Entrevista | Vinícius Neri fala sobre 'Fúria', preparação física e os desafios da carreira
- Ávila Oliveira

- há 3 dias
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Ator protagoniza a nova série brasileira da Netflix, que chega ao catálogo nesta quarta-feira (29)

Às vésperas da estreia de Fúria, nova série brasileira da Netflix que chega ao catálogo em 29 de julho, o ator Vinícius Neri conversou com o Oxente Pipoca sobre os desafios de protagonizar a produção, sua trajetória na atuação e os próximos projetos da carreira.
Formado pela Escola de Arte Dramática da USP (EAD), o ator relembrou como descobriu a paixão pelo teatro ainda na adolescência, falou sobre o processo de preparação para viver um lutador de MMA e comentou também sua participação no longa Esta Noite Não Seremos Estranhos.
Confira a entrevista completa:
Ávila (Oxente Pipoca): Obrigado pelo seu tempo, Vinícius. Antes de falar sobre seus trabalhos mais recentes, eu queria voltar um pouco ao início da sua carreira. Você é formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP e eu sempre gosto de fazer essa pergunta para os atores. Quando você percebeu que queria seguir a carreira de ator, o que imaginava para o seu futuro? Você pensava mais em teatro, audiovisual ou simplesmente queria atuar? E como essas expectativas foram mudando ao longo da sua trajetória?
Vinícius Neri: Cara, eu descobri que queria ser ator aos 14 anos, fazendo uma peça de teatro na escola. Foi uma epifania. Eu nunca tinha pensado em ser ator. Minha mãe dizia que eu era muito exibido quando era criança, então essa vontade de ser visto talvez já estivesse ali, mas eu nunca tinha considerado essa profissão. Um dia, uma pessoa entrou na sala perguntando quem queria participar de uma peça. Eu levantei a mão sem grandes pretensões.
Quando subi ao palco para a apresentação, aconteceu aquele momento de encantamento. Pensei: "Meu Deus... acho que quero fazer isso pelo resto da minha vida". Foi quando o bichinho realmente me mordeu. Depois precisei esperar um pouco, porque ainda estava estudando e precisava trabalhar. Só quando terminei o ensino médio consegui começar a estudar teatro de verdade. Nesse período, eu pegava cenas de televisão e obrigava minhas amigas a interpretá-las comigo. Mas, curiosamente, não sei se eu era aquela pessoa que sonhava especificamente em ser ator de TV. Acho que isso costuma acontecer com muita gente porque é o primeiro contato que se tem com a atuação.
Quando comecei a estudar teatro de fato, primeiro em Santos, de onde eu sou, percebi que o que realmente me encantava era o ofício do ator. Lembro de pensar: "Eu vou fazer isso para o resto da minha vida, porque tudo o que um ator precisa desenvolver para exercer sua profissão já me interessa como pessoa". Sempre tive uma relação muito forte com autoconhecimento, espiritualidade e esse tipo de investigação. Então, mais do que querer estar em determinado lugar ou alcançar determinado status, o que sempre me fascinou foi o trabalho em si. Estar em uma sala de ensaio, fazer laboratório, experimentar diferentes sensações, descobrir possibilidades do meu corpo... isso sempre me encantou muito.
Inclusive, essa relação com o corpo acabou sendo fundamental agora em Fúria, que é uma série extremamente física. Na minha formação, principalmente quando fui para São Paulo estudar na EAD, tudo era muito voltado para o corpo. Até as aulas de interpretação passavam muito pela expressão corporal.
Tive aulas de dança, expressão corporal e também conheci uma técnica chamada Body-Mind Centering (BMC), uma prática somática que foi muito importante na minha formação. Acho que essa aptidão para a expressão corporal acabou sendo uma grande aliada em Fúria, porque, de certa forma, eu precisei me transformar em um lutador praticamente da noite para o dia.
Ávila (Oxente Pipoca): Ainda falando sobre a sua carreira, você já fez teatro, televisão e cinema. Imagino que esteja vivendo um momento em que muitos projetos interessantes estejam surgindo. Existe alguma coisa que você ainda não fez e tem muita vontade de experimentar? Pode ser um gênero, como comédia, terror ou musical. Algum trabalho que realmente tiraria você da zona de conforto?
Vinícius Neri: Acho que a comédia. Tenho uma coisa curiosa: entre as pessoas próximas, com quem tenho intimidade e consigo relaxar, eu posso ser engraçado. Mas, se eu sei que preciso ser engraçado, acabou. (risos) Então, acho que esse seria o maior desafio para me tirar da zona de conforto. Admiro muito quem trabalha com humor. Acho incrível essa capacidade de fazer as pessoas refletirem enquanto riem. O humor é uma ferramenta muito poderosa porque, de certa forma, ele desarma as pessoas. Você fica sem defesa e, quando percebe, já está pensando sobre alguma questão importante.
