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- Lista | As 15 melhores minisséries disponíveis na HBO Max
Um catálogo rico com diversas pérolas, onde selecionar apenas quinze não foi uma tarefa fácil. Divulgação Quando começou a fazer séries dramáticas lá em 1997, com Oz, a HBO já fez história e algum tempo depois começou a investir em minisséries, com tramas que se encerravam em menos episódios e em apenas uma temporada. Seja um drama sobre a AIDS, a Segunda Guerra Mundial, uma dona de casa ou suspense policial que te fisga de primeira, qualidade não faltava e assim é até os dias de hoje. Agora, temos a HBO Max, o streaming da Warner, que engloba a HBO e também possui produções originais ou licenciados de outros canais, enriquecendo ainda mais o catálogo. Imagino que algumas ausências sejam sentidas, como Pinguim, que fez um merecido sucesso ano passado, mas preferi priorizar estas quinze que têm um alto nível. Se você não assistiu alguma, dê uma chance. Não vai se arrepender. Divulgação 15) The Plot Against America (HBO, 2020) Baseada no livro homônimo de Philip Roth e adaptada por Ed Burns e David Simon, é uma história alternativa onde o antissemita Charles Lindbergh derrota Frank D. Roosevelt e se torna o então presidente dos Estados Unidos, o que faz com que a população adote tendências cada vez mais fascistas. Uma distopia assustadora, onde a tensão é gradativa e quase palpável, amparada por um elenco fantástico como Zoe Kazan, John Turturro, Anthony Boyle, Morgan Spector, Ben Cole e Winona Ryder. Divulgação 14) Mildred Pierce (HBO, 2011) Durante a Grande Depressão de 1929, uma mulher recém-separada do marido e com duas filhas para criar, precisa se reinventar. Estrelada por Kate Winslet e dirigida por Todd Haynes, é um belo melodrama adaptado do romance homônimo de James M. Cain, que já viu as telonas em 1945 e em que Gilberto Braga se inspirou livremente para fazer Vale Tudo. A relação mãe/filha é um ponto chave da trama e Winslet e Evan Rachel Wood estão absolutamente fantásticas. Muitas emoções e reviravoltas compõem o que poderia ser um novelão, mas aqui temos ótimos cinco episódios. Divulgação 13) The Night Of (HBO, 2016) Um estudante americano de origem paquistanesa busca ajuda jurídica após se envolver em um complicado caso de assassinato com fortes conotações culturais e políticas. Quando a melhor noite da sua vida se transforma na sua pior manhã, temos um primeiro episódio espetacular. Riz Ahmed, John Turturro e Michael Kenneth Williams – excelentes, como sempre – estrelam esta busca incansável e impensável por justiça. A minissérie perde um pouco da força perto do final, mas nada que comprometa o ótimo resultado final. Daquelas que quanto menos você souber, melhor. Divulgação 12) Sharp Objects (HBO, 2018) Baseada no romance homônimo de Gillian Flynn (Garota Exemplar), a trama segue uma jornalista que retorna à sua cidade natal para cobrir um caso de assassinato que ocorreu no local. Amy Adams está irretocável como a protagonista e Patricia Clarkson é brilhante no papel de sua problemática mãe. O que parece ser um clichê se transforma em uma história forte sobre maternidade tóxica, que de alguma forma está interligada com a resolução do mistério principal. A cena final é simplesmente arrebatadora e tenha certeza que ela vai ficar na sua memória por muito tempo. Divulgação 11) The Pacific (HBO, 2010) Focada na rotina dos fuzileiros navais estadunidenses durante as batalhas contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial. Outra produção da parceria de Steven Spielberg e Tom Hanks, não consegue ser melhor do que Band of Brothers, mas ainda é excelente. Segue no mesmo cacife de espetáculo visual e a brutalidade da sua “irmã”, com ótimos e carismáticos personagens e é por eles que as coisas ganham uma proporção maior, onde não há romantização da guerra, mesmo que digam que sim. Divulgação 10) Olive Kitteridge (HBO, 2014) Frances McDormand estrela como a protagonista que dá nome à produção, baseada em um livro de Elizabeth Strout. Olive é uma professora de matemática em uma cidadezinha do Maine e vai se transformando em uma mulher cada vez mais ranzinza conforme mudanças acontecem em sua vida. O texto transita com facilidade pelo humor sombrio e o drama durante os quatro episódios e com um elenco soberbo que, além de McDormand, ainda conta com Richard Jenkins. A narrativa mais lenta pode afastar algumas pessoas, mas é um deleite sobre a complexidade humana. Divulgação 9) It’s a Sin (Channel 4, 2021) A única da lista que não é original Max (ainda que tenha o selo no aplicativo) ou HBO, a trama segue um grupo de amigos que vão morar juntos em Londres, no ano de 1981. Mas o que parece ser uma vida apenas de diversão é desafiada pelo surgimento do vírus HIV, que eles tentam ignorar de início, mas se torna cada vez mais presente. Criada por Russell T. Davis, o lado mais caricato da minissérie é tomado pela bonita história de amizade em um período tão difícil, incerto e assustador, onde perdas são iminentes, e é impossível não se emocionar. Divulgação 8) Mare of Easttown (HBO, 2021) Uma moça assassinada em uma cidade pacata e uma detetive com um passado turbulento não são exatamente as tramas mais inovadoras do mundo, mas se sobressair do clichê é o que faz esta minissérie estrelada por Kate Winlest ser tão especial. Tem tudo que se espera dela, mas ainda consegue ser inesperada quando preza pelo drama além do choque e quando desenvolve tão bem a protagonista de Winslet e os coadjuvantes como Julianne Nicholson, Evan Peters e Jean Smart, completamente imersos em fantásticos personagens. O desfecho é um soco emocional e mostra a força de um belo drama policial pautado na tradição. Divulgação 7) Show Me a Hero (HBO, 2015) Baseada em fatos, a decisão de construir habitações populares numa vizinhança branca gera tensão racial na cidade de Yonkers, e Nick Wasicsko, o prefeito mais jovem eleito no local, precisa lidar com toda essa situação. Oscaar Isaac preenche a tela com uma de suas melhores performances, amparado pelo texto de David Simon e William F. Zorzi. Simon é mestre em conseguir ir ao cerne de questões políticas, nos surpreendendo e se aprofundando em diversas vertentes. Se de início parece haver tramas demais, quando elas convergem tudo faz sentido, através de personagens muito bem construídos, interpretados por nomes como Winona Ryder, Alfred Molina, Catherine Keener e Dominique Fishback. O final devastador, ainda que poético, é a cereja do bolo. Divulgação 6) Angels in America (HBO, 2003) Após descobrirem que são portadores do vírus do HIV, dois homens enfrentam os desafios e as implicações sociais, políticas e religiosas de viver com a doença nos anos 1980. Adaptada de uma peça homônima de Tony Kushner, a minissérie é dirigida por Mike Nichols e estrelada por Al Pacino, Meryl Streep, Emma Thompson, Mary Louise Parker, Justin Kirk, Patrick Wilson e Jeffrey Wright. Com este elenco estrelar, a produção aborda diversos temas pertinentes com muita sensibilidade e honestidade e com uma criatividade visual ímpar, desenvolvendo personagens tão humanos. É uma história que transcende décadas e é eficaz em qualquer época. Divulgação 5) I May Destroy You (HBO/BBC, 2020) Criada, estrelada e codirigida pela espetacular Michaela Coel, aqui acompanhamos a história de Arabella, uma jovem escritora londrina despreocupada e confiante, que após uma noite de bebedeira com amigos é vítima de um crime terrível. A sensação de não saber direito o que aconteceu é quase palpável inicialmente e o brilhante texto de Coel faz um retrato cru, mas delicado do que é o abuso, suas diversas formas e o quão devastadoras elas são, afetando a vida pessoal, profissional e as relações das pessoas ao seu redor. São episódios de 20 e poucos minutos que sabem dosar um tema tão pesado com o humor, sem que um prevaleça sobre o outro. O final é absolutamente genial. Divulgação 4) Watchmen (HBO, 2019) Criada por Damon Lindelof é uma visão atualizada da graphic novel de Alan Moore, sobre uma sociedade polarizada em seu repúdio a justiceiros mascarados. Se passando 34 anos depois dos eventos dos quadrinhos, a minissérie é estrelada pela sempre excelente Regina King, e, apesar dos elementos fantásticos presentes, ela não poderia ser mais realista, principalmente na abordagem mais humana. Lindelof é mestre em equilibrar essas coisas, como fez em Lost e The Leftovers e aqui não poderia ser diferente. O texto ambicioso casa com o impacto visual de uma trama, que é eletrizante, política e até engraçada. É coisa de gênio mesmo. Divulgação 3) Chernobyl (HBO, 2019) Conta a história do desastre da Usina Nuclear de Chernobyl de 1986, desde o fatídico dia até suas inúmeras consequências. A dramatização de um dos piores desastres causados pelo homem tem todo o peso que se espera dela. Criada por Craig Mazin, a minissérie passeia pelo drama e o terror de uma forma equilibrada, desenvolvendo bem os personagens que acompanhamos durante os sensacionais cinco episódios, interpretados por atores como Jared Harris, Stellan Skarsgard, Jessie Buckley, Paul Ritter e Emily Watson. Debatendo política e ciência, é uma produção que é atual em qualquer época, seja nos anos 1980 ou 2020. Divulgação 2) Station Eleven (Max, 2021) Em um mundo pós-apocalíptico em que grande parte da população mundial foi devastada por uma gripe, os sobreviventes tentam reconstruir suas vidas após perderem tudo. É uma narrativa baseada na humanidade, como as pessoas são transformadas diante de tragédias e como o poder da arte prevalece em momentos aonde tudo pode ter acabado. É uma minissérie belíssima, visual e emocionalmente, e, mesmo que parta da premissa de mais um apocalipse, Station Eleven foca no que vem depois, em como ter alguma esperança e ter algo pelo quê valha a pena viver e não apenas sobreviver. É irretocável e eu não poderia deixar de mencionar as performances do excelente elenco, com destaque para Mackenzie Davis, Hamish Patel e Danielle Deadwyller. Divulgação 1) Band of Brothers (HBO, 2001) A primeira superprodução da parceria de Steven Spielberg e Tom Hanks é focada no batalhão de paraquedistas estadunidenses recém-saídos do treinamento, encarando a dura realidade de uma jornada pela Europa na Segunda Guerra Mundial. A minissérie tem 10 episódios que te levam à uma experiência imersiva sobre os horrores da guerra, com enormes batalhas espetacularmente filmadas, mas priorizando o lado humano com ótimos personagens, nos apegando a eles, sentindo cada perda e escalonando para algo cada vez mais pesado, que muda para sempre aquelas vidas. É um ritmo intenso onde a destruição toma conta, mas uma fagulha de esperança ao saber pelo que estão lutando dá um norte da grandiosidade da causa. É uma obra-prima.
