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  • A MENINA QUE VOA: Filme biográfico sobre Daiane dos Santos será dirigido Yasmin Thayná e co-produzido por produtora de Viola Davis — Mercado de Cannes

    Em fase avançada de desenvolvimento, o roteiro é assinado por Flávia Vieira e Janaína Tokitaka e está presente na Marché du Film 2025 Divulgação A produtora Ashé Ventures, co-fundada por Viola Davis, se uniu à Maria Farinha Filmes e Vitrine Filmes na coprodução de A Menina que Voa, cinebiografia da campeã mundial Daiane dos Santos. Dirigido por Yasmin Thayná, o longa conta a jornada de amadurecimento de Daiane, cuja energia inesgotável a levou a se tornar a primeira mulher negra a conquistar uma medalha de ouro em um Campeonato Mundial de Ginástica, deixando um legado eterno no esporte. Em fase avançada de desenvolvimento, o roteiro é assinado por Flávia Vieira e Janaína Tokitaka. O projeto já passou pelos laboratórios EAVE+ e EAVE Marketing. Em Cannes, a equipe busca parceiros de coprodução e agentes de vendas. A Menina que Voa é produzido pela Maria Farinha Filmes, em coprodução com Ashé Ventures e Vitrine Films, que também será responsável pela distribuição. “Sempre imaginamos que este projeto tinha o que era preciso para capturar a imaginação do mundo, e é um encontro feliz ter a Ashé compartilhando essa visão conosco nesta histórica coprodução brasileira”, disse Luana Lobo, co-CEO e sócia da Maria Farinha Filmes. Divulgação Junto do marido, Julius Tennon, e do produtor Maurício Mota, Viola Davis abriu a produtora audiovisual Ashé Ventures em Salvador (BA). O primeiro projeto foi o podcast baseado na obra "Angola Janga", do quadrinista brasileiro Marcelo D'Salete, que conta a história do quilombo de Palmares e de um dos seus principais heróis, Zumbi. “Vivemos um momento muito especial no Brasil, em que o público busca novos heróis. Temos a oportunidade de transformar este projeto em um grande caso de sucesso local, mas, acima de tudo, global,” completou Maurício Mota, coprodutor e sócio da Ashé Ventures. Entrevistamos Yasmin Thainá recentemente para falar sobre Virgínia e Adelaide, sua produção mais recente, co-dirigida com Jorge Furtado. Leia aqui.

  • A PALAVRA QUE RESTA: Drama de Fernando Nogari baseado no livro de Stênio Gardel será ambientado no Ceará — Mercado de Cannes

    Filme deve ter Linn da Quebrada e Irandhir Santos no elenco e está em busca de financiamento e distribuição Divulgação Com vasta experiência na direção de vídeos musicais (como ‘ Baila Conmigo’ de Selena Gomez e Rauw Alejandro e ‘Alibi’ de Sevdaliza, Pabllo Vittar e Yseult), Fernando Nogari fará sua estreia no comando de um longa-metragem com A Palavra que Resta, adaptação do livro de Stênio Gardel. Na trama, aos 71 anos, Raimundo decide aprender a ler e a escrever. Nascido e criado na roça, não foi à escola, pois cedo precisou ajudar o pai na lida diária. Mas há muito deixou a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, há mais de cinquenta anos, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar pistas, a não ser aquela carta que Raimundo não sabe ler ― ao menos até agora. A obra do cearense Stênio Gardel foi lançada no Brasil em 2021 e, com uma narrativa sensível e magnética, nos leva pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento de sua sexualidade, mas também das novas relações que estabeleceu depois de fugir de casa e cair na estrada, ressignificando seu destino mais de uma vez. Em busca de financiamento e distribuição no mercado de Cannes, A Palavra que Resta é produzido pela Pródigo Filmes, produtora brasileira responsável pela série dramática Spider, sobre Anderson Silva, do Paramount+ e pela série dramática Cidade Invisível, da Netflix, em 2021. Armando Praça desenvolveu o roteiro baseado no romance e os co-presidentes da Pródigo, Francesco Civita e Beto Gauss, assinam a produção. A Pródigo escolheu Nogari para dirigir o longa após tê-lo dirigido em comerciais e outros curtas-metragens. A empresa também mantém uma joint venture em produção publicitária com a Iconoclast da França — parceria da qual surgiu o desenvolvimento do filme A Palavra que Resta. Divulgação Em matéria do Deadline, A Palavra que Resta é descrito como: "O filme será centrado em Raimundo, um homem analfabeto cujo amor adolescente por outro rapaz foi brutalmente descoberto 30 anos antes. Agora, aos 45 anos e levando uma vida tranquila na cidade, ele é assombrado por seu passado secreto até que forma uma amizade inesperada com Suzzanny, uma travesti negra, e aprende a ler." Ainda para o Deadline, os produtores Francesco Civita e Beto Gauss revelaram que a Pródigo Filmes adquiriu os direitos do romance antes mesmo de sua publicação em inglês — tradução que, em 2023, venceu o National Book Award na categoria de livros traduzidos — já com a intenção de realizar uma adaptação falada em português. “Este é um filme que precisamos fazer em português... Ele pode realmente ser muito poderoso quando for visto em outros lugares”, afirmou Civita. *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2025, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Com o Brasil como país de honra este ano, acompanharemos de perto os projetos que estão sendo apresentados, explorando as tramas, as equipes envolvidas e as oportunidades que surgem para o cinema nacional no cenário internacional.

  • Crítica | Andor (2ª temporada)