Quando essa leveza se une a uma dramaturgia que tenha alguma função social, acho maravilhoso. Tenho muita vontade de estudar humor, fazer aulas de palhaçaria. Acho um universo muito interessante. Existe um nível de relaxamento que a comédia exige. Não dá para ficar tenso. É um exercício muito grande.
Ávila (Oxente Pipoca): Agora vamos falar de “Fúria", que estreia no próximo dia 29/07 na Netflix. Você interpreta um personagem que inicia a história tentando descobrir quem é. Ele sofre uma perda de memória e vai reconstruindo sua identidade ao longo da série, ao mesmo tempo em que o público também vai conhecendo esse homem. Como foi o processo de construir um personagem que praticamente precisa se redescobrir diante da câmera?
Vinícius Neri: Teve um livro que a Amanda Gabriel, uma das preparadoras da série, me deu de presente: Neófita, da Octavia Butler. A protagonista também perde a memória e, no início da história, ela vai caminhando e redescobrindo o mundo ao redor. Ela olha para uma árvore e, depois de um tempo observando, lembra que aquilo é uma árvore. Esse exercício foi muito importante para mim. Era como se eu precisasse olhar para tudo de novo. Estou aqui conversando com você, mas, para o personagem, aqueles olhos, aquele nariz, aquela pessoa... tudo precisava ser reconhecido outra vez.
No começo da série isso aparece de maneira mais evidente. Depois, à medida que ele vai recuperando parte da memória, essa percepção também muda. Ao mesmo tempo, ele não é uma pessoa que perdeu completamente a linguagem. Ele sabe falar, sabe ler, consegue se comunicar. O que desapareceu foi a memória da própria vida. Foi um desafio enorme entender exatamente em que lugar esse personagem estava. Outra coisa muito importante é que a principal memória dele é o próprio corpo.
Ele sente coisas que não consegue explicar. E isso tem tudo a ver com a história da série. Tenho que tomar muito cuidado para não dar spoiler. (risos) Então essa construção da identidade passava muito mais por uma sensação interna do que por algo verbal. O Marcelo é um personagem que fala pouco, principalmente no início da trama. Eu me apegava muito à sensação de existir um bicho dentro dele, alguma coisa que está tentando sair.
Ao mesmo tempo em que tudo é novo, tudo também desperta desconfiança. Ele recebe ajuda dessas pessoas que encontra pelo caminho e precisa aprender a confiar nelas. Conforme a história avança, ele cria uma conexão verdadeira com essas pessoas. Depois, quando o público assistir, vai entender que existe um motivo muito específico para essa identificação. Acho que foi mais ou menos esse o caminho da construção.
Ávila (Oxente Pipoca): Já que tocamos nesse assunto, preciso perguntar sobre a preparação física. O Marcelo é encontrado por um treinador de MMA, interpretado pelo brilhante Fábio Lago, e grande parte da história passa por esse universo das lutas. Você comentou que sua formação sempre teve um trabalho muito forte com o corpo. Queria saber como isso ajudou na preparação e também se você já tinha alguma familiaridade com artes marciais antes da série.
Vinícius Neri: Quase nenhuma. (risos) Fiz uma aula de Muay Thai quando tinha uns 15 anos e nunca mais voltei. Quando era criança, com quatro ou cinco anos, fiz Taekwondo durante um período bem curto. Então, na prática, eu não tinha referência nenhuma. Mas a série tinha uma estrutura impressionante.
Foi realmente um sonho participar de um projeto com esse nível de preparação. Tínhamos uma equipe enorme de profissionais. Antes mesmo de começar os treinos, fiz uma bateria completa de exames para saber se estava tudo certo. Descobriram uma tendinite no punho e eu fiquei desesperado. Pensei: "Pronto, vão me tirar da série." Mas consegui resolver rapidamente com fisioterapia e, uma semana depois, já estava treinando normalmente.
Na semana seguinte aos exames comecei uma rotina de três treinos por dia. Durante nove meses vivi literalmente como um atleta. Era dieta rigorosa, fisioterapia, acompanhamento com endocrinologista, suplementação... tudo muito controlado. Tomava cerca de vinte comprimidos de suplementos por dia, sempre com acompanhamento médico. Foi um desafio enorme.
Ter essa relação com o corpo construída ao longo da minha formação ajudou muito. Na série, a luta não era simplesmente sair brigando. Existia uma coreografia extremamente precisa. Claro que, às vezes, fazíamos um sparring mais livre, mas tudo era muito controlado porque eu não podia me machucar. Na verdade, essa era a melhor parte. (risos) Eu podia bater em todo mundo, mas ninguém podia bater em mim, porque, se eu me machucasse, a série inteira parava. Então eu estava vivendo o sonho. (risos) Muitas vezes treinávamos com lutadores profissionais. Eles diziam: "Pode bater de verdade." E eu respondia: "Se você está pedindo..." Mas foi um processo muito intenso. A luta tem uma espécie de dança própria.
