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Resultados da busca por "crítica mostra 2026"

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  • Crítica | Um Zé Ninguém Contra Putin (Oscar 2026)

    O registro clandestino de um professor russo cria um documento histórico que não sabe o tamanho de si mesmo. Imagem: Divulgação “Acho que o que você fez terá um grande impacto”. Essa é uma das últimas frases de Um Zé Ninguém Contra Putin. Ela aparece em uma mensagem de voz enviada por um dos produtores a Pavel Talankin enquanto ele fugia da Rússia, após passar dois anos gravando secretamente uma denúncia explícita contra o país. Só que essas gravações não começaram clandestinamente – muito pelo contrário: eram, antes de tudo, resultado do trabalho cotidiano de Talankin, cujo apelido, Pasha, também lhe servia como uma espécie de persona alternativa. É com Pasha que começamos o filme. Professor querido e cinegrafista de eventos escolares, ele trabalha na mesma escola onde ele próprio estudou na infância, que também é o local de trabalho de sua mãe. Para ele, aquelas salas de aula e corredores não representam apenas um emprego, constituem o microcosmo de toda a sua vida. Ela está situada numa pequena cidade no interior da Rússia, conhecida por ostentar o título nada invejável de cidade mais poluída do mundo. A expectativa de vida média de seus moradores é de impressionantes 40 anos. Pasha, no entanto, parece não se deixar abalar por esse cenário, e genuinamente ama o que faz e o lugar onde trabalha. As diversidades que poderiam ser motivos de desânimo para muitos se tornam, para ele, uma missão. Ciente das dificuldades que seus alunos provavelmente enfrentarão na vida adulta, Pasha tenta oferecer leveza enquanto pode. Responsável pelas filmagens da escola, dedica-se a registrar momentos de alegria daquelas infâncias e adolescências. Oferece acolhimento em conversas informais pelos corredores ou recebendo grupos de alunos em sua pequena sala — um espaço decorado por ele próprio, que destoa tanto da arquitetura soviética desbotada dos prédios locais quanto da cinzenta névoa industrial que paira sobre a cidade. Ali, Pasha é feliz e faz seus alunks felizes. Até que esse microcosmo começa a ruir. Imagem: Divulgação A quilômetros dali, em seu gabinete em Moscou, Vladimir Putin declara guerra à Ucrânia e inicia uma ofensiva propagandística em toda Rússia. O patriotismo exacerbado e a demonização do “inimigo” tornam-se instrumentos centrais para convencer a população a apoiar o inaceitável. E, como frequentemente acontece em regimes autoritários, a doutrinação começa cedo. É então que o trabalho de Pasha muda de natureza. Suas filmagens deixam de ser simples registros das atividades escolares e passam a funcionar como documentação oficial que comprova a implementação das novas diretrizes governamentais para a educação. Pouco a pouco, ferramentas de doutrinação vão sendo incorporadas ao currículo: professores passam a repetir discursos padronizados; cerimônias patrióticas e marchas se tornam obrigatórias; aulas de instrução militar são introduzidas; crianças empunham armas que quase equivalem com sua própria altura. Cada novo absurdo parece normalizar o absurdo anterior. Nesse processo, Pasha começa a desaparecer – e dá lugar a Pavel Talankin. Talankin é um defensor do retorno da democracia na Rússia e um dos raros cidadãos de sua cidade a expressar oposição à guerra. Idealista, sempre depositou suas esperanças na juventude. As transformações que testemunha, no entanto, abalam profundamente essa crença. Seus pupilos entram em conflito: não sabem se acreditam nos professores que repetem o discurso oficial ou na dor concreta de perder amigos e familiares nos campos de batalha. Com medo de serem associados a um “traidor da pátria”, os alunos deixam de frequentar sua salinha. Frustrado, Talankin passa a gravar depoimentos próprios em casa. Ele envia essas gravações, junto com as imagens feitas na escola, para a Dinamarca, onde reside o cineasta David Borenstein, com quem viria a dividir a direção do documentário. Juntos, constroem a tese central do filme: mesmo em contextos de extrema impotência, é possível surgir a resistência. Talankin, porém, parece dividido entre a modéstia e o orgulho diante da própria coragem. Em alguns momentos, engrandece (com todo mérito) seus feitos; mas em outros, procura suavizá-los. Essa indecisão transparece na própria linguagem do filme. A narração, a trilha e as inserções de arte assumem um tom frequentemente descontraído, que funciona nos primeiros momentos, mas logo passa a destoar da seriedade da história que se desenrola. Há ali um certo maniqueísmo ingênuo e um didatismo por vezes simplificador que acabam reduzindo a complexidade das questões sugeridas pelas próprias imagens. Cabe ao espectador captar as camadas mais densas do que está em jogo — entre elas, talvez a mais reveladora seja a percepção de que a guerra se manifesta também nas esferas aparentemente mais banais da vida social. Ao alternar as imagens captadas por Talankin, que oferecem uma rara visão do cotidiano russo, com registros midiáticos sobre o conflito, Um Zé Ninguém Contra Putin constrói um contraste constante entre o macro e o micro. O resultado é a constatação de que até os espaços mais improváveis são atravessados pela guerra. A trincheira não está apenas na linha de frente dos campos de batalha – ela também atravessa a sala de aula do ensino infantil. O soldado que morre no combate é também o irmão do aluno que, no dia seguinte, já não consegue se concentrar para a próxima prova. O aluno que hoje aprende como usar uma granada pode ser o “herói” da pátria no futuro, ou pelo menos o cidadão que apoiará a continuidade da chacina. A coragem extraordinária dos diretores ao tornar públicas imagens que jamais deveriam deixar de ser confidenciais não encontra uma equivalência no engenho narrativo empregado para tratar essa história com toda a dimensão que ela merece. Isso compromete o ritmo e a densidade do longa enquanto obra artística — mas jamais enquanto documento histórico. Concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário e vencedor do BAFTA de Melhor Documentário, o filme inspira, choca, emociona e causa revolta. Como previsto antes do seu exílio, o que Pasha/Talankin fez, de fato, teve grande impacto. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Torniquete (Olhar de Cinema 2025)