    O magistral (e precoce) encerramento da melhor obra audiovisual já feita no universo de Star Wars. Divulgação Quando Rogue One foi lançado em 2016, havia uma desconfiança em torno do filme, visto ser o primeiro fora da narrativa da saga principal de Star Wars. Essas desconfianças foram rapidamente vencidas, de modo que (sem muito esforço) ele se firmou como o melhor longa da franquia desde que essa passou para as mãos da Disney. Mesmo assim, era natural que uma certa incredulidade envolvesse seu spin-off, Andor, mas em sua primeira temporada Tony Gilroy mostrou que sua visão única para este universo estava muito bem fundamentada, distinguindo-se de praticamente tudo que tínhamos visto até então na franquia, sem deixar de ser inegavelmente Star Wars. Saíam os jedis, siths, a Força e batalhas épicas para se focar nas maquinações políticas, nas nuances e na engenharia da máquina fascista do Império e sobretudo no desenvolvimento de seus personagens. Na segunda e derradeira temporada de Andor, esse foco continua presente, talvez ainda mais intensificado. Cobrindo os quatro anos que separavam a primeira temporada dos eventos de Rogue One e Uma Nova Esperança, essa temporada tinha uma missão árdua, visto que o plano original de Gilroy era que esses quatro anos fossem cobertos em quatro temporadas. Ao desistir de fazer essas temporadas restantes, adotando uma estrutura de três episódios para cobrir cada ano, os riscos da série se perder em sua densidade e num ritmo mais atropelado eram grandes. Que bom ver, portanto, que mais uma vez essas desconfianças foram vencidas. A julgar pelos três primeiros episódios, nem parece que a proposta da temporada é tão ambiciosa assim. Somos levados a um ano depois dos eventos finais da temporada passada, com Cassian Andor (Diego Luna) mais estabelecido dentro da Rebelião e dos planos do misterioso Luthen Rael (Stellan Skarsgard). O ritmo é lento, as costuras entre as tramas não são tão evidentes e o espectador precisa de um tempo para se acostumar àquilo que vemos (e não vemos) em tela. Eventos e ações offscreen se tornam uma norma da temporada conforme saltamos de ano em ano, arco em arco, até chegarmos nos instantes que precedem imediatamente aquilo que assistimos em Rogue One. É bem verdade que, ao comprimir um plano de quatro temporadas em uma, algumas coisas acabam recebendo menos desenvolvimento do que inicialmente se planejou, como é o caso de Yavin IV, que é sugerida no segundo episódio e então volta plenamente estabelecida no sétimo. Mas é um ponto a favor de Gilroy e sua equipe que eles não subestimam a inteligência do público: apesar do nosso desejo por mais, a série confia em nossa capacidade de preencher as lacunas deixadas entre cada arco, mantendo-se fiel à sua proposta, ritmo e atmosfera. Nada de diálogos expositivos para tapar os buracos decorrentes dos saltos temporais, ou de um ritmo frenético que dê conta de um começo mais lento. Seria fácil demais. Divulgação Ajuda muito que Gilroy construa um arco que perpassa boa parte dos episódios e se configura como o mais perto que temos de uma narrativa central da temporada. O showrunner pega a ocupação no planeta Ghorman para usar a estrutura deste segundo ano ao seu favor, de modo que, a cada salto temporal, vemos a intensificação dessa ocupação e das maquinações imperiais. De um plano proposto pelo Imperador Palpatine e executado principalmente pela principal antagonista da série, Deedra Meelo (Denise Gough), vemos a manipulação feita sobre os rebeldes locais – cuja linguagem, vestuário e ações remetem à Resistência Francesa e aos países do leste europeu na II Guerra – até culminar na dominação e opressão completa no oitavo episódio. Esse oitavo episódio, aliás, merece um parágrafo à parte, porque não é só o melhor de toda a Andor, como de qualquer série já feita no universo de Star Wars. Que Gilroy tenha conseguido fazê-lo sob o controle da Disney é um feito e tanto, porque é impossível assistir esse episódio e não pensar no genocídio perpetrado em Gaza pelas mãos de Israel; ainda que tenhamos esse terrível evento atual correspondendo à ficção, é fácil pensar em diversos outros exemplos que ilustram o modus operandi característico do fascismo. Junto ao discurso pungente de Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) no episódio seguinte, tem-se dois dos mais nítidos exemplos que ilustram a capacidade de assombrosa da série de ler a política do nosso mundo e aplicá-la ao universo ficcional mais famoso de todos, sem parecer proselitista ou raso. Há muito mais pelo que se elogiar Andor, como o elenco extremamente talentoso da série, com o destaque a nomes como Kyle Soller, Elisabeth Dulau, Adria Arjona e mesmo coadjuvantes como Kathryn Hunter, Robert Emms, Bem Mendehlson e Alan Tudyk (estes dois últimos voltando de Rogue One), além dos nomes já citados acima. Ou a sensibilidade e riqueza com a qual a série constrói culturas tão distintas e autênticas nessa galáxia tão, tão distante (muitas das quais nunca vimos e provavelmente nunca veremos novamente). Ou os seus valores de produção que excedem e muito os padrões que a Disney trouxe para as outras séries do universo, indicando um orçamento que realmente é visto em tela, e não como uma mera lavagem de dinheiro. Mas o que importa, no fim das contas, é que Andor vai deixar saudade. Poderia ver muito mais temporadas de uma história tão bem pensada e executada, única em tantas maneiras que dificilmente se verá algo nesse nível dentro da franquia. Mas nessas duas temporadas a série sempre apresentou uma maturidade notável, que jamais foi encontrada em nenhuma outra obra de Star Wars. Longe de cair em uma ideia de “realismo” para se validar, mas apostando em elementos reconhecíveis nesse universo e na sua mitologia como bases para criar algo verdadeiramente distinto e notável, Andor conseguiu se elevar para muito além da visão que George Lucas, a Disney ou qualquer outro já teve para se configurar – e digo isso sem medo de estar exagerando – como a melhor obra audiovisual já produzida na história da saga. Nota: 5/5

  • O FUNERAL: Carolina Markowicz prepara sátira sobre elite paulista — Mercado de Cannes

