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- Crítica | Você (2ª temporada, parte 2)
Como confiar em um narrador não confiável? Foto: Divulgação Após o lançamento da primeira parte da quarta temporada de ‘Você’, a Netflix termina mais um capítulo da história de Joe Goldberg (Penn Badgley) com a adição de cinco episódios finais, repletos de reviravoltas cronológicas. Nesse âmbito, tentando surpreender o seu público e corrigir alguns erros de coerência narrativa, a produção explora um artifício divisor de opiniões – a estratégia do narrador não confiável. Com o fim da primeira parte, enfim descobrimos quem é o “eat-the-rich killer” e também stalker de Joe nas horas vagas. Essa revelação não causa alívio algum para Goldberg, visto que as ameaças e invasões soturnas ao seu apartamento continuam constantes. Ademais, o seu pedante romance com Kate (Charlotte Richie) teve de ser temporariamente interrompido diante do caos dos últimos acontecimentos da série. Um pouco mais tarde, recebemos uma informação que transforma a temporada por completo. Surpreendentemente, as sequências explicativas operam de forma positiva, conseguindo prender o seu espectador de uma forma que a primeira parte não estava conseguindo com muito sucesso. No entanto, me incomoda um pouco quando algum produto midiático priva a audiência de informações e, logo em seguida, traz uma reviravolta que não poderia ter sido antecipada. Esse tipo de dinâmica – a de restringir o acesso do público a cenas primordiais – quando feita sem cuidado, acaba soando caricata demais. Foto: Divulgação Ao longo da temporada, nós temos sim alguns mínimos indícios do que está realmente acontecendo. No entanto, depois de uma exaustiva sucessão de eventos bizarros, como desmembrar corpos em uma serraria (sem ser notado) e provocar explosões em milionárias casas de veraneio, acabamos um pouco exaustos do exagero. Elucidando também algumas qualidades, o rumo tomado pela série não é de todo mal. Alguns conflitos internos de Joe são abordados de maneira interessante, fazendo com que a audiência possa conhecer um pouco mais sobre como sua mente tenta decidir entre fugir do seu instinto assassino ou simplesmente abraçá-lo de uma vez. Outro aspecto positivo da série é a ótima atuação de Tati Gabrielle como Marianne. Tenho dito que grande parte do terror construído neste final de temporada se dá em função da brilhante performance da atriz. Em conclusão, ao fim do último episódio da quarta temporada, temos um Joe mais maníaco e violento do que nunca. Em meio a tantos voice overs e longos monólogos, a quinta e última temporada de ‘Você’ terá que enfrentar o desafio de encontrar um desfecho prático e racional para a história de Joe. De fato, acredito que essa é a única saída para que a série consiga dosar os seus absurdos e cansativos excessos. Nota: 3/5
- Crítica | Você (4ª temporada, parte 1)
Nova temporada se revela um verdadeiro murder mystery mal executado Divulgação: Netflix Batendo recordes de audiência desde a sua estreia, Você representa, atualmente, uma das mais relevantes produções da Netflix. No entanto, após três anos de sucesso ao explorar os alvos individuais do perseguidor Joe Goldberg (Penn Badgley), a primeira parte da sua nova temporada não tem medo de ousar e converte o seu formato inicial para uma verdadeira investigação criminal. Mas, afinal, será que essa reinvenção foi compatível com o percurso trilhado pela série até então? Após o seu embate final com sua ex companheira Love Quinn (Victoria Pedretti) na terceira temporada, Joe é novamente acometido por sua clássica dose de sorte e recebe uma nova identidade – Jonathan Moore, residente de Londres e professor de literatura. Seu objetivo principal é encontrar Marianne (Tati Gabrielle) e ter o seu sonhado recomeço. O que Joe não esperava era acabar envolvido numa rede de assassinatos acerca de um grupo da elite londrina e ainda receber constantemente mensagens ameaçadoras, protegidas por um aplicativo de anonimato. Agora, o protagonista terá que redirecionar o seu instinto obsessivo para outro lugar e descobrir quem está por trás disso tudo. É assim que a quarta temporada de Você se transforma em um verdadeiro murder mystery, com referências claras aos contos de Agatha Christie. Inclusive, o próprio Joe abraça o seu espírito