    dispensa apresentações, construindo uma personagem endurecida e um tanto desiludida, mas Sali Cimi se mostra Inegavelmente, Torniquete mostra em Ana Catarina Lugarini uma promessa na direção, além de reforçar os

  • Crítica | Aurora (Olhar de Cinema 2025)

    Entre memórias, ancestralidade e deslocamento, João Vieira Torres dá materialidade aos fantasmas das mulheres de sua família em obra sensível e primorosa. Imagem: Divulgação “Saudade mata a gente”, canta Djavan, e para quem construiu sua vida longe da família, redefinindo suas noções de lar e de pertencimento, versos como esse batem profundamente após se ver um filme como Aurora. Admito que tenho um grande fraco por obras que falam sobre deslocamentos, sobre voltar às suas origens em um processo que é muito particular, mas que também dá conta de outras dimensões. Por isso, ver o equilíbrio delicado que João Vieira Torres consegue aqui – partindo desta dimensão singular para contar uma história que é tanto sua quanto de outros (ou melhor, de outras – é um dos grandes méritos que ele constrói com seu longa, gestada durante um período de 10 anos. Desde os primeiros minutos de Aurora, João se coloca como personagem da sua própria história, renegando quaisquer possibilidades de não-interferência que muitos (eu incluído) prezam em documentários. Se os minutos iniciais não exatamente engatam, assumindo até uma estética mais ficcional na textura da imagem, na representação do cotidiano de João com seus companheiros em Paris, ali desde o começo há uma camada fantasmagórica, quase de pesadelo, que faz jus àquilo que o diretor/protagonista toma como ponto de partida para a obra: um sonho com sua mãe que o instiga a procurar saber mais sobre sua falecida avó paterna, a qual dá nome ao filme e era conhecida pelo trabalho de parteira no sertão norte da Bahia. Mas Aurora, a personagem, é apenas o ponto inicial desse denso emaranhado (tanto material e histórico quanto também espiritual) que João vai desemaranhando à medida que a história dela o leva às histórias das muitas mulheres de sua(s) família(s), incluindo-se as vivas, mas com especial ênfase nas mortas. Se o seu sonho já o alertava de revelações sombrias que ele haveria de fazer, é notório o cuidado com o qual o filme constrói sua guinada em direção a essas revelações, gradativamente expondo as multiplicidades de experiências dessas mulheres nos contextos de sociedades tão patriarcais – seja se conformando à norma, seja se desviando dela e pagando o preço. Imagem: Divulgação Mas apesar do tópico extremamente difícil com o qual trabalha, João nunca busca pesar a mão para explorar as histórias de suas parentes, tampouco transformar em uma vitrine de si mesmo, ainda que sua própria existência – como um homem negro e gay que se viu precisando sair daquele ambiente para poder ser ele próprio – não deixe de dialogar com as histórias às quais vasculha. Ele confere materialidade a esses fantasmas que o assombram desde a infância, e por isso seu trabalho é também um trabalho de arquivo, de olhar os cantos inexplorados dos materiais para sua pesquisa (as fotos de funerais, tão características dos interiores nordestinos, são talvez a sua arma mais poderosa), de desafiar os discursos que foram construídos sobre estas mulheres para corporificar e dar voz a esses fantasmas mesmo décadas depois de terem partido. E em meio a isso, João faz de Aurora também uma obra sobre retornos. As cenas com seu pai no meio do sertão, onde este demonstra toda a sabedoria e conhecimento sertanejos; a conversa com a prima que não via há décadas e a compaixão que esta indica por ele; a diversidade religiosa e sincrética da sua família, sem olhares condenatórios, mas nem por isso menos reflexivos e provocadores; as fricções ainda existentes com sua mãe devido às relutâncias dela com sua sexualidade; e as lágrimas desta ao final quando escuta a música que traduz o oceano de saudade que a separa de seu filho: múltiplas expressões de afeto, de dores, de feridas, de singelezas que coabitam com brutalidades e que são transmitidos habilmente pela câmera sensível do diretor. Em determinado momento, João se pergunta: “por que os fantasmas de minha família são todas mulheres?”. Essa pergunta é fundamental para entender porque, mesmo que se coloque na obra e seja ele também parte da história que está contando, João promove um duplo deslocamento: o de retornar ao seu lar e também de se deslocar para o canto do quadro em boa parte de Aurora, exercendo um ato não apenas de olhar, mas de escutar. E cada vez que o filme vê e ouve as mulheres de sua família, mesmo as que não mais vivem, ele cresce abundantemente. Nota: 4.5/5

