Resultados de busca
Buscar neste site
1398 resultados encontrados com uma busca vazia
- Crítica | The Dink – A Última Chance
Você já viu esse filme na Sessão da Tarde durante a infância. Que mal faz ver de novo? Divulgação Um adulto infantilizado luta para obter o reconhecimento daqueles à sua volta e por isso se engaja em um grande desafio para provar seu valor e salvar tudo aquilo que mais ama. Parece a descrição de uma daquelas comédias dos anos 90 que passavam aos montes na Sessão da Tarde – em especial filmes de Adam Sandler como Billy Madison – Um Herdeiro Trapalhão ou Um Maluco no Golfe, ou Pesos Pesados –, mas é basicamente a premissa de The Dink – A Última Chance. Na trama, o ex-campeão juvenil de tênis Dusty Boyd (Jake Johnson) amarga seus dias trabalhando no clube gerenciado por seu severo pai Chuck (Ed Harris), que tenta fazer de tudo para impedir a expansão do pickleball como esporte no clube. Na tentativa de orgulhar o pai, Dusty acaba se ferindo, o que o faz se aproximar justamente dos praticantes de pickleball, incluindo a recém-divorciada Candace (Mary Steenburgen), com quem forma um laço. Mas quanto mais se encontra no pickleball, mais ele se vê em conflito entre fazer o que realmente gosta e obter a aprovação do pai que vem buscando a vida toda. Conta muito a favor de The Dink que ele consiga vender o ridículo da sua premissa com seriedade. Não que ele se leve a sério (longe disso), mas cenas em que Chuck exibe slides alertando sobre o avanço inclemente do pickleball como se fosse uma nova pandemia são hilárias justamente porque mostra um filme que acredita na história que está contando. Há resquícios de uma certa autoconsciência aqui e ali, e o humor num geral não deixa de soar mais “podado” do que as comédias de Adam Sandler que citei acima, o que se vê é um filme que tenta resgatar essa vertente do gênero, mas com certas atualizações (inclusive nas referências mais contemporâneas, como a envolvendo Taylor Swift). Divulgação Isso se estende à atuação de Johnson como o protagonista. Especializado em dar vida a essas figuras infantilizadas e histriônicas, mas de bom coração, o ator encontra em Dusty o veículo perfeito para canalizar essas características, mas sem necessariamente soar ofensivo. E é nas suas interações com Candace – e, portanto, na química de Johnson e Steenburgen – que o filme encontra não apenas sobrevida, mas também um diferencial, visto o quão raro é parear uma atriz mais velha com um ator mais novo no cinema mainstream. Até diria que há uma chance perdida de oferecer um romance raro de se ver em Hollywood, mas a relação dos dois personagens se revela a alma do filme e permite que ele saia um pouco do lugar-comum no qual se acomoda durante a sua maior parte. O restante do elenco cumpre bem seu papel, com destaque para Ed Harris no seu típico papel turrão e Aaron Chen como o leal e bitolado assistente de Dusty – além de uma participação especial de Ben Stiller que, além de servir de produtor do filme, conecta ainda mais o filme a obras como Billy Madison e Pesos Pesados, no qual atuou. The Dink – A Última Chance não reinventa a roda, não é uma das melhores comédias do ano ou da década e tampouco o filme mais importante de tênis (ou pickleball) desde Rivais. E nem precisa ser. Mesmo que nem todas as suas piadas funcionem, ele é um bom lembrete de como certos lugares-comuns da comédia podem ser reaproveitados e trazidos para os novos tempos, numa embalagem nova, mas com um sabor conhecido. É o típico filme que poderíamos ver num dia qualquer na Sessão da Tarde quando éramos mais novos, e isso está longe de ser um demérito. Nota: 3/5
- Crítica | Os Ruminantes
Documentário busca lançar luz sobre a união de dois dos maiores nomes da história do cinema brasileiro num filme (infelizmente) jamais feito. Divulgação A história do cinema está repleta de filmes sonhados por grandes realizadores que nunca chegaram a ganhar vida pelos mais diversos motivos, como o Duna de Alejandro Jodorowsky, It’s All True de Orson Welles (que seria gravado no Brasil) ou Watchmen de Terry Gilliam. No Brasil, um dos casos mais emblemáticos é a primeira versão de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, ainda que das cinzas deste tenha nascido um dos melhores documentários da história do nosso cinema. Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, é um olhar sobre uma dessas obras jamais realizadas, neste caso A Hora dos Ruminantes, que seria dirigido por Luiz Sergio Person e corroteirizado por este e Jean-Claude Bernadet. Contando com entrevistas com Bernadet (numa de suas últimas aparições antes de sua morte no ano passado), Marina Person (filha de Luiz Sergio) e Sebastião Souza, o documentário disseca as aproximações entre os dois homens nos anos 60 após o sucesso do filme mais famoso de Person, São Paulo Sociedade Anônima, o trabalho conjunto de ambos em O Caso dos Irmãos Naves, o começo auspicioso da produção de A Hora dos Ruminantes – baseado no romance homônimo de José J. Veiga –, o fracasso em gravar o filme dentro do contexto da ditadura militar e os impactos desse fracasso sobre a carreira posterior de Person, prematuramente encerrada com sua morte num acidente de carro aos 39 anos. Em certa medida, o processo conturbado e bruscamente interrompido de A Hora dos Ruminantes é apenas parte de uma reflexão que o filme traz a respeito da própria figura de Person, evidenciando sua distância teórico-ideológica dos cineastas do Cinema Novo, fator este que o aproximou de Bernadet. Alguns dos melhores momentos do filme vêm de anedotas compartilhadas pelos entrevistados, como o momento em que é contado sobre a breve incursão de Person no mercado publicitário e sua decisão de sair deste mercado da maneira mais hilária possível. Mas não deixa de haver um certo sabor agridoce pela presença dos dois em tela – Person em imagens de arquivo dos anos 60 e 70, Bernadet pelas câmeras de Araújo e Mello –, e é inevitável lamentar a perda de dois dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro, ainda que quase 50 anos separem suas mortes. Divulgação Justamente por isso, é de se imaginar que A Hora dos Ruminantes tinha tudo para ser um dos maiores filmes do nosso cinema, talvez até no nível de São Paulo Sociedade Anônima e O Caso dos Irmãos Naves. O que resta, entretanto, são as conjecturas, já que ao contrário da primeira versão de Cabra Marcado Para Morrer, este aqui sequer teve suas filmagens iniciadas, e talvez nisso resida o maior desafio de Os Ruminantes. Imagens de arquivo, como de outros filmes, e a voz em off de Tarsila Araújo ajudam a trazer um pouco à vida do roteiro concebido por Bernadet e Person e da sua proposta ousada e ambiciosa, mas o documentário constantemente luta contra a sua própria limitação de dar materialidade a este filme jamais feito. Os melhores momentos relacionados a ele vêm de reflexões sobre seu impacto e posteridade, como as guinadas que Person deu em sua carreira dirigindo filmes “menos brilhantes”, ou a tentativa de outro diretor de adaptar o romance e que deu tão errado que fez com que o roteiro tivesse a pecha de “filme maldito”, ao ponto de Marina ser alertada por ninguém menos que Carlos Reichenbach para não gravar o roteiro do pai. Mas quando o documentário se centra no texto original em si, ou na possibilidade de que a mão da censura e da ditadura militar tenha intervindo na sua realização, ficam mais evidentes suas fragilidades. Além disso, a estrutura protocolar, fundamentando-se principalmente nas entrevistas (com algumas intervenções na imagem e na trilha nos momentos de “leitura” do roteiro e outros documentos), fazem com que ele permaneça preso a um certo lugar-comum da feitura de documentários. Ao final, Os Ruminantes nos relembra de como homens como Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernadet fazem falta para o cinema brasileiro, seja para pensá-lo teoricamente ou para realizá-lo. Entre suas limitações e fissuras, ele também nos consegue apontar maneiras de enxergar o quão emblemático A Hora dos Ruminantes teria sido se chegasse a ver a luz do dia, mas ele próprio não chega a tanto. Nota: 3/5
- Entrevista | “É um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida”: Anne Pinheiro Guimarães e Théo Medon falam sobre “Pequenas Criaturas”