Hercule Poirot e sai por aí com o seu ilustre boné, invadindo locações e coletando pistas. Por mais que alguns desses atos atos sejam característicos do personagem, algo sobre ele parece extremamente fora do lugar – a facilidade com que Joe consegue domar seus pensamentos predatórios soa quase incoerente, de forma com que o espectador até se esqueça do seu (enorme) currículo de vítimas. Divulgação: Netflix Infelizmente, o desenrolar do roteiro da série não surpreende positivamente. Uma das causas principais para que isso aconteça é a amálgama de personagens detestáveis que estão inseridos nesse novo ciclo de amizades de Joe – não apenas porque são herdeiros multimilionários sem consciência de classe, mas também porque são caricatos ao extremo e não possuem carisma algum. Até mesmo a vizinha de Goldberg, Kate Galvin (Charlotte Ritchie), que possui o maior arco dentre o grupo, não consegue cativar a audiência e nem promover apego do público para com a personagem. Resta para o próprio Penn Badgley a total responsabilidade de atribuir o tom carismático que a primeira parte da quarta temporada tanto necessita. De certa forma, um ponto interessante, abordado em temporadas anteriores, é o desprezo de Joe por qualquer pessoa que possua características semelhantes com ele mesmo. Como os pensamentos do personagem são frequentemente expostos em um modelo de narração, conseguimos perceber a facilidade com que Joe consegue se convencer da boa intencionalidade dos seus atos, por mais brutais e violentos que eles sejam. Tanto com Love, quanto com o suposto perseguidor anônimo de Londres, o protagonista entra em um verdadeiro curto circuito mental ao ser colocado em posição de igualdade com aqueles que também possuem um despertar assassino. No mais, o mistério central ‘who did it?’ possui algumas amarras interessantes, porém sua conclusão é extremamente blasé. Embora a revelação do assassino seja surpreendente, infelizmente também é em partes irrelevante, já que o suspense construído não seduz o espectador o suficiente para impactar com seu episódio final – mas que ao menos consegue fornecer boas sequências de ação. Talvez se os motivos primordiais que estruturam o mistério fossem melhor explorados, essa mudança de gênero pudesse colher um desfecho mais impactante. Esperamos que na segunda parte da quarta temporada, disponibilizada no dia 9 de março pela Netflix, haja um alinhamento geral de todos os aspectos desconexos da parte um. Obviamente, estaremos no aguardo para testemunhar como será o confronto final de Joe e seu novo inimigo. Nota: 2,5/5
- Crítica | RRR: Revolta, Rebelião, Revolução
Porém, esse fator só eleva a fascinação com uma obra que se configura como o melhor blockbuster de 2022
- Crítica | Downton Abbey: O Grande Final
O filme mostra mais uma vez como a alta sociedade britânica precisou se moldar às transformações históricas Downton Abbey: O Grande Final mostra que tudo o que já teve intensidade e brilho, cedo ou tarde se apaga
- Crítica | Cobra Kai (6ª temporada)
Com um desfecho sólido e emocionante, a série mostra que é, e sempre foi, sobre Johnny Lawrence. A primeira, lançada em julho de 2024 nos recebeu com a aparente derrota de Terry Silver (Thomas Ian Griffith
- Crítica | Raymond & Ray
Até que ponto conhecemos de fato nossos pais? Divulgação: Apple TV+ “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!” - Eclesiastes 7.2 Existem certos atores que, uma vez que contracenam juntos pela primeira vez, é inevitável não se perguntar por que nunca vimos antes uma parceria entre ambos. Assistir Ewan McGregor e Ethan Hawke como (meio) irmãos em Raymond and Ray é se ver diante dessa pergunta, já que a química dos dois atores corresponde à alma do filme, que é sempre melhor quando os coloca juntos. Na história, os irmãos se reúnem após a morte do pai, em cujas mãos sofreram na infância e que agora deixa uma nada ortodoxa lista de desejos para o funeral. Com exceção do nome, quase nada há em comum entre os dois: Raymond (McGregor) é um tipo certinho e afeito a rituais e rotinas, mas já encarou dois divórcios e provavelmente passará pelo terceiro; já Ray (Hawke) é um ex-viciado em heroína que outrora foi um músico de jazz, mas agora vive isolado, embora não tenha perdido seu magnetismo para as mulheres. São homens de meia-idade