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- Crítica | Bugonia (Mostra de SP 2025)
As lutas do cinema contemporâneo para filmar as estranhezas da realidade Foto: Reprodução Paranoia e teorias da conspiração são um material fértil para Hollywood há um bom tempo, rendendo obras seminais como A Conversação, A Trama ou Três Dias do Condor, apenas para citar algumas. A ideia de forças ocultas movendo as engrenagens do mundo, de figuras nos bastidores com suas maquinações, sempre foi bastante atrativa à ficção e às nossas necessidades de explicar o que aparentemente há de errado com o mundo. Mas, uma vez que a extrema-direita cooptou essas teorias e seus discursos, de repente fazer filmes sobre elas e de alguma forma validar este espectro ideológico se tornou um problema. Como então falar do assunto sem parecer um lunático ou só repetir o que já vemos todo santo dia na internet? Entra em cena Yorgos Lanthimos e seu Bugonia, remake do longa sul-coreano Save The Green Planet! Na obra, dois conspiracionistas, os primos Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), sequestram a executiva Michelle Fuller, presidente de uma grande corporação farmacêutica. O objetivo? Provar que ela é uma alienígena da galáxia de Andrômeda envolvida num plano para dizimar a humanidade. É o tipo de premissa que, vinte anos atrás (na época do longa original) soaria tão absurda quanto cativante. Agora, porém, para qualquer um que acidentalmente caiu nos esgotos da internet e já viu coisas como reptilianos – só para ficar na superfície das teorias da conspiração – parece apenas mais um dia normal no Twitter, 4chan ou Youtube. Obviamente Lanthimos e o roteirista Will Tracy têm consciência disso e buscam justamente ancorar essa premissa no nosso contexto contemporâneo. Com isso, Bugonia é – pelo menos na maior parte do tempo – o filme mais “convencional” da carreira de Lanthimos, conhecido justamente pelo absurdo das suas obras. Ainda estão bem presentes o humor sombrio e a veia cínica do diretor, mas ao fazer um filme significativamente mais sóbrio do que seus antecessores, ele sabiamente evita alguns dos vícios que vinham acometendo sua filmografia (como as excessivas lentes distorcidas “olho de peixe” empregadas pelo diretor de fotografia Robbie Ryan). Foto: Reprodução Ao mesmo tempo, porém, essa sobriedade acaba se voltando contra o próprio filme, especialmente em decorrência do texto de Tracy, que não se furta a apontar certas obviedades nos discursos e falas dos personagens, como se víssemos a mera reprodução de uma discussão ou de um fórum nas redes sociais. É um problema parecido com o de Eddington, de Ari Aster: quando a realidade se tornou mais estranha e implausível do que a ficção, como se a supera? Ao menos aqui em Bugonia, a resposta vem no jogo de gato e rato construído entre Teddy e Michelle, vividos com maestria por seus intérpretes. Plemons já há muito domina a arte de construir personagens esquisitos, assustadores e imprevisíveis, e é ele quem consegue conferir alguma humanidade e nuance ao seu personagem, elevando-o de um mero arquétipo de redpill. E Stone tem a dura tarefa de construir um personagem que tenta assumir o controle a todo instante, investindo tanto em uma performance mais contida e fria quanto em uma fisicalidade onde elementos como a cabeça raspada e os movimentos do corpo nos deixam em dúvida: afinal, Teddy está certo sobre ela ser uma alienígena ou não? Quando o filme assume sua virada na meia hora final, entregando-se enfim ao absurdo, não só ele atinge seu ápice, como permite à dupla de atores se soltar de vez em seus papéis, abraçando a estranheza pincelada a passos lentos durante sua hora e meia anterior. Assim, Bugonia não deixa de ser outra obra que abraça a sátira cínica para responder ou representar as inquietações do nosso mundo tão incerto. Acaba incorrendo em erros típicos que essas produções – cada vez mais comuns desde o início da década – cometem, em especial por investir na sobriedade e no plausível. É quando o filme se torna mais estranho que a realidade que ele enfim se torna memorável, mas mesmo em suas porções irregulares, os talentos singulares de Stone e Plemons sustentam a obra o suficiente para que deixe alguma marca. Nota: 3/5