Diretora e ator do longa, que estreia nos cinemas em 23 de julho, falam sobre a ambientação na Brasília dos anos 80 e as diferentes perspectivas geracionais na forma de vivenciar o mundo. Divulgação Após conquistar o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Ficção na Premiere Brasil, principal mostra competitiva do Festival do Rio 2025, o novo filme de Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas, estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros. Ambientada na capital federal dos anos 80, a trama apresenta Helena, protagonista vivida por Carolina Dickmmann, e os seus filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello). Logo após a mudança, o patriarca da família, vivido por Michel Melamed, embarca em uma viagem de negócios e deixa a esposa e filhos diante do desafio de encontrar seu lugar em uma cidade completamente nova. Enquanto Helena tenta conciliar a responsabilidade de reconstruir a vida da família em uma Brasília futurista com a busca por um novo sentido para si mesma, os filhos atravessam diferentes fases do amadurecimento: André vive os conflitos da adolescência, enquanto Dudu desbrava a cidade com o olhar explorador da infância. Leia a crítica aqui. Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora Anne Pinheiro Guimarães e o ator Théo Medon falaram um pouco sobre a representação de Brasília em 1986 - em espaço distante do aspecto político que a acompanha - como a mudança para uma nova cidade desperta transformações íntimas em diferentes gerações, além de destacar o processo de construção dos personagens e a sensibilidade que atravessa a narrativa. Confira a entrevista completa abaixo: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Anne, o filme acompanha uma mudança de cidade sob o olhar de diferentes membros da família. Como foi que surgiu essa ideia de explorar esse momento de transição com perspectivas tão distintas? Anne Pinheiro Guimarães: Olha, a resposta são duas. Eu comecei a pensar nessa história quando eu tive a minha primeira filha. Quando me tornei mãe, eu já tinha perdido a minha mãe. O filme é uma despedida dela. Comecei a pensar na maternidade de uma forma diferente. Comecei a pensar nela como mulher. Eu sempre pensei na minha mãe como a mãe, com esse olhar. Comecei a pensar na infância, tendo a minha filha ali. Antes de ter filha, a gente não pensa em criança. Comecei a pensar nas minhas memórias de infância. Eu nasci e morei em Brasília. Nasci lá, fui embora, voltei. Depois que eu escrevi o roteiro, me dei conta que eu voltei com a idade do Dudu e fui embora com a idade do André. É um pedaço da vida que é muito marcante sobre quem nos tornamos depois. Tudo que acontece nesse intervalo é muito marcante de quem a gente se torna. A coisa do chegar e ir embora... Eu sou filha de diplomata. Tive que chegar nos lugares e ir embora muito na vida. É um negócio muito difícil de fazer. Chegar é muito difícil, ir embora também é difícil. E chegar em Brasília, que é uma cidade muito única, muito diferente, muito difícil de você entender. Ali não tem calçada, não tem onde encontrar as pessoas. Tem uns códigos muito distintos. Como é que foi isso para a minha mãe? Meu pai viajava muito, enfim. É uma resposta prolixa e complexa, mas é isso. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Embora seja um drama familiar, o filme também aborda diferentes fases da vida. A infância, a adolescência, a vida adulta ali um pouco. Como foi equilibrar essas experiências sem que uma sobreponha a outra? Anne Pinheiro Guimarães: Olha, eu pensei muito... Pequenas Criaturas, de certa forma, é também bastante um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida. Claro que a gente amadurece muito quando a gente sai da pequena infância para a infância mesmo, que é o personagem do Dudu. A gente começa a ver o mundo como ele é. Ele tem um amigo imaginário, por exemplo, então ele vai deixando para trás a infância dele. O André é o adolescente, onde ele vai aprendendo. Na verdade, ele começa a sacar a mãe dele. Ele começa a entender que tem alguma coisa a mais acontecendo. Ali na laje tem uma conversa onde ele fala: “Eu queria mesmo era saber o que está acontecendo de verdade”. Porque ele começa a entender que as relações, os sentimentos, as pessoas e tudo que está acontecendo em volta dele é muito mais complexo do que ele achava até então. Então, isso é um amadurecimento de olhar. Fora as outras coisas que ele também vai aprendendo. E para a Helena é um amadurecimento na meia-idade mesmo. É um despertar do feminino que pode acontecer um pouco antes, um pouco depois. Pode também nunca acontecer, mas é uma coisa muito feminina onde ela toma essa rasteira no começo do filme. Ela começa a se dar conta, como ela fala, que ela meio que fez as coisas sem querer até então. A maternidade é um rolo compressor também. Você tem que dar conta de tanta coisa. Você tem que parar de querer as coisas só para você. Você passa a dar conta das coisas e ali ela acorda para isso. E é um amadurecimento para ela também. Não é um filme sobre traição, sobre uma separação. É sobre, na verdade, o despertar dela como mulher para o desejo dela. E não é um desejo sensual, erótico. É o desejo do que eu quero, o que eu vou escolher. Ela diz que está fazendo tudo sem querer. É sobre as escolhas. Isso é uma questão bem feminina. Então, sim, amadurecimento em três fases. Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Theo, o André está vivendo esse momento de grandes mudanças. Uma nova cidade, novas relações, o primeiro amor. Como foi o processo de preparação para interpretar um adolescente vivendo ali nos anos 80? Teve alguma pesquisa sobre essa época? Algumas conversas com a Anne para construir esse universo? Théo Medon: Foram muitas [preparações] para me familiarizar com o mundo, com videocassetes e com classificados e mobiletes. Tiveram muitas trocas de ideias com a própria equipe. Muitos deles viveram a vida, a adolescência nos anos 80. Então foi uma coisa que eu conversei muito. Eu acho que durante esse período de quase 50 dias que a gente passou gravando em Brasília, foi um período de total imersão no André, em todo esse mundo, mas também pela questão da forma de interpretação dele. Como é um tom muito bem definido de todo o elenco, essa interpretação no silêncio, essa pouca extravagância da expressividade, acho que é um tipo de interpretação que pede uma imersão de verdade no personagem, porque é uma coisa muito difícil de fazer. Expressar aquilo que você está sentindo, o que você está pensando, sem dizer. Então, acho que requereu um grande processo de mergulhar na cabeça do André e realmente sentir tudo aquilo. Por isso eu até falo que, durante aquele tempo, eu fui mais André do que fui Théo. E eu acho que isso me ajudou bastante, além, claro, do acompanhamento, da ajuda de todos os conselhos da nossa grande preparadora, a Isabela Garcia, que foi um anjo nas nossas vidas, que é uma profissional incrível e um ser humano melhor ainda. Então acho que esse conjunto de fatores todo me ajudou a construir o André. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O André, além de tudo, ele é o irmão mais velho, né? Eu como irmã mais velha observei muito da minha relação com o meu irmão ali, aquela puxada de orelha principalmente. Então, uma das coisas que mais me apeguei no filme foi a relação entre os irmãos. Como foi construir a sua relação com o Lorenzo Mello? Théo Medon: Sou irmão mais velho também. Eu tenho uma irmãzinha que tem a exata diferença de idade do André e do Dudu. Só que é uma irmã, né? Isso é outra parada. Só que eu acho que tem coisas, cara, na nossa vida de ator, que você não tem como explicar. E o entrosamento entre eu e Lorenzo é uma coisa, sim, que eu acho que é inexplicável. Anne Pinheiro Guimarães: Eles se tornaram irmãos. E são até hoje. Théo Medon: É uma dessas coisas que você clica e acontece, sabe? A gente se conheceu antes nas preparações, com a Isabela e tal. E eu acho que foi uma coisa instantânea. Antes da gente se entender, enquanto André e Dudu irmãos, eu acho que aconteceu o Theo e o Lorenzo. E é a partir daí que a gente construiu essa relação de André e Dudu. Tanto que até hoje, dois anos depois das gravações, a gente continua com essa mesma relação. Encontro ele, ele vem, fica, pula em cima de mim. Fica falando de mim, fica me zoando. Fica implicando comigo. Porque tudo que vocês viram na tela foi extremamente genuíno. Era o que acontecia. Fora dela, a diferença é que ele estava de Dudu e eu de André. Então são essas coisas, esses cruzamentos que a gente não tem como explicar. É o tipo de coisa que acontece mesmo. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, Brasília costuma aparecer no cinema como um espaço político na maior parte do tempo. O filme propõe esse olhar mais do cotidiano sobre a cidade. Para você, Theo, e para você, Anne, como foi construída essa relação entre os personagens e esse cenário da cidade? Anne Pinheiro Guimarães: A cidade, para mim, é fundamental. Para contar essa história, para mim, eu não poderia ter feito em outro lugar. A aridez de Brasília, os espaços amplos de Brasília. Hoje em dia é muito diferente, mas a Brasília dos anos 80 era uma Brasília muito vazia, muito mais vazia do que qualquer outra grande cidade do tamanho dela, que já era uma cidade grande nos anos 80, mas uma sensação de vazios muito maior. Mas também, ao mesmo tempo, uma cidade muito bonita e muito imponente, com uma arquitetura muito, muito, muito peculiar. Mas é uma cidade sem calçada, é uma cidade onde a geografia da cidade pauta os relacionamentos. Então, Brasília é um personagem, é mais um protagonista da história. E, desculpa, só porque você falou em política...Brasília em 86, a grande parte da vida não é política. O que a gente conhece de Brasília é só aquilo que sai no Jornal Nacional. A grande parte da vida em Brasília é uma vida cotidiana, como em qualquer outro lugar, com todos os problemas normais da vida cotidiana. Théo Medon: Acho bonito como a forma que os personagens enxergam a cidade também fala um pouco sobre o filme. A gente chega muito oprimido, se sentido muito preso, muito intimidado por aquele colosso, e a partir do momento que a gente começa a criar laços e começa a criar essa construção de uma nova família, enxergamos as coisas de outra maneira. Começamos a enxergar a beleza naquela cidade, que acho que é a mesma coisa que acontece com os personagens. Começam muito oprimidos, muito para baixo, e a gente vê esse desabrochar e essa maneira de enxergar a vida de outro jeito. Então, acho que ela se conecta de uma forma muito bonita com a história dos personagens também.
- Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher
Filme acerta nas atuações e na caracterização, mas o roteiro simplifica um caso muito mais complexo. Imagem: Divulgação Depois de documentários, livros e incontáveis debates sobre o caso Elize Matsunaga, a Netflix aposta na ficção para revisitar uma das histórias criminais mais conhecidas do país. Lançado nesta quarta-feira (22), Elize: Sombras de Uma Mulher, dirigido por Felipe Vellas, acompanha uma tendência que ganhou força no audiovisual brasileiro após o sucesso de produções como A Menina que Matou os Pais/O Menino que Matou Meus Pais e Tremembé: transformar crimes reais em dramas de ficção. Com argumento e roteiro assinados por Raphael Montes, em parceria com Mariana Torres, o longa busca recontar uma história que já faz parte do imaginário popular brasileiro sob uma perspectiva mais dramática. O maior acerto do filme está justamente na reconstrução desse universo. A caracterização dos protagonistas é impressionante e, somada às atuações da dupla principal, produz momentos em que é fácil esquecer que se trata de uma dramatização. Lorena Comparato entrega uma interpretação segura de Elize, transitando com naturalidade entre os momentos de vulnerabilidade, tensão e frieza da personagem, sem recorrer a exageros. Ao lado de seu colega de cena, ela sustenta sequências em que a semelhança física e gestual com o casal real é tão precisa que, por instantes, parece que estamos assistindo às imagens do próprio caso. Nesse aspecto, Felipe Vellas conduz a produção com segurança, valorizando a recriação dos acontecimentos sem transformá-los em espetáculo. Sem entrar no mérito da culpa de Elize ou discutir a fidelidade dos acontecimentos retratados, o principal problema do filme está justamente na maneira como escolhe contar essa história. O roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres não consegue equilibrar a complexidade dos dois protagonistas e acaba reduzindo uma relação profundamente contraditória a uma dinâmica excessivamente binária. Imagem: Divulgação Marcus surge como um homem controlador, abusivo, violento e infiel. Um personagem que exercia poder sobre as mulheres ao seu redor, colecionava animais exóticos, caçava por esporte e fazia questão de esquartejar os próprios animais. Ao mesmo tempo, Elize não era apenas uma vítima observando tudo isso de fora: ela fez parte desse estilo de vida durante anos e, em certa medida, também o abraçou. São nuances importantes que o roteiro prefere não desenvolver. Essa simplificação também aparece na construção da própria Elize. O filme parece interessado em estabelecer com clareza quem ocupa o lugar do "bem" e quem representa o "mal", deixando pouco espaço para explorar as ambiguidades de uma personagem que desperta discussões justamente por fugir de respostas fáceis. Outro ponto que pesa contra a produção é a estrutura narrativa. As constantes idas e vindas na linha do tempo tornam a montagem confusa e quebram o ritmo da história. Em um caso amplamente conhecido pelo público brasileiro, essa fragmentação pouco acrescenta e, em vários momentos, apenas torna a experiência cansativa. Embora a direção de Felipe Vellas mantenha o filme visualmente envolvente, ela não consegue compensar as limitações de um roteiro que insiste em simplificar conflitos complexos. É evidente que, dentro do contexto brasileiro, Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime. Vivemos em um país onde mulheres continuam sendo assassinadas diariamente, e existe uma leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo ou de ser reduzida ao estereótipo da mulher "louca". O filme abraça essa interpretação de forma bastante explícita e não faz questão de esconder o lado que escolhe defender. Isso não significa que a produção deixe de funcionar. Pelo contrário: mesmo com um roteiro que simplifica um caso marcado por zonas cinzentas, Elize: Sombras de Uma Mulher entrega uma produção tecnicamente competente, sustentada por ótimas atuações, uma caracterização impressionante e uma direção segura de Felipe Vellas. Fica, porém, a sensação de que havia espaço para um olhar menos maniqueísta e mais interessado nas contradições de seus personagens. Para quem acompanha histórias de true crime, o filme oferece um entretenimento eficiente e certamente alimentará novas discussões sobre um dos casos criminais mais emblemáticos do Brasil. Mas, diante da riqueza e da complexidade desse caso, a impressão é que o filme escolhe respostas fáceis quando poderia fazer perguntas mais difíceis. Nota: 3/5
- Crítica | undertone
Com um design de som impecável, terror na HBO Max prova que o sobrenatural ainda pode assustar quando alguém resolve fazer o básico direito. Imagem: Divulgação Nos últimos anos, o terror sobrenatural parece ter entrado em uma espiral criativa preocupante. Casas mal-assombradas, entidades demoníacas, protagonistas traumatizados e uma coleção interminável de sustos previsíveis transformaram um dos gêneros mais populares do cinema em um festival de filmes esquecíveis. Felizmente, de vez em quando aparece uma produção que lembra que não é preciso reinventar a roda para prender a atenção do público. Basta entender como o medo funciona. É exatamente isso que undertone, disponível na HBO Max e entre os filmes em alta da plataforma, faz. A premissa é simples: uma podcaster passa a investigar um misterioso fenômeno sobrenatural por meio de gravações de áudio e, aos poucos, percebe que aquilo que parecia apenas mais um caso curioso pode estar muito mais próximo, e perigoso, do que imaginava. O grande trunfo do filme está justamente em transformar o som no verdadeiro protagonista da experiência. Parece óbvio para um longa que gira em torno de podcasts, mas nem sempre o cinema sabe explorar esse recurso com inteligência. Aqui, cada ruído, cada silêncio e cada distorção servem para criar uma sensação constante de desconforto. É um daqueles raros casos em que fechar os olhos durante uma cena talvez seja até pior do que continuar olhando para a tela. O design e o desenho de som são, sem exagero, os grandes responsáveis por fazer undertone funcionar. A direção também entende que o medo nem sempre depende de monstros ou efeitos visuais. Restrito praticamente a uma única locação, o filme utiliza enquadramentos sufocantes, movimentos de câmera discretos e a limitação do espaço para fazer o espectador se sentir preso junto com a protagonista. É um exercício de atmosfera que muitos filmes com orçamentos muito maiores simplesmente esquecem de fazer. Imagem: Divulgação Nem tudo funciona tão bem. A protagonista cai naquele arquétipo já desgastado do cético que insiste em encontrar explicações racionais para acontecimentos que claramente já passaram desse ponto. Em alguns momentos, sua postura deixa de construir tensão e passa a gerar impaciência. Ainda assim, a personagem cumpre um papel importante na estrutura narrativa, funcionando como contraponto para que o horror cresça gradualmente. Quem procura uma revolução dentro do terror sobrenatural talvez saia frustrado. undertone não apresenta grandes reviravoltas, não quebra paradigmas e nem pretende mudar os rumos do gênero. Mas talvez esse seja justamente seu maior acerto. Em vez de desperdiçar tempo tentando parecer inovador a qualquer custo, o filme prefere executar muito bem aquilo que tantos outros vêm fazendo de forma automática. No fim, undertone é uma prova de que o terror sobrenatural ainda tem muito a oferecer quando existe uma direção que entende o poder da atmosfera e, principalmente, do silêncio. Em uma época em que tantos filmes confundem volume com tensão e jumpscares com medo, encontrar uma produção que sabe construir desconforto antes de provocar o susto acaba sendo quase um alívio. Não é revolucionário, mas é competente o suficiente para lembrar que o gênero ainda consegue surpreender quando alguém resolve fazer o básico bem feito. Nota: 4/5
- Margeado, primeiro longa do diretor Diego Zon, estreia em salas de cinema de todo o Brasil
Produzido e distribuído pela De Repente o Rio, filme aborda a migração de um povoado diante do rompimento de uma barragem de lama tóxica. Imagem: Divulgação Após passar pela 28ª Mostra de Cinema Tiradentes, Margeado, primeiro longa-metragem do diretor Diego Zon e primeiro longa de ficção da produtora De Repente o Rio, tem sua estreia no circuito nacional marcada para o dia 30 de julho. Protagonizado por Danilo Andrade e com Antônio Pitanga, Verônica Gomes, Eliane Correia e Etien Khouri no elenco, o filme aborda as relações entre memória, pertencimento e transformação a partir da experiência de personagens marcados pela presença do rio e pelas mudanças na paisagem e na vida cotidiana. Assista ao trailer aqui. O filme ficará em cartaz de 30 de julho a 3 de agosto no Cine Walmir Almeida, em Aracaju, Sergipe; até 5 de agosto no Cine Jardins, em Vitória, Espírito Santo; no Cine Lume, em São Luís, Maranhão; e no Cine Arte Pajuçara, em Maceió, Alagoas; e até 12 de agosto no Ponto Cine, em Guadalupe, na cidade do Rio de Janeiro. No dia do lançamento, o diretor Diego Zon, a diretora de arte Djanira Bravo e as atrizes Verônica Gomes e Eliane Correia participam de uma sessão especial na Sala Armazém Multiverso, no Patrimônio da Penha – Caparaó capixaba, Espírito Santo. Nos dias 1º e 2 de agosto, o Cine Bijou da cidade de São Paulo oferece sessões do longa. De 11 a 14 de agosto, Margeado será exibido no cinema do Sesc Ver-o-Peso, em Belém, no Pará; e, de 20 a 27 de agosto, fica em cartaz em cinemas de diversas cidades do interior do Espírito Santo – Cine Ritz Sul, em Cachoeiro de Itapemirim; Cine Gama, em Colatina; Cine Ritz Conceição, em Linhares; Cine Ritz São Mateus, em São Mateus – e de Minas Gerais – Cine Ritz Cataguases, em Cataguases; Cine