que carregam consigo muita raiva (explícita no caso de Ray e oculta no caso de Raymond) e questões paternas mal trabalhadas, mas ainda assim há uma cumplicidade e entendimento latentes entre eles desde o início, algo que é bastante fundamentado nas primorosas atuações de McGregor e Hawke – ainda que o roteiro às vezes peque pelo excesso de frisar os traumas que ambos carregam através de diálogos mais expositivos. Apresentando um relativo equilíbrio entre a comédia e o drama, o filme traz seus momentos de humor através dos pedidos cada vez mais absurdos deixados pelo pai dos protagonistas e suas reações igualmente absurdas. Um dos melhores acertos da história é trazer o desconforto palpável dos irmãos diante dos relatos de outras pessoas que conheciam seu pai e como elas conheceram versões muito diferentes das que ambos tiveram acesso. Mesmo entre eles a percepção é muitas vezes discrepante, embora uma das melhores cenas do filme ilustre como há muita negação envolvida. Divulgação: Apple TV+ Se o filme encontra força nas atuações de McGregor e Hawke, o mesmo não pode ser dito aos coadjuvantes; afora Maribel Verdú (que interpreta uma ex-amante do pai que cria um vínculo com Raymond), o restante dos personagens acaba sendo subutilizado. É uma pena ver atores como Vondie Curtis-Hall (como o sacerdote que preside o funeral) e Sophie Okonedo (como uma enfermeira do pai dos protagonistas que se aproxima de Ray) receberem menos espaço do que mereceriam, ainda mais porque o roteiro consegue estabelecer bem como esses coadjuvantes orbitam em torno dos protagonistas. Junte a isso um final um tanto anticlimático e tem-se um enfraquecimento da obra, que poderia ter sido melhor sem perder sua simplicidade. No fim, Raymond and Ray funciona como um veículo para McGregor e Hawke, atores que ostentam trajetórias aclamadas e com diversas similaridades, cada um tendo seus momentos esperados para brilhar. Vê-los finalmente juntos só nos deixa ansiosos por mais da parceria, mas também se espera que elas ocorram em filmes mais memoráveis, visto que aqui temos uma obra moderadamente divertida, dramática e curiosa, mas que não atinge o nível esperado de uma colaboração como esta. Nota: 3,5/5
- Crítica | O Fim da Rua
Filme de David Robert Mitchell finalmente devolve aos dinossauros a aventura divertida, criativa e emocionante que o cinema parecia ter esquecido. Imagem: Divulgação Existe uma pergunta que o cinema de dinossauros vem tentando responder há décadas: como fazer uma boa aventura com criaturas pré-históricas sem simplesmente repetir Jurassic Park? A resposta parecia cada vez mais difícil. Desde Jurassic Park III, em 2001, poucos filmes conseguiram transformar dinossauros em uma aventura realmente memorável. A própria franquia que tentou renovar esse universo na última década, Jurassic World, acabou presa a uma nostalgia que parece nunca encontrar seu próprio ritmo. Os três filmes da nova trilogia fizeram muito sucesso nas bilheterias, especialmente porque dinossauros continuam sendo uma das apostas mais seguras do cinema comercial. O problema nunca foi o público. Foi a qualidade. Depois de duas continuações pouco inspiradas, Jurassic World: Renascimento surge como uma nova tentativa de recuperar o encanto da franquia, mas também não consegue entregar tudo aquilo que promete. No fim das contas, não deveria ser tão difícil. É só fazer um bom filme de aventura com um roteiro que funcione. Parecia difícil demais, até chegar O Fim da Rua. Dirigido por David Robert Mitchell, cineasta responsável por Corrente do Mal (2014) e Under the Silver Lake (2018), o filme parte de uma premissa deliciosamente absurda: após um misterioso evento cósmico, uma rua suburbana é arrancada de seu cotidiano e transportada para um lugar desconhecido, onde seus moradores descobrem que estão cercados por dinossauros. No centro da história está a família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway), Dan (Ewan McGregor) e os filhos, que precisam sobreviver enquanto tentam entender o que aconteceu com o lugar que chamavam de casa. É uma ideia simples, mas Mitchell entende algo fundamental: não é preciso inventar uma mitologia gigantesca para fazer um bom blockbuster. É preciso saber contar uma história. E O Fim da Rua sabe. O grande mérito do filme está justamente