    Projeto da diretora de 'Carvão' e 'Pedágio' reforça presença do cinema brasileiro no circuito global e está em busca de financiamento e coprodução Divulgação Após os bem-recebidos Carvão e Pedágio, a premiada cineasta Carolina Markowicz retorna com um novo projeto: O Funeral, atualmente em destaque no Marché du Film 2025 — o mercado de cinema do Festival de Cannes, que neste ano homenageia o Brasil como país de honra. Misturando drama e sátira, o filme acompanha o impacto da chegada de uma filha ilegítima à tradicional família Hersz, logo após a morte repentina de seu patriarca, obrigando todos a lidar com as inesperadas oportunidades que essa estranha traz. Em declaração ao TorinoFilmLab, Markowicz revela que a proposta de O Funeral é “trazer uma crueza à 'nobreza' de São Paulo. Agora que os movimentos sociais se tornaram mais fortes e barulhentos, essa elite e as corporações estão perdidas sobre como se posicionar. Curiosamente, parece ser menos sobre mudar o status quo e mais sobre manter uma imagem imaculada para proteger os negócios.” A diretora complementa, falando sobre a história do projeto: “O que esperar quando uma estranha aparece, não apenas reivindicando, mas com pleno direito a uma parte do patrimônio? E quando a herança não é apenas financeira, mas também emocional? Essa família representa essa contradição. Pessoal para eles, mas metafórica para o nosso tempo. A tristeza é o sentimento lógico com a morte de Samuel. Mas a raiva e a sensação de perda tomam conta como uma tempestade. Somos seres complicados, tragicomicamente engraçados.” Ada Solomon, produtora romena que serviu como consultora da brasileira no 2024 Pop Up Residency, descreve o longa como “uma versão brasileira de Succession”, destacando seu potencial universal e o mergulho em uma elite inacessível ao grande público. A produção é da Biônica Filmes, com coprodução da portuguesa O Som e a Fúria. O projeto já passou por laboratórios como Pop Up Residency, Torino Film Lab e Berlinale Coproduction Market — e foi premiado com o White Mirror Award no ScriptLab 2025. Reforçamos que O Funeral ainda está em busca de financiamento, coprodução e agente de vendas. Para Markowicz, esse momento é crucial: “A fase de desenvolvimento é o ideal para entender o que o filme está te dizendo... Às vezes, ele pede coisas que você ainda não havia pensado.” 🎧 Entrevistamos Carolina Markowicz e Maeve Jinkings para a 3ª temporada do nosso podcast Pipoca de Ouro. Ouça agora: *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2025, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Com o Brasil como país de honra este ano, acompanharemos de perto os projetos que estão sendo apresentados, explorando as tramas, as equipes envolvidas e as oportunidades que surgem para o cinema nacional no cenário internacional.

  • Brasil é país de honra no mercado de negócios do Festival de Cannes e marca presença com delegação recorde do cinema nacional

    Com mais de 100 empresas, Brasil se destaca no maior mercado audiovisual do mundo, leva filmes às principais mostras de Cannes e reforça sua força criativa global Divulgação De 13 a 21 de maio de 2025, o Brasil será o grande destaque da 78ª edição do Festival de Cannes e do Marché du Film, consolidando sua posição como referência global em criação audiovisual. Em um momento histórico para o setor, o programa Cinema do Brasil lidera a maior participação já registrada pelo país no evento, com mais de 100 empresas integrando a delegação oficial, incluindo produtoras, distribuidoras, agentes de vendas, festivais, film commissions e prestadoras de serviço. Este protagonismo se dá no ano em que o Brasil é celebrado como País de Honra no Marché du Film — o mais importante mercado de negócios da indústria cinematográfica internacional — em comemoração aos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e França. A presença robusta do Brasil em Cannes é resultado de uma articulação coordenada pelo Cinema do Brasil, programa de internacionalização criado em 2006 pelo SIAESP (Sindicato da Indústria Audiovisual de São Paulo), em parceria com a ApexBrasil (Agência brasileira de promoções de exportações e investimentos). Para esta edição histórica, o programa firmou alianças com instituições culturais de grande relevância em todas as esferas de governo. No âmbito federal, conta com o apoio do Ministério da Cultura e da Secretaria do Audiovisual; em nível estadual, com a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo; e no âmbito municipal, com a Spcine e a RioFilme. Essas parcerias são fundamentais para viabilizar a ampla agenda de ações em Cannes e reafirmam o compromisso coletivo com a projeção internacional do audiovisual brasileiro, reconhecendo seu valor cultural, econômico e estratégico no cenário global. “É uma oportunidade incrível termos o Brasil como país homenageado durante o Festival de Cannes, no mesmo ano em que o país ganhou seu primeiro Oscar de Filme Internacional. O estande do Cinema do Brasil funcionará como uma embaixada do país, unindo no mesmo espaço representantes do Governo Federal, estados de SP e Rio e ainda a Prefeitura de SP. Mostrará a união de esforços dos produtores e dos governos em fortalecer cada vez mais a presença internacional do Brasil”, afirma André Sturm, presidente do Cinema do Brasil e SIAESP. Um palco global para o audiovisual brasileiro O Marché du Film é reconhecido como a mais ampla plataforma de negócios do setor cinematográfico, reunindo mais de 14 mil profissionais de 120 países, entre produtores, investidores, distribuidores, agentes de vendas, plataformas de streaming e programadores de festivais. Durante os nove dias do evento, o estande brasileiro no Palais des Festivals será o epicentro das atividades de promoção institucional, encontros de negócios, distribuição de materiais promocionais, sessões de mercado e eventos de relacionamento. A delegação brasileira terá ainda presença em rodadas de coprodução, showcases de projetos em desenvolvimento, painéis temáticos e apresentações estratégicas, com destaque para os encontros promovidos com fundos internacionais, programadores de festivais e potenciais parceiros de coprodução de diferentes países. Essas atividades integram uma agenda construída em colaboração com instituições parceiras, com o objetivo de impulsionar a circulação das obras brasileiras, ampliar o acesso a mercados estratégicos e fomentar alianças duradouras para o fortalecimento da presença do Brasil no circuito audiovisual internacional. Em 2024, o Cinema do Brasil levou 68 empresas ao Marché du Film. Na ocasião, foram contabilizadas mais de 1.000 reuniões de negócios, com USD 11,5 milhões em contratos firmados e expectativa de USD 61,9 milhões em transações nos 12 meses subsequentes. Para 2025, a meta é superar esses indicadores, aproveitando o inédito status de País de Honra. Presença brasileira nas telas de Cannes: saiba as principais seções Além da forte atuação no mercado, o Brasil marca presença em todas as seções principais da programação oficial e paralela do Festival de Cannes. Da Competição Oficial à ACID, passando pela Un Certain Regard, Cannes Classics e a Quinzena de Cineastas, a produção brasileira se destaca por sua diversidade estética, potências narrativas e abordagens contemporâneas. COMPETIÇÃO OFICIAL • O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho UN CERTAIN REGARD • I Only Rest in the Storm / O Riso e a Faca, de Pedro Pinho CANNES CLASSICS • To Vigo I Go, de Karen Harley e Lírio Ferreira ACID – Association for the Distribution of Independent Cinema • The Black Snake / Culebra Negra, de Aurélien Vernhes-Lermusiaux Quinzaine des cinéastes – curtas coproduzidos com o Brasil Quatro curtas-metragens com participação brasileira integram a tradicional Quinzena de Cineastas: • Ponto Cego, de Luciana Vieira (Brasil) e Marcel Beltrán (Cuba) • A Vaqueira, a Dançarina e o Porco, de Stella Carneiro (Brasil) e Ary Zara (Portugal) • Como Ler o Vento, de Bernardo Ale Abinader (Brasil) e Sharon Hakim (França) • A Besta do Mangue, de Wara (Brasil) e Sivan Noam Shimon (Israel) COURTS MÉTRAGES – SELEÇÃO OFICIAL DE CURTAS • Samba Infinito, de Leonardo Martinelli FANTASTIC CUTS – WORK IN PROGRESS SHOWCASE (MARCHÉ DU FILM) Três projetos brasileiros foram selecionados para o showcase de filmes de gênero em finalização: • The World I Know There No Longer Exists, de Thiago Luciano • The Saint, Her Mother, Their Manor and a Dove, de Cíntia Domit Bittar • Love Free Love, de Flavio Frederico e Mariana Pamplona Nas redes sociais do Oxente Pipoca, iremos destacar os filmes brasileiros que estão na Marché du Film 2025, o mercado audiovisual que faz parte da programação oficial do Festival de Cannes. Em cada publicação, você vai encontrar detalhes como: sinopse, equipe envolvida, diretores, produtoras e muito mais que tivermos acesso.