Ritz Molevade, em João Molevade; e Cine Ritz Mariana, em Mariana. “É uma satisfação que Margeado seja lançado em várias salas espalhadas pelo Brasil, inclusive nas cidades do interior, algumas delas margeadas pelo rio Doce, que é um dos protagonistas do filme. Que Margeado possa dialogar seus sentimentos com as pessoas dessas cidades, abrindo um espaço de reflexão sobre nós e os lugares onde vivemos, sobre a nossa capacidade de criar vínculos, nos relacionar e encontrar caminhos diante das circunstâncias que constantemente nos impõem recomeçar”, comenta o diretor. Rodado nas regiões norte e sul do Espírito Santo, a trama aborda a migração de um povoado diante do rompimento de uma barragem de lama tóxica. A história se situa em uma vila pesqueira acometida por um problema que impossibilita a manutenção de costumes construídos por várias gerações. Na continuidade, a narrativa se desloca do litoral para comunidades de regiões montanhosas do interior. A produção do filme foi realizada com recursos da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo, via Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), e do Fundo Setorial do Audiovisual/Ancine (FSA), por meio do coinvestimento Arranjos Regionais. A distribuição do filme conta com o apoio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, por meio do incentivo da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura – Governo Federal. Vitória (ES) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Jardins São Luís (MA) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Lume Aracaju (SE) | 30 de julho a 3 de agosto Cine Walmir Almeida (Cinema do Centro) Rio de Janeiro (RJ) | 30 de julho a 12 de agosto Ponto Cine (Guadalupe, Rio de Janeiro) Maceió (AL) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Arte Pajuçara Patrimônio da Penha (ES) | 30 de julho Sala Armazém Multiverso - A sessão contará com a participação do diretor Diego Zon, da diretora de arte Djanira Bravo e das atrizes Verônica Gomes e Eliane Correia. São Paulo (SP) 1 e 2 de agosto Cine Bijou Belém (PA) | 11 a 14 de agosto Sesc Ver-o-Peso Cachoeiro de Itapemirim (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz Sul Colatina (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Gama Linhares (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz Conceição São Mateus (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz São Mateus Cataguases (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Cataguases João Molevade (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Molevade Mariana (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Mariana
- Entrevista | “Sergipe é o nosso centro”: sócios da Floriô de Cinema falam sobre os 10 anos da produtora
Carolen Meneses, Neto Astério, Sidjonathas Araújo e Thaís Ramos refletiram sobre o papel da Floriô no audiovisual sergipano e os planos para o futuro. Divulgação O ano de 2026 marca o 10º aniversário da Floriô de Cinema, produtora e distribuidora audiovisual sergipana nascida dentro do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e uma das mais importantes e relevantes no atual cenário do estado. Atualmente composta por Carolen Meneses, Neto Astério, Sidjonathas Araújo e Thaís Ramos, a Floriô já conta com mais de 10 curtas-metragens em seu portfólio e acumula passagens e prêmios em mostras, festivais e laboratórios como o Festival de Gramado, Mostra de Tiradentes, LAB Negras Narrativas, NordesteLAB, PanLAB, Chicago Latino Film Festival, Melbourne Queer Film Festival, Festival Guarnicê, Festival de Caruaru, entre outros. Atualmente a Floriô prepara-se para o lançamento do seu primeiro longa-metragem, Abya Yala, dirigido por Carolen, dentre outras futuras produções, além de focar também em distribuição e formação, através de iniciativas como o Pólen das Artes e o CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe. Com isso, a produtora reafirma seu compromisso com um cinema feito a partir dos territórios, das identidades e das histórias do Nordeste, contribuindo para fortalecer a cadeia audiovisual em Sergipe e ampliar a presença de narrativas historicamente pouco representadas no cinema brasileiro. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Carolen, Neto, Sidjonathas e Thaís. O quarteto falou sobre os primórdios da Floriô e o papel do ensino superior na sua formação, o panorama da descentralização da produção cinematográfica no Brasil para além do eixo Rio-São Paulo e os projetos futuros da produtora. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Primeiramente gostaria de dizer que é um prazer conversar com vocês. Sempre fico muito feliz de conversar com a galera de Sergipe, não apenas porque me formei na UFS, mas também pelo Oxente Pipoca ser, antes de tudo, um veículo sergipano. A Floriô nasceu em 2016, dentro do espaço da universidade pública, num momento em que a gente viu a difusão de mais cursos de Cinema e Audiovisual pelo país. Em que medida vocês creditam a existência do curso de Cinema da UFS e a própria universidade como fatores responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento da Floriô? Carolen Meneses: Nós nos juntamos no curso de Cinema e Audiovisual – que na época ainda era “Comunicação Social com Habilitação em Cinema e Audiovisual” – com essa necessidade de fomentar o audiovisual no estado. A gente já funcionava fazendo trabalhos em disciplinas, então entendemos que precisávamos de um grupo mais sólido para conseguir realizar outros trabalhos. E a gente vem também de um momento em que a universidade estava efervescente com os movimentos estudantis. Eu, Thaís e os outros membros da primeira formação vínhamos do DACS, o diretório acadêmico do curso, e a gente já organizava encontros, pautava coisas relacionadas a discussões sociais, realizava atividades na pracinha do Rosa Elze [bairro localizado em frente à UFS]. Então de alguma maneira a gente viu a oportunidade de ir por esse caminho. Eu te confesso que na época nem entendia direito o que era uma produtora audiovisual, o que ela fazia, qual era a burocracia, enfim, a gente vai entendendo isso no decorrer do percurso. Mas a gente veio desse lugar dos movimentos estudantis e também desse desejo de construir algo mais sólido profissionalmente para que a gente conseguisse trabalhar. Eu acho que tem um pouco disso, sobreviver de audiovisual, mas a gente também entende que naquele tempo era muito difícil, em 2016 a gente passou por um momento muito turbulento, com a ocupação da universidade. Então, realmente nascemos nesse período de escassez total, tanto que as nossas produções são com recursos zero, ou do próprio bolso, ou vendendo coisas a universidade – acho que a nossa primeira reunião foi até ali no Resun [restaurante universitário]. Então, surgimos com esse desejo realmente de florescer dentro da universidade; por isso que vem o nome Floriô. Thaís Ramos: Se não tivesse o curso de Audiovisual, não teria Floriô. A gente ainda pegou uma fase do curso que nem se compara a hoje em dia, ele ainda estava se estruturando e faltavam muitas coisas. A gente percebia que as oportunidades que se tinha de trabalho eram muito escassas e não eram nada voltadas para o cinema, eram mais voltadas para coisas relacionadas de fato à comunicação: assessoria, trabalho com social media e tal. Então tínhamos aquela vontade de ter um selo, de ter esse trabalho, sem saber muito bem de onde a gente tiraria recursos para fazer essas produções. Mas 2016 foi o ano do golpe, o começo do governo Temer, então foi uma época de terra arrasada e sem perspectiva, tanto que as primeiras produções foram completamente sem verba. A primeira produção foi meu TCC, com verba própria, e também teve apoio da universidade para equipamento, mas não eram muitos. A gente pegava nossos equipamentos, ou emprestados de amigos, enfim. Quando saí da universidade a Floriô já estava fundada, e seguíamos nessa vontade, mas ainda sem verbas públicas. Só mais pra frente, com a pandemia e as políticas públicas como a Lei Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, é que isso mudou. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos enfoques de vocês reside justamente em fazer um cinema descentralizado. Imagino que de 2016 para cá tenham havido muitas conquistas nesse sentido, mas também ainda haja muitos desafios a serem superados. Como vocês avaliam as mudanças nesse cenário ao longo desses dez anos, não apenas para Sergipe, mas para o Nordeste e outras regiões do país fora do eixo Rio-São Paulo? E puxando a fala de Thaís, em que medida as políticas públicas de fomento e descentralização audiovisual têm atuado sobre a produção da Floriô? Neto Astério: Aqui é o nosso centro, Sergipe é o meu centro. Mesmo sendo baiano, quando eu vim estudar não foi na perspectiva de que viria e voltaria, até porque não havia um lugar confortável que me satisfazia para voltar. Então eu vim na intenção de construir e muito me frustrou nesse processo, quando eu percebia que infelizmente poucas pessoas têm fé de construir em Sergipe. Acho que é um desestímulo contínuo. Produzir no Nordeste é um caso específico dentro do Brasil, mas produzir em Sergipe dentro do Nordeste consegue ser ainda mais desestimulante do que o cenário do Nordeste como um todo, isso pensando as próprias políticas públicas. A gente não tem uma lei de incentivo estadual, a gente não tem um fomento cultural estadual. E muito nos interessa realmente esse lugar, esse chão, esse sotaque e as histórias que têm aqui e particularmente vinculadas às culturas populares, que para mim são a maior riqueza daqui. Acho que Sergipe não entende a dimensão da riqueza da sua cultura popular, que é diferenciada totalmente, muito rica, que ressignifica o trauma. E a gente não tem isso cristalizado em imagem. São tantos