- Crítica | Virtuosas (Mostra de SP 2025)
Filme faz acanhada mescla de gêneros para satirizar o conservadorismo feminino Foto: Reprodução Na esteira de produções que miram na sátira para debater e problematizar os maiores absurdos vividos na nossa realidade contemporânea, Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, mira no movimento do conservadorismo feminino através das lentes da sátira e do horror. Na história, um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. É difícil não associar a premissa da obra a algumas mais recentes que apostam no desconforto de um personagem inserido em um ambiente no qual está claramente deslocado, seja Corra! ou Pisque Duas Vezes. Aqui, a protagonista Germina (Maria Galant) é inicialmente apresentada como uma personagem disposta a tudo para estar nesse retiro VIP organizado por Virginia (Bruna Linzmeyer), mas aqui e ali se veem gradativas fissuras que sugerem que ela talvez não seja quem diga ser. Mas talvez ninguém ali seja, a começar pela própria Virginia. A performance de Linzmeyer é um dos pontos fortes do filme, construída em cima de uma ambiguidade e frieza que escondem as suas reais motivações, as quais certamente estão longe de serem nobres ou cristãs. Quem também rouba a cena é Juliana Lourenção na pele de uma mãe e esposa de deputado que se torna o alvo principal de Virginia, e ver a maneira como a atriz transmite progressivamente o descontrole da sua personagem é um dos fatores que sustentam a obra. Foto: Reprodução A direção de Cíntia Domit Bittar é eficaz em usar de elementos da iconografia do horror (o extracampo, o trabalho de som, as sombras) para causar um desconforto crescente na maneira como estas mulheres interagem entre si. É curioso perceber, porém, como esse desconforto se dá muito mais pela encenação do que pelo texto de Bittar, que não se furta a cair em certos lugares-comuns no que tange esse universo, seja nos chavões bíblicos ou nos discursos coach. Rende algumas boas risadas, mas volta ao problema que citei nas minhas críticas de Eddington e Bugonia, como obras situadas nessa leva de sátiras que se contentam apenas em trazer de maneira quase ipsis litteris o absurdo da realidade para as telas. Diferentemente destes filmes, porém, onde se via as amarras serem soltas nas suas retas finais, aqui Bittar acaba segurando as rédeas por tempo demais. Embora na apresentação do filme ela o tenha classificado como horror, é justo dizer que ele é em torno de 80% sátira e 20% horror, apenas abraçando plenamente este último nos minutos finais, com um encerramento um tanto abrupto que nos faz desejar uma resolução mais desenvolvida. Apesar disso, Virtuosas está longe de ser um desastre na maneira com a qual retrata mulheres conservadoras e as maneiras pelas quais foram cooptadas e estão enredadas em um projeto de poder (inclusive por outras mulheres). Não fosse a obviedade com a qual muitas vezes elabora seu discurso e a certa timidez com a qual abraça o horror, poderia ser uma sátira mais memorável, mas acaba sendo mais uma obra de uma safra cada vez mais saturada. Nota: 2.5/5
- Crítica | Frankenstein (Mostra de SP 2025)
, Frankenstein, de Mary Shelley, pode ser visto como o romance fundamental para tratar da figura do monstro por anos Guillermo Del Toro, cineasta que construiu sua carreira e reputação em cima do seu amor por monstros O resultado final enfim chega agora em 2025, após anos de desenvolvimento. “Espírito da Floresta”, com seu ar de fábula, é um destaque dentro de um filme que muitas vezes se mostra Waltz e Charles Dance fazem o que podem dentro do seu limitado tempo de tela, enquanto David Bradley se mostra
