Entrevista | “Sergipe é o nosso centro”: sócios da Floriô de Cinema falam sobre os 10 anos da produtora
- Vinicius Oliveira

- há 7 horas
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Carolen Meneses, Neto Astério, Sidjonathas Araújo e Thaís Ramos refletiram sobre o papel da Floriô no audiovisual sergipano e os planos para o futuro.

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O ano de 2026 marca o 10º aniversário da Floriô de Cinema, produtora e distribuidora audiovisual sergipana nascida dentro do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e uma das mais importantes e relevantes no atual cenário do estado. Atualmente composta por Carolen Meneses, Neto Astério, Sidjonathas Araújo e Thaís Ramos, a Floriô já conta com mais de 10 curtas-metragens em seu portfólio e acumula passagens e prêmios em mostras, festivais e laboratórios como o Festival de Gramado, Mostra de Tiradentes, LAB Negras Narrativas, NordesteLAB, PanLAB, Chicago Latino Film Festival, Melbourne Queer Film Festival, Festival Guarnicê, Festival de Caruaru, entre outros.
Atualmente a Floriô prepara-se para o lançamento do seu primeiro longa-metragem, Abya Yala, dirigido por Carolen, dentre outras futuras produções, além de focar também em distribuição e formação, através de iniciativas como o Pólen das Artes e o CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe. Com isso, a produtora reafirma seu compromisso com um cinema feito a partir dos territórios, das identidades e das histórias do Nordeste, contribuindo para fortalecer a cadeia audiovisual em Sergipe e ampliar a presença de narrativas historicamente pouco representadas no cinema brasileiro.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Carolen, Neto, Sidjonathas e Thaís. O quarteto falou sobre os primórdios da Floriô e o papel do ensino superior na sua formação, o panorama da descentralização da produção cinematográfica no Brasil para além do eixo Rio-São Paulo e os projetos futuros da produtora. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Primeiramente gostaria de dizer que é um prazer conversar com vocês. Sempre fico muito feliz de conversar com a galera de Sergipe, não apenas porque me formei na UFS, mas também pelo Oxente Pipoca ser, antes de tudo, um veículo sergipano.
A Floriô nasceu em 2016, dentro do espaço da universidade pública, num momento em que a gente viu a difusão de mais cursos de Cinema e Audiovisual pelo país. Em que medida vocês creditam a existência do curso de Cinema da UFS e a própria universidade como fatores responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento da Floriô?
Carolen Meneses: Nós nos juntamos no curso de Cinema e Audiovisual – que na época ainda era “Comunicação Social com Habilitação em Cinema e Audiovisual” – com essa necessidade de fomentar o audiovisual no estado. A gente já funcionava fazendo trabalhos em disciplinas, então entendemos que precisávamos de um grupo mais sólido para conseguir realizar outros trabalhos. E a gente vem também de um momento em que a universidade estava efervescente com os movimentos estudantis. Eu, Thaís e os outros membros da primeira formação vínhamos do DACS, o diretório acadêmico do curso, e a gente já organizava encontros, pautava coisas relacionadas a discussões sociais, realizava atividades na pracinha do Rosa Elze [bairro localizado em frente à UFS]. Então de alguma maneira a gente viu a oportunidade de ir por esse caminho.
Eu te confesso que na época nem entendia direito o que era uma produtora audiovisual, o que ela fazia, qual era a burocracia, enfim, a gente vai entendendo isso no decorrer do percurso. Mas a gente veio desse lugar dos movimentos estudantis e também desse desejo de construir algo mais sólido profissionalmente para que a gente conseguisse trabalhar. Eu acho que tem um pouco disso, sobreviver de audiovisual, mas a gente também entende que naquele tempo era muito difícil, em 2016 a gente passou por um momento muito turbulento, com a ocupação da universidade.
Então, realmente nascemos nesse período de escassez total, tanto que as nossas produções são com recursos zero, ou do próprio bolso, ou vendendo coisas a universidade – acho que a nossa primeira reunião foi até ali no Resun [restaurante universitário]. Então, surgimos com esse desejo realmente de florescer dentro da universidade; por isso que vem o nome Floriô.