símbolos comuns à nós como nordestinos, e a gente labuta de tentar lembrar filmes que conseguiram imprimir isso. Eu sinto que definitivamente a Floriô é resultado das políticas públicas a partir da descentralização de recurso que vem junto à pandemia. Só foi a partir mesmo da Lei Aldir Blanc, e posteriormente da Paulo Gustavo, que se possibilitou que a gente tivesse perspectivas. Mas na época a gente não tinha esse entendimento, até porque a universidade não despertava condições práticas de sobrevivência dentro de um terceiro setor, dentro de um cinema, dentro de um dito mercado audiovisual. Então eu sinto que se não houvesse aquele momento e esse tipo de incentivo, a gente ficaria tirando muito do próprio bolso, mas chegaria um momento em que isso ficaria inviável. A gente saiu do ambiente de ensino e queria uma marca, um selo, entendendo que se a gente se individualizasse seria desestimulado com muito mais facilidade. Com nós quatro o desestímulo vem, mas é mais difícil da gente ficar estagnada, porque uma puxa a outra, uma chega com outra perspectiva. É uma outra opinião, uma outra visão, outra forma de lidar ali com o que se apresenta. Então, isso nos estimulou uma fusão, uma energia que fica ali girando, girando, e uma empurrando a outra, uma movimentando a outra. Os caminhos que se apresentaram, como Floriô, são caminhos de autonomia, no sentido que a gente tem poder de decisão, incentiva e estimula os objetivos das empresas vocacionadas. A gente não quer perpetuar violência de mercado, não quer perpetuar violências em imagens. Divulgação Sidjonathas Araújo: Quando eu cheguei à UFS não sabia o que era descentralização, estava um tanto alheio a essa discussão. Mas na minha cabeça, por estar em Sergipe, mais especificamente entre São Cristóvão e Aracaju, para mim já era de grande valia, porque eu venho do interior da Bahia, de uma comunidade rural, onde eu não tinha acesso a salas de cinema, à produção de cinema, a uma discussão continuada em cinema. Então já era uma abertura gigantesca de oportunidades por causa da universidade. Aí a gente foi caminhando por esse lugar, e algumas portas se abriram para mim, mas ao mesmo tempo fui percebendo uma super limitação. O cinema que a gente construiu aqui em Sergipe é um cinema que de alguma forma não existia. Porque se a gente parte do pressuposto de que os maiores investimentos, de que as produções estão acontecendo em grandes centros urbanos, em outros lugares, a gente a gente está falando inaugurar, de certa forma, um tipo de cinema. Então, eu acho que isso é importante pra gente, perceber esse lugar da escassez também como um local de afirmação e de potência: “esse é o cinema que a gente vai fazer, com esse modo, com esses sotaques, com essas pessoas, a partir dessa dessas estratégias muito específicas”, que é muito a estratégia da escassez. Entre 2019 e 2020, eu coordenei no interior da Bahia um festival de cinema, que aconteceu em Conceição do Coité. E eu estava na minha região, mas como uma figura forasteira, e as pessoas me indagavam sobre como era produzir em Aracaju, em Sergipe, e lá a escassez era maior ainda. Mas a gente ia trocando ideia sobre esses contextos e percebendo que era tudo muito parecido, na verdade. Então eu comecei a perceber que, na verdade, aquilo que eu estava pensando que era uma abertura de muros, na real era muito semelhante com outros interiores, com outras regiões que a gente chama de descentralizadas. Aí veio Imã de Geladeira em 2021, estreou em 2022, que foi quando eu e a Floriô conseguimos uma circulação maior pelo Brasil. E a gente começou a conhecer outros contextos, outras realidades, conhecemos pessoas do Rio, de São Paulo, do Sudeste, e essas pessoas já tinham uma rede de contato muito maior. Você encontrava com as pessoas e elas estavam nesse festival hoje, mas dali já iriam para um outro festival, iam encontrar com outra pessoa, e nos próprios festivais as pessoas se conheciam e você percebia. A gente percebia que existia uma relação que já vinha sendo construída ali, e de alguma forma a gente chegava meio que como forasteiros. Ter nosso filme selecionado para Gramado foi gigantesco em termos de visibilidade, mas chegar ali e perceber que a engrenagem gigantesca tá funcionando e que tem as pessoas já estão participando daquilo também mostra a dificuldade de acessar esses espaços, de se sentir pertencido a esses espaços, de conseguir criar redes sólidas. Então acho que é um pouco dessa mão dupla, da gente perceber isso e afirmar isso, a potência desse cinema que a gente de alguma forma inaugura, e a medida de todas essas dificuldades de inserção, contato, visibilidade e financiamento aqui em Sergipe. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Além de “Abya Yala”, que já carrega esse marco de ser o primeiro longa-metragem de vocês, o que vem aí pela frente para a Floriô? Quais as próximas produções, projetos e passos? Carolen Meneses: A gente tem uma série de projetos que estão em desenvolvimento: Neto e Thaís têm longas-metragens, Sid tem uma série de desenvolvimento. Então, a gente tem uma gama de projetos que estão nesse processo de estudar, de inscrever em laboratórios, de levar para rodada de negócios, então a gente está de alguma maneira já deixando no forno mesmo esses projetos. Para além disso, a gente tem o Pólen das Artes, que é um projeto de formação, e a gente também quer fazer disso um novo caminho para a Floriô. A gente está tentando outras leis de fomento, e pensamos também em abrir uma ONG para conseguir deixar essas ações mais continuadas. É um processo muito burocrático, então estamos também está nessa fase de entender quais são os caminhos para conseguir dar esse passo. Mas pro futuro é isso, a gente tem uma série de projetos que estão nesse processo de amadurecer conhecimento, de serem inscritos em laboratórios. Para a gente foi muito importante passar por um laboratório, o Lab Negras Narrativas, que participamos com o Imã de Geladeira e onde tivemos um processo de formação bem intensivo. Foi um processo longo, mas que nos ajudou também a abrir os nossos horizontes para essa perspectiva de cinema a nível nacional. E isso foi muito importante, agora a gente entende que os nossos projetos também têm uma vida antes de serem filmados, e a gente precisa percorrer esse caminho antes deles serem filmados. Então, a gente está basicamente nesse processo agora com os nossos filmes, tato com Abya Yala, que está participando de laboratório e de consultoria, tanto com os outros também que estão agora nesse processo embrionário. Sidjonathas Araújo: Temos dois curtas-metragens que estão bem no forno. A gente filmou no ano passado Coágulos, que é um filme dirigido por Thaís, e Corpus-Água, que foi dirigido por mim. Eles estão em processo de pós-produção já avançados e a ideia é que a gente os estreie no primeiro semestre de 2027. Estamos aí torcendo, jogando para o mundo. Então temos essa leva de curtas para sair e, como Carolen falou, a ideia é continuar com o Pólen das Artes, que é esse ambiente de formação. A gente conseguiu fazer um primeiro ciclo, que eu acho que foram oito ações ao longo de 8 meses, quando trabalhamos com oficinas de atuação para cinema, oficinas de produção, de distribuição, de sustentabilidade, pensando na sustentabilidade no audiovisual. E a ideia é que a gente, agora também com o espaço físico da nossa sede, consiga movimentar a Floriô e o cinema sergipano para além da produção de filmes. Que a gente fazer desse lugar um ambiente que fomenta a cultura de um modo geral, onde haja encontro, troca; aquilo que a gente está falando de se ter redes de contato sólidas em locais fora do Nordeste, a ideia é que a gente vá solidificando essa rede aqui em Sergipe também. Pessoas que não têm acesso à universidade conseguiriam acessar gratuitamente ambientes de formação pela Floriô, e assim a gente vá solidificando projetos, fazendo networking, para que se haja uma tentativa de contribuição mesmo, de expansão do cinema para além da produção de filmes aqui em Sergipe. A gente tem também o CRIAS, que é um evento de exibições infantis, já fizemos três edições e a ideia é que continuemos. É um evento itinerante, então já teve duas edições em São Cristóvão e uma em Laranjeiras. A ideia é que a gente vá expandindo cada vez mais pelos interiores do estado, para que a gente seja muito nesse lugar de expansão mesmo. Porque ainda é, de certo modo, escasso: as iniciativas de cinema e audiovisual aqui em Sergipe ainda se concentram muito na região metropolitana, na capital e nesses municípios vizinhos. Então a ideia é que a gente vá expandindo isso como uma forma de levar cinema, levar cultura para outras pessoas que, infelizmente, não têm acesso, já que temos um número baixíssimo de salas de cinema e a maioria dessas salas está nos shoppings. Então significa a gente oferecer um outro tipo de cinema para as pessoas, que valoriza a nossa identidade sergipana, que valorize um cinema realizado aqui por pessoas sergipanas. Thaís Ramos: Eu acho que para além disso também tem um ponto que a gente está iniciando, que é a perspectiva de continuar a distribuição de filmes também. A Floriô, além de uma produtora, é também uma distribuidora, e temos centrado mais em distribuição de curta-metragem, que basicamente ainda é boa parte da produção de cinema independente de forma geral, ainda mais em Sergipe. Então é um desejo e uma vontade que a gente tem muito, Sid tem essa ligação muito forte com a distribuição. A gente também quer tentar fomentar de outras formas essa questão da distribuição, porque todos aqui temos essa compreensão de que não adianta estar produzindo filmes se ninguém vê. Estamos num momento legal em que a gente está conseguindo produzir, mas precisamos que essas produções sejam vistas.