- Crítica | Amadeo e o Hipotético Mundo Novo (Mostra de SP 2026)
Animação ousa sonhar uma utopia em pleno Brasil colonial Imagem: Divulgação No seriado Mad Men, uma personagem explica os dois significados dados pelos gregos à palavra utopia: eu-topos, “o bom lugar”, ou ou-topos, “o lugar que não pode ser”. Ao longo dos tempos, a ideia de utopia foi sendo associada quase a uma espécie de paraíso, mas sobretudo um paraíso inacessível. Mas se ele é inacessível, o que nos custa pelo menos sonhar com sua existência? Em Amadeo e o Hipotético Mundo Novo, a dupla de diretores e roteiristas Brenda Lígia e Edu Felistoque ousa sonhar essa utopia num dos lugares mais improváveis possíveis: o Brasil colonial, mais especificamente no contexto pós-independência. O filme não está interessado numa reconstituição exata dos eventos históricos, mas sim em usá-los como ponto de partida para explorar o Brasil, o “hipotético mundo novo” do seu título, como um lugar onde outras realidades podem ser fabuladas e possibilitadas. A animação segue seu protagonismo homônimo, um jovem africano tirado à força de sua tribo na Guiné-Bissau e levado como um escravizado até Portugal, onde acaba sendo inesperadamente libertado pelas forças bonapartistas. A partir daí, seus caminhos se cruzam com o do cientista muçulmano Aziz, cujo sonho é partir numa expedição ao Brasil. O tempo passa e Amadeo aprofunda seu lado como um prodigioso inventor através da mentoria de Aziz, mas quando uma tragédia interrompe os planos deles de expedicionarem pelo Brasil, ele se vê formando alianças improváveis – inclusive com a jovem Linda, herdeira de um senhor de terras falido – para libertar os escravizados destas terras. Apesar dos temas duros com os quais trabalha (e de uma certa dose de violência, aqui e ali), Amadeo... evidente se constrói como uma obra voltada para um público geral, mas para o infantil, antes de tudo. Isso é expresso no trabalho em 2D da animação, que, embora sejam marcados por uma “rigidez” em termos de expressões dos personagens, gera um encantamento pelos traços angulares e em um design dos corpos que, se à primeira vista parece irreal demais pelo exagero, também colabora para que nos “descolemos” de qualquer demanda por fidelidade aos fatos históricos para ancorar o filme nesse universo mais lúdico e fantasioso. Imagem: Divulgação Entretanto, a abrangência do público a ser alcançado por vezes conduz a uma certa oscilação tonal, em que o humor mais infantil contrasta com sequências mais sérias e dramáticas, sem que se encontre um equilíbrio entre essas partes. O filme também encontra uma dificuldade de equilibrar seus diferentes blocos, como, por exemplo, o interesse de Amadeo na invenção da fotografia – a qual, embora alardeada pela sinopse como o mote principal do filme, só é de fato introduzida lá para a segunda metade da obra. E, embora ele se proponha a ser um exercício utópico, é difícil não se dissociar da sensação de que certas resoluções se mostram muito convenientes ou até ingênuas (como a do bloco de libertação dos escravizados). Mas, no fim das contas, pouco importa se na vida real um homem africano não criou a câmera fotográfica; afinal, quantas descobertas importantes foram feitas por povos não-brancos antes dos europeus as reivindicarem para si? Assim, Lígia e Felistoque buscam em Amadeo e o Hipotético Mundo Novo brincar com as possibilidades e brechas da própria realidade para construir uma narrativa que, embora possa parecer muito ingênua em determinados momentos, deseja nos tirar de um lugar de cinismo e apatia para sonhar e lutar para que tal mundo novo seja possível. Nota: 3/5
- Crítica | A Sombra do Meu Pai (Mostra de SP 2025)
com o qual se entrelaça – a história de A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies Jr., longa exibido na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes deste ano e agora também na Mostra de São Paulo.