Thaís Ramos: Se não tivesse o curso de Audiovisual, não teria Floriô. A gente ainda pegou uma fase do curso que nem se compara a hoje em dia, ele ainda estava se estruturando e faltavam muitas coisas. A gente percebia que as oportunidades que se tinha de trabalho eram muito escassas e não eram nada voltadas para o cinema, eram mais voltadas para coisas relacionadas de fato à comunicação: assessoria, trabalho com social media e tal. Então tínhamos aquela vontade de ter um selo, de ter esse trabalho, sem saber muito bem de onde a gente tiraria recursos para fazer essas produções. Mas 2016 foi o ano do golpe, o começo do governo Temer, então foi uma época de terra arrasada e sem perspectiva, tanto que as primeiras produções foram completamente sem verba.
A primeira produção foi meu TCC, com verba própria, e também teve apoio da universidade para equipamento, mas não eram muitos. A gente pegava nossos equipamentos, ou emprestados de amigos, enfim. Quando saí da universidade a Floriô já estava fundada, e seguíamos nessa vontade, mas ainda sem verbas públicas. Só mais pra frente, com a pandemia e as políticas públicas como a Lei Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, é que isso mudou.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos enfoques de vocês reside justamente em fazer um cinema descentralizado. Imagino que de 2016 para cá tenham havido muitas conquistas nesse sentido, mas também ainda haja muitos desafios a serem superados. Como vocês avaliam as mudanças nesse cenário ao longo desses dez anos, não apenas para Sergipe, mas para o Nordeste e outras regiões do país fora do eixo Rio-São Paulo? E puxando a fala de Thaís, em que medida as políticas públicas de fomento e descentralização audiovisual têm atuado sobre a produção da Floriô?
Neto Astério: Aqui é o nosso centro, Sergipe é o meu centro. Mesmo sendo baiano, quando eu vim estudar não foi na perspectiva de que viria e voltaria, até porque não havia um lugar confortável que me satisfazia para voltar. Então eu vim na intenção de construir e muito me frustrou nesse processo, quando eu percebia que infelizmente poucas pessoas têm fé de construir em Sergipe. Acho que é um desestímulo contínuo. Produzir no Nordeste é um caso específico dentro do Brasil, mas produzir em Sergipe dentro do Nordeste consegue ser ainda mais desestimulante do que o cenário do Nordeste como um todo, isso pensando as próprias políticas públicas. A gente não tem uma lei de incentivo estadual, a gente não tem um fomento cultural estadual.
E muito nos interessa realmente esse lugar, esse chão, esse sotaque e as histórias que têm aqui e particularmente vinculadas às culturas populares, que para mim são a maior riqueza daqui. Acho que Sergipe não entende a dimensão da riqueza da sua cultura popular, que é diferenciada totalmente, muito rica, que ressignifica o trauma. E a gente não tem isso cristalizado em imagem. São tantos símbolos comuns à nós como nordestinos, e a gente labuta de tentar lembrar filmes que conseguiram imprimir isso.
Eu sinto que definitivamente a Floriô é resultado das políticas públicas a partir da descentralização de recurso que vem junto à pandemia. Só foi a partir mesmo da Lei Aldir Blanc, e posteriormente da Paulo Gustavo, que se possibilitou que a gente tivesse perspectivas. Mas na época a gente não tinha esse entendimento, até porque a universidade não despertava condições práticas de sobrevivência dentro de um terceiro setor, dentro de um cinema, dentro de um dito mercado audiovisual. Então eu sinto que se não houvesse aquele momento e esse tipo de incentivo, a gente ficaria tirando muito do próprio bolso, mas chegaria um momento em que isso ficaria inviável.
A gente saiu do ambiente de ensino e queria uma marca, um selo, entendendo que se a gente se individualizasse seria desestimulado com muito mais facilidade. Com nós quatro o desestímulo vem, mas é mais difícil da gente ficar estagnada, porque uma puxa a outra, uma chega com outra perspectiva. É uma outra opinião, uma outra visão, outra forma de lidar ali com o que se apresenta. Então, isso nos estimulou uma fusão, uma energia que fica ali girando, girando, e uma empurrando a outra, uma movimentando a outra. Os caminhos que se apresentaram, como Floriô, são caminhos de autonomia, no sentido que a gente tem poder de decisão, incentiva e estimula os objetivos das empresas vocacionadas. A gente não quer perpetuar violência de mercado, não quer perpetuar violências em imagens.