em recuperar uma sensação que o cinema comercial parece ter perdido. Há algo de Amblin em cada esquina de Oak Street. A fotografia, os planos longos pelos subúrbios, os carros antigos, a trilha sonora grandiosa e até o uso de split diopters criam uma atmosfera que remete diretamente ao cinema de aventura dos anos 1980. Mas David Robert Mitchell não transforma essa referência em simples nostalgia. O diretor absorve aquele espírito e o mistura ao seu próprio cinema. O resultado é um filme que consegue ser divertido, assustador, cruel e, principalmente, surpreendentemente humano. Porque, embora os dinossauros sejam obviamente a grande atração, O Fim da Rua é também uma história sobre uma família que está desmoronando. Denise e Dan não estão exatamente vivendo o melhor momento do casamento. A comunicação entre os dois está quebrada, os filhos estão cada vez mais distantes e aquela imagem de família suburbana perfeita começa a revelar suas rachaduras. Quando o mundo literalmente deixa de fazer sentido, eles são obrigados a fazer aquilo que não conseguiam fazer dentro de casa: conversar, confiar uns nos outros e permanecer juntos. Anne Hathaway funciona como a espinha dorsal dessa família. Sua Denise é a força que mantém todos de pé, especialmente quando a situação exige que ela abandone qualquer ideia de normalidade. A atriz encontra o equilíbrio perfeito entre a mãe protetora e a mulher aterrorizada diante de uma situação que não consegue compreender. (E, sim, existe um momento em que Anne Hathaway simplesmente explode um T-Rex com uma espingarda). E é exatamente esse tipo de absurdo que faz o filme funcionar. Ewan McGregor também está muito bem, especialmente porque seu personagem complementa a energia de Hathaway sem disputar espaço com ela. Os dois possuem uma dinâmica convincente e conseguem vender tanto os momentos de tensão quanto aqueles pequenos instantes de humor que impedem o filme de ficar pesado demais. Imagem: Divulgação Mitchell também entende que dinossauro funciona melhor quando é tratado como ameaça. Em vez de transformar cada criatura em uma atração de parque temático, o diretor brinca com suspense, escala e expectativa. Algumas sequências são genuinamente tensas e fazem um ótimo uso do espaço suburbano, transformando casas, ruas, quintais e carros em elementos de sobrevivência. O filme também não tem medo de ser cruel. Apesar da estética de aventura familiar, O Fim da Rua ultrapassa algumas expectativas do que normalmente se espera de um blockbuster desse tipo. Há violência, imagens sangrentas e momentos capazes de arrancar o espectador da cadeira. E talvez seja essa mistura que torne o filme tão especial. O Fim da Rua parece, ao mesmo tempo, Tubarão, Os Goonies, Jurassic Park, Sinais e aquele tipo de aventura de verão que Hollywood simplesmente não faz mais. Só que não é uma colagem vazia de referências. Mitchell usa esse imaginário para construir algo próprio. É uma carta de amor aos blockbusters de outra época, mas sem esquecer que nostalgia, sozinha, não sustenta um filme. Há problemas, claro. O mistério envolvendo o fenômeno que transporta Oak Street para aquele mundo é tratado de maneira um pouco superficial. Algumas respostas parecem menos importantes para o roteiro do que deveriam e, quando chega a hora de explicar o que realmente está acontecendo, o filme opta por caminhos que podem deixar parte do público insatisfeita. O encerramento também chega de maneira abrupta, deixando a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas melhor. Nada disso, porém, destrói a experiência. Porque O Fim da Rua entende algo que a franquia Jurassic World parece ter esquecido: um filme de dinossauros não precisa ser uma grande operação de nostalgia, nem precisa explicar cada detalhe de seu universo. Ele precisa ser divertido.E esse é, talvez, o maior triunfo de David Robert Mitchell. Depois de tantos anos esperando que os dinossauros voltassem a proporcionar uma grande aventura, finalmente temos um filme que entrega exatamente isso. O Fim da Rua é engraçado, emocionante, assustador, visualmente inventivo e surpreendentemente tocante. Uma máquina de entretenimento enxuta e feroz, que sabe quando acelerar, quando desacelerar e, principalmente, quando simplesmente deixar um dinossauro entrar em cena. No fim, talvez a solução sempre tenha sido mais simples do que parecia: era só fazer um bom filme. Nota: 4/5