- Crítica | No Other Choice (Mostra de SP 2025)
sobre o capitalismo tardio Foto: Reprodução Nas críticas que escrevi para Eddington e Bugonia para a Mostra ora nos faz rir de nervoso ora nos leva às maiores gargalhadas – talvez em nenhuma outra sessão da Mostra da sua carreira, mas certamente figurará como um de seus mais divertidos – e um destaque absoluto da Mostra
- Crítica | Behemoth! Uma Vida Composta em Peças (Mostra de SP 2026)
Filme consegue escapar do clichê de ser outra produção hollywoodiana sobre os bastidores do seu próprio sistema, mas ainda assim peca no que quer contar – e tocar Imagem: Divulgação No jargão musical, um leitmotif é uma frase ou breve tema musical que se torna diretamente associado a um personagem, objeto, emoção ou cena específica. No cinema, o leitmotif passou a ser fortemente empregado por compositores desde o período clássico – basta pensar na música-tema de Max Steiner em E O Vento Levou, nos violinos frenéticos de Bernard Hermann na icônica cena do chuveiro de Psicose, ou na Marcha Imperial composta por John Williams em Star Wars e que imediatamente associamos a Darth Vader. Não seria a nossa vida uma constante sucessão de leitmotifs? Por exemplo, se ouço Africa, do Toto, imediatamente penso em meu pai, que me fez gostar da música e da banda. Para Alex Serian (Pedro Pascal), protagonista de Behemoth! Uma Vida Composta em Peças, as músicas nas quais toca em sessões pelos estúdios em Los Angeles, cidade a qual voltou depois de anos, remontam aos vários eventos da sua vida nos últimos anos, os amores, as dores e os traumas. Apesar do subtítulo ridiculamente grande em português (e que vou evitar repetir pelo resto da crítica), ele faz jus ao que o filme realmente se propõe a ser: um estudo de personagem guiado através dessa narrativa não-linear, onde a música serve de fio condutor para as memórias do protagonista. É uma decisão curiosa do diretor e roteirista Tony Gilroy, que já nos aponta essa estrutura nos primeiros minutos – e, para seu crédito, não aposta em clichês como um cartão com o nome da cidade e ano para indicar onde começam os flashbacks –, desmobilizando-nos daquilo que seu marketing indicava que o filme seria: outra produção hollywoodiana metalinguística sobre os bastidores da indústria, feita para assegurar seu lugar cativo na temporada de premiações. Entretanto, o que parece disruptivo ou fresco à primeira vista não tarda a cansar, visto que logo a estrutura do filme fica bastante demarcada: Alex começa a tocar numa das sessões e somos logo lançados a um flashback, sempre guiado pela música em questão, cujos diferentes tons e gêneros moldam nossa própria percepção sobre os flashbacks (um é um thriller, outro é um melodrama, etc). Aos poucos, Gilroy vai construindo outros tipos de cenas no presente que evitam o longa a não ficar preso a essa estrutura, mas a partir de determinado momento ele resolve abandonar por completo os flashbacks para se concentrar nesse presente, e aí o filme inevitavelmente se torna mais e mais convencional – e, por consequência, mais e mais desinteressante. Ainda que não seja um Oscar bait dos mais óbvios, Behemoth! não deixa de expressar suas intenções “oscarizáveis”, sobretudo no destaque a Pedro Pascal. Longe de achar o ator ruim, mas talvez um tanto superestimado (ou saturado depois de aparecer em 5/6 grandes produções no último ano), aqui ele faz um trabalho discreto, mas que não exige muito de si, dada a grande carga de emoções internalizadas do seu personagem. Outros nomes, mesmo em participações pequenas, deixam sua própria marca, como Will Arnett como seu irmão mais velho e desajustado, ou Olivia Wilde como sua ex-amante possessiva. Imagem: Divulgação Ainda assim, é notório que dentre todo o elenco feminino ela seja a única a ter espaço para deixar essa marca (mesmo com sua personagem tão estereotipada), já que as personagens femininas existem no filme praticamente para orbitar em torno de Alex. Ainda assim, esses deslizes poderiam ser relevados diante daquilo que o filme, pelo universo que se propõe a trabalhar, quer oferecer de melhor: sua trilha musical. Gilroy reúne nada menos do que nove compositores (incluindo nomes como seu parceiro James Newton Howard, Alan Silvestri, Michael Abels, Michael Giacchino e Henry Jackman) para compor o Behemoth! Colective, mas mesmo tendo nomes tão talentosos