- Entrevista | “Sempre tivemos essa preocupação de se difundir a produção audiovisual baiana”: Esmon Primo fala sobre a 17ª edição da Mostra Cinema Conquista
Coordenador da Mostra contou as origens do evento e discutiu seu papel no ecossistema audiovisual conquistense e baiano. Créditos: Nagual Pardo Ao longo dos anos, a Mostra Cinema Conquista se firmou como o principal evento cinematográfico de Vitória da Conquista-BA e um dos mais importantes do interior baiano. A sua 17ª edição, que será realizada entre 6 e 11 de setembro, contará com uma novidade: a realização da sua primeira Mostra Competitiva, que premiará o melhor longa-metragem e curta-metragem dentre os exibidos na Mostra. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Esmon Primo, um dos fundadores da Mostra e seu coordenador. Esmon contou sobre as origens da Mostra, ligadas ao cineclube Janela Indiscreta, a realização da primeira Mostra Competitiva e os planos para o futuro, bem como o papel do evento no panorama audiovisual de Vitória da Conquista e da Bahia. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A Mostra Cinema Conquista é uma das principais realizadas aqui na Bahia. Você poderia falar um pouco de como ela nasceu? Quando entrevistei Rafael Carvalho, curador da edição do ano passado, ele falou sobre o papel do cineclube Janela Indiscreta na realização da Mostra e de outras atividades audiovisuais aqui em Conquista, além dos desafios dela não ser realizada em alguns anos. Esmon Primo: A Mostra vai realizar sua 17ª edição, mas na verdade seria a 23ª, porque ela nasceu em 2004. E ela nasceu como se fosse uma consequência de um monte de coisas audiovisuais que já vinham sendo feitas na cidade, principalmente na UESB [Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia], devido a um trabalho de um cineclube, o Janela Indiscreta, de onde eu e outras pessoas viemos. E a gente já vinha desde 1992 fazendo um trabalho de cineclubismo e que foi ampliando: não era só passar filme, tinha formação, se trazia cursos e oficinas, e aí começamos a fazer documentários, pequenos documentários. Aqui é a cidade onde nasceu Glauber Rocha, então também começamos a pegar essa questão de Glauber, e aí pensamos: “por que não fazer um festival?”. E aí em 1995 – ou seja, três anos depois da criação do Janela – escrevemos essa ideia de festival e mandamos para o Ministério da Cultura tentando aplicar para a Lei Rouanet, que tinha sido criada só uns anos antes. Mas não tivemos os recursos captados, e creio que tem a ver com o fato de ser uma cidade do interior da Bahia pleiteando um festival numa época em que eram feitos bem poucos, muito diferente de hoje em dia, onde só na Bahia você tem uns 60. Então em 2004 a gente começou a fazer a Mostra, e a primeira edição foi no Cine Madrigal [cinema de rua de Conquista, atualmente fechado], acho que foram mais de 20 filmes, entre curtas e longas-metragens. Mas já em 2005 não teve, por causa de todo o panorama político da época, e voltamos em 2006. Mas em 2007 o Madrigal já não conseguia ficar em pé, o gerente até falou pra gente que assim que a Mostra acabasse eles fechariam as portas. E nós já vamos para quase 20 anos desse espaço maravilhoso ainda fechado, por falta de interesse do poder público em resolver essa questão, que poderia ter sido resolvida há muito tempo. Então a gente veio para o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, e, embora de um ponto de vista arquitetônico ele seja bem diferente de uma sala de cinema, é onde fazemos a Mostra desde então. Mas ela não se limita apenas ao Centro de Cultura: como a própria ideia dela veio da universidade, investimos também na parte de formação, no compromisso com o público em várias localidades. Então realizamos parte da Mostra nas dependências da UESB, bem como praças públicas e até nos distritos de Conquista. Sobre a questão da Mostra não ter sido realizada em alguns anos, isso tem a ver com os desafios de fomento à cultura e eventos públicos gratuitos. Como a Mostra é um evento gratuito, precisa de recurso público para que seja feita, e esse recurso pode vir de várias maneiras, como se viu de uns anos para cá com a LPG [Lei Paulo Gustavo] e a PNAB [Política Nacional Aldir Blanc]. Posso dar um exemplo, que foi a Paulo Gustavo, ela teve um percentual do recurso dela destinado ao audiovisual, e dentro disso para difusão, o que inclui os festivais e as mostras. E aí submetemos a Mostra ao edital da LPG, mas ficou na lista de suplência e não foi aprovada. Então são vários caminhos que tentamos tomar para conseguirmos apoio para um evento como esse, mas precisa que as instâncias públicas se envolvam. Em particular o município, independentemente de qual a gestão no poder, precisa ter um olhar melhor para um financiamento mais contínuo do evento. Por isso que não conseguimos realizar seis edições. Créditos: Nagual Pardo Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição deste ano conta pela primeira vez com uma Mostra Competitiva para longas e curtas-metragens. O que fez com que vocês decidissem que este era o momento para introduzir essa Mostra? Há outras novidades em vista, para esta edição ou para as próximas? Esmon Primo: A gente veio esse tempo todo só fazendo uma mostra de cinema, com uma seleção de curtas e longas-metragens para o público assistir. Um festival também se porta assim, mas há a escolha prévia de uma curadoria que coloca aqueles filmes ali para concorrerem a uma premiação. Então ficamos presos por vários anos a essa definição de que numa mostra não haveria esse tipo de premiação. Mas no início do ano, participamos de alguns eventos em outros estados, vendo outras perspectivas para pensar apoios, e aí vimos que muitas vezes o pessoal não computa mostras que não sejam competitivas. Então a partir disso decidimos fazer uma mostra competitiva. E ficou claro que era algo que já devíamos ter feito antes, nesse momento contamos com quase 500 filmes inscritos e as inscrições vão até dia 6. Logicamente, dessas inscrições você tira um percentual de 10% a 15% dos filmes, porque muita gente não se atenta direito ao regulamento [risos], mas de qualquer forma é um número grande. E desses só iremos exibir 16 longas e 26 curtas, porque só exibimos cada filme uma vez, e dentre os que irão competir serão cinco longas e 10 curtas. Até o dia 23/08 iremos divulgar os filmes selecionados. Em relação ao formato de premiação, há vários a depender da mostra e do festival. Na Mostra de Cinema de Ouro Preto, por exemplo, eles só premiam o melhor filme, não tem melhor ator, melhor atriz ou outros prêmios. Como nós estamos iniciando e também por uma questão de recurso, só iremos premiar o melhor filme de longa-metragem e de curta-metragem, além dos de escolha do público, que serão votados por votação física. E nós queremos sondar a reação do público, saber se foi legal, e se a partir disso ampliamos o número de filmes na competitiva, além de outros prêmios como Melhor Ator ou Melhor Atriz. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tenho entrevistado alguns realizadores e realizadoras da Bahia nestes últimos anos, e muito se fala da questão da descentralização da produção audiovisual no estado, sair mais de Salvador e observar outros polos. Como você enxerga o lugar de Vitória da Conquista dentro deste panorama, e qual o papel que a Mostra assume para favorecer essa descentralização e trazer visibilidade a este ecossistema audiovisual no interior do estado? Esmon Primo: Nos primeiros anos da Mostra a curadoria era feita por nós mesmos, da organização. Aí a partir de 2008, 2009, se aproximou uma figura maravilhosa, o João Sampaio, crítico e jornalista do A Tarde, e que embora morasse em Salvador era do interior daqui da Bahia. E ele tinha um vasto conhecimento do cinema mundial e nacional, mas principalmente do cinema baiano. Então ele se envolveu com a Mostra e se tornou o curador oficial por alguns anos, mas em 2014 morreu trabalhando no Cine PE. A gente então teve que buscar rapidamente um novo curador, porque vimos a importância desse trabalho de curadoria nos festivais de cinema e de outras artes. E João havia me apresentado ao Marcelo Miranda, e aí Marcelo se tornou o curador da Mostra por quase 10 anos. Aí agora é Rafa [Rafael Carvalho], e nesse ano já são três curadores, contando com ele. Digo tudo isso pra falar que desde o começo da Mostra, quando João era o curador, ele tinha esse olhar para a produção audiovisual baiana de todos os cantos do estado. Na primeira edição em 2004 tinha filmes de Conquista, e se você olhar nosso catálogo de lá para cá, que já tem mais de 700 filmes, vai se ter filmes feitos em Conquista. Então sempre tivemos essa preocupação. E aí em 2010 veio o curso de Cinema e Audiovisual da UESB, e hoje tem-se uma vasta produção, porque as pessoas que se formaram nesse curso já fazem os seus roteiros, já criam as suas produtoras, já estão ganhando editais e de fomento, estão fazendo filmes, estão levando esses filmes para muitos festivais e estão tendo uma visibilidade. O ponto alto hoje do audiovisual em Conquista é a produção. Atualmente aqui temos outras mostras além da Mostra Cinema Conquista. Temos a Mostra Curta 5, do pessoal do IFBA [Instituto Federal da Bahia], com as produções deles. Tem a REC Conquista, do pessoal da produtora Ato3, que também traz esses filmes do interior baiano. E tem o Poca Zói* - Festival de Cinema do Sudoeste Baiano, que eu acho um nome maravilhoso [risos]. Então a cidade tem essa parte da formação, tem a parte da memória – com o Programa de Pós-Graduação em Memória da UESB, com muita gente do audiovisual ali –, a difusão através dessas quatro mostras, e a produção. Acho que uma coisa que está pecando ainda é o espaço físico, ter uma sala de cinema para exibir essas produções. Tem-se o nome de Glauber Rocha atrelado à cidade, mas também temos uma sala fechada há quase 20 anos, e é uma coisa extremamente burra e cega não ver as possibilidades que surgem caso essa sala estivesse aberta, já daria um movimento a esse espaço. *"Poca zói" é o nome de um biscoito caseiro comum do sudoeste baiano.