- Saiba onde assistir aos indicados ao Emmy 2025 no Brasil
Confira onde estão disponíveis em streaming as séries e filmes que concorrem à maior premiação da TV Divulgação: Ruptura no Apple TV+ A Academia de Televisão dos Estados Unidos divulgou hoje os indicados ao 77º Emmy Awards, e preparamos esta matéria para ajudar você que quer maratonar os destaques antes da premiação - ou simplesmente curtir algumas das melhores séries da temporada. Com 27 indicações, Ruptura (Apple TV+) lidera a corrida pelo Emmy 2025 e se consolida como um dos maiores fenômenos da temporada. Logo atrás vem Pinguim (HBO), com 24. Empatadas com 23 indicações, O Estúdio (Apple TV+) e The White Lotus (HBO) também se destacam como favoritas. Fechando o topo da lista estão The Last of Us (HBO), com 16 indicações, e dois empates: Hacks (HBO Max) e Andor (Disney+), cada uma com 14. Quer saber onde encontrar cada uma dessas produções para colocar a maratona em dia? Abaixo, você confere onde assistir às séries indicadas ao Emmy 2025 no Brasil: Netflix: Adolescência A Diplomata Ninguém Quer Arcane Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story Black Mirror As Quatro Estações Assassinato na Casa Branca Sereias Bridgerton Love, Death + Robots Emily em Paris Terra Indomável Zero Day Família Upshaw Dept. Q Big Mouth O Decamerão Cobra Kai Rebel Ridge Nonnas Disney+: Andor Abbott Elementary Paradise Only Murders in the Building O Urso What We Do in the Shadows The Handmaid’s Tale Morrendo por Sexo Não Diga Nada O Dia do Chacal Modernos de Meia Idade Bob’s Burgers Os Simpsons Agatha Desde Sempre Grotesquerie Will Trent Doctor Who HBO Max: The Last of Us The White Lotus The Pitt Pinguim Hacks O Ensaio Somebody Somewhere Efeitos Colaterais The Rightous Gemstones A Casa do Dragão Duna: A Profecia Fantasmas Georgie e Mandy: Seu Primeiro Casamento Mountainhead Super/Man: The Christopher Reeve Story Apple TV+: Ruptura Slow Horses O Estúdio Falando a Real Acima de Qualquer Suspeita Disclaimer* Pachinko Ladrão de Drogas Mal de Família Seus Amigos e Vizinhos Prime Video: Étoile Entrevista com o Vampiro The Boys Invencível Universal+: Poker Face The Traitors Paramount+: 1923 The Handmaid’s Tale Frasier Globoplay: Baseado Numa História Real Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp
- “Nunca senti que era só um filme”: elenco e diretor falam sobre O Deserto de Akin
Em entrevista ao Oxente Pipoca, Bernard Lessa, Guga Patriota e Reynier Morales compartilham como O Deserto de Akin ressoa com o Brasil de hoje. Divulgação Eleito Melhor Filme pelo júri popular do Festival de Vitória, O Deserto de Akin é uma poderosa reflexão sobre pertencimento, afeto e escolhas forçadas por contextos políticos. Estrelado por Reynier Morales, premiado como Melhor Ator no Festival do Rio, o longa acompanha Akin, um médico cubano que, em 2018, atua no Espírito Santo pelo programa Mais Médicos, até a cooperação ser abruptamente encerrada com a eleição de Jair Bolsonaro. A partir da convivência com uma comunidade indígena e dos laços afetivos que constrói com brasileiros, Akin se vê diante de um dilema: voltar a Cuba ou permanecer em um país onde já não pode exercer a medicina oficialmente, mas onde criou vínculos profundos. Para além do contexto histórico, o filme também lida com camadas de memória e emoção. “O filme provoca lembranças, nostalgia, muitas emoções... a gente sabe que é bonito, mas é triste também”, diz Reynier em uma das falas mais marcantes da nossa conversa. O ator compartilha a experiência de interpretar um personagem que fala desde a bondade e que, mesmo diante da dor e da separação, segue buscando acolhimento. O Oxente Pipoca conversou com o diretor Bernard Lessa, a atriz Guga Patriota e o ator Reynier Morales sobre o processo de criação do filme, as trocas no set e o Brasil de dentro e de fora, visto por quem chega, por quem acolhe e por quem resiste. O Deserto de Akin estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 31 de julho. Leia a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Bernard, assistindo "O Deserto de Akin", eu fui imediatamente transportada de volta àquela época com toda a sensação de desespero e angústia que aquele momento provocava. O filme me causou esse impacto, esse reconhecimento profundo. Queria te perguntar: como surgiu a ideia de contar essa história? O que te levou a transformar a situação dos Mais Médicos no Brasil em cinema? Bernard Lessa: Obrigado pelo comentário, Gabi. Fico muito feliz que você tenha sentido isso e trazido essa percepção, porque é algo que tem aparecido muito nas conversas sobre o filme. O Deserto de Akin surgiu justamente naquele momento da pandemia. Comecei a escrever o roteiro enquanto acompanhava as notícias do coronavírus chegando à Europa. Lembro das imagens da Lombardia, com mais de mil mortos por dia, e de como todos que podiam estavam saindo de lá. Na contramão, vimos uma brigada de médicos cubanos indo justamente para o epicentro daquela crise sanitária, enfrentando o desconhecido. Ninguém sabia ainda direito que vírus era aquele, mas eles foram. O mesmo já havia acontecido durante a epidemia de ebola na África. Enquanto países europeus retiravam seus cidadãos, Cuba enviava médicos para enfrentar a situação, colocando a própria vida em risco. Isso me marcou muito, porque mostra um compromisso humanitário profundo. E aí, inevitavelmente, me veio à cabeça o que foi o programa Mais Médicos no Brasil e a maneira abrupta como os médicos cubanos foram expulsos do país, num episódio marcado por xenofobia nos aeroportos, por agressões verbais da classe médica brasileira e por um discurso extremamente violento do então candidato Bolsonaro durante sua campanha. O filme também nasce de uma experiência pessoal muito forte relacionada à eleição de 2018. Lembro da tensão daquele período, algo que se sentia no ar, que parecia quase palpável. Me recordo de estar num bar, cercado de amigos, e todos nós sentíamos uma ameaça real pairando sobre a vida. Eu, como homem branco e heterossexual, não era diretamente alvo, mas muitos amigos e amigas com corpos dissidentes sentiam medo real. Medo pela vida, pela liberdade, pelo direito de existir. O filme conecta esses dois momentos: de um lado, a pandemia e o gesto radical de cuidado dos médicos cubanos; de outro, a ascensão da extrema direita no Brasil e suas consequências sociais. Foi daí que surgiu a necessidade de falar sobre isso, de criar uma espécie de documento sobre esses médicos e esse momento histórico. Comecei a pesquisar as brigadas cubanas e, a partir disso, mergulhei no Mais Médicos. Com apoio de um edital de desenvolvimento, entrevistei médicos cubanos que trabalharam aqui, visitei postos de saúde e também conversei com membros da comunidade cubana que permaneceram no Brasil, mesmo fora da medicina. A partir disso, entendi melhor a relação que os pacientes tinham com esses médicos e a situação dos profissionais que ficaram por aqui. Muitos estavam desempregados, outros em subempregos, e alguns poucos conseguiram passar no Revalida, que na minha opinião é uma prova pensada para reprovar. Ela existe muito mais para proteger os interesses da classe médica do que para medir a capacidade real desses profissionais. O filme nasce desse desejo duplo: de dar conta daquela sensação sufocante que a gente viveu e de refletir sobre como a chegada da extrema direita ao poder significou a desassistência de uma enorme parcela da população, especialmente a mais vulnerável. Isso teve consequências diretas na forma como enfrentamos a pandemia. Um governo que, antes mesmo de assumir, expulsa 10 mil médicos é o mesmo que vai, mais adiante, permitir que milhares de pessoas morram de forma evitável. O filme tenta trazer essas discussões, mas sempre a partir de uma perspectiva sensível e humana. Apesar de partir de uma questão política macro, ele mergulha na política micro. Ele fala dos afetos, do cuidado, dos pequenos gestos. É um filme que presta atenção a uma mão, a um pé, a uma respiração, ao bater de um coração, a um olhar prolongado. Ele se coloca nesse entrelaçamento entre a política das grandes decisões e a dos vínculos cotidianos. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É, eu acho que isso que você falou sobre os personagens, sobre essa conexão mais do micro, era justamente a pergunta que eu queria fazer para você, Guga. Os personagens da Érica e do Sérgio, né, eu senti que os dois representam muito esse laço afetivo, quase como se simbolizassem o vínculo do Brasil com as pessoas de fora. Me passou muito essa sensação de acolhimento, sabe? De como o Brasil, em algum momento, acolheu esses médicos. E teve uma cena que me tocou muito, que é quando a Érica defende eles no bar, quando começa aquele discurso preconceituoso, e ela simplesmente sai com os dois. Aquilo me bateu forte. Então, eu queria te perguntar como foi para você criar esse personagem que está tão próximo da história, tão envolvido com tudo isso. Porque para mim ele carrega essa sensação de afeição mesmo. Como foi construir isso? Guga Patriota: Sim, e eu acho que isso tem muito a ver com uma palavra que venho usando quando penso no filme: afeição. O Sérgio também não é daquele território, ele vai para lá. A gente pode supor o que o levou a ir e o que o faz permanecer, mas ele, assim como o Akin, é alguém que se desloca. Diferente da Érica, que está naquele lugar e talvez nunca tenha saído ou cogitado sair. Eu concordo quando você fala dessas afeições como laços, como vínculos que, de certa forma, dão contorno a quem somos. A gente consegue acessar um pouco mais do Akin a partir da relação que ele constrói com a Érica. E conseguimos também fazer novas perguntas sobre ele quando vemos sua relação com o Sérgio. Acho que a mesma coisa acontece dentro do consultório, na maneira como ele se relaciona com os pacientes. Muito do que sabemos sobre nós mesmos só descobrimos na relação com o outro. E no caso do Akin, que é médico, quando ele coloca a bata, o uniforme, ele não está apenas assumindo uma função técnica. Aquilo não é uma fantasia nem uma máscara. É uma disposição. Uma disposição para estar presente, para trocar, para se construir a partir da relação com o outro. Estou falando isso e me emociono, porque na minha prática como médica isso também é muito presente. E o filme, como o Bernardo comentou, se demora na mão, no pé, no gesto. Isso é um aspecto da prática médica que, nos dias de hoje, precisa ser quase reconquistado. Porque vivemos uma realidade em que até essas práticas, que dependem fundamentalmente de um olhar humano, acabam sendo atravessadas por uma lógica liberal, acelerada, automatizada. Existe um esforço para que esse modo sensível de cuidar continue existindo, apesar do modo como a sociedade se organiza hoje. Mesmo nos espaços que exigem escuta, atenção e presença, estamos o tempo todo lidando com estruturas que nos afastam disso. No campo da arte é a mesma coisa. A forma como estabelecemos relações de trabalho, como construímos criativamente, como imaginamos um futuro coletivo e sustentável para o fazer artístico, também acaba sendo afetada. É preciso construir tudo isso com uma lógica diferente, que vá além da lógica imposta pela extrema direita, pelo neoliberalismo, pela mecanização dos nossos corpos e afetos. Me vem à memória uma frase de alguém que eu não lembro exatamente quem é, talvez um médico de família ou um economista da saúde, que dizia algo como: o desafio é agir contra, dentro e para além desse modelo opressor de vida que tem sido naturalizado. E eu acho que o filme também nos coloca diante dessa mesma pergunta. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Quando a gente assiste ao filme, dá pra sentir muito essa conexão. Uma coisa que me chamou muito a atenção foi a relação do Akin com a personagem da Ana Flávia. Acho que ela representa muito mais do que apenas uma figura individual — ela simboliza os laços afetivos que o Akin cria com o Brasil, e isso ficou muito bonito na tela. Queria que o Reynier comentasse um pouco sobre essa relação entre os dois personagens e como foi para você contracenar com a Ana Flávia. Reynier Morales: Trabalhar com Ana Flávia foi maravilhoso, desde o início. Eu até falei para ela que estar com ela em cena foi um verdadeiro encanto. Ela traz uma alegria para o set, uma espontaneidade e uma sinceridade no olhar que fazem com que seja impossível não se encantar por ela. E eu me senti muito protegido ao lado dela. Acho que nem cheguei a dizer isso a ela, mas durante todo o processo, tentei entender como o Akin se sentia com cada pessoa, como era estar com ela, com ele, com cada um. São nuances muito sutis. No caso dela, além de ser muito fácil trabalhar juntos, porque sempre senti que ela era muito próxima, foi como reencontrar uma amiga de longa data. Nunca senti que estava conhecendo alguém novo. Eu me sentia verdadeiramente acolhido. É até raro dizer isso, mas acho que o Akin está apaixonado por ela, não só no sentido amoroso, mas também como alguém que ele vê como um porto seguro. Desde o começo, ela é uma figura de proteção para ele. É quase como uma mãe, um refúgio. É muita coisa junta, sabe? E tem algo muito concreto nessa relação que fala muito sobre o Brasil também. Quando cheguei aqui, várias mulheres me perguntavam se eu estava gostando do país, como estava sendo a experiência. E eu estava longe da minha família, da minha mãe. O Akin também é uma pessoa solitária, que já perdeu os pais. Então, essa ligação com a personagem da Ana Flávia é muito profunda, porque ela representa esse afeto, essa presença acolhedora que ele encontra aqui. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu acho que, além de toda a questão política e afetiva em torno do Akin, ele é um exemplo perfeito da angústia que a gente sentiu naquele período. Eu senti muito isso enquanto assistia, lembrando do momento político que estávamos vivendo. Queria aproveitar para parabenizar o Reynier pelo prêmio no Festival do Rio e saber um pouco mais sobre como foi criar esse aspecto do personagem. O que te desafiou mais durante o processo, especialmente quando recebeu o roteiro e começou a trabalhar nas imagens do filme? Reynier Morales: Com o Akin foi, na verdade, bem tranquilo. Não posso mentir. Quando li o roteiro pela primeira vez, me emocionei muito com a história, sabe? Eu já tinha comentado isso com outros jornalistas: é um personagem que transmite bondade, e isso foi o que mais me motivou a aceitar interpretar esse papel. Ter um roteiro nas mãos geralmente exige construir muitas coisas, principalmente quando você vai interpretar um personagem complexo, mas com o Akin não foi assim. Claro que fiz uma pesquisa, né? Uma pesquisa de tempo, conversando com outros médicos, amigos cubanos que já estiveram em missões, tanto em Angola quanto aqui no Brasil. Aqui no Brasil também conheci outros médicos cubanos, tive a oportunidade de falar com eles, e foi um período lindo de muitas conversas, inclusive com o Bernardo, sobre as pesquisas dele. Entender também como é o olhar de várias pessoas aqui no Brasil para esses médicos, como foram suas experiências, e também conhecer relatos de pessoas que foram atendidas por eles. Para mim, isso trouxe uma grande responsabilidade, sim. Mas não foi difícil. Foi um processo que fluiu naturalmente, e eu adorei esse lado do processo porque eu amo o estilo de atuação que se aproxima do documentário. São modos diferentes de interpretar. Normalmente, quando um ator enfrenta uma ficção, tende a fazer uma atuação mais demonstrativa, por assim dizer. Eu queria que o Akin fosse exatamente o oposto disso, trabalhar fora dessa zona do ator, conseguir acreditar que eu não sou um ator. E isso foi, de longe, o maior desafio para mim. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu queria saber de vocês como esperam que o filme ressoe nas pessoas que vão ter contato com ele a partir do dia 31 de julho, quando ele estreia. O que vocês gostariam que ficasse no público depois desse encontro com "O Deserto de Akin"? Bernard Lessa: Bem, a gente está com muita expectativa em relação à distribuição comercial do filme agora no dia 31 de julho. É um filme que foi feito para dialogar com o público. Claro que a gente circula pelos festivais, busca reconhecimento, mas tudo isso tem como objetivo final alcançar as pessoas. O nosso maior desejo é que o filme consiga chegar às salas, que esteja disponível em um bom número de cinemas e que o maior número possível de pessoas no país tenha acesso a ele. A nossa esperança é que o público vá assistir ao filme com olhos livres. Que consigam se abrir para o que ele propõe, sem necessariamente levar consigo tantas certezas ou expectativas prontas. Porque, por mais que o filme tenha um tema e esteja inserido numa sociedade dividida, ele se constrói a partir de relações cotidianas, pequenas, repetitivas, que fazem parte da vida real. Então o que eu mais espero é que as pessoas consigam assistir desarmadas, que se deixem afetar, se envolver. Que tirem as próprias conclusões, mas que permitam esse encontro. Que estejam abertas ao filme. Acho que é isso: que cheguem até ele com olhos livres. Guga Patriota: A minha expectativa é que as pessoas estejam nos cinemas. Dizer "todas" é difícil, eu sei, mas o desejo é que muita gente vá assistir, especialmente na primeira semana, que é tão importante para dar força ao filme e garantir a continuidade dele em cartaz nas semanas seguintes. Que, gostando ou não do filme, essas pessoas falem sobre ele, indiquem para outras assistirem, para que a gente consiga ampliar nossa rede de conversa em torno das perguntas que o filme propõe. Porque o filme não tenta dar respostas, nem resolver nada. Ele lança questões, provoca reflexões. E é justamente esse tipo de cinema que me interessa. Um cinema que só faz sentido quando encontra o público. O desejo é que o maior número possível de pessoas se coloque disponível para experimentar um outro tempo, entrar nessa história e, quem sabe, viver algo parecido com o que você comentou, Gabi. Talvez sentir que voltou no tempo, revisitar memórias, pensar no que ainda está por vir, no que não queremos mais repetir, no que ainda não está certo, no que ainda está em aberto. Reynier Morales: O filme tem essa coisa que provoca lembranças nas pessoas, né? Provoca também uma certa nostalgia e muitas emoções. Muitas emoções mesmo. É até difícil descrever o que acontece com quem assiste, mas a gente sabe. E a gente sabe que é bonito, mas é triste também. E ali se entende que é necessário. Ali se entende que há muitas pessoas que realmente precisam desse tipo de atendimento. Eu conheci várias pessoas que foram atendidas, que me contaram suas lembranças desses médicos, desses amigos cubanos. O cubano é um povo um tanto diferente no mundo, sabe? Porque o cubano tem uma característica muito quente, muito afetuosa. Acho que nossos países são quentes na qualidade humana, mas o cubano se destaca muito nesse aspecto. Seria loucura dizer o contrário. E dá para sentir a pressão, dá para sentir o peso da responsabilidade, porque eu também sei o que representa ser um médico cubano no Brasil, e o que representa ser um médico cubano em outros lugares do mundo, o que é diferente. E aí a gente percebe as grandes diferenças entre os contextos, o que acontece com esses médicos depende muito de onde eles estão. E o que continua acontecendo com eles ainda hoje. É uma pressão, é uma carga pesada, e eu sei disso. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sempre faço essa pergunta para todo mundo que entrevisto aqui no Oxente: qual seria o filme brasileiro favorito de vocês ou aquele filme que vocês gostariam de indicar para o nosso público? Um filme que, de alguma forma, faça sentido para o momento que estamos vivendo, sabe? Bernard Lessa: Bem, eu vou falar Copacabana Mon Amour, do Rogério Sganzerla. É um filme pelo qual eu sou completamente apaixonado. Não sei se tem a ver exatamente com o momento que estou vivendo agora, mas é um filme que eu sempre volto a ver, que revejo eternamente. É um daqueles filmes que nunca saem da minha cabeça. Guga Patriota: Então, não sempre, mas nos últimos anos, quando me fazem uma pergunta assim ou quando eu mesma penso nisso, o filme que vem logo à minha cabeça é Inferninho, do Guto Parente e do Pedro Diógenes, que são do Ceará. Eu lembro muito bem da minha experiência assistindo esse filme e do impacto que aquela história teve em mim. Ele acompanha pessoas que eu diria serem extraordinárias. Falo isso porque cada uma delas tem um aspecto quase fantástico na personalidade, algo que eu realmente percebo. Elas convivem num espaço comum, estão juntas e parecem sempre ir para o mesmo lugar, mas ao mesmo tempo há algo que as distancia. Cada uma carrega uma solidão própria, que acompanha essas personalidades. Eu acho que esse filme é muito inventivo, muito bonito, e eu sou fã.
- Crítica | A Melhor Mãe do Mundo
Abordagem romantizada de temas sensíveis faz o drama se equilibrar numa corda bamba de tons. Divulgação A catadora de recicláveis Gal (Shirley Cruz) decide fugir dos abusos do marido Leandro (Seu Jorge) após tentar denunciá-lo e ser ignorada pela polícia. Focada em proteger seus filhos, a mulher abandona a casa e para garantir a inocência deles, Gal os faz acreditar que estão vivendo uma grande aventura. Existe muita coragem no texto da cineasta Anna Muyleart, escrito em colaboração com Grace Passô e Mariana Jaspe, em dar vida e camadas a assuntos tão sensíveis da forma que é feito em A Melhor Mãe do Mundo. O drama não foge de mostrar problemas estruturais de uma sociedade negra e periférica, mas ao tentar suavizar algumas dessas questões tal qual Gal age em relação aos filhos, o filme balança para encontrar o tom perfeito e perde parte de sua estabilidade. O trabalho quase que documental ganha mais brilho ao inserir atores não profissionais e ambientações reais à sua trama, adicionando um viés orgânico bem construído e bem resolvido em cena. É um longa concedido com confiança nas mãos do seu elenco e que usa de poucos outros recursos alegóricos para contar sua história. Shirley Cruz é arrebatadora. Mesmo nos momentos em que a trama passeia entre o romantismo piegas e o melodrama sofrido, a atuação da protagonista serve de âncora para o foco não ser perder. É impossível desviar o olhar da força, da bravura, da verdade e da qualidade do desempenho da atriz. Divulgação Outro ponto que deve se destacar é o brilho com que o elenco infantil soma ao resultado. As crianças do filme entregam atuações espontâneas, cheias de naturalidade, que evitam qualquer artificialismo ou apelo exagerado. Com carisma e desenvoltura, conseguem carregar nuances emocionais densas com uma leveza comovente, o que torna ainda mais palpável a tentativa da mãe de preservar a infância em meio ao caos. Esse contraste entre a dor que se esconde e a esperança que se encena batalha nem sempre harmonicamente até a conclusão. A resolução do enredo, apesar de apontar para uma saída, não é propriamente um final feliz, mas um final possível, menos infeliz. Essa escolha dá mais uma camada ao filme: a de uma fábula real. Há um encantamento frágil, uma mistura de doçura e desamparo, como uma fantasia construída com pedaços de “realidade”, que ajuda a imprimir um olhar infantil sobre o mundo sem jamais apagar a gravidade do que está por trás, embora que limite a intensidade do drama, pro bem e pro mal. Nota: 3/5
- Com exclusividade do Oxente Pipoca, teaser dublado da animação “Um Cabra Bom de Bola” é divulgado
O dublador nordestino Rafael Sadovski dá vida e sotaque mossoroense ao personagem Will. Imagem: Sony Pictures O Oxente Pipoca divulga com exclusividade o teaser dublado de “Um Cabra Bom de Bola”, nova animação da Sony Pictures Animation, mesmo estúdio responsável por “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”. A direção é de Tyree Dillihay, com codireção de Adam Rosette, e a produção executiva é assinada por Stephen Curry, astro da NBA e jogador do Golden State Warriors. A trama acompanha Will, uma pequena cabra com grandes sonhos, que recebe uma oportunidade única na vida de se juntar aos profissionais e jogar roarball, um esporte de alta intensidade, misto e de contato total, dominado pelos animais mais rápidos e ferozes do mundo. Em um mundo habitado apenas por animais, os novos companheiros de equipe de Will não ficam muito empolgados em ter uma pequena cabra no elenco. Porém, Will está determinado a revolucionar o esporte e provar que “os pequenos também mandam bem no jogo!” A voz brasileira do protagonista é de Rafael Sadovski, dublador conhecido por trabalhos como Capitão Forest em “Venom: A Última Rodada” e Jason Todd/Capuz Vermelho em “Batman Ninja vs Yakuza League”. Nascido em Mossoró (RN) e criado na Bahia, Rafael afirma que trazer o sotaque nordestino para o personagem foi tanto divertido quanto desafiador. “O uso do sotaque nordestino tem uma relação forte com esse sentimento de estar em casa, já que pude trazer o jeitinho da minha terra para o personagem”, destaca. Confira abaixo o teaser de Um Cabra Bom de Bola, divulgado com exclusividade pelo Oxente Pipoca: Vídeo: Sony Pictures “Um Cabra Bom de Bola” estreia em breve nos cinemas brasileiros.
