percentual do recurso dela destinado ao audiovisual, e dentro disso para difusão, o que inclui os festivais e as mostras. E aí submetemos a Mostra ao edital da LPG, mas ficou na lista de suplência e não foi aprovada. Então são vários caminhos que tentamos tomar para conseguirmos apoio para um evento como esse, mas precisa que as instâncias públicas se envolvam. Em particular o município, independentemente de qual a gestão no poder, precisa ter um olhar melhor para um financiamento mais contínuo do evento. Por isso que não conseguimos realizar seis edições.

Créditos: Nagual Pardo
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição deste ano conta pela primeira vez com uma Mostra Competitiva para longas e curtas-metragens. O que fez com que vocês decidissem que este era o momento para introduzir essa Mostra? Há outras novidades em vista, para esta edição ou para as próximas?
Esmon Primo: A gente veio esse tempo todo só fazendo uma mostra de cinema, com uma seleção de curtas e longas-metragens para o público assistir. Um festival também se porta assim, mas há a escolha prévia de uma curadoria que coloca aqueles filmes ali para concorrerem a uma premiação. Então ficamos presos por vários anos a essa definição de que numa mostra não haveria esse tipo de premiação. Mas no início do ano, participamos de alguns eventos em outros estados, vendo outras perspectivas para pensar apoios, e aí vimos que muitas vezes o pessoal não computa mostras que não sejam competitivas. Então a partir disso decidimos fazer uma mostra competitiva.
E ficou claro que era algo que já devíamos ter feito antes, nesse momento contamos com quase 500 filmes inscritos e as inscrições vão até dia 6. Logicamente, dessas inscrições você tira um percentual de 10% a 15% dos filmes, porque muita gente não se atenta direito ao regulamento [risos], mas de qualquer forma é um número grande. E desses só iremos exibir 16 longas e 26 curtas, porque só exibimos cada filme uma vez, e dentre os que irão competir serão cinco longas e 10 curtas. Até o dia 23/08 iremos divulgar os filmes selecionados.
Em relação ao formato de premiação, há vários a depender da mostra e do festival. Na Mostra de Cinema de Ouro Preto, por exemplo, eles só premiam o melhor filme, não tem melhor ator, melhor atriz ou outros prêmios. Como nós estamos iniciando e também por uma questão de recurso, só iremos premiar o melhor filme de longa-metragem e de curta-metragem, além dos de escolha do público, que serão votados por votação física. E nós queremos sondar a reação do público, saber se foi legal, e se a partir disso ampliamos o número de filmes na competitiva, além de outros prêmios como Melhor Ator ou Melhor Atriz.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tenho entrevistado alguns realizadores e realizadoras da Bahia nestes últimos anos, e muito se fala da questão da descentralização da produção audiovisual no estado, sair mais de Salvador e observar outros polos. Como você enxerga o lugar de Vitória da Conquista dentro deste panorama, e qual o papel que a Mostra assume para favorecer essa descentralização e trazer visibilidade a este ecossistema audiovisual no interior do estado?
Esmon Primo: Nos primeiros anos da Mostra a curadoria era feita por nós mesmos, da organização. Aí a partir de 2008, 2009, se aproximou uma figura maravilhosa, o João Sampaio, crítico e jornalista do A Tarde, e que embora morasse em Salvador era do interior daqui da Bahia. E ele tinha um vasto conhecimento do cinema mundial e nacional, mas principalmente do cinema baiano. Então ele se envolveu com a Mostra e se tornou o curador oficial por alguns anos, mas em 2014 morreu trabalhando no Cine PE.
A gente então teve que buscar rapidamente um novo curador, porque vimos a importância desse trabalho de curadoria nos festivais de cinema e de outras artes. E João havia me apresentado ao Marcelo Miranda, e aí Marcelo se tornou o curador da Mostra por quase 10 anos. Aí agora é Rafa [Rafael Carvalho], e nesse ano já são três curadores, contando com ele.
Digo tudo isso pra falar que desde o começo da Mostra, quando João era o curador, ele tinha esse olhar para a produção audiovisual baiana de todos os cantos do estado. Na primeira edição em 2004 tinha filmes de Conquista, e se você olhar nosso catálogo de lá para cá, que já tem mais de 700 filmes, vai se ter filmes feitos em Conquista. Então sempre tivemos essa preocupação.
E aí em 2010 veio o curso de Cinema e Audiovisual da UESB, e hoje tem-se uma vasta produção, porque as pessoas que se formaram nesse curso já fazem os seus roteiros, já criam as suas produtoras, já estão ganhando editais e de fomento, estão fazendo filmes, estão levando esses filmes para muitos festivais e estão tendo uma visibilidade. O ponto alto hoje do audiovisual em Conquista é a produção.
Atualmente aqui temos outras mostras além da Mostra Cinema Conquista. Temos a Mostra Curta 5, do pessoal do IFBA [Instituto Federal da Bahia], com as produções deles. Tem a REC Conquista, do pessoal da produtora Ato3, que também traz esses filmes do interior baiano. E tem o Poca Zói* - Festival de Cinema do Sudoeste Baiano, que eu acho um nome maravilhoso [risos].
Então a cidade tem essa parte da formação, tem a parte da memória – com o Programa de Pós-Graduação em Memória da UESB, com muita gente do audiovisual ali –, a difusão através dessas quatro mostras, e a produção. Acho que uma coisa que está pecando ainda é o espaço físico, ter uma sala de cinema para exibir essas produções. Tem-se o nome de Glauber Rocha atrelado à cidade, mas também temos uma sala fechada há quase 20 anos, e é uma coisa extremamente burra e cega não ver as possibilidades que surgem caso essa sala estivesse aberta, já daria um movimento a esse espaço.
*"Poca zói" é o nome de um biscoito caseiro comum do sudoeste baiano.



