Quando eu ficava alguns dias sem treinar, sentia que perdia um pouco dessa memória corporal. Os movimentos, as fintas, a postura... tudo isso precisava parecer natural. O maior risco era o público olhar e pensar: "Está quase convencendo, mas ainda parece um ator fingindo lutar." Eu não queria que isso acontecesse. Então treinava também em casa para manter o corpo sempre preparado. Além das aulas de luta, fiz balé durante a preparação para desenvolver equilíbrio, força e elasticidade. Também ensaiávamos toda a coreografia das lutas.
Foi uma preparação muito completa. A produção realmente está de parabéns porque toda essa parte física foi planejada com muito cuidado. E isso fez toda a diferença no resultado.

Ávila (Oxente Pipoca): Agora eu queria mudar um pouco de assunto e falar sobre “Esta Noite Não Seremos Estranhos". Se não me engano, esse é o seu primeiro longa-metragem, certo? Ou você já havia feito outro antes?
Vinícius Neri: De longa, esse foi o primeiro, sim.
Ávila (Oxente Pipoca): Ele nasceu a partir do curta “Fotos Privadas”, que conta também com o Lucas Galvão, meu conterrâneo. Queria que você falasse um pouco sobre o filme e sobre a sua participação nessa produção.
Vinícius Neri: Isso, esse filme é um desdobramento de Fotos Privadas.
Inicialmente, Fotos Privadas era um episódio piloto de uma série. Depois acabou se transformando em um curta-metragem, que teve uma trajetória muito bonita. Circulou pelo Brasil e por outros países, conquistou vários prêmios e foi muito bem recebido. Durante muito tempo ficamos naquela expectativa de que a série realmente acontecesse. Gravamos o curta em 2019, ele estreou em 2020 e passaram cerca de seis anos até que o projeto voltasse como longa-metragem.
Nesse período, a gente brincava até com o medo de envelhecer e perder os personagens. (risos) No fim, a série não saiu, mas nasceu o filme. E ele chegou justamente quando eu já estava me preparando para Fúria. Conciliar os dois projetos foi um desafio enorme. Como eu era protagonista de Fúria, minha rotina de preparação física ocupava praticamente o dia inteiro. Eram muitas horas de treino todos os dias.
Mesmo assim, fiz muita questão de participar desse filme. É um projeto muito especial para mim, porque foi meu primeiro trabalho no cinema e também o primeiro teste para cinema que passei na carreira. Além disso, foi um encontro completamente profissional.
Eu não conhecia o Marcelo Grabowsky. Foi simplesmente um diretor que viu meu teste, gostou do meu trabalho e me escolheu para o projeto. Isso sempre teve um significado muito importante para mim. Hoje o Marcelo faz parte da minha vida. É uma pessoa que eu amo muito e por quem tenho um carinho enorme. Então fazia muito sentido estar presente também nessa nova etapa da história.
Claro que o roteiro passou por algumas mudanças. Preciso tomar cuidado para não revelar muita coisa, mas houve adaptações importantes em relação ao curta. O personagem que eu interpretava originalmente já não existe da mesma forma, porque o roteiro tomou outro caminho.
No longa, eu interpreto o Guto. Ele chega ao Rio de Janeiro enquanto o namorado está fora do país e os dois vivem um relacionamento aberto. Ao longo da história, ele vai descobrindo mais sobre si mesmo a partir dos encontros que tem por meio de aplicativos. Eu interpreto um dos homens que ele conhece nesses encontros. Os dois acabam desenvolvendo uma relação ao longo da narrativa.
Mas estou com um certo receio de falar demais. (risos)
Ávila (Oxente Pipoca): Fica tranquilo. Acho que você já conseguiu dar uma boa ideia do que o público pode esperar. Eu gosto muito de Fotos Privadas. Acho um curta extremamente sensível e muito bonito. Além disso, existe um clima de suspense que me agrada bastante. É um trabalho realmente muito interessante.
Vinícius Neri: Que bom ouvir isso.
Ávila (Oxente Pipoca): Vinícius, queria agradecer mais uma vez pela disponibilidade. Foi muito bom conhecer um pouco mais da sua trajetória e conversar sobre os projetos que estão chegando.
Vinícius Neri: Muito obrigado, de verdade. Foi um prazer conversar com vocês. Espero que todo mundo goste de Fúria e também dos próximos trabalhos que estão chegando. Muito obrigado pelo espaço e pelo carinho.



