- “Quem sabe um filme assistido aqui não transforme a vida de alguém?": Andrei Ferreira comenta expectativas para a 4ª edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana
Idealizador e coordenador geral do evento fala sobre a programação deste ano e o futuro do audiovisual sergipano. Divulgação Entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, a cidade de Itabaiana se transforma em palco para a 4ª edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana. Com mais de 80 produções selecionadas, entre curtas e médias-metragens, o evento vem se consolidando como um espaço importante na difusão do audiovisual no interior sergipano. O festival tem como propósito descentralizar o acesso à cultura, promover o intercâmbio entre realizadores de diferentes regiões e impulsionar a produção cinematográfica sergipana, especialmente fora da capital. Em conversa com o Oxente Pipoca, o idealizador e produtor Andrei Ferreira fala sobre os caminhos já trilhados pelo festival, os critérios de curadoria e suas expectativas para o futuro do evento. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): O Festival de Cinema de Itabaiana está se encaminhando para sua quarta edição. Como você vê a evolução do festival nesses anos? Ele se transformou como você imaginava? Andrei Ferreira: Bom, vejo o festival em uma evolução muito positiva, especialmente em relação ao reconhecimento do público, mas não só isso. Um festival de cinema é um evento diferente de outros, como festivais de música, por exemplo, que atraem pelas atrações que estão no palco. Um festival de cinema tem uma característica própria: formar público. Geralmente, os cineastas que participam não são agentes culturais locais, são de fora. Estava até lendo um livro da Spcine sobre a Mostra de São Paulo. A diretora da Spcine está desde a quarta edição, e ela relata que a Mostra só se consolidou como o que é hoje depois da 16ª edição. E estamos falando do maior evento de cinema do país. Sofremos muito entre 2019 e a pandemia, e só conseguimos voltar com força mesmo no ano passado. Fizemos duas edições seguidas – 2024 e 2025 – e isso muda tudo. O público já tem outra expectativa, cineastas de fora já demonstram interesse em vir… Ter um festival que conquista certa notoriedade e continua acontecendo ano após ano é o mais importante. Formar público leva tempo, mas já vemos uma grande diferença da primeira edição para esta. A expectativa das pessoas é outra, e isso nos deixa muito felizes. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Como funciona o processo de curadoria? Há algo que o público talvez não saiba sobre os bastidores da seleção? Andrei Ferreira: Acho que o nosso festival, junto com a Janela Internacional de Recife, é um dos únicos festivais internacionais do Nordeste. Isso já diz muito. Mesmo recebendo apenas curtas e médias-metragens, o festival tem uma proposta bem diferente dos outros da região. Trazer filmes de fora muda bastante o processo de curadoria, porque precisamos pensar em temáticas que envolvam não apenas nosso estado ou país, mas o mundo. Buscamos filmes com linguagens universais, que sejam interessantes e relevantes para a sociedade. Além disso, tentamos fazer com que os filmes dialoguem entre si. A programação do Festival de Itabaiana reflete esse pensamento curatorial. Não fazemos sessões separadas apenas para filmes internacionais, brasileiros ou sergipanos. Acreditamos que as culturas devem, em algum momento, se interseccionar, permitindo comparações. É muito importante que os filmes estejam misturados nas sessões. Cultura é isso: troca de experiências. Faz sentido que diferentes filmes estejam juntos, pois podemos nos identificar com o outro, mesmo que ele não compartilhe nossa nacionalidade, cultura, crenças ou hobbies. Nossa curadoria tem muito esse olhar. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Como você enxerga o papel de festivais de cinema fora do eixo Rio-SP no cenário audiovisual nordestino e brasileiro? Andrei Ferreira: Pergunta interessante. Quando pensei nesse festival, eu era aluno de Cinema, estava no terceiro período. Já no primeiro e segundo semestres da faculdade, tinha feito alguns filmes e comecei a inscrevê-los em festivais. O próprio curso de Cinema não tinha uma cultura de festivais. Era um curso que formava os alunos tecnicamente e teoricamente para o meio acadêmico e comercial, mas as pessoas não viam o que era produzido na UFS. Então, se nem isso era visto, será que acompanhavam o cinema sergipano? E até mesmo o cinema brasileiro, quando não é um filme feito com 5 milhões de reais, o que pra gente é extraordinário, mas que para outros países é pouco? Eu, sendo do interior, junto com um colega de sala também de Itabaiana, percebíamos que o interior não era visto como espaço de produção audiovisual. O que é estranho, porque em todos os outros estados do Nordeste existem festivais no interior, e Sergipe não tinha. Além disso, pensamos em descentralizar a produção audiovisual e levar o festival para um lugar com poucos eventos culturais. Por que não fazer isso no interior, se a capital já tem três festivais? Outro objetivo é fazer com que os produtores pensem cultura como algo possível, algo com que se pode trabalhar e viver. O festival tem essa missão de descentralizar os espaços culturais e impulsionar a produção audiovisual sergipana no interior, onde quase não se produzia. Queremos oferecer ao interior um evento grande e importante, que as pessoas se sintam parte, se identifiquem e passem a ver o interior sergipano como palco de eventos culturais. Temos 75 municípios, não podemos ficar focados em um só. Ainda existe essa visão de que o eixo Rio-SP é o único lugar onde as coisas acontecem, mas é fundamental que os festivais nordestinos, que estão ganhando visibilidade, mostrem que temos grandes eventos por aqui. E muitos deles feitos no próprio Nordeste. Temos o Cine Ceará, o Cine PE em Pernambuco, o Panorama na Bahia voltando com força, o Festival de Penedo em Alagoas, a Aruanda na Paraíba, a Mostra de Cinema de Gostoso no RN… e também Guarnicê, um dos mais antigos do Brasil. Então, é importante não só que o Brasil veja o Nordeste como espaço de produção, mas que o próprio nordestino veja isso. Que ele entenda que não precisa sair da região para fazer seu filme acontecer. Uma coisa que sempre falo é que nós, cineastas sergipanos, não devemos ir a um festival só quando temos um filme exibido. Devemos ir para prestigiar outros realizadores. Quando fazemos essa difusão, conseguimos criar uma identidade para o cinema sergipano. E a partir disso, vender Sergipe como locação de filmes também. Canindé já tem certa notoriedade. Guerreiros do Sol foi gravada lá, mas há muitos lugares interessantes que ainda não foram explorados. A Serra de Itabaiana, por exemplo, seria incrível. Temos muitos locais bacanas para filmar. Então, esse processo começa com difusão e reconhecimento, tanto do público quanto dos próprios cineastas. Isso é fundamental. Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Andrei, queria perguntar quais são os futuros planos e expectativas para o Festival de Cinema de Itabaiana? Andrei Ferreira: Para esta edição, esperamos que o público compareça e que os próprios cineastas participem. Estamos com muita expectativa. Montamos uma programação bem legal e esperamos que as pessoas se identifiquem, assistam, compartilhem. Batemos recorde de filmes exibidos: são 85 filmes de 20 países diferentes, entre curtas e médias-metragens. Estamos muito felizes com o resultado. Expandimos a programação com sessões noturnas, traremos debates, um seminário sobre políticas culturais… Enfim, entregamos o máximo com os recursos que tínhamos. Eu estava até comentando com um colega; a produção do festival já está finalizada, agora é esperar acontecer. Para as próximas edições, temos ideias muito bacanas, como laboratórios de roteiro e um fórum de discussão não apenas para quem faz cinema, mas para quem trabalha com cultura em geral. Há muitos planos legais vindo por aí. A maior expectativa é a participação do público, que as pessoas gostem, voltem e tragam mais gente nos próximos anos. Às vezes, o festival gera frutos que a gente nem espera, como foi o caso do Tácio. É ele quem vai guiar nossos debates nesta edição. Ele estava na primeira sessão, era uma pessoa que gostava muito de cinema, mas depois criou um canal e um cineclube de cinema – o Cine Varanda. Agora, ele também trabalha com cinema de arte e motiva as pessoas a irem ao evento. Uma das temáticas deste ano é “O Cinema Transforma”, então essa é a missão. Quem sabe um filme assistido aqui não transforma a vida de alguém? Se isso acontecer, já teremos cumprido nosso objetivo. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): E, para finalizar a nossa entrevista, vou pedir que você indique três filmes para a galera que acompanha o Oxente Pipoca. Andrei Ferreira: Eu assisti esse filme ano passado no Festival Panorama e ele está na minha cabeça até hoje. Estranho Caminho, do Guto Parente. É um filme que trabalha um cinema de autoria e autorretrato, muito lindo e acho que todo mundo deveria assistir. Também vou recomendar o curta White Eye, feito em 20 minutos de plano sequência e é um dos filmes mais bonitos que já vi. E por fim, vou indicar o longa The Rescue, sobre os meninos que ficaram presos na caverna da Tailândia, acho que está no mais alto nível do documentário, feito de uma forma diferente do usual.
- Mostra Cinema Conquista confirma 16ª edição em setembro
Evento será realizado entre os dias 7 e 12, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista (BA) Imagem: Divulgação Vitória da Conquista vai respirar cinema mais uma vez. Está confirmada a realização da 16ª edição da Mostra Cinema Conquista – Um olhar para o novo cinema, entre os dias 7 e 12 de setembro de 2025, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Considerada um dos mais importantes eventos de audiovisual da Bahia, a mostra apresenta ao público um panorama do cinema brasileiro contemporâneo, com obras que, em muitos casos, circulam apenas em festivais e ainda não chegaram ao circuito comercial. Desde 2004, a Mostra promove acesso democrático à produção nacional, por meio de exibições de filmes, mesas temáticas, oficinas e encontros com realizadores e profissionais do audiovisual. A proposta é aproximar o público da diversidade estética e temática do cinema brasileiro atual, contribuindo para a formação de novos olhares e o fortalecimento da cultura cinematográfica no interior do estado. Nesta edição, o evento presta uma homenagem aos 15 anos do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). A celebração reconhece a contribuição da universidade pública para a formação de profissionais e para o desenvolvimento da cadeia produtiva do audiovisual na região. “A Mostra Cinema Conquista sempre esteve comprometida com a formação de público e o estímulo ao pensamento crítico em torno do cinema brasileiro. Ao homenagearmos o Curso de Cinema da Uesb, celebramos também uma trajetória de parceria e compromisso com a produção de conhecimento, a criação artística e o fortalecimento da produção e difusão do cinema feito no interior”, afirma Esmon Primo, coordenador do evento. A edição deste ano também acontece em um momento promissor do cinema brasileiro, que tem conquistado prêmios em festivais internacionais, ampliado sua presença no streaming e reafirmado sua potência criativa mesmo diante dos desafios do setor. A programação completa será divulgada em breve, com sessões gratuitas e ações que também alcançarão bairros periféricos e a zona rural de Vitória da Conquista. A Mostra Cinema Conquista – Ano 16 é uma realização da Movimenta – Cultura e Arte. Tem a parceria do Janela Indiscreta e do Curso de Cinema e Audiovisual da Uesb. Recebe o apoio institucional da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, através Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. A Mostra Cinema Conquista conta com o apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura, via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal.