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Sidjonathas Araújo: Quando eu cheguei à UFS não sabia o que era descentralização, estava um tanto alheio a essa discussão. Mas na minha cabeça, por estar em Sergipe, mais especificamente entre São Cristóvão e Aracaju, para mim já era de grande valia, porque eu venho do interior da Bahia, de uma comunidade rural, onde eu não tinha acesso a salas de cinema, à produção de cinema, a uma discussão continuada em cinema. Então já era uma abertura gigantesca de oportunidades por causa da universidade.
Aí a gente foi caminhando por esse lugar, e algumas portas se abriram para mim, mas ao mesmo tempo fui percebendo uma super limitação. O cinema que a gente construiu aqui em Sergipe é um cinema que de alguma forma não existia. Porque se a gente parte do pressuposto de que os maiores investimentos, de que as produções estão acontecendo em grandes centros urbanos, em outros lugares, a gente a gente está falando inaugurar, de certa forma, um tipo de cinema. Então, eu acho que isso é importante pra gente, perceber esse lugar da escassez também como um local de afirmação e de potência: “esse é o cinema que a gente vai fazer, com esse modo, com esses sotaques, com essas pessoas, a partir dessa dessas estratégias muito específicas”, que é muito a estratégia da escassez.
Entre 2019 e 2020, eu coordenei no interior da Bahia um festival de cinema, que aconteceu em Conceição do Coité. E eu estava na minha região, mas como uma figura forasteira, e as pessoas me indagavam sobre como era produzir em Aracaju, em Sergipe, e lá a escassez era maior ainda. Mas a gente ia trocando ideia sobre esses contextos e percebendo que era tudo muito parecido, na verdade. Então eu comecei a perceber que, na verdade, aquilo que eu estava pensando que era uma abertura de muros, na real era muito semelhante com outros interiores, com outras regiões que a gente chama de descentralizadas.
Aí veio Imã de Geladeira em 2021, estreou em 2022, que foi quando eu e a Floriô conseguimos uma circulação maior pelo Brasil. E a gente começou a conhecer outros contextos, outras realidades, conhecemos pessoas do Rio, de São Paulo, do Sudeste, e essas pessoas já tinham uma rede de contato muito maior. Você encontrava com as pessoas e elas estavam nesse festival hoje, mas dali já iriam para um outro festival, iam encontrar com outra pessoa, e nos próprios festivais as pessoas se conheciam e você percebia. A gente percebia que existia uma relação que já vinha sendo construída ali, e de alguma forma a gente chegava meio que como forasteiros.
Ter nosso filme selecionado para Gramado foi gigantesco em termos de visibilidade, mas chegar ali e perceber que a engrenagem gigantesca tá funcionando e que tem as pessoas já estão participando daquilo também mostra a dificuldade de acessar esses espaços, de se sentir pertencido a esses espaços, de conseguir criar redes sólidas. Então acho que é um pouco dessa mão dupla, da gente perceber isso e afirmar isso, a potência desse cinema que a gente de alguma forma inaugura, e a medida de todas essas dificuldades de inserção, contato, visibilidade e financiamento aqui em Sergipe.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Além de “Abya Yala”, que já carrega esse marco de ser o primeiro longa-metragem de vocês, o que vem aí pela frente para a Floriô? Quais as próximas produções, projetos e passos?
Carolen Meneses: A gente tem uma série de projetos que estão em desenvolvimento: Neto e Thaís têm longas-metragens, Sid tem uma série de desenvolvimento. Então, a gente tem uma gama de projetos que estão nesse processo de estudar, de inscrever em laboratórios, de levar para rodada de negócios, então a gente está de alguma maneira já deixando no forno mesmo esses projetos.
Para além disso, a gente tem o Pólen das Artes, que é um projeto de formação, e a gente também quer fazer disso um novo caminho para a Floriô. A gente está tentando outras leis de fomento, e pensamos também em abrir uma ONG para conseguir deixar essas ações mais continuadas. É um processo muito burocrático, então estamos também está nessa fase de entender quais são os caminhos para conseguir dar esse passo. Mas pro futuro é isso, a gente tem uma série de projetos que estão nesse processo de amadurecer conhecimento, de serem inscritos em laboratórios.