- Curta amapaense "Amazônia Xamã" conquista oito prêmios internacionais e consolida trajetória de sucesso no exterior
Filme dirigido por Rodrigo Pedroza é reconhecido em festivais dos Estados Unidos, Holanda, França e outros países, levando o audiovisual amazônico para o cenário internacional. Imagem: Divulgação O cinema produzido na Amazônia segue ampliando sua presença no circuito internacional. O curta-metragem "Amazônia Xamã", dirigido pelo cineasta amapaense Rodrigo Pedroza, acaba de conquistar seu oitavo prêmio internacional, consolidando-se como uma das produções brasileiras mais premiadas no exterior em 2026. A mais recente conquista aconteceu no Cinema Royale Festival, em Paris, onde a produção recebeu mais um importante reconhecimento, reforçando uma trajetória marcada por premiações em festivais da Europa e dos Estados Unidos. Antes disso, Rodrigo Pedroza foi eleito Melhor Diretor no Ottawa Festival, nos Estados Unidos, garantindo o sétimo prêmio internacional do filme. Ao longo de sua circulação internacional, "Amazônia Xamã" vem acumulando uma expressiva coleção de reconhecimentos. Entre eles estão os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção no Nature Without Borders International Film Festival (NWBIFF); Melhor Filme no Indie Film Fest; Melhor Filme no Cripton Festival; Melhor Filme de Ficção Científica em Rotterdam; além de uma Menção Honrosa em um festival realizado em Nova York. Mais do que os troféus conquistados, a trajetória do curta evidencia o crescente protagonismo do audiovisual amazônico no cenário mundial. Produzido no Amapá, com elenco formado majoritariamente por artistas locais, o filme reafirma a potência criativa da região e demonstra que histórias enraizadas na floresta possuem alcance universal. "Amazônia Xamã" apresenta uma narrativa de ficção científica ambientada em um futuro distópico, no qual robôs garimpeiros e máquinas madeireiras substituem os homens na devastação da Amazônia, perpetuando novas formas de colonialismo e exploração ambiental. Em contraponto ao avanço tecnológico, o filme valoriza os conhecimentos ancestrais dos povos indígenas e presta homenagem ao cacique Raoni, símbolo da resistência na defesa da floresta e dos direitos dos povos originários. A obra propõe uma reflexão profunda sobre os ciclos históricos de violência e exploração que marcaram a colonização do Brasil e questiona se ainda é possível construir um futuro diferente para a Amazônia. Ao unir elementos da ficção científica com temas ambientais, históricos e culturais, o curta provoca o público a pensar sobre desenvolvimento, memória, preservação e justiça. Para o diretor Rodrigo Pedroza, o reconhecimento internacional representa mais do que uma conquista pessoal. É também uma oportunidade de ampliar a visibilidade do cinema produzido na Amazônia e fortalecer o Amapá como um importante polo de criação audiovisual. "Amazônia Xamã" é resultado de anos de pesquisa, preparação e resistência do cinema independente amazônico. Sua trajetória internacional demonstra que produções realizadas fora dos grandes centros podem dialogar com plateias de diferentes países, reafirmando a relevância das narrativas da floresta para os debates contemporâneos sobre meio ambiente, identidade, tecnologia e direitos humanos. Ao alcançar oito premiações internacionais, o curta consolida-se como um dos grandes destaques do audiovisual amazônico em 2026 e segue levando a cultura, a arte e a força das histórias do Amapá para o mundo. Premiações internacionais: Cinema Royale Festival (Paris) – Prêmio internacional (8ª conquista) Ottawa Festival (Estados Unidos) – Melhor Diretor Nature Without Borders International Film Festival (NWBIFF) – Melhor Filme e Melhor Direção Indie Film Fest – Melhor Filme Cripton Festival – Melhor Filme Festival de Rotterdam – Melhor Filme de Ficção Científica Festival de Nova York – Menção Honrosa
- Mostra Cinema Conquista estreia mostra competitiva em sua 17ª edição
Realizadores de todo o país já podem inscrever gratuitamente longas e curtas para o evento, que acontece entre os dias 6 e 11 de setembro. Créditos: Nagual Pardo A Mostra Cinema Conquista – Um Olhar para o Novo Cinema já tem data marcada para sua 17ª edição. Um dos mais tradicionais eventos dedicados ao audiovisual no interior da Bahia será realizado entre os dias 6 e 11 de setembro, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, trazendo uma importante novidade para o público. Pela primeira vez, a programação contará com uma Mostra Competitiva, destinada à seleção e premiação de produções brasileiras de longa e curta-metragem, com inscrições abertas no site oficial. A estreia da competição marca um novo momento para o projeto, ampliando o reconhecimento às produções nacionais e fortalecendo o intercâmbio entre criadores, público e crítica especializada. “Este novo formato amplia as possibilidades de diálogo entre quem faz cinema e quem o assiste. Queremos que a iniciativa fortaleça a circulação de filmes brasileiros, incentive novos talentos e reafirme Vitória da Conquista como um importante ponto de encontro do audiovisual nacional", avalia Esmon Primo, coordenador geral e fundador do evento. Divulgação A curadoria será realizada por uma comissão formada por profissionais do setor e contemplará até cinco longas e dez curtas-metragens produzidos em diferentes regiões do Brasil. Podem participar obras brasileiras nos gêneros ficção, documentário, animação ou experimental, finalizadas a partir de 1º de julho de 2025 e inéditas no município. Para além do júri oficial, a programação competitiva também contará com júri popular, formado pelo público presente nas sessões, que poderá votar nos filmes exibidos. Ao longo de mais de duas décadas de história, a Mostra Conquista consolidou-se como um dos principais espaços de circulação, formação e difusão do cinema brasileiro contemporâneo no interior da Bahia. Desde a sua criação, em 2004, o festival já exibiu mais de 700 filmes — entre longas, médias e curtas-metragens —, reunindo obras que retratam diferentes realidades, territórios, memórias e expressões culturais do país. SERVIÇO 17ª Mostra Cinema Conquista – Um Olhar para o Novo Cinema Data: 6 a 11 de setembro de 2026Local: Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, Vitória da Conquista (BA) Inscrições para a Mostra Competitiva: até 6 de agosto de 2026 (23h59 – horário de Brasília) Quem pode participar: realizadores de filmes brasileiros de longa e curta-metragem nas categorias ficção, documentário, animação e experimental, finalizados a partir de 1º de julho de 2025 e inéditos em Vitória da Conquista Inscrições e regulamento: https://mostracineconquista.com.br/
- "Decidimos fazer um filme menor e mais íntimo": tudo o que descobrimos sobre Homem-Aranha: Um Novo Dia
Da chegada de Sadie Sink ao Justiceiro de Jon Bernthal, reunimos os principais destaques do encontro com o elenco e os produtores. Imagem: Divulgação Na última sexta-feira (17), elenco e equipe de Homem-Aranha: Um Novo Dia se reuniram em Nova York para uma coletiva de imprensa virtual. O Oxente Pipoca esteve presente e traz os principais destaques em primeira mão. Em meio a tantos rostos já familiares ao grande público, havia três novidades – ao menos dentro daquele universo. A primeira delas era Destin Daniel Cretton, diretor de Homem Aranha: Um Novo Dia e um dos primeiros assuntos da conversa. Talvez a Marvel não conheça o famoso ditado brasileiro de que "em time que está ganhando não se mexe". Afinal, depois de três filmes de enorme sucesso dirigidos por Jon Watts, o estúdio decidiu entregar o comando da franquia a Cretton. Responsável por Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, ele foi convidado pelo próprio Kevin Feige, presidente da Marvel Studios. Uma aposta arriscada, mas que, ao que tudo indica, deu certo. "Acho que tivemos muita sorte em ter o Destin como capitão desse navio", afirmou Tom Holland. Segundo o ator, Cretton assumiu o projeto em um momento em que o filme parecia sem direção e foi justamente quem encontrou o fio condutor da história. Mais do que isso, definiu o tema central da narrativa: como é para um jovem enfrentar o mundo completamente sozinho. "É uma experiência com a qual pessoas do mundo inteiro podem se identificar. E isso não compromete a ação, nem a escala do filme. Se não fosse o Destin, este longa não seria nem metade do que é hoje", completa Holland. A produtora Amy Pascal admite que a equipe enfrentava uma missão complicada após o enorme sucesso de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, que reuniu os intérpretes do herói no cinema – Tobey Maguire, Andrew Garfield e o próprio Holland. "Depois de