  • Crítica | Ariel (Olhar de Cinema 2025)

    Lois Patiño filma a matéria do sonho e usa a metanarrativa do universo de Shakespeare para discutir nossa própria existência. Imagem: Divulgação Seria um esforço hercúleo – e inútil – tentar rastrear todas as adaptações já feitas das obras de Shakespeare na história do cinema. Das adaptações seminais de Laurence Olivier, passando pelas reinterpretações de Akira Kurosawa até releituras contemporâneas e nos mais diversos gêneros (como a comédia romântica), o legado do dramaturgo inglês não é apenas atemporal, como transcende quaisquer barreiras físicas. É se aproveitando dessa universalidade que o diretor espanhol Lois Patiño resolve borrar as linhas entre realidade e ficção, Patiño faz a atriz Agustina Muñoz interpretar uma (suposta?) versão ficcional de si mesma, a qual viaja para a ilha portuguesa de Faial para participar de uma adaptação de A Tempestade, a última peça de Shakespeare, interpretando Ariel. No entanto, ao chegar lá, ela se vê num grande palco em que os habitantes da ilha se revelam mais do que atores encenando as peças shakespearianas, mas os próprios personagens destas obras. Existe uma forte carga onírica em Ariel desde seus minutos iniciais, que brincam com a possibilidade das portas da realidade se irromperem neste mundo de aparentes sonhos que regem a obra. Trata-se de um longa fortemente sensorial, que conduz essa carga onírica através do uso de cores (o púrpura que abre e fecha o filme) e também de sobreposições entre cenas, como na sequência da “tempestade” durante o percurso de Agustina até Faial. Essa carga sensorial também advém da própria ilha em si, cujas paisagens naturais e atmosfera – em especial no ato final, onde saímos em definitivo do seu espaço urbano – contribuem ainda mais para esse aspecto fantasioso e de sonho. Imagem: Divulgação Esse universo de estranhamentos vai se apresentando cada vez mais gradativamente até ser absorvido por Agustina – que ainda assim se mantém a única autoconsciente ali – e também por nós, espectadores. Há algo de divertido em ver os cidadãos comuns encenando peças como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta ou a própria A Tempestade, e essa leveza se mantém mesmo após o filme introduzir uma natureza mais densa das suas reflexões, discutindo se essas pessoas (ou personagens) estão vivos ou mortos, e se há alguma capacidade de se libertarem desses papéis que lhe foram impostos. Patiño não está interessado em oferecer respostas e, de fato, elas são irrelevantes depois de certo tempo. Isso pode afastar uma parcela do público, e há momentos em que a obra se ancora demais nessa realidade um tanto abstrata, mesmo quando oferece um fio narrativo através da jornada dos personagens para se “libertarem” de seu criador. No fim, Ariel parece mais interessado em discutir a condição de nossa existência e do nosso suposto livre-arbítrio: afinal de contas, somos mesmo livres para tomar as nossas decisões ou nossas vidas são regidas por Deus, destino, o que quer que seja? Ao escolher terminar num final ligeiramente ambíguo, o diretor prefere deixar a resposta conosco...ou nos textos de Shakespeare. Nota: 3.5/5