Para a gente foi muito importante passar por um laboratório, o Lab Negras Narrativas, que participamos com o Imã de Geladeira e onde tivemos um processo de formação bem intensivo. Foi um processo longo, mas que nos ajudou também a abrir os nossos horizontes para essa perspectiva de cinema a nível nacional. E isso foi muito importante, agora a gente entende que os nossos projetos também têm uma vida antes de serem filmados, e a gente precisa percorrer esse caminho antes deles serem filmados. Então, a gente está basicamente nesse processo agora com os nossos filmes, tato com Abya Yala, que está participando de laboratório e de consultoria, tanto com os outros também que estão agora nesse processo embrionário.
Sidjonathas Araújo: Temos dois curtas-metragens que estão bem no forno. A gente filmou no ano passado Coágulos, que é um filme dirigido por Thaís, e Corpus-Água, que foi dirigido por mim. Eles estão em processo de pós-produção já avançados e a ideia é que a gente os estreie no primeiro semestre de 2027. Estamos aí torcendo, jogando para o mundo. Então temos essa leva de curtas para sair e, como Carolen falou, a ideia é continuar com o Pólen das Artes, que é esse ambiente de formação. A gente conseguiu fazer um primeiro ciclo, que eu acho que foram oito ações ao longo de 8 meses, quando trabalhamos com oficinas de atuação para cinema, oficinas de produção, de distribuição, de sustentabilidade, pensando na sustentabilidade no audiovisual.
E a ideia é que a gente, agora também com o espaço físico da nossa sede, consiga movimentar a Floriô e o cinema sergipano para além da produção de filmes. Que a gente fazer desse lugar um ambiente que fomenta a cultura de um modo geral, onde haja encontro, troca; aquilo que a gente está falando de se ter redes de contato sólidas em locais fora do Nordeste, a ideia é que a gente vá solidificando essa rede aqui em Sergipe também. Pessoas que não têm acesso à universidade conseguiriam acessar gratuitamente ambientes de formação pela Floriô, e assim a gente vá solidificando projetos, fazendo networking, para que se haja uma tentativa de contribuição mesmo, de expansão do cinema para além da produção de filmes aqui em Sergipe.
A gente tem também o CRIAS, que é um evento de exibições infantis, já fizemos três edições e a ideia é que continuemos. É um evento itinerante, então já teve duas edições em São Cristóvão e uma em Laranjeiras. A ideia é que a gente vá expandindo cada vez mais pelos interiores do estado, para que a gente seja muito nesse lugar de expansão mesmo. Porque ainda é, de certo modo, escasso: as iniciativas de cinema e audiovisual aqui em Sergipe ainda se concentram muito na região metropolitana, na capital e nesses municípios vizinhos.
Então a ideia é que a gente vá expandindo isso como uma forma de levar cinema, levar cultura para outras pessoas que, infelizmente, não têm acesso, já que temos um número baixíssimo de salas de cinema e a maioria dessas salas está nos shoppings. Então significa a gente oferecer um outro tipo de cinema para as pessoas, que valoriza a nossa identidade sergipana, que valorize um cinema realizado aqui por pessoas sergipanas.
Thaís Ramos: Eu acho que para além disso também tem um ponto que a gente está iniciando, que é a perspectiva de continuar a distribuição de filmes também. A Floriô, além de uma produtora, é também uma distribuidora, e temos centrado mais em distribuição de curta-metragem, que basicamente ainda é boa parte da produção de cinema independente de forma geral, ainda mais em Sergipe. Então é um desejo e uma vontade que a gente tem muito, Sid tem essa ligação muito forte com a distribuição. A gente também quer tentar fomentar de outras formas essa questão da distribuição, porque todos aqui temos essa compreensão de que não adianta estar produzindo filmes se ninguém vê. Estamos num momento legal em que a gente está conseguindo produzir, mas precisamos que essas produções sejam vistas.



