envolvidos, a sensação de que a música do filme nunca consegue sair de um lugar óbvio ou até mesmo genérico, reproduzindo os padrões das grandes produções hollywoodianas. É até difícil imaginar esse coletivo vencendo Ludwig Goransson por seu trabalho em A Odisseia, já que, diferente dos grandes leitmotifs do cinema e de nossas vidas, dificilmente é um trabalho que ficará guardado na memória. Behemoth! acerta por fugir de alguns clichês, mas não tarda a descambar em outros. Até pode se dizer que Pedro Pascal o segura bem em boa parte do tempo, e que sua estrutura não-linear rende alguns dividendos, mas o longa nunca consegue trabalhar a sua proposta e ênfase musical para além da superfície. Numa dessas ironias da vida, o filme que quer nos convidar a pensar em como a música pode pulsar em nossas vidas nunca consegue ser algo mais do que uma obra morna e esquecível. Nota: 2.5/5
- Crítica | De Lugar Nenhum (Mostra de SP 2025)
Desumanização, é visível como ele perde força, como na sequência de conversa com Laerte, que, ainda que mostre
- Crítica | Jovens Mães (Mostra de SP 2025)
Jovens Mães, premiado com o prêmio de Melhor Roteiro e exibido na Mostra de SP, poderia facilmente se
- Crítica | Palestina 36 (Mostra de SP 2025)
Eficaz como denúncia das origens do genocídio em Gaza, não tão eficaz como filme palestino Foto: Reprodução O cinema sempre foi palco e reflexo das lutas políticas em curso no mundo, e com o atual genocídio que se desenrola em Gaza não poderia ser diferente. A vitória de No Other Land como Melhor Documentário no último Oscar é sintomática no sentido de representar uma arte que se diz consciente daquilo que está acontecendo e não fecha os olhos, e também de um maior engajamento com o próprio cinema palestino, mais atuante do que nunca em denunciar as atrocidades cometidas por Israel. Nesse sentido, Palestina 36 opta não por acompanhar a situação atual do conflito, mas de ir em suas raízes, cobrindo mais especificamente a greve e revolta palestina contra o mandato britânico na década de 1930, período em que as potências ocidentais começaram a alocar populações judaicas em fuga da Europa devido ao antissemitismo. Essa alocação, como se sabe, não veio sem conflitos, já que o custo de se ocupar os judeus no território palestino foi extirpar cada vez mais o território dos próprios palestinos, reacendendo os conflitos entre os dois povos que até hoje reverberam de maneiras cada vez mais violentas e brutais. Inteligentemente, a diretora Annemarie Jacir não põe a culpa sobre os judeus, que mal aparecem durante a obra. Seu objetivo é claro: mostrar que boa parte (ou todo) do sangue derramado na Palestina hoje poderia ser evitado não fosse a opressão britânica/ocidental, que impôs sobre a população já ali residente uma série de medidas autoritárias enquanto colaborava com o movimento sionista, o que só acirrou cada vez mais os embates com os movimentos de resistência palestinos. Assim, é um cinema-denúncia que transmite uma mensagem dolorosa e ainda atual, reforçando mais uma vez os malefícios dos processos colonizatórios impostos pelas nações ocidentais ao redor do mundo. Infelizmente, só uma mensagem potente não torna um filme bom. E o grande problema de Palestina 36 é que para transmitir essa mensagem, Jacir escolhe caminhos extremamente convencionais – e sobretudo ocidentais. Não há problema no filme ser uma coprodução entre a Palestina e diversos países, incluindo-se aí Reino Unido, França e Dinamarca, mas fica nítido que a presença ocidental na produção da obra dita muito o seu tom e abordagem, criando-se uma espécie de “produto de exportação”. Há a presença de atores britânicos veteranos, como Jeremy Irons e Liam Cunningham, mas ainda que apareçam em papéis menores (Cunningham só dá as caras numa única cena), é nítido que seus rostos estão ali para ajudar a vender a obra para o Ocidente, que precisa ser “educado” sobre o conflito aqui narrado. Foto: Reprodução A natureza de “produto de exportação” do longa se reflete em seu tom exageradamente melodramático, que tenta forçar ao máximo possível cenas de impacto, mas que acaba caindo no lugar oposto, da dessensibilização. Os saltos temporais e a montagem se revelam outro problema: na ânsia de cobrir este período, o longa sacrifica muito do nosso envolvimento com os personagens palestinos, como Yusuf (Karim Daoud