- “Essa é uma história de mulheres, e tenho que ter mulheres para ilustrar isso”: Carla Di Bonito fala sobre seu próximo filme, “Nossos Caminhos”
Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora cearense radicada no Reino Unido falou sobre seu ingresso no audiovisual e a produção de um filme com elenco e equipe majoritariamente femininos. Divulgação O longa-metragem Nossos Caminhos, novo projeto da diretora e roteirista Carla Di Bonito, já está chamando atenção no circuito internacional antes mesmo de ser filmado. Com mais de 75 premiações, além de seleções em festivais ao redor do mundo — incluindo reconhecimentos independentes durante os festivais de Cannes, Sundance, Berlim, Roterdã, Veneza e Tribeca —, o filme, que atualmente se encontra em fase de desenvolvimento, acompanha Carla, jornalista brasileira em Londres que enfrenta traumas do passado e resgata suas origens após a morte da irmã por overdose. O filme é o terceiro trabalho da diretora cearense Carla Di Bonito, que é radicada no Reino Unido há mais de 30 anos e atuou como jornalista na BBC. Carla é formada em Jornalismo na Itália e em cinema pela London Southbank University em Londres, onde se especializou em Audiovisual aos 56 anos e dirigiu os curtas-metragens Friday, Saturday and Sunday e Luzinete, este também baseado na morte de sua irmã por overdose, tal qual Nossos Caminhos. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Carla, que falou sobre seu ingresso “tardio” no audiovisual, as principais diferenças entre o cinema britânico e brasileiro e o processo de produção de Nossos Caminhos, que vem se destacado por contar com um elenco e equipe de produção 80% formado por mulheres. Você pode acompanhar a entrevista na íntegra abaixo e também conferir o pôster do filme, divulgado com exclusividade pela gente: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você começou a estudar o audiovisual após os 50 anos. Como se deu esse processo num momento posterior da sua vida, especialmente considerando o quanto o etarismo e o machismo ainda são problemas frequentes no meio audiovisual? Carla Di Bonito: Eu nasci e fui criada até os 19 anos em Fortaleza. Então entendo e sei muito bem o que é sofrer com o machismo, é uma coisa que a gente sofre na pele. Então assim, não é algo novo para mim. Agora essa ida pro audiovisual... veja bem, eu me formei em jornalismo e depois de alguns anos eu trabalhei durante 9 anos para BBC. Então eu já tava naquele meio do audiovisual. Eu queria fazer documentário, aí fiz documentários, mas não era só o que eu queria fazer, eu queria fazer mais, mas eu não sabia justamente por aquelas questões que ficam guardadas lá: “mas será que eu posso? Eu, mulher e tal”. Já tinha tido filhos, mas aí eu disse: "Não, eu vou tentar". Fiz meu primeiro curta [Friday, Saturday and Sunday] numa época em que tava saindo da BBC. Tinha escolhido sair e fiz dois cursos, um na Escola de Cinema em Cuba e outro na Polônia, e esse curta foi para um festival na Itália e também esteve no Marché du Film do Festival de Cannes. E aí depois eu parei, porque tinha duas crianças pequenas, minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer, depois eu decidi adotar uma criança. Então isso tudo vai tirando o seu tempo, mas havia aquela coisa dentro de mim me dizendo: “você precisa, você tem que fazer”. E aí, aos 53 anos foi quando eu pude ver que conseguia voltar ao mercado de trabalho, porque a minha filha tem necessidades especiais, a que eu adotei. E aí eu digo: "Bom, e agora o que eu vou fazer? Eu preciso voltar pra universidade, né?". E aí entra a questão do etarismo, porque eu lembro como como se fosse hoje, cheguei pro meu primeiro dia de aula e olhei, tinham mais ou menos 100 pessoas, 100 crianças de 19, de 20 anos [risos]. Mas olha, foram três anos maravilhosos. Eles gostavam de trabalhar comigo porque eu já tava vindo da BBC, então foi diferente. Eu vejo que aí no Brasil às vezes tem muito essa questão do etarismo, mas aqui eu com os meus colegas de faculdade, sinceramente eu não encontrei isso. Ao contrário, eu encontrei respeito, fiz amizades, uma das minhas melhores amigas é uma polonesa que na época tinha 19 anos. Sem falar do respeito dos meus tutores, professores da universidade, foram maravilhosos. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Como uma brasileira radicada no Reino Unido há 3 décadas, quais são as principais diferenças que você observa entre o cinema brasileiro e o cinema britânico? Como é estar aí, mas falar "daqui"? Carla Di Bonito: Com relação aos britânicos, seja na narrativa ou na estética, eles tendem a ser mais “podados”, e acho que isso é uma questão histórica também. Nós temos uma tendência maior a experimentar, é aquela emoção, aquela cor, aquela coisa vibrante. O britânico tem aquele senso de humor que eu acho fantástico, mas no geral o cinema deles tem menos “cor”. Também é um cinema mais voltado para as classes sociais, como a gente vê nos filmes do Mike Leigh e Ken Loach. Mas eu começo a ver um pouco mais de calor, talvez seja a influência que que eles estão talvez começando a pegar devido a essa diáspora toda aqui de gente que vem de toda parte do mundo. Temos muitos latinos aqui, é uma das comunidades que mais cresce, apesar da gente ser considerada ainda uma “comunidade invisível”, estamos em todos os lugares e em lugar nenhum. E o mercado também é diferente. Aqui a gente tem o BFI [British Film Institute], a BBC Films e outros, uma participação muito grande do mercado privado e empresarial. Já o Brasil ainda é muito dependente dos editais da ANCINE. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Quais as principais diferenças entre "Nossos Caminhos" e "Luzinete"? Ambos partem da sua experiência com a perda de sua irmã pela overdose, mas de que maneiras você acha que pôde trabalhar essa experiência num longa-metragem que não poderia num curta? Carla Di Bonito: O curta foi sobre o último dia de vida da minha irmã, enquanto o filme é um projeto totalmente diferente. É como se Luzinete fosse uma cena dentro de Nossos Caminhos, porque os dois têm estruturas totalmente diferentes, narrativas diferentes, símbolos diferentes. O Nossos Caminhos vai ter voz e personagens que têm todo aquele arco que Luzinete não podia por ser curta. Tem as diferenças geográficas também. Luzinete era concentrado ali naquele último dia dentro daquele apart hotel em Salvador, dentro de um quarto. Nossos Caminhos não, ele atravessa gerações, são cinco gerações. Ele atravessa, por exemplo, o Brasil, vai para a Itália, vem para cá. Então é uma diferença enorme. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos principais destaques do filme é o seu elenco e equipe de produção majoritariamente femininos, inclusive com atrizes gigantes como Marcélia Cartaxo e Hermila Guedes no elenco. Como você acha que dar esse espaço maior a mulheres a frente e atrás das câmeras influencia no seu trabalho com "Nossos Caminhos"? Carla Di Bonito: Antes de responder isso, eu queria falar uma coisa. A Marcélia foi a primeira atriz a integrar o elenco. Eu lembro que eu liguei para a Marcélia e tenho uma admiração por ela que vem desde A Hora da Estrela. Eu sou nordestina, você é nordestino, sei lá o que que a gente tem em comum, uma coisa assim maravilhosa. E quando eu falei com ela, eu disse: "Marcélia, eu amo você”, ela perguntou: "O que é a história, Carla?", e aí eu fui contar a história, eu não tinha nem o argumento. Comecei a falar, e ela: "Tô dentro”. E a Marcélia vai fazer o papel da minha avó Raquel, uma pessoa que teve um significado enorme na minha vida, porque foi ela, pelo fato de não me querer dentro de casa, quem transformou minha vida sem saber. Nunca tive mágoa dela, pelo contrário: sempre a amei e sei que ela me ama muito aonde estiver. Depois que escrevi [o roteiro] e tava lendo, eu me perguntei: “sobre o que é essa história?” É uma história de mulheres que vem de todas as partes da sociedade. Eu tenho que ter mulheres para ilustrar isso. Então, não é uma questão de concessão, é uma questão de ética e de afeto. É a minha avó, é a minha mãe biológica, são as minhas irmãs, é a minha mãe adotiva, aí vem as amigas da minha mãe adotiva, é mulher chegando de tudo quanto é canto. Tem os homens, mas nunca foi a intenção falar do homem de forma negativa, ao contrário. Existem sim três dos personagens que foram negativos na minha vida, mas existem outros dois que foram muito positivos. E aí não só o elenco, mas por trás também: eu como diretora e roteirista, mulher, a minha primeira assistente mulher, e vai até a montagem, o som. Tem homem também, tem uns míseros [risos], têm uns dois, três, quatro no máximo na parte técnica, mas o resto é tudo mulher. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos indicações de filmes nacionais que nossos(as) entrevistados(as) recomendem ao público. Quais seriam suas indicações? Carla Di Bonito: Vou primeiro falar de uns não tão recentes, mas também não tão antigos. Eu adoro Madame Satã, tive a oportunidade de conhecer o Karim [Ainouz] há uns dois anos quando ele esteve aqui no BFI. Também adoro O Auto da Compadecida, é um filme que eu quero muito que meus dois filhos adultos vejam e entendam, mas é um filme que eu queria que todo mundo visse. Dos mais antigos, tem Macunaína e Vidas Secas, que inclusive é um filme que tá influenciando o novo roteiro que estou escrevendo com um roteirista cearense, o Gleison Castro. Nós temos filmes fantásticos e eu gostaria que as pessoas pudessem valorizar mais o que a gente tem. É tão poético o cinema brasileiro, por mais que eu saiba que têm problemas. E agora encerro com um pedido: é hora da gente acabar com essas coisas de “barreirismo”, com essas coisas assim, porque não pode existir barreirismo em arte, não pode existir nada que não seja arte na arte. Essa expressão tão profunda que que o artista encontra para dividir a dor, para dividir a alegria, para dividir o conhecimento, para dividir a experiência de vida. E isso não pode funcionar na lógica do “vamos fazer mais coisas com pessoas assim e assado, que venham dessa e dessa parte do Brasil”. Não, isso tem que acabar.