  • Crítica | Nimona

    Anunciada em 2015 pelo Blue Sky, estúdio responsável por Rio e A Era do Gelo, mas que foi fechado em 2021 Isso e muito mais é o que está nas telas e no texto afiado repleto de críticas sociais da animação, além poderosos podem manipular e distorcer o pensamento de uma sociedade, a quem são os verdadeiros vilões e monstros

  • Crítica | Imaculada

    religiosa Foto: Divulgação Imaculada transparece suas referências de forma bem clara ao mesmo tempo que se mostra Nun and the Devil (1973) explorando temas de repressão sexual ou religiosa, frequentemente fazendo críticas a Bebê de Rosemary que melhor exemplifica o ‘horror da gravidez’, momento em que Imaculada promove críticas

  • Crítica | NAZA

    Evito ao máximo recorrer ao uso de hipérboles em minhas críticas, por considerar que existe uma responsabilidade Mais importante, porém, é a consciência crítica que os leva, mesmo sendo ambos israelenses, a se posicionar sociais para ampliar a atenção internacional sobre o genocídio palestino… ou, espero eu, escrevendo uma crítica

  • Crítica | Nyad

    A personagem que dá nome ao filme fez das águas sua casa, como mostra na impressionante montagem inicial

  • Crítica | Exit 8 (TIFF 2025)

    Adaptação de videogame surpreende com experiência imersiva e tensa. Divulgação Depois de trabalhar oito horas em um escritório, caminhei até o metrô em direção a um cinema, observando meu reflexo nas portas do trem enquanto diferentes barulhos atravessavam o bloqueio sonoro dos meus fones. Após desbravar uma estação lotada e finalmente entrar na sala de exibição, estava pronto para mergulhar em um novo mundo. Para minha surpresa, porém, revi minha própria experiência refletida no protagonista do filme Exit 8. Baseado no jogo de mesmo nome, sucesso nas redes sociais, especialmente no mundo do speedrunning (desafio de completar o jogo no menor tempo possível), o filme parte da premissa de um jogador preso em corredores de uma estação de metrô, tentando escapar ao identificar anomalias no ambiente. A partir dessa ideia, cria-se uma narrativa original que brilha justamente nos momentos em que estamos dentro do corredor, praticamente “jogando” o filme ao lado dos protagonistas enquanto buscamos as anomalias. Quem conhece o jogo sabe que ele explora o terror através de jumpscares. Por isso, eu esperava uma sessão cheia de sustos e gritos. Para minha surpresa, o filme se afasta do terror e mergulha no thriller, apostando na tensão de estar preso em um ambiente claustrofóbico enquanto o mundo continua a correr lá fora. Divulgação O aspecto mais impressionante da obra é sua estética: do design de produção, que recria com perfeição os corredores idênticos do jogo, ao trabalho de fotografia, que começa no ponto de vista do protagonista, recurso tão familiar aos videogames, até se expandir e nos permitir explorar os corredores de maneira mais ampla. Durante minha sessão, aconteceu algo curioso: os vinte minutos iniciais foram exibidos sem legendas por engano. Ao revê-los depois, percebi que talvez essa tenha sido, de fato, a melhor decisão possível para o filme. A história real é sobre um homem preso nos corredores de um metrô, e sempre que a trama tenta nos lembrar da vida dele fora desse espaço, o filme perde força. Nessas passagens, a tensão e o ritmo cuidadosamente construídos se dissipam, transformando uma adaptação de jogo, cujo objetivo é a agilidade, em uma experiência arrastada. Apesar desses momentos mais lentos, Exit 8 é uma adaptação de videogame sólida, que consegue criar uma experiência própria em vez de simplesmente repetir o que os jogadores já vivenciaram dezenas de vezes. Com um design de produção impressionante, boas atuações e uma trilha sonora que conduz o espectador, o longa consegue divertir tanto quem já conhece o jogo e seus virais no TikTok quanto quem nunca ouviu falar dele. Nota: 3.5/5

