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Crítica | Ana, En Passant (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 1 hora
3 min de leitura

Memória, espaço e afeto se entrecruzam em animação de traços híbridos.


Divulgação


Em Ana, En Passant, a diretora Fernanda Salgado busca de alguma forma materializar o conceito da “cartografia afetiva”, ou seja, a representação do espaço geográfico a partir da subjetividade, das memórias e das emoções da pessoa que o vivencia. Isso é evidente quando já nos primeiros minutos, entre uma profusão de técnicas de animação e imagens de arquivo, uma mãe ensina a filha a mapear o tempo e o espaço com o próprio corpo através da dança. Essa ênfase na fisicalidade e no movimento, junto com a relação afetiva com o mar, são alguns dos motes que norteiam a obra.


No filme, Ana (Jéssica Pierina) é uma jovem parisiense descendente de brasileiros, que foi criada pela avó Alice (Zezé Motta) até a morte desta. Seguindo os seus passos, Ana retorna a Belo Horizonte na tentativa de buscar respostas sobre o passado da família, mas se depara com Alice (Jéssica Pierina), residente do apartamento em que os avós moravam. Apesar do estranhamento inicial entre as duas, potencializado pela semelhança física (e o trabalho de voz de ambas feito pela mesma atriz) ou o fato de Alice ter o nome da avó de Ana, as duas mulheres não tardam a se conectar.


O laço entre as duas personagens nunca é devidamente rotulado – talvez seja filial, amoroso, mera amizade ou uma seja o duplo da outra, duas partes de um mesmo ser –, mas é justamente nessa falta de rótulos que Fernanda Salgado encontra a grande força do filme, construindo um vínculo e afeto entre ambas que lhes dá forças para cada uma lidar com suas questões: Ana às voltas com o passado de sua família e Alice com uma gravidez inesperada que lhe roubou momentaneamente sua maior paixão, a dança. A câmera de Salgado enfatiza planos longos centrados nas trocas e interações entre as duas, ao passo que mergulha (literal e figurativamente) em suas subjetividades.


Divulgação


Nesse sentido, o grande mérito do filme está justamente em como esse mergulho se dá através de um variado leque de técnicas de animação. A principal delas é a rotoscopia – o ato de filmar com atores em carne e osso e depois “cobri-los” com animação, como visto em filmes como Waking Life e O Homem Duplo, de Richard Linklater. A técnica pode ter suas limitações do ponto de vista da expressividade dos atores, mas aqui serve bem para adicionar uma camada lúdica e até meio mágica, especialmente, quando combinada a outras técnicas (como as colagens, pinturas e desenhos), faz com que BH seja “descortinada” aos olhos de Ana conforme esta passeia pela cidade, ao ponto de eventualmente até justificar a escolha por uma capital sem rios e praias para explorar o vínculo afetivo entre as personagens e o mar.


Talvez onde o filme se revele menos bem-resolvido seja nessa procura de Ana por pistas e respostas acerca dos familiares, mesmo que essas partes justifiquem a presença em cena de figuras tão emblemáticas do nosso cinema como Zezé Motta e Carlos Francisco, que sempre trazem frescor, calor e sabedoria ancestral consigo quando aparecem em tela. Há uma aparente construção de algum mistério ou segredo a ser desenterrado, mas o filme nunca parece tão interessado nisso como está na construção do laço de Ana e Alice – como evidenciado até na sua resolução um tanto conveniente. Se este bloco possui alguma força e sentido dentro do filme, é justamente quando serve para o fortalecimento dos laços entre as duas protagonistas.


Esse aparente desinteresse, porém, não mitiga a sensibilidade com a qual Ana, En Passant conduz esses entrecruzamentos entre as memórias e o espaço geográfico a partir destas cartografias afetivas. Onde muitas vezes o texto pode parecer um tanto insuficiente para trabalhar as subjetividades das suas protagonistas, o emprego de múltiplos recursos e técnicas de animação possibilita construir a conexão com estas subjetividades e acompanharmos a trajetória dessa(s) mulher(es) em meio às suas redescobertas e afetos.


Nota: 3.5/5

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