- Crítica | O Ritual
Filme é consistente em seu estilo, sua narrativa e principalmente em suas falhas. Divulgação Baseado em uma história real, O Ritual é um terror envolvendo dois padres em um momento complicado de suas vidas: enquanto um duvida de sua fé, o outro precisa lidar com um passado conturbado. Quando uma jovem é possuída pelo demônio, eles terão que deixar suas diferenças e problemas de lado para gastar todo o tempo tentando salvar a garota. Contando com uma arriscada sequência de exorcismo, o tempo passa e a igreja precisa correr para expulsar o inimigo do lugar sagrado e trazer a menina de volta à vida real. O cineasta David Midell se apega, desde os letreiros iniciais até letreiros de encerramento, à uma tentativa quase que absurda de manter um tom documental científico com tema que é essencialmente sobrenatural. O longa-metragem busca construir um estilo de filmagem em que insere o espectador como um personagem-observador e ali ficamos inertes a tudo que acontece, de forma também inerte, no roteiro esforçado, mas já bastante conhecido. O texto busca dar relevância às questões de dúvidas no tocante à fé humana e os limites da crença, mas nada disso fica impresso na narrativa filmada, e morrem nas palavras proferidas pelos personagens. E nisso o longa se desenvolve, sempre opaco, sempre neutro, com um ritmo comprometido pela escolha de fugir, até onde possível, dos recursos básicos do terror; até onde possível porque na segunda metade o texto se entrega a uma proposta que assume postura divergente à que vinha pregando nos primeiros minutos. Divulgação Todo o restante faz o arroz com feijão de forma competente, mas inexpressiva. Al Pacino faz o velho místico, Dan Stevens o padre galã com questões metafísicas e tensão sexual com uma jovem freira, e Abigail Cowen a jovem possuída. É uma estrutura por si já cansada. E aí entro nos méritos de adaptação e fidelização ao material base. Por mais que seja inspirado numa história real e por mais que seja dito que é o caso de exorcismo melhor documentado nos EUA até hoje, talvez sejam necessárias mais alegorias visuais e narrativas para que o filme se imponha em meio a incontáveis outros também inspirados em história reais e que abrem e fecham a mesma forma. É um filme que acredita em si até o último instante, e que se apega às suas decisões, boas, como a boa dosagem de efeitos visuais e a objetividade na introdução, por exemplo, mas também nas ruins, como a falta de força nas cenas dos rituais, os mini sustos não intencionalmente engraçados, os efeitos sonoros caricatos e todo o resto. Nota: 2/5
- Vamos conversar sobre a lista de inscritos brasileiros para o Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional?
Respondendo diversas dúvidas dos nossos seguidores e dando um panorama da temporada atual Divulgação Todo ano, a Academia Brasileira de Cinema organiza uma comissão responsável por avaliar os filmes inscritos e escolher apenas um título para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional. Essa decisão é estratégica e leva em conta tanto a força artística da obra quanto seu potencial de aceitação junto ao público e à crítica internacional. Neste ano, 16 filmes ficaram aptos a disputar essa vaga. O cronograma da seleção já está traçado: no dia 8 de setembro será revelada a pré-lista com seis filmes, e, uma semana depois, em 15 de setembro, a comissão anunciará oficialmente o longa que carregará a responsabilidade de representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional. Uma vez escolhido, o representante entra na corrida ao lado de produções de mais de 80 países, passando a integrar oficialmente o radar da Academia de Hollywood e da temporada de premiações mundial. No entanto, nem todos avançam com o mesmo destaque: primeiro, alguns títulos são pré-selecionados pelos votantes do Oscar, em uma espécie de “Fase 1” que reduz a longa lista de inscritos. Em seguida, a “Fase 2” determina os indicados oficiais do ano, afunilando até os cinco finalistas que disputarão a tão cobiçada estatueta dourada. Divulgação Panorama da lista de inscritos • O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho) Marcelo é um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. • O Último Azul (Gabriel Mascaro) Em um Brasil quase distópico, onde o governo transfere idosos compulsoriamente para uma colônia habitacional para “desfrutar” seus últimos anos de vida, Tereza embarca em uma jornada para realizar seu último desejo. • Homem com H (Esmir Filho) Desde uma infância reprimida até sua revolução artística, Ney Matogrosso transforma os palcos, e a si próprio, por meio da música, da criatividade e do seu entusiasmo. • Oeste Outra Vez (Erico Rassi) Totó e Durval são abandonados pela mesma mulher. Motivados pela dor do abandono, eles iniciam uma intensa guerra entre si. • Malu (Pedro Freire) Uma mulher com um passado glorioso se vê presa. A complexa relação com sua mãe conservadora e com sua filha adulta torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. • Manas (Marianna Brennand) Marcielle, uma garota de 13 anos, vive com os pais e três irmãos em uma casa às margens do rio. Ela luta para proteger a si mesma e a irmã mais nova do abuso sexual do pai e da exploração nas balsas. • Baby (Marcelo Caetano) Logo após ser liberado de um Centro de Detenção, Wellington se vê à deriva nas ruas. Durante uma visita a um cinema, ele conhece Ronaldo, que lhe ensina novas formas de sobreviver. • A Praia do Fim do Mundo (Petrus Cariry) Estrelado por Marcelia Cartaxo, o aclamado filme cearense segue uma jovem que mora em uma casa prestes a ser invadida pelo mar e tenta convencer sua mãe adoentada a se mudar. • Os Enforcados (Fernando Coimbra) O casal Regina e Valério se vê envolvido em dívidas e traições herdadas da família de Valério. Uma noite, eles encontram o plano perfeito. Mas são sugados por uma espiral de violência que parece não ter fim. • Milton Bituca Nascimento (Flávia Moraes) A turnê de despedida de Milton, uma das maiores lendas vivas da música brasileira. Os últimos shows de Bituca, como é carinhosamente conhecido, e captura a profunda conexão entre o artista e seus fãs. • A Melhor Mãe Do Mundo (Anna Muylaert) Para escapar de um relacionamento abusivo, Gal coloca seus dois filhos no carrinho que usa para coletar lixo nas ruas da cidade e foge, convencendo-os de que estão em uma aventura. • Retrato de Um Certo Oriente (Marcelo Gomes) Baseado no livro “Relato de um Certo Oriente”, o filme se passa em 1949 e conta a história de Emilie e Emir, dois irmãos católicos que fogem de uma guerra iminente no Líbano. • O Filho de Mil Homens (Daniel Rezende) Conta a história um pescador solitário que sente o vazio da ausência de um filho e sonha em ser pai. Em sua busca por relacionamentos verdadeiros e profundos, ele encontra Camilo, um menino órfão, e decide criá-lo, construindo uma família atípica e singular. • Vitória (Andrucha Waddington e Breno Silveira) Narra a história real de uma aposentada que desmontou uma quadrilha de traficantes e policiais a partir de filmagens feitas da janela do seu apartamento. • Kasa Branca (Luciano Vidigal) Na trama, Dé é um adolescente da periferia da Chatuba, que recebe a notícia de que sua avó está na fase terminal da doença de Alzheimer. • Um Lobo Entre os Cisnes (Marcos Schechtman e Helena Varvaki) O filme conta a história de Thiago Soares, um garoto do subúrbio carioca que deixa para trás o hip hop e embarca no mundo do balé clássico. Divulgação Em termos de qualidade, pode-se dizer que esta é uma das listas mais fortes, senão a mais forte, da história dos inscritos brasileiros ao Oscar, com uma grande diversidade de gêneros e formatos. Dito isso, é importante lembrar: qualidade não garante representação. No Oscar, presença e visibilidade em festivais e outras premiações costumam pesar muito mais do que o mérito artístico isolado. Entre os destaques, temos títulos como Oeste Outra Vez e Os Enforcados, que certamente vão entrar nas listas de melhores do ano de muita gente. Há também Homem com H, um verdadeiro fenômeno de bilheteria e streaming, que conseguiu furar a bolha e alcançar um público imenso. Mas, sem dúvidas, os dois nomes mais fortes da disputa este ano são… Divulgação O caso de O Último Azul Vencedor de três prêmios na 75ª edição do Festival de Berlim, incluindo o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri, ‘O Último Azul’ já foi selecionado para mais de 40 festivais ao redor do mundo e tem distribuição garantida em 65 países. Estrelado por Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Adanilo, Miriam Socarrás e Rosa Malagueta, o longa foi o grande destaque brasileiro deste início de ano, coroando uma jornada de destaque em festivais até chegar aos cinemas nacionais em 28 de agosto. Com direção do pernambucano Gabriel Mascaro, ‘O Último Azul’ reúne muitos elementos que poderiam credenciá-lo como o representante brasileiro: uma narrativa envolvente premiada internacionalmente, a presença de Rodrigo Santoro - nome reconhecido mundialmente - e o prestígio de um prêmio de peso como o de Berlim. Em outros anos, isso talvez fosse suficiente para garantir a escolha. Porém, a ausência de distribuição nos Estados Unidos e a confirmação, até agora, de apenas um grande festival de outono (TIFF, na