  • Crítica | O Estranho

    Ancestralidade e (não) pertencimento no maior aeroporto do país Foto: Divulgação Cunhado pelo etnólogo e antropólogo francês Marc Augé, o termo não-lugar se refere a espaços de transitoriedade onde os seres humanos permanecem anônimos e solitários. Como exemplo de não-lugares, pode se citar rodovias, quartos de hotel, shopping centers e aeroportos. Pense nas centenas, milhares de rostos que já viu nesses ambientes, rostos com os quais nunca vai formar uma espécie de conexão nesses momentos efêmeros. Mas e se esses não-lugares fossem (e ainda são) lugares para outras pessoas? É essa a provocação feita por Flora Dias e Juruna Mallon em O Estranho, que segue a vida de determinados personagens que vivem, trabalham e orbitam em torno do Aeroporto de Guarulhos, o maior do país. Desde os primeiros minutos do filme, Dias e Mallon já nos questionam: o que havia antes do aeroporto naquele espaço? Levando-nos a diversos passados (até mesmo antes da colonização portuguesa) nessa sequência inicial, eles nos mostram que aquela terra já pertenceu a alguém, no caso os povos indígenas. Há até a possibilidade de que o filme vá abordar os diferentes personagens mostrados em diferentes épocas, como se entrecruzando suas tramas, mas ele logo se centra na figura de Alê (Larissa Siqueira), funcionária do aeroporto e com uma ligação pessoal com o lugar. Transitando entre diferentes formatos (alguns bem-trabalhados, outros nem tanto), o longa segue uma estética semidocumental, onde os limites entre ficção e realidade são borrados até certo ponto à medida que acompanhamos a jornada dos personagens. Embora Alê seja a protagonista e aquela por meio do qual o filme exerce sua proposta de contrapor não-lugares à ancestralidade, também há espaço e inserções de outros personagens que gravitam ao seu redor, como sua namorada Silvia (Patricia Saravy), Antonia (Antonia Franco, ela própria funcionária do aeroporto) e outros. Foto: Divulgação Na mesma medida em que Dias e Mallon nunca se distanciam do aeroporto, também são capazes de mostrar como esse microcosmo é muito mais amplo e complexo do que guichês, plataformas de embarque e pistas de pouso. Prova disso é a belíssima sequência onde os personagens fazem uma trilha por uma reserva florestal, onde há inclusive uma conexão com uma das primeiras cenas na abertura do longa. Da mesma forma, a própria apresentação tradicional do aeroporto é subvertida, como na cena em que Alê e dois colegas dançam uma música de kuduro, música esta que gradualmente sai do plano diegético para o não-diegético, acompanhando-nos enquanto vemos as cenas habituais dos passageiros pelos saguões, numa intromissão que desafia as habituais percepções elitizadas de espaços como aeroportos. O ritmo lento, quase como um fluxo, com planos longos e estáticos, pode pedir um pouco de paciência do espectador, mas é bem-sucedido em nos forçar a desacelerar o ritmo esperado de um não-lugar. Menos bem-sucedida, talvez, é a mudança de tom e direção no terço final da obra, que assume de vez sua estética documental ao inserir relatos das pessoas indígenas que vivem na reserva próxima ao aeroporto. Essa inserção tardia parece tentar nos lembrar da proposta original do filme sobre quem de fato são os donos da terra (não só em Guarulhos, mas em todo o Brasil), mas a ligação superficial apresentada antes no decorrer do filme — em ocasionais lampejos do arco de Alê, mas sem o aprofundamento necessário — acaba tirando parte do impacto dessa reta final. Mesmo com a pungência de alguns relatos e a contínua exploração de outros formatos (como o voice over de Alê para a irmã há muito tempo perdida), fica a sensação de que o filme se alonga mais do que deveria. Mais eficaz em discutir a ocupação dos não-lugares e a força da memória como preservação e resistência, O Estranho acaba derrapando ao tentar trazer a ancestralidade para o primeiro plano, justamente por fazer isso num ponto já muito tardio da obra. Ainda assim, levanta discussões pertinentes que nos forçam a lembrar que essa terra, esse país, já era de alguém muito antes do primeiro português pisar os pés aqui. Sobre o solo que pisamos há história, sangue e civilizações inteiras, cujo legado precisa ser mantido e que o filme — mesmo que imperfeitamente — busca perpetuar. Nota: 3/5