  • Análise | The Last of Us 2x05 (“Feel Her Love”): Quem decide o que merecemos?

    A vingança de Ellie enfim começa a se cruzar com os conflitos em Seattle. Divulgação Com a introdução definitiva do núcleo de Seattle no episódio passado, o arco geral desta temporada (e certamente da próxima) enfim toma forma e avança. Vimos que a busca por vingança de Ellie (Bella Ramsey) parece quase ínfima perante o que está se desenrolando na cidade, com o conflito entre Lobos e Serafitas tomando proporções cada vez maiores, mas da mesma forma que as ações de Abby (Kaitlyn Dever) contra Joel (Pedro Pascal) impactaram profundamente Jackson, aqui as ações da protagonista contra os aliados de sua nêmesis certamente terão um efeito devastador sobre a cidade. Assim como no episódio anterior, temos vislumbres do lado dos Lobos, na cena inicial entre Hanrahan (Alanna Ubach) e Elise (Hettiene Park) que nos introduz ao conceito dos esporos e torna a ameaça do Cordyceps ainda mais aterradora. Gosto desses momentos em que a série se desvincula do jogo para ampliar o escopo desse mundo e mostrar que há muito mais acontecendo além da jornada de Ellie, mas ainda considero bem pouco, com a narrativa ainda muito presa ao material original, mesmo já tendo até aqui mudanças que considero positivas, como a batalha de Jackson no segundo episódio e o maior papel de Dina (Isabella Merced) na trama. Curiosamente, vi alguns comentários sobre como o episódio foi arrastado, pois minha impressão foi o oposto: após um começo mais reflexivo que explora um pouco mais do luto de Ellie por Joel, o episódio se põe em movimento com a sequência dela e Dina no armazém e não para mais. Há um bocado de conveniência na maneira como ambas são encontradas por Jesse (Young Manzino) e a revelação de que este e Tommy se integrarão à trama – novamente, falta mais coragem por parte da série de ir além de certas decisões offscreen em nome da fidelidade, mesmo que o fator surpresa certamente cause impacto para quem não jogou os jogos. Mas felizmente somos recompensados com a visceralidade da sequência no armazém e o pavor absoluto que toma conta na cena envolvendo os Serafitas na floresta, um dos pontos altos da temporada até agora e que nos mostra que a introdução desse núcleo lá no terceiro episódio foi pura enganação. A seu modo ou até mais, eles são muito piores que os Lobos, especialmente por conta do elemento do fanatismo religioso evidenciado no próprio título do episódio, e estou ansioso para ver mais deles na trama geral da série. Divulgação Claro que a cena que renderá a maior repercussão é o embate entre Ellie e Nora (Tati Gabrielle), que marca o primeiro passo na concretização da vingança da personagem. Vemos Nora dizer que Joel “teve o que mereceu”, enquanto antes ouvimos de Dina que, independentemente das coisas que ele fez, não merecia o fim que teve. Quem está certa? Evidentemente que Ellie tem sua resposta, e é interessante notar o espelhamento desta cena com a de Abby matando Joel, ainda que a luz vermelha confira um aspecto muito mais sombrio à protagonista, o que combinado à ótima atuação de Ramsey torna toda a sequência ainda mais visceral e brutal. O corte abrupto para um passado (aparentemente) idealizado de Ellie e Joel já dá a tônica de que o próximo episódio representará uma quebra na trama geral para investigar os motivos da cisão dos dois. Pode ser uma quebra precoce numa temporada que passou rápido demais e tem sido alvo de mais críticas que a primeira – algumas merecidas, outras incabíveis, a meu ver. Seja o que for, Feel Her Love é um passo além na desconstrução e descida ao abismo de Ellie, e se aqui ela deu seu primeiro passo para satisfazer sua vingança, é difícil vislumbrar qual será o último. E ai de Seattle por estar no caminho dela.

  • TRABALHO FANTASMA: Fábio Baldo aposta em sci-fi agro sobre desaparecimento e IA — Mercado de Cannes

    O projeto atualmente em desenvolvimento pela Plano B Filmes e Druzina Content Divulgação Com o Brasil homenageado como país de honra no Festival de Cannes 2025, Trabalho Fantasma, de Fábio Baldo, se destaca no Marché du Film 2025 — o mercado de cinema Festival de Cannes, onde busca de financiamento, coprodução, distribuição internacional e agente de vendas. Sendo descrito como uma mistura de gêneros: ficção científica, romance e agro, a história se passa no interior de São Paulo e acompanha Alda, que trabalha como tratorista em uma usina de cana-de-açúcar que está passando por uma transformação tecnológica para substituir a mão de obra humana. A rotina muda drasticamente quando seu namorado, Marco, desaparece após utilizar um aplicativo de treinamento com inteligência artificial. A partir daí, Alda começa a ser assombrada por um estranho espectro luminoso, o que a faz questionar se seu trabalho continua seguro. Baldo, que também é roteirista do projeto em parceria com Leonardo da Rosa, trabalha há anos na construção do longa, que já passou por importantes laboratórios e fóruns de desenvolvimento nacionais e internacionais, como o Ibermedia Program, FRAPA, Europe–Latin America Co-Production Forum (San Sebastián), MIA Market (Roma), CENA 15 (Porto Iracema das Artes), New Stories Lab (SESC SP/SENAC) e o pitching do Festival de Brasília. A produção é da Plano B Filmes e da Druzina Content, com coprodução da Lazuli Filmes e Filmes da Gruta. A distribuição no Brasil será feita pela Vitrine Filmes. *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2025, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Com o Brasil como país de honra este ano, acompanharemos de perto os projetos que estão sendo apresentados, explorando as tramas, as equipes envolvidas e as oportunidades que surgem para o cinema nacional no cenário internacional.