fazer um filme com três Homens-Aranha, a tendência seria querer criar algo ainda maior." Segundo ela, porém, a influência de Cretton levou a produção na direção oposta: "Decidimos fazer um filme menor, mais íntimo, focado na vida pessoal de um único personagem." É justamente esse aspecto que mais encanta Holland. "É uma história que alerta para os perigos de viver sozinho, sem uma comunidade, sem amigos." Enquanto o Homem-Aranha segue triunfando como herói, Peter Parker atravessa um dos períodos mais sombrios de sua vida. Para seguir em frente, ele precisa lembrar do conselho recebido pelo Peter Parker vivido por Andrew Garfield: às vezes, o maior ato de coragem é pedir ajuda. "O contraste entre esses dois mundos é muito divertido de explorar. Você vê esse garoto salvando o mundo, vivendo aventuras gigantescas e, logo depois, voltando para um apartamento caindo aos pedaços em Nova York, com dor de cabeça, tentando apenas dormir. Principalmente quando acompanhamos tudo isso pelas redes sociais. É algo muito próximo do que tantos jovens vivem hoje." A segunda novidade é Jon Bernthal, que finalmente leva o Justiceiro ao universo cinematográfico do Homem-Aranha. Sobre interpretar Frank Castle, um personagem mais controverso, em um filme voltado para toda a família, Bernthal admite que chegou ao projeto com algumas reservas. "Eu sou extremamente protetor em relação ao Frank, aos fãs do Justiceiro e ao que esse personagem representa. Essa era uma preocupação real para mim. Mas acredito que, na arte, quando você encara um problema de frente, em vez de fugir dele, e respeita o público o suficiente para reconhecer que ele também fará esse questionamento, surgem os melhores resultados. Sou muito grato porque isso era tão importante para o Destin, a Amy, o Kevin e o Tom quanto era para mim." Amigo de longa data de Holland (os dois chegaram a gravar as audições um do outro anos atrás), Bernthal não economiza elogios ao colega. Holland, por sua vez, destacou como a amizade entre os dois acabou influenciando diretamente a dinâmica em cena: "Uma das coisas que mais gosto de trabalhar com o Destin é o quanto ele é colaborativo. Ele não observa apenas o que acontece diante das câmeras, mas também os bastidores. Quando ele viu eu e o Jon chegando ao set, percebeu imediatamente que somos grandes amigos. Muito da química entre nossos personagens nasceu justamente desses momentos fora das filmagens. E improvisar com o Jon é sempre um prazer." A terceira adição ao elenco é Sadie Sink, eternizada como Max em Stranger Things. No novo filme, porém, sua personagem permanece um mistério. Até agora, a Marvel não revelou sequer seu nome. Como todo bom segredo do estúdio, esse mistério também envolveu a própria atriz. Sink contou que permaneceu ligada ao projeto durante bastante tempo sem sequer ter acesso ao roteiro completo. Sem poder revelar praticamente nada sobre sua personagem, coube a Feige revelar que o papel sempre foi pensado para Sink: "Tom, Zendaya e Jacob [Batalon, que vive Ned] elevaram tanto o nível do elenco que qualquer novo integrante precisava chegar nesse mesmo patamar. Nós tínhamos uma ideia para essa trama e discutíamos diferentes personagens, até que nossa coprodutora, Emily Fong, sugeriu: 'E se fosse a Sadie Sink?'. Naquele instante, todos percebemos que era exatamente isso. Foi por isso que nem houve teste." Holland também elogiou a colega: "A Sadie teve uma missão muito difícil ao entrar em um filme gigantesco, cercado por uma equipe que já parecia uma família. Mesmo assim, ela se encaixou perfeitamente. É extremamente profissional, entrega uma atuação maravilhosa e traz uma carga emocional que este filme precisava. Foi um verdadeiro sopro de renovação." Quem não participou da coletiva foi Mark Ruffalo, intérprete do Hulk no MCU. Ainda assim, Cretton fez questão de comentar sobre o ator e destacou a parceria dele com Holland. "Os dois são atores extraordinários. E uma coisa que eu não tinha percebido completamente é que, quando você grava uma cena com o Hulk, na verdade está dirigindo o Mark Ruffalo e o Tom ao mesmo tempo. Meu trabalho ficou muito fácil. Eles só precisavam fingir que o Mark não estava usando aquela roupa ridícula", brincou o diretor. Sobre o título Um Novo Dia, Cretton explicou que ele representa justamente aquilo que Peter Parker mais deseja em seu coração, especialmente depois dos acontecimentos de Sem Volta Para Casa, quando foi apagado da memória de todos. Zendaya descreveu a experiência como um divertido exercício de atuação, já que sua MJ agora desconhece completamente Peter. "Nos filmes anteriores, a MJ sempre foi a pessimista, enquanto o Peter era o otimista. Agora acontece o contrário. Depois de ficar sozinho, ele acabou absorvendo esse pessimismo, enquanto ela herdou a visão positiva dele, sem nem perceber." Para Kevin Feige, o novo dia representa também uma nova fase da franquia. "Os três primeiros filmes do Homem-Aranha no MCU foram construídos para explorar o fato de que Peter fazia parte de um universo compartilhado, algo que os cinco filmes anteriores não puderam fazer. Agora queremos voltar a focar em Peter vivendo em Nova York. Até evitamos mostrá-lo balançando entre os prédios da cidade nos primeiros filmes porque isso já havia sido visto muitas vezes. Mas dez anos depois, essa sensação voltou a ser emocionante. Além disso, os videogames elevaram muito o nível das cenas de ação, e o Destin conseguiu igualar – e até superar – esse padrão." Além dos jogos, Cretton revelou que buscou inspiração em Lucky Lu (Lloyd Lee Choi, 2025), filme independente exibido no Festival de Cannes do ano passado. Por fim, Tom Holland fez questão de homenagear outros rostos ausentes, mas igualmente essenciais para a franquia: os fãs. "Acho que todos concordam comigo quando digo que os fãs fazem parte desse processo tanto quanto nós. Fazemos esses filmes para eles e ouvimos o que eles têm a dizer. Existe um movimento incrível de jovens apaixonados por cinema espalhados pelo mundo. Eles têm ideias fantásticas e uma paixão enorme, e nós compartilhamos desse sentimento. Poder representar tudo isso é um privilégio que jamais vou deixar de valorizar." Com Tom Holland, Zendaya, Jon Bernthal, Sadie Sink, Jacob Batalon e Mark Ruffalo, e direção de Destin Daniel Cretton, Homem-Aranha: Um Novo Dia estreia em 29 de julho.
- Curta de terror nacional "Agnes Está com Fome" estreia no CineFantasy e transforma o medo cotidiano feminino em horror psicológico
Filme dirigido por Natália Martins estreia na 17ª edição do CineFantasy em SP e transforma o medo cotidiano vivido por mulheres em um suspense psicológico inquietante. Imagem: Divulgação O curta-metragem "Agnes Está com Fome", dirigido por Natália Martins, fará sua estreia entre os dias 1º e 6 de setembro durante a 17ª edição do CineFantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico de São Paulo, um dos principais eventos dedicados ao cinema fantástico da América Latina. Com 13 minutos de duração, o filme será exibido no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Estrelado por Samira Uchôa no papel de Agnes, o curta acompanha uma mulher que, após um jantar constrangedor com um colega de trabalho, caminha sozinha pelas ruas de São Paulo durante a noite. Sem olhar para trás, ela percebe que está sendo seguida por alguém na calçada. O encontro na madrugada desperta uma ideia perturbadora, cujo verdadeiro significado só será revelado na manhã seguinte. Misturando suspense e terror psicológico, "Agnes Está com Fome" nasce das inquietações da diretora sobre a insegurança enfrentada diariamente por mulheres nos espaços urbanos. A narrativa parte de uma experiência comum para construir uma atmosfera de crescente tensão, transformando o medo cotidiano em uma reflexão visceral sobre trauma, violência e sobrevivência. O filme marca a estreia de Natália Martins na direção de ficção e representa seu segundo trabalho como diretora. Atriz, roteirista e cineasta, Natália vem se destacando no circuito audiovisual nacional. Em 2024, venceu o FRIACA e foi semifinalista do Cabíria Festival e do FRAPA com o roteiro "Carne", selecionado também para o Produire Au Sud Fortaleza e o Bravo Film Lab, em Los Angeles. Em 2020, recebeu o Prêmio Rota/Cabíria de Melhor Protagonista Feminina com o roteiro "A Casa é Nossa". Com uma abordagem inquietante e intimista, "Agnes Está com Fome" utiliza elementos do horror para discutir uma realidade compartilhada por inúmeras mulheres: o estado permanente de alerta ao ocupar o espaço público. O resultado é um filme que provoca desconforto ao aproximar o terror da experiência cotidiana, revelando como o medo pode assumir formas inesperadas.