Anaya), que em questão de segundos já é transformado num membro da resistência contra os britânicos sem que haja um mínimo de desenvolvimento para tal. Aliás, a própria proposta do filme de trabalhar a coletividade árabe em detrimento do indivíduo (como dito pelo personagem de Irons para os próprios palestinos, veja só) acaba se voltando contra ele, visto que nenhum dos núcleos é suficientemente desenvolvido. Para piorar, o longa se ancora demasiadamente em “imagens de arquivos” que parecem ter sido geradas ou tratadas com IA, com um uso excessivo que beira o constrangedor. Apesar disso, o filme consegue extrair forças de instantes isolados ou de atuações particulares, como Yasmine Al Massri, que no papel de Khuloud tem talvez o arco mais interessante, mostrando também o papel ativo das mulheres nessa resistência. Seu núcleo também desnuda as contradições dentro da própria população palestina, visto que seu marido pertence a uma elite que está mais do que disposta a se vender aos sionistas e britânicos, mostrando como há traidores de classe e de povo em todos os lugares. No seu saldo final, porém, Palestina 36 se revela um típico filme feito muito mais para agradar e sensibilizar o público estrangeiro à Palestina, ancorando-se em estratégias já batidas do cinema ocidental (as cenas em câmera lenta, as cartelas em tela, os diálogos expositivos, o personagem britânico “do bem” que ganha nossa simpatia) para atrair o interesse desse público. Nesse sentido, parece um primo pobre de RRR, que mesmo com seu relativo apelo ao público ocidental, estava mais do que embebido nos códigos do cinema indiano para construir sua narrativa e estética. Aqui é tudo tão higienizado e derivativo que até se vê uma denúncia potente sendo passada, mas não se tem um filme que possa capturar a riqueza do cinema palestino. Nota: 2.5/5
- Crítica | A Incrível Eleanor (Mostra de SP 2025)
Scarlett Johansson estreia na direção com comédia dramática despretensiosa que se salva pela performance de June Squibb Foto: Reprodução É sempre um exercício interessante acompanhar um ator ou atriz que decide ir para trás das câmeras. A história do cinema está repleta de grandes artistas que durante suas carreiras atuaram em ambas as funções em algum momento (quando não simultaneamente), de modo que nos perguntamos: o que os anos sendo dirigido(a) por outros diretores ensinou a estes profissionais? Qual será a sua abordagem agora que ele(a) não é mais a estrela, mas quem dirige a estrela? Em A Incrível Eleanor, Scarlett Johansson faz sua estreia como diretora trazendo para as telas uma comédia dramática simpática e despretensiosa, um longa sem muitas ambições para além do seu tópico principal: sobreviventes do Holocausto. Mas o roteiro de Tory Kamen o faz sob uma premissa que é até curiosa, ainda que nem de longe disruptiva, ao trazer a protagonista Eleanor (June Squibb), uma mulher de 94 anos que após o falecimento da melhor amiga, retorna para a casa da filha em Nova York. Ao acidentalmente cair num grupo de sobreviventes do Holocausto, Eleanor acaba se apropriando das histórias da amiga para fazê-las serem suas, o que gera uma conexão com a jovem estudante de jornalismo Nina (Erin Kellyman), mesmo que ao custo de sustentar sua mentira cada vez mais. Não há nada de muito novo em A Incrível Eleanor: o longa grita convencionalidade a cada instante, com uma direção simples e pouco marcante de Johansson, sempre enfatizando planos e contraplanos que valorizem as interações entre os personagens, no melhor esquema de um cinema independente que foca mais em atuações e texto do que na forma. O tópico difícil é exposto de uma maneira que soa incômoda, mas não necessariamente desrespeitosa; contudo, a abordagem do luto acaba sendo talvez o maior tiro no pé do filme. Especialmente porque fica nítida a mão pesada da direção de Johansson para nos manipular e comover, especialmente com o uso insistente da trilha sonora excessivamente dramática de Dustin O’Halloran, que praticamente grita para nós os momentos em que devemos nos emocionar com os personagens. É tudo tão na cara que o resultado se torna exatamente o oposto. Foto: Reprodução O que realmente ajuda a elevar o filme de uma produção completamente esquecível é a performance de June Squibb, que tem vivido este incrível (e raro) momento na carreira aos 95 anos. Sua personagem