  • Como ‘O Agente Secreto’ marca um retorno pessoal de Wagner Moura ao cinema brasileiro

    Quarto longa de ficção de Kleber Mendonça Filho concorre à Palma de Ouro em Cannes e marca a primeira colaboração do diretor com o ator baiano. Divulgação Já se passaram mais de 10 anos desde a última vez em que Wagner Moura estreou um filme nacional: Praia do Futuro, do cearense Karim Ainouz, figurinha carimbada no Festival de Cannes. Parece apropriado, portanto, que Wagner retorne ao cinema brasileiro com o filme de outro diretor nordestino que está sempre presente no festival. Dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto concorrerá à Palma de Ouro, a premiação máxima do festival, e acompanha Marcelo (Moura), um acadêmico escondido em Recife em meio à ditadura militar, em 1977, e que se vê involuntariamente em fuga enquanto embarca em um projeto pessoal para recuperar registros enterrados. O longa marca a primeira colaboração entre o diretor pernambucano e o ator baiano. Para Moura, seu retorno ao cinema de seu país se revela profundamente pessoal, após anos de extrema-direita no poder enquanto sua trajetória se consolidava no exterior, estrelando séries como Narcos e Shining Girls e filmes como Guerra Civil. Em entrevista à Vanity Fair, o ator destaca como é bom poder voltar para casa após anos se preocupando se ainda haveria espaço para ele no audiovisual nacional. “Eu estava começando a me preocupar com essa diferença geracional: eu conheço os jovens cineastas brasileiros que estão fazendo essas coisas? Eles estão interessados ​​em trabalhar comigo? Eu passei por tudo isso”, disse ele. O ator afirma ser impossível descrever a importância de se reconectar com a língua portuguesa em um filme que considera ser tão brasileiro: “Javier Bardem disse algo uma vez que eu realmente adoro: Ele trabalha em inglês como se houvesse um grande escritório em seu cérebro, cheio de coisas acontecendo, e quando ele trabalha em espanhol, o escritório está vazio. É uma ótima metáfora. Eu não falava inglês quando era criança; tive que aprender isso. Mesmo quando trabalho em espanhol, é diferente, sabe? Português é minha língua materna. É a cultura também. Este filme, especificamente, foi tudo ao mesmo tempo. Fiquei muito feliz”. Moura também discute a ambientação de O Agente Secreto, que, como Ainda Estou Aqui, tem na ditadura militar brasileira um ponto focal da sua trama. Segundo ele, o filme é sobre como os valores de um governo podem moldar a mente das pessoas em geral, e sobre como aqueles que não estão em conformidade com essa ideia realmente pagam um preço. O ator enxerga nisso um reflexo do próprio Kleber Mendonça Filho, cujos longas de ficção anteriores, Aquarius e Bacurau, foram preteridos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar apesar da aclamação crítica, devido aos protestos do diretor e seu elenco contra os governos Temer e Bolsonaro. Divulgação Por fim, em relação ao processo criativo com Mendonça Filho, o ator afirma que quando o diretor escreveu seu personagem pensando especificamente nele, pensou em algo que ainda não tinha visto Moura fazer. “O desafio para mim foi entender o que o Kleber queria fazer com ele, entender o que ele pensou quando me escalou — que isso também era um reflexo de quem ele é. Ele tem uma compreensão muito precisa do que quer, do tipo de atuação que deseja. Kleber faz você mergulhar no universo que ele está criando, faz você entender o que ele está fazendo, o que ele quer, e então você simplesmente faz. (...) Todos nós ficamos imersos no universo dele”, diz. A estreia oficial de O Agente Secreto ocorre neste domingo (18) em Cannes.

  • Crítica | Lispectorante

    O espírito da obra de Clarice Lispector serve de pano de fundo para a gentrificação de Recife e mais uma atuação fenomenal de Marcélia Cartaxo. Divulgação Em sua entrevista para o Oxente Pipoca (que pode ser conferida aqui), a diretora de Lispectorante, Renata Pinheiro, comentou sobre como se deu seu contato com a literatura de Clarice Lispector ainda durante a infância, quando começou a se entender artista. “A gente tem aquele vazio dentro da gente que só é preenchido em alguns momentos quando você encontra obras como a de Clarice. (...) Eu me lembro que li ela muito criança, depois na adolescência, e nem sei se eu entendia tudo, mas aquilo me deu um certo alívio dessa complexidade que é ser mulher, ser artista”, disse ela. Que apropriado e poético, portanto, que 40 anos após uma das obras seminais de Clarice (A Hora da Estrela) ter sido adaptada ao cinema e revelado ao mundo o talento de Marcélia Cartaxo, a atriz paraibana volte a atuar num projeto de alguma forma ligado à escritora. Embora Lispectorante não seja uma adaptação direta de um dos seus livros, pega o espírito da sua obra – aqui “personificado” na casa em que ela viveu no centro de Recife – para atrelá-lo à protagonista de Marcélia, Glória Hartman, uma mulher de meia-idade que retorna à cidade depois de anos. Vivenciando um sentimento de abandono após o término do seu casamento, Glória parece de alguma forma espelhar o próprio abandono pelo qual o centro de Recife está passando. A gentrificação é um dos tópicos mais importantes do filme, mas Renata opta por não abordá-lo de maneira direta e se limitar a um mero comentário social: prefere retratar esse centro como um espaço sim degradado e negligenciado pelo poder público, mas também cheio de vida, povoado por figuras quase fabulosas (como o par romântico de Glória vivido por Pedro Wagner ou até artistas da vida real em pontas, como Karina Buhr). Nesse sentido, a casa de Clarice Lispector emerge como uma representação desse universo, que abraça ares cada vez mais surrealistas à medida que imerge mais e mais na mente criativa, mas também conturbada, de Glória. Alguns dos melhores momentos do filme vêm com as inserções de sequências oníricas estreladas por ninguém menos que Grace Passô, que surge como uma representação do processo criativo que tantos artistas possuem. Mesmo que curtas dentro da metragem do filme, elas se destacam não só pelo prazer de se assistir Passô, mas por se integrarem à lógica interna da obra e aludirem ao fluxo característico das obras de Clarice. Divulgação É inegável, porém, que o filme acabe adotando um tom ligeiramente repetitivo a partir da sua segunda metade, ainda mais porque alguns dos conflitos inseridos no decorrer da trama (como aquele entre Glória e seu primo, vivido por Tavinho Teixeira) pouco se sustentam ou recebem algum desenvolvimento satisfatório. É como se o longa quisesse trabalhar Glória e aquele macrocosmo de diversas perspectivas, mas fosse mais bem-sucedido em algumas do que em outras. Apesar destes percalços, Lispectorante é eficaz no processo de integrar o caráter único da bibliografia de Clarice Lispector a um universo dotado de um sotaque (inclusive fílmico) deliciosamente próprio. Ajuda muito ter uma atriz do cacife de Marcélia Cartaxo, uma das maiores que já vimos neste país, adentrar de corpo e alma na obra para mostrar que sua relação com a autora não se encerrou lá em A Hora da Estrela, mas segue muito viva, 40 anos depois. Nota: 3.5/5

