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Crítica | Sagrado (É Tudo Verdade 2026)

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 13 horas
  • 2 min de leitura

Em comunidade marcada por ocupação histórica, documentário revela estruturas que sustentam a educação pública.


Divulgação


Em 4 de agosto de 1989, mais de 300 famílias ocuparam uma área de aproximadamente 150 mil m² no bairro paulista Casa Grande, mais conhecido como ‘Buraco do Gazuza’. Essa ocupação antecipada do Movimento de Moradia causou um conflito direto com a prefeitura local, que pretendia declarar a região de utilidade pública para fins habitacionais e de lazer. A movimentação resultou na reintegração de posse, realizado por meio de uma forte intervenção policial - é desse motim que surge a protagonista do documentário de Aline Riff. 


Sagrado acompanha o dia a dia dos professores e colaboradores da Sagrado Coração de Jesus, uma escola pública localizada no Conjunto Habitacional Gazuza, em Diadema. Embora a instituição seja tratada como eixo central, a narrativa de Riff evidencia como a estrutura da comunidade local dita o ritmo do ambiente escolar. Entre a rotação geracional de alunos e projetos que conectam a vida no Gazuza com o processo de aprendizado e convivência escolar - que vão desde de reuniões de pais e mestres a desenhos infantis - a diretora aposta em momentos simbólicos eficazes para sugerir que as paredes do Sagrado são, na prática, homenagem concreta aos mais de 30 anos da ocupação. 


Como uma metáfora aparentemente despretensiosa, o momento que se destaca é a entrega de um espelho à um colaborador que, ao vociferar frases de impacto como “O novo êxodo tá acontecendo aqui” e “O povo vai ocupar a terra prometida”, reafirma o espaço escolar como reflexo direto da comunidade que o sustenta. 


Assumindo sua posição como um documentário, a montagem linear e acolhedora nos faz sentir como parte daquele cotidiano. A narrativa revela, com sensibilidade, processos como a dificuldade de alfabetização e os desafios da permanência no ambiente escolar, ao mesmo tempo em que aproxima os adultos e as crianças ao colocá-los em etapas de formação e descoberta. 


Apesar de preservar a imagem dos alunos, a sonoridade do documentário se torna um elemento fundamental na construção de suas presenças diante das circunstâncias impostas. Entre gritos eufóricos durante as atividades esportivas, ou murmurinhos desconfiados em sala de aula, o filme se apoia na parceria entre alunos e figuras de autoridade para firmar seu enredo. Mesmo onde os momentos de tensão potencializam fragilidades do ensino público - seja no âmbito acadêmico ou estrutural - a câmera opta por permanecer junto aos colaboradores, defendendo a legitimidade e humanização dos processos que sustentam o futuro do Gazuza. 


Por mais que a escolha por uma observação contínua faça com que o ritmo soe cansado ou repetitivo, essa insistência parece dialogar com a própria lógica do espaço, em que o aprendizado se constrói com tentativa, repetição e permanência. Mais do que registrar o cotidiano, o documentário também implanta no espectador uma empatia diante dos esforços da comunidade em transformar o Buraco do Gazuza em um lar em todos os sentidos. 


Mas acima de tudo, o filme se impõe como uma ode ao ensino público brasileiro na perspectiva de quem o fortalece - não como apenas uma instituição abstrata, mas como um testemunho de que, alí, educar também é um ato contínuo de ocupação, memória e futuro. 


Nota: 4,5/5 


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