- Crítica | Raquel 1:1
Perguntas respondidas ou não, Raquel 1:1 vence quando mostra com beleza e sutilidade que toda e qualquer
- Crítica | The Pitt (2ª temporada)
imaginar o peso do anúncio da segunda temporada de The Pitt, série cuja estreia foi sucesso absoluto de crítica Nunca houve promessa de fanservice, e cobrar isso agora é menos uma crítica válida e mais um erro de
- Crítica | Peaky Blinders: O Homem Imortal
Imagem: Divulgação Quando a última temporada da série foi ao ar em 2022, eu tive a impressão que Steven
- Crítica | Rota 66: A Polícia Que Mata
Além de serem moradores de áreas periféricas, os três também eram pretos e morreram entre 2019 e 2022 “Rota” aproveita o embalo e faz uma breve, mas extremamente pontual, crítica aos programas policiais É preciso fôlego para chegar até o final de “Rota 66”, que inclusive vai além do contado no livro e mostra
- Crítica | Bebê Rena (Minissérie)
Richard Gadd se desnuda em confissão assustadora e franca sobre perseguição e autoconhecimento Foto: Divulgação Baseado em uma impressionante história verídica, Bebê Rena segue o relacionamento distorcido do comediante Donny Dunn (Richard Gadd) com uma perseguidora e o impacto que isso tem sobre ele quando ele é finalmente forçado a enfrentar um profundo trauma enterrado na escuridão. Richard Gadd é criador, produtor, roteirista e protagonista da minissérie que se inspira em fatos que ocorreram na sua vida e que anteriormente haviam sido adaptados para um monólogo de teatro homônimo. Escolhi começar saudando e exaltando a mente por trás da produção porque não existem muitos trabalhos por aí que tratem com tanta honestidade e crueza tantos assuntos sensíveis e comuns a contemporaneidade. Gadd quer mostrar com as dissecações da sua mente e seu corpo que os desdobramentos da perseguição que sofreu e sua condescendência são resultados intrínsecos à suas condições psicológicas e físicas. E isso é apresentado com detalhes, com minúcia e com uma verdade que chega a ser constrangedora, afinal, vivemos condicionados, para o bem e para o mal, a nunca nos expormos assim sem reservas. O roteiro nunca tenta posicionar a personagem da stalker, Martha (Jessica Gunning), como vilã ou como mocinha apesar das desastrosas consequências que suas atitudes trazem. Gadd se preocupa em querer que o espectador conheça como ele quis conhecer os motivos dela agir daquela forma e, antes de qualquer outro sentimento, ele se compadece dela quando começa a medir com sua régua moral. Foto: Divulgação E esse ensaio da psiquê é onde o programa se desdobra e engole qualquer expectativa do espectador. Ao contar uma história que - alerta de gatilhos ao assistir - passa por abuso sexual, abuso psicológico, abuso de drogas, preconceito e aceitação, a importunação de Martha não chega a perder seu impacto, mas conseguimos entender a falta de, digamos, uma reação imediata pelo protagonista. E a aceitação citada tem vários caminhos que passam pela aceitação (e descoberta) sexual e aceitação (e reconhecimento) profissional, mas que convergem na busca pela validação da própria existência. Desde Bojack Horseman que não assistia a uma série que compacta tantos conteúdos de tratamento complicado com tamanha espontaneidade. Gadd é indubitavelmente a estrela de sua série, mas é difícil pensar em como seria o resultado sem a força, sem a delicadeza e sem a imponência de Jessica Gunning. A atriz vai se revelando aos poucos e com cuidado vai construindo uma personagem complexa e intrigante. Destaque também para a atuação bastante alinhada e bem-posta da mexicana Nava Mau. As cineastas Weronika Tofilska e Josephine Bornebusch trabalham em uníssono e se dividem na direção dos 7 episódios que funcionam de forma homogênea e se resolvem bem tanto no panorama geral quanto de forma individual. Elas exploram os mais variados recursos da linguagem para se moldar a cada grande momento, sem perder a unidade. O final cíclico encerra muito bem a intensa saga dos personagens. É uma série que é contra o preto no branco, contra a dicotomia de problemas pessoais, contra o reducionismo preguiçoso. Gadd tinha um monte de coisa para falar e fala sem pressa, com paciência e de forma genuína. Nota: 5/5