  • TORNIQUETE: Ana Catarina Lugarini dirigirá história de drama e horror protagonizada por Marieta Severo — Mercado de Cannes

    Longa marca a estreia da curitibana na direção de longas-metragens e está presente no mercado de Cannes em busca de um agente de vendas e de novos festivais Divulgação Marcando a estreia Ana Catarina Lugarini na direção de longas, com roteiro escrito por Alice Name-Bomtempo em parceria com a própria cineasta, o filme Torniquete mistura os gêneros de drama e horror e segue três mulheres que precisam lidar com o impacto de mais uma invasão traumática na casa onde vivem. Narrando a história da pré-adolescente Amanda e a recente mudança para a casa de sua avó Lucinda com sua mãe Sônia. O imóvel é assaltado e as três saem com vida, mas Amanda sai também com uma ferida no rosto. Enquanto Amanda passa a ser ridicularizada pela sua aparência, tanto a rua quanto a casa se tornam ambientes hostis para ela. Estrelado pela veterana Marieta Severo e com Sali Cimi e Renata Grazzini completando o trio principal, Marieta não se limitou apenas a dar vida à avó Lucinda — ela se envolveu profundamente com o projeto e assumiu o papel de produtora associada. Elenco e produção de Torniquete Aos 30 anos, Ana Catarina Lugarini dirige seu primeiro longa, mas traz a experiência de quem fez direção assistência para Aly Muritiba em vários trabalhos. Dirigiu ainda o curta “Da janela vejo o mundo” (2021) e atuou como assistente de direção, entre outras áreas do cinema, até se tornar diretora. Gravado em Curitiba (PR) em 2023, Torniquete já está finalizado e tem estreia marcada para o Olhar de Cinema 2025, o filme está presente no mercado de Cannes em busca de um agente de vendas e de novos festivais. Torniquete é produzido pela Sambaqui Cultural em coprodução com a Veleiro Azul Filmes e tem distribuição no Brasil pela Boulevard Filmes e Vitrine Filmes. *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2025, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Com o Brasil como país de honra este ano, acompanharemos de perto os projetos que estão sendo apresentados, explorando as tramas, as equipes envolvidas e as oportunidades que surgem para o cinema nacional no cenário internacional.

  • Crítica | Adultos (1ª temporada)

    Contemporânea e diversa, nova série de comédia do FX sabe usar isso a seu favor de forma hilária. Divulgação A premissa é simples e você já viu/ouviu/leu milhares de vezes: cinco amigos de vinte e poucos anos morando juntos em Nova York. Seinfeld, Friends, Living Single, How I Met Your Mother e eu poderia passar horas citando casos de sucesso e até alguns fracassos, mas vou focar em Adultos, porque para ter sucesso tem que ter identidade própria e felizmente é o caso aqui, como é notório desde a fantástica primeira cena. Samir (Malik Elassal) vive com Issa (Amita Rao), Billie (Lucy Freyer) e Anton (Owen Thiele) na casa onde cresceu no Queens e logo menos Paul Baker (Jack Innanen), namorado de Issa, se junta ao grupo na residência. O quinteto é um poço de carisma, e por mais que tentem ser corretos, têm sempre as piores ideias de como ser um adulto funcional, mas pelo menos estão sempre lá para apoiar uns aos outros. Eu já estava bem ansioso para conferir a série desde que ela foi anunciada por adorar esta premissa que já quase um “subgênero” da comédia e a produção conseguiu me surpreender. É escrachada sem pedir desculpas por isso, doa a quem doer e o texto é uma metralhadora de piadas cheias de referências, em que, algumas vezes, eu tive que voltar para não perder nada. É um humor satírico e muito afiado do que é ser um jovem de vinte e poucos na sociedade atual, com toda a tecnologia a nossa disposição e ao mesmo tempo aborda algumas situações que são universais de qualquer época e como os personagens não sabem lidar com aquilo, seja com hospitais ou tentar dar um jantar em casa, por exemplo. O que não me agrada tanto, também devo dizer, é que em determinadas cenas, o roteiro parece emburrecer os personagens. Claro que a meta é que seja uma piada, mas comigo não funciona e soa desnecessário no desenvolvimento individual deles. É uma coisa mínima e que não faz tanta diferença no panorama geral, mas nas vezes que aconteceu, me incomodou. Ainda bem que logo em seguida outra piada já surgia e eu estava gargalhando de novo. Divulgação Falando nos personagens, temos cinco protagonistas que dividem uma química gigantesca – o que é essencial em séries assim. Todos têm personalidades bem definidas, mas não caem puramente em estereótipos, ainda que não fujam totalmente deles. O elenco é diverso e talentoso e todos têm suas chances de brilhar, principalmente no timing cômico, com a diversidade de gênero, orientação sexual ou raça se fazendo presente, mas desde sempre inseridas organicamente, como é o mundo em que vivemos. Tenho que destacar a excelente Amita Rao na pele da deliciosamente egocêntrica Issa, que é engajada em diversas causas sociais e jura que isso a faz ser uma boa pessoa, como se ela não o fizesse apenas para satisfazer o próprio ego. É tanto absurdo que sai da boca dela, mas a minha risada era certa. A noção passa longe, mas de todos eles, por mais que as intenções sejam decentes, eles definitivamente não são as melhores pessoas. Mas também não são as piores e a série sabe trabalhar isso no laço de amizade que os une e em como realmente são uma família disfuncional. A intriga entre o grupo talvez fique para a próxima temporada com um possível triângulo amoroso que foi sendo muito bem construído debaixo do nosso nariz, que é inclusive o gancho do último episódio – porém, sem spoilers por aqui. Um outro ponto que muito me agradou é que realmente é uma série episódica. Onde há um desenvolvimento do todo, mas cada episódio tem sua história central com começo, meio e fim. Temos o episódio do esfaqueador à solta, que é o terceiro e é um dos melhores do ano. São 20 minutos de chorar de rir em que o roteiro brinca com o exagero, mas que não deixa de ser plausível. Como boa parte desta temporada inaugural, que também ganha destaque no sexto episódio, que tem participação de Charlie Cox, onde há uma festa de jantar – ou tentativa pelo menos. São oito episódios e passam voando com os amigos navegando por diversos causos da vida adulta e sem ter a menor ideia de se encarregar deles, o que não deixa de ser identificável para qualquer um. E por mais que eles passem dos limites no humor, a primeira cena do piloto já te deixa esperto e você não segue desavisado, porque a sequência seguinte já dá uma quebra de expectativa e dita o tom que se seguirá adiante. A 2ª temporada ainda não foi confirmada, mas espero não ficar muito tempo sem esta galera porque ainda há muito para se ver e viver ali. Nota: 4/5

