top of page
Background.png

Crítica | Jardim dos Silêncios (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 1 hora
3 min de leitura

Filme transita (e por vezes oscila) entre o naturalismo e a sensorialidade conforme explora ancestralidade, reconciliação e mortalidade.

Divulgação


Nos primeiros minutos de Jardim dos Silêncios, me peguei pensando em como curiosamente ele nutria certas semelhanças com Ana, En Passant, outro filme visto nesta Mostra: uma pessoa negra (lá uma mulher; aqui um homem), descendente de brasileiros e que cresceu na Europa (lá, na França; aqui na Itália), volta ao Brasil (lá, para Belo Horizonte; aqui, para Ilhéus) para se reconectar com suas raízes. Mas as semelhanças param por aí, pois a intenção do diretor Henrique Dantas é explorar essa reconexão pela chave da ancestralidade, enquanto pincela elementos de um passado traumático para esta família.


Assim, vemos o médico oncologista Tuã (Fabrício Boliveira) que, após toda uma vida construída na Itália, retorna para a fazenda dos avós (Helena Ignez e Luiz Pepeu) após a morte da mãe. Enquanto o laço com a avó segue calcado no afeto – e na dor da iminente partida dela, diagnosticada com câncer –, a relação com o avô é mais tensa e distante, tanto pela dureza do homem quanto pela possibilidade de que este teve envolvimento no desaparecimento do seu pai durante a ditadura e a fuga de sua mãe para a Itália. Em ambos os casos, essas relações vão sendo gradativamente transformadas pelo contato que Tuã passa a ter com sua própria ancestralidade, à medida que se insere nos costumes do candomblé, praticado por sua avó até que esta foi cerceada pelo marido.


Divulgação


Se de início Jardim dos Silêncios parece operar num registro mais naturalista, enfatizando o drama familiar que cerca a família, aos poucos o longa investe em um lado mais sensorial que vai ganhando força conforme o candomblé ganha espaço dentro da vida de Tuã e, por extensão, da própria narrativa. O trabalho sonoro do filme, capturando os elementos da natureza que cerca a propriedade – seja os resquícios de Mata Atlântica, seja o mar – se revela um dos seus aspectos mais distintos, especialmente para contrastar com o silêncio que advém das fraturas entre os personagens ou da ausência de uma trilha sonora em grande parte da produção.


Mas, embora o filme acumule seus acertos em cada uma dessas esferas (o naturalista e o sensorial), falta a ele um ímpeto ou coesão em conjugá-las em uma unidade. O trauma da ditadura parece um elemento deveras jogado, servindo no máximo para ser resolvido e, a partir disso, reaproximar avô e neto. O filme é muito mais bem-sucedido na construção de uma atmosfera regada à espiritualidade que existe ou emerge nos personagens, e é através disso que, por exemplo, a relação de Tuã com seu avô enfim se firma (numa última cena entre os dois personagens que seja talvez a melhor do filme).


Além disso, a direção de Dantas parece muito truncada no trabalho de atores, de forma que nomes talentosos como Boliveira e sobretudo Ignez (um dos grandes pilares do nosso cinema) demoram a encontrar uma certa sintonia que evidencie o afeto existente na relação dos dois personagens. Quem parece encontrar o seu tom logo cedo é Pepeu, que imprime um verniz de dureza e frieza ao seu personagem, mas vai sendo gradativamente desconstruído e transformado pela iminência da perda da mulher que ama e a reconexão com o neto que nunca teve a chance de conhecer.


Mesmo nessa oscilação tonal e no desequilíbrio de abordagens, Jardim dos Silêncios encontra méritos conforme liga seu protagonista à sua ancestralidade e, através disso, o faz se reconciliar com seu passado e seus entes queridos. Talvez houvesse um filme melhor caso abandonasse mais o naturalismo para se entregar à sensorialidade e à espiritualidade revelada através dela, mas o que há aqui tem seus bons momentos mesmo em meio a algumas perceptíveis irregularidades.


Nota: 3/5

LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page