  • Crítica | Wonka

    Prequel faz jus com história clássica mas cria sua própria narrativa encantada Foto: Divulgação “Todas as coisas boas deste mundo começaram com um sonho”. A frase, repetida várias vezes durante Wonka parece resumir bem, não só a trama do filme, mas também o sentimento do telespectador ao assisti-lo. Para você que não está acompanhando os lançamentos do cinema, o longa musical Wonka chegou aos cinemas na última quinta-feira sendo estabelecido como um prequel oficial do clássico de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Aqui, quando falamos de A Fantástica Fábrica de Chocolate nos referimos ao filme de 1971, adaptado do livro de 1964 do maravilhoso Roald Dahl (sim, por favor, esqueça a versão de 2005). Neste prequel, dirigido por Paul King e com Timothée Chalamet dando vida a um jovem Willy Wonka, acompanhamos o inesquecível personagem em busca de abrir a sua primeira loja de chocolates. Porém, ao tentar se inserir nesse mercado, Willy acaba precisando enfrentar uma organização criminosa chamada de “cartel do chocolate”, liderada pelos três produtores do doce na cidade. De fato, devo dizer que quando a produção do filme foi anunciada não senti muita empolgação e tive uma certa desconfiança do que poderia ser feito com uma obra tão consolidada. Afinal, Willy Wonka é um ícone da cultura pop reconhecido de jovens à idosos por meio das suas inúmeras representações. A minha desconfiança aumentou mais ainda, na época, com a escalação do Timothée Chalamet que não me parecia ser a escolha adequada, principalmente por ele ser colocado nessa caixinha de ‘novo galã hollywoodiano’. Ainda bem que eu estava muitíssimo errada. Foto: Divulgação Falando primeiro de Timothée, acho possível cravar que essa é sim sua melhor atuação até então. Desde os números musicais até as cenas mais dramáticas, ele consegue passar uma doçura e ingenuidade que compõem o personagem muito bem. Afinal, Willy está ali, em busca de um sonho, tentando sentir sua mãe já falecida cada vez mais perto por conta do chocolate. Mesmo sendo um personagem muito carismático e engraçado, toda carga emocional está bem forte no filme e ele consegue lidar bem demais com essa dualidade. Porém, Timothée não é o único ator que está muito bem no filme. A fofíssima e talentosa Calah Lane é um dos trunfos de Wonka como Noodle, se tornando uma dupla perfeita em cena com Timothée. Além dos dois, o longa conta com atores consolidados (e maravilhosos em cena) como Olivia Colman, Sally Hawkins, Keegan-Michael Key e Rowan Atkinson. Outro destaque do filme é, sem dúvidas, Hugh Grant como um Oompa-Loompa, entregando as cenas mais divertidas da projeção. Tecnicamente, Wonka é impecável. Sua fotografia consegue transmitir a magia de uma história tão maluca diante da realidade em que vivemos. Chocolates que fazem voar? Doces feitos com leite de girafa? Tudo parte de uma premissa completamente fantasiosa e ganha vida com cores e formas encantadoras. Bem dirigido e com um roteiro simples (mas muito eficaz para sua proposta), Wonka também acerta na trilha sonora e nos seus atos musicais, que são divertidos, animados e cativantes, tudo na medida certa. O saldo de assistir Wonka nos cinemas é mais do que positivo. Mais que todos os pontos já citados acima acerca da sua qualidade cinematográfica, o longa nos coloca em um lugar como telespectador que poucos filmes conseguem. Obviamente, Wonka não é o melhor filme do ano ou o mais bem executado. Mas, o encantamento e mundo mágico que ele nos leva a visitar é único. É quase como sonhar acordado. E, em um lugar onde todas as coisas boas do mundo começaram com um sonho, ver e imaginar esse universo quase parece um. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Living

    bastante sentimental, uma lição de moral essencialmente pessimista e com várias visões negativas e críticas E Living consegue mudar o tom e introduzir mais alívios cômicos mesmo mantendo todas as críticas e pontos A fotografia opera em uníssono com a direção de arte de Helen Scott que mostra uma Londres sisuda e imponente Living tem duas difíceis missões: a de mostra sentimento num mundo sem expressões e sem demonstrações

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