  • Entrevista | Marcelo Caetano fala sobre “Baby” e sua participação como jurado da Queer Palm em Cannes

    O diretor abordou a representação de histórias LGBTQIA+ no cinema contemporâneo, a importância do centro de São Paulo para suas histórias e sua presença na atual edição de Cannes. Divulgação O Brasil estará presente em peso na 78ª edição do Festival de Cannes, que inicia nesta terça-feira (13). Além da presença de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, na competição pela Palma de Ouro, bem como produções nacionais participando do Marché du Film 2025 – o mercado de cinema do Festival de Cannes, que este ano homenageia o Brasil como país de honra –, o brasileiro Marcelo Caetano será um dos jurados da Queer Palm neste ano. Mineiro radicado em São Paulo, Marcelo é diretor de Baby, filme que competiu pela Queer Palm do ano passado e estreou nos cinemas em janeiro. No longa, ambientado no centro da capital paulista, Wellington (João Pedro Mariano) sai de um centro de detenção juvenil e se vê sem rumo nas ruas da cidade, sem contato com seus pais e recursos para reconstruir sua vida. Durante uma visita a um cinema pornô, ele encontra Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem mais velho, que ensina ao rapaz novas formas de sobrevivência. Gradualmente, o relacionamento dos dois se transforma em uma paixão conflituosa, oscilando entre exploração e proteção, ciúmes e cumplicidade. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Marcelo, que falou acerca da proposta de representação LGBTQIA+ na obra, bem como da sua visão para o centro de São Paulo e de sua participação como jurado da Queer Palm neste ano. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Recentemente assisti ao Lispectorante, da Renata Pinheiro, que é um filme que discute esse processo de gentrificação e abandono do centro de Recife, mas com um olhar muito carinhoso para esse centro, mostrando o quanto ele ainda é vivo. E eu sinto que “Baby” também dirige um olhar muito carinhoso ao centro de São Paulo, sem deixar de ignorar as problemáticas que o assolam. O que você queria mostrar desses espaços, como você pretendia retratá-lo conforme contava a história de Wellington e Ronaldo? Marcelo Caetano: Baby é o segundo longa que eu filmo no centro, Corpo Elétrico [longa de estreia do diretor] também se passa no centro, e eu fiz aqui também quatro curtas que se passam na região. E eu moro também há bastante tempo aqui na região, na avenida São João, e é uma região em disputa. Eu não sei se a gente consegue dizer que houve gentrificação porque ela nunca conseguiu se efetivar aqui no centro. Se tentou construir várias instituições, se tentou trazer para cá órgãos governamentais, mas ainda assim essa região mantém uma coisa bastante típica do centro de São Paulo, que é esses contrastes que você pode perceber na rua. Então você vai ter a classe média, você vai ter parte da elite intelectual, mas a grande parte são pessoas operárias, da classe trabalhadora, você vai ter os prédios novos ao lado dos prédios modernistas e ao lado dos cortiços das pensões. Você tem os migrantes nordestinos, os migrantes de outros países que vieram viver aqui, ao lado da população queer de São Paulo e de outros lugares do Brasil também, migrantes sexuais. Você vai ter uma diversidade muito grande, vai ter lado a lado um imigrante do Cabo Verde com uma bicha de Belém e uma evangélica trabalhadora do centro de São Paulo. Então para mim é um uma espécie de microcosmo do que a gente consegue ser mais cosmopolita em relação ao Brasil. É, temos aqui todas as mazelas, mas também todas as grandes belezas, né? É um espaço extremamente colorido dentro de uma cidade cinza, é um espaço extremamente musical dentro de uma cidade que tenta ser europeia e burguesa. Então, acho que é muito curioso o centro de São Paulo, e eu tendo a achar que ele é um pouco do microcosmo do Brasil. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando agora sobre os personagens, me chama a atenção como você constrói a relação deles de forma autêntica, mas sem isentá-los de suas falhas e contradições, dando uma dimensão humana a esse relacionamento. Você diria que é uma resposta à maneira um tanto “higienizada” e “comportada” como muitas vezes pessoas e relações queer são representadas no cinema contemporâneo? Marcelo Caetano: Eu acho que tem uma diversidade também muito grande dentro do cinema queer contemporâneo; não sinto que seja só essa higienização, não. Eu acho que tem diversas coisas acontecendo que são muito underground e que tratam de formas de cinema pouco convencionais, então mesmo aqui no Brasil a gente teve recentemente o trabalho de vários diretores. Eu posso citar o Salomé do André Antônio, que é um filme que tem um tipo de abordagem bastante radical em relação ao que seria o cinema queer. Mas pensando no meu filme, no que eu tento fazer, eu acho que a gente só consegue trazer profundidade para o cinema se a gente trabalha com contrastes. Ainda na ideia do que eu falava do centro de São Paulo, também pensando em termos de dramaturgia, eu acho que os personagens só são fortes, só têm profundidade, só vão atingir de questões metafísicas e existenciais se existe contraste dentro da construção deles, se existe contraste entre os encontros que você possibilita dentro de um filme, de pessoas muito diferentes, de encontros que eles são não impossíveis, mas improváveis. E, dentro da formação de cada personagem, é tentar trazer elementos que em um primeiro momento nos recorreria a julgar, a trazer uma visão moral, e ao mesmo tempo humanizar no sentido de dizer que, para além dos nossos preconceitos, nossos julgamentos, da nossa necessidade de acusar, existe ali uma série de circunstâncias, uma série de contradições, uma série de desejos reprimidos que muitas vezes vêm à tona, que quando você coloca isso tudo dentro de um personagem, ele fica muito complexo. Então essa complexidade é o que me interessa, e ela vem justamente de imaginar que dentro da gente habitam contrastes, habitam contradições e eu não acredito que seja um trabalho condescendente ou indulgente em relação aos personagens. Eu acho isso uma visão totalmente torpe, equivocada sobre o Baby. O que eu acho que acontece com esses personagens é que habitam dentro deles sentimentos muito contraditórios, vontades que são contraditórias. Eu acho que ao poder falar dessa contradição sem julgar a gente abre um espaço para uma conexão com um tipo de personalidade, de identidade que forma o Brasil e que é bastante complexa, bastante confusa. Ela vem de diversas demandas de sobrevivência e de existência. Então eu sempre me interessei muito em qualquer tipo de arte, não só no cinema, pela construção que parte dos contrastes, que parte das contradições. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ainda falando sobre obras queer, você será um dos jurados da Queer Palm em Cannes neste ano. Como você avalia o impacto de estar no festival nessa posição de jurado levando em conta a sua trajetória até aqui? E o que você diria que espera ver para o cinema queer, especialmente o nacional, nestes próximos anos? Marcelo Caetano: Eu acho que essa oportunidade de estar nesse júri tem uma dimensão pessoal e interessante, porque vou assistir 16 longas, então, vou assistir uma produção atual. Boa parte dos filmes selecionados que estão nessa mostra são filmes europeus, e eu gostaria que fosse um espectro mais amplo, mas infelizmente a geopolítica do cinema é bastante cruel. Mas é uma oportunidade muito grande de entrar em contato com essas vozes, com esses pensamentos de cinema. Tem a Julia Ducournau voltando com Alpha depois de ter ganhado a Palma de Ouro com Titane; tem o Enzo do Robin Campillo, que ganhou o Grand Prix com 120 Batimentos Por Minuto; tem filme do Lucio Castro, o Drunken Noodles. Então tem uma coisa bem interessante em termos das autoralidades desses diretores que estão propondo visões de cinema bastante particulares. Então, acho que tem esse ponto de vista pessoal que é muito bom. O segundo ponto é estar em em diálogo com o júri, e é um júri muito interessante, que tem pessoas de diferentes áreas dentro do cinema, de diretores, curadores, compositores, críticos. Então são cinco pessoas, cada um representando um pouco uma área dessa nossa arte, acho que vai ser um diálogo bastante interessante. O Cristophe Honoré, que é o presidente do júri, é alguém que eu acompanho a obra há muito tempo, desde o Dans Paris, Canções de Amor, até os filmes mais recentes, o Marcello Mio. E eu acho que eu, como único representante do sul global desse júri, vou tentar trazer também um pouco dessa perspectiva dessas outras existências queer, dessas outras possibilidades queer também. E aí se for falar do cinema queer brasileiro, eu acho que a gente chegou num lugar de destaque muito importante internacionalmente. Se a gente ver, o Brasil seja o único país latino-americano que sempre tem filmes em festivais queer, como a Queer Palm e o Teddy Award no Festival de Berlim. A gente tem o cinema do Márcio Reolon, da Juliana Rojas, da Carolina Markowicz, do Gustavo Vinagre, Caetano Gotardo, Ricardo Alves Júnior. Então, acho que é um cinema muito, muito diverso, muito rico e todo mundo vindo com uma proposta de linguagem muito forte, muito afirmativa, está todo mundo ali criando, tentando descobrir como é que se posiciona dentro desses cinemas. Acho que a gente conseguiu com o Baby furar a bolha do cinema queer. A gente fez uma carreira de festivais gerais, mostrando um filme com personagens LGBTs, com uma história de amor de dois homens. Para mim é muito importante que a gente saia do conforto do nicho, que a gente vá discutir com o público mais amplo, porque a gente vive um momento de perseguição, de restrição de direitos. E eu acho que a gente, para além de fazer cinema queer, está fazendo cinema. Em momento nenhum eu deixei de usar coisas que eu acho que são muito típicas da linguagem queer como, por exemplo, o excesso de cor, os movimentos de câmera, os jogos de espelho. Não deixei de ter cenas de sexo, não deixei de ter cenas de sensualidade, não tive que fazer concessões em relação à queerness, mas ao mesmo tempo é um filme que que vai tentar levar isso para um público muito mais amplo. Então, acho que esse é o desafio político desses filmes. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Foi até bom que você tenha citado muitos nomes de diretores e diretoras e de muitos filmes, porque a gente sempre termina as nossas entrevistas aqui no Oxente Pipoca pedindo que os nossos entrevistados indiquem obras nacionais que eles acham que o público deve assistir. Então, dentro desse repertório de filmes, quais você acha que as pessoas deveriam estar assistindo, especialmente nesse âmbito do cinema queer? Marcelo Caetano: Eu vou fazer um pouquinho o papel da história, tá? Vou falar um pouquinho dos do que eu acho que historicamente me tocaram bastante em relação ao cinema queer. O primeiro filme que eu vou citar é O Menino e o Vento, que é um filme do Carlos Carlos Hugo Christensen, um diretor argentino que trabalhava no Brasil, foi filmado nos anos 60. Ele foi filmado, inclusive, na cidade onde os meus pais nasceram [Visconde do Rio Branco-MG], minha mãe faz figuração no filme. Então, então eu já tenho ali o leite materno, um pouco de cinema queer [risos] e foi talvez nosso primeiro filme a falar desse amor proibido. Eu vou citar também um filme super importante, com uma personagem lésbica interpretada pela Betty Faria, que é o Anjos do Arrabalde, o filme do Carlos Reichenbach, de 1987. Eu acho um filme tem uma personagem que é super interessante. E vou indicar também para quem ainda não viu o Tatuagem, do Hilton Lacerda, de 2013. Foi a minha grande escola de cinema, foi o filme em que eu fui diretor assistente e tenho bastante carinho. Acho que quase todo mundo já viu, mas é bom sempre reafirmar porque eu acho que ele faz parte dessa história. Trabalhei meses com Hilton em Recife, pensando e fabulando esse filme que eu acho extremamente importante, justamente nesse movimento que eu falo gente falar desses amores para um público cada vez mais amplo e confrontar a caretice das pessoas.

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