não é uma pessoa fácil, sempre com uma resposta ou tirada na ponta da língua pronta para desarmar e irritar qualquer um, mas Squibb sempre lhe confere uma humanidade que o próprio texto do filme não parece ser capaz em alguns momentos. A relação com Nina é outro ponto-chave; mesmo que longe de ser inovadora ou exatamente distinta, a química de Squibb e Kellyman é palpável e sólida mesmo quando o resto não é. Hollywood está cheia das mesmas histórias sendo contadas a cada ano, de modo que o que as ajuda a se diferenciar uma das outras é a visão de quem assume a cadeira de diretor(a). Em sua estreia na direção, Scarlett Johansson não faz feio, mas tampouco há que possa ser considerado uma visão mais autoral, com exceção da maneira óbvia com a qual ela tenta ditar nossos sentimentos pelos personagens. Felizmente, se o longa poderá ser lembrado por algo, é por servir como plataforma para se maravilhar com as qualidades de uma veterana como June Squibb tendo essa chance como protagonista num momento tão tardio da carreira. Nota: 2.5/5
- Crítica | A História do Som (Mostra de SP 2025)
Um romance oco Foto: Reprodução Os caminhos de dois homens se cruzam em um bar, quando um escuta o outro tocar uma música que cantava com os pais na infância. A conexão é imediata, e todo o bar fica em silêncio para ouvi-los tocar uma outra música. Tal conexão se sustenta em olhares, pequenos gestos, silêncios, ao longo de anos, conforme eles se encontram e desencontram... ou pelo menos é nisso que deveríamos acreditar. Desde o início, o diretor Oliver Hermanus busca criar um drama de imagens e planos bonitos e contemplativos, trazendo seus personagens em diversos ambientes (sobretudo os rurais e naturais) para tratar das suas diferenças – Lionel (Paul Mescal) mais quieto e introvertido, David (Josh O’Connor) mais expansivo e carismático. Hermanus os mergulha na imensidão do mundo para conduzi-los em uma jornada íntima, seja no campo do relacionamento deles quanto da atividade profissional que desenvolvem, coletando canções folk de populações nos EUA profundo. Os melhores momentos do filme vêm justamente desse processo de coleta, da magia que emana a partir da relação que os protagonistas possuem com a música, bem como as figuras com quem interagem. Este bloco é onde Hermanus mais consegue conferir alguma alma à obra, pois só quem é aficionado por música sabe das conexões poderosas que ela pode despertar em nós, bem como as memórias às quais acessamos através de um simples acorde. Foto: Reprodução Mas isso é apenas a parte de um todo que infelizmente se revela bastante vazio. Na sua busca por criar um drama plasticamente bonito, Hermanus faz de A História do Som um filme oco, sem vida ou alguma pulsão. O problema não está na sensibilidade almejada, mas o filme se revela tão plácido que com o passar da sua duração essa placidez se transforma em chatice e nos traz nada mais que desinteresse. Não ajuda muito que o romance do par principal pouco convence. Elogiar as atuações de Mescal e O’Connor é chover no molhado, e os dois têm um ótimo histórico de produções queer em suas carreiras (Todos Nós Desconhecidos e Reino de Deus), mas mesmo com suas competências Hermanus não consegue dar liga suficiente ao romance, desprovido de algum tipo de calor, afeto e química genuínos. A estrutura de percorrer vários anos dos personagens também não chega a ser um problema em si – vinte anos atrás Ang Lee fez isso com maestria em O Segredo de Brokeback Mountain – mas a maneira como o filme escolhe aprofundar ou ocultar os personagens é. Sem maiores spoilers, essa história é muito mais sobre Lionel do que sobre David, e mesmo que flashbacks na segunda metade da obra mostrem mais do que ambos viveram, não é o suficiente para preencher a lacuna que fica. Na teoria, A História do Som poderia ser um dos grandes romances LGBTQIAPN+ da nossa geração, mas o saldo final é tão frio e desalmado que é difícil sentir algo pelo (suposto) amor que esses personagens viveram. Revela-se um todo desconjuntado, onde a conexão dos protagonistas e a relação de ambos com a música não conversam entre si o suficiente para que o que vejamos em tela soe genuíno. Há beleza? Há, mas ela chama demais a atenção para si mesma e é incapaz de esconder o vazio onde deveria haver um coração para um filme que se diz tão sensível. Nota: 2.5/5