mostra Centrepiece, voltada a cineastas contemporâneos já consolidados) acabam reduzindo suas chances na corrida. Divulgação O caso de O Agente Secreto Marcando o retorno de Kleber Mendonça Filho à direção de um longa-metragem ficcional, ‘O Agente Secreto’ já pode ser considerado um dos maiores filmes brasileiros desta década. Em termos de relevância e força internacional, a produção se destaca de forma impressionante. Para ser ainda mais direto: em diversos parâmetros, trata-se do segundo maior filme brasileiro recente - ficando atrás apenas do nosso vencedor do Oscar, ‘Ainda Estou Aqui’. A estreia aconteceu na prestigiada competição oficial do Festival de Cannes, que há anos se consolidou como um dos principais termômetros para o Oscar de Filme Internacional. Lá, ‘O Agente Secreto’ foi o título mais premiado da edição, conquistando quatro troféus: Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho), Melhor Ator (Wagner Moura), o Prêmio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e o “Art et Essai”, concedido pela AFCAE (Associação Francesa de Cinema d'Art et d'Essai). Durante o festival, o longa foi adquirido pela distribuidora NEON, reconhecida pelo histórico vencedor de prêmios, garantindo estreia em novembro nos Estados Unidos com uma boa presença em salas - um passo decisivo para aumentar sua visibilidade entre os votantes. Antes disso, o filme ainda circulará por festivais fundamentais na temporada de premiações, incluindo o 50º Festival de Toronto, o Festival de Telluride e o 63º Festival de Cinema de Nova York. Acredito que todos esses fatores reforçam ‘O Agente Secreto’ como o candidato mais competitivo do Brasil neste ano. A combinação entre prestígio, reconhecimento internacional, estratégia de distribuição e presença em festivais-chave o coloca em uma posição praticamente incontestável. Só um grande choque poderia impedir sua escolha - algo que, vale lembrar, já aconteceu com Kleber Mendonça Filho no passado, quando 'Aquarius' acabou preterido, apesar de sua forte presença internacional e aclamação crítica. Divulgação Respondendo às dúvidas dos seguidores Quando postamos a lista anunciada pela ABC, alguns seguidores levantaram alguns questionamentos e acredito que aqui é o melhor momento… Com isso, vamos lá: PERGUNTA: O Brasil pode enviar mais de um filme na categoria de Melhor Filme Internacional? E nas outras categorias? RESPOSTA: Na categoria de Melhor Filme Internacional, cada país pode inscrever apenas um filme (obrigatoriamente em língua não inglesa) para concorrer. Já nas demais categorias não existe esse processo de inscrição por país: qualquer filme pode ser considerado, desde que cumpra os critérios da Academia. Porém, a disputa costuma ser muito mais difícil, já que a maioria das vagas é dominada por produções norte-americanas. Ainda assim, há exceções. Um exemplo recente é Anatomia de uma Queda: mesmo não tendo sido o escolhido da França para a categoria de Filme Internacional, o longa teve uma campanha forte em outras frentes e acabou indicado - e vencedor - em categorias principais. Casos assim são possíveis, mas são mais difíceis. PERGUNTA: Fernanda Montenegro (Vitória) e Denise Weinberg (O Último Azul) só poderiam concorrer ao Oscar de Melhor Atriz se os filmes delas fossem inscritos pelo Brasil em Filme Internacional, ou existe a chance de serem indicadas mesmo que o escolhido seja, por exemplo, ‘Agente Secreto’? RESPOSTA: Não precisa ser o filme selecionado em Melhor Filme Internacional. Elas poderiam sim ser indicadas, mas é algo quase impossível sem a força de uma campanha específica. Normalmente, os estúdios não investem em atores de filmes estrangeiros que os filmes não estejam na categoria internacional. Casos assim são muito raros - como aconteceu com Anatomia de uma Queda, em que Sandra Hüller foi indicada mesmo sem o longa ter sido o escolhido da França, graças ao forte investimento da distribuidora NEON. PERGUNTA: Vocês acham que a Globo poderia investir junto com a Sony em uma campanha para a Fernanda Montenegro (por Vitória)? Tenho a impressão de que, apesar dos elogios, esse papel não teria força suficiente sozinho para levá-la ao Oscar. RESPOSTA: Acho que não. É um caso muito específico, com chances quase nulas. Além disso, a Fernanda dificilmente conseguiria fazer uma campanha agressiva, viajando por meses para divulgar o filme - o que torna tudo ainda mais improvável, infelizmente. PERGUNTA: E ‘Apocalipse nos Trópicos’? RESPOSTA: O foco deve ser na categoria de Melhor Documentário - e, nesse caso, não precisa ser o filme inscrito pelo Brasil em Internacional para concorrer. Inclusive, vários sites apostam numa possível indicação. Vamos ficar de olho. PERGUNTA: Vocês acham que Jesuíta Barbosa (Homem com H) tem chance? RESPOSTA: Assim como a Fernandona, infelizmente não. Se fosse a atuação de um ator dos Estados Unidos, em uma biopic convencional, provavelmente já estrearia como um dos grandes favoritos. Mas, sendo brasileiro, sem distribuição nos EUA e sem a visibilidade internacional necessária, as chances dele acabam sendo nulas. PERGUNTA: Documentários podem ser escolhidos? Vi que ‘Milton Bituca Nascimento’ ta na lista. RESPOSTA: Pode sim! Documentários também podem concorrer na categoria de Melhor Filme Internacional. Em 2021, o Brasil escolheu ‘Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou’ para representar o país, mas, infelizmente, ele não avançou para a pré-lista de indicados. Divulgação O cenário internacional Este ano promete ser novamente dominado por filmes que saíram do Festival de Cannes. Só entre os premiados em diferentes mostras do evento francês, já despontam como possíveis inscritos: It Was Just an Accident, Sentimental Value, Sirât, No Other Choice, A Useful Ghost, Left-Handed Girl, Nouvelle Vague, Sound of Falling e, claro, O Agente Secreto. Mais uma vez, a categoria de Filme Internacional no Oscar se mostra a mais interessante da premiação, com uma liberdade narrativa e de gênero muito mais legal que a própria categoria principal. Vale destacar também a força da NEON neste ano. Só entre os títulos citados acima, cinco deles são distribuídos pela empresa nos Estados Unidos, incluindo o brasileiro. A grande questão é: será que a empresa que venceu o Oscar do ano passado com ‘Anora’ conseguirá dar uma campanha robusta para todos eles? A tarefa parece difícil, mas a expectativa é que o longa protagonizado por Wagner Moura esteja, ao menos, entre os três principais da distribuidora. Esse favoritismo inicial se sustenta nas movimentações estratégicas: presença confirmada em praticamente todos os grandes festivais e, principalmente, o prêmio que Moura receberá no Festival de Zurique, que pode ser apenas o primeiro de uma série de reconhecimentos durante a temporada. Divulgação Minha aposta atual para a categoria de Melhor Filme Internacional é… Sentimental Value (Noruega) O Agente Secreto (Brasil) No Other Choice (Coréia do Sul) Nouvelle Vague (França) ou Left-Handed Girl (Taiwan) - quem for a prioridade da Netflix Sound of Falling (Alemanha) Sim, tenho comentários. Podem perceber que não estou apostando em ‘It Was Just an Accident’. Isso porque não acredito que algum país inscreva o filme - embora eu torça para estar errado, já que quanto mais competição, mais interessante fica a disputa. O longa de Jafar Panahi tem três possibilidades: Irã (quase impossível), França (que não deve optar por ele) e Luxemburgo (a chance mais concreta). É uma situação muito parecida com a de ‘Tudo Que Imaginamos Como Luz’, que mesmo sendo o filme internacional mais aclamado do ano passado, com forte carreira em festivais e prêmios da crítica, acabou não sendo escolhido por nenhum país - inclusive dois desses que também poderiam selecionar o filme de Panahi. Enfim, só o tempo nos dirá. Talvez no meu próximo texto aborde isso novamente. Divulgação Enfim, esse é apenas o primeiro de diversos textos que pretendo elaborar durante essa temporada. A cada nova movimentação, festival ou anúncio de campanha, volto aqui para atualizar o cenário e compartilhar impressões sobre as chances brasileiras e o panorama internacional. O jogo está só começando. Tem mais alguma dúvida? Só chegar nas nossas redes sociais que tiramos na hora! Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp
- Crítica | Papagaios (Gramado 2025)
Douglas Soares satiriza a obsessão pelo estrelato em longa com referências óbvias, mas ancorado no poder da sua dupla principal. Divulgação Em tempos de redes sociais e streamings, a ênfase de Papagaios na TV pode parecer anacrônica ou datada, mas faz sentido num país onde 70 milhões de televisores todos os dias. Estreia de Douglas Soares na direção, o longa — que conquistou no último Festival de Gramado os prêmios de Melhor Ator para Gero Camilo e Melhor Longa-metragem Brasileiro pelo Júri Popular — mergulha na sátira e no suspense para contar a relação complexa e repleta de nuances desenvolvida entre seus dois protagonistas. Um deles é Tunico (Camilo), cearense radicado no Rio que ganhou a alcunha de “melhor amigo dos repórteres” por estar sempre aparecendo no fundo das matérias e reportagens dos jornais, sempre em busca de seus 15 segundos de fama. O outro é Beto (Ruan Aguiar), jovem misterioso e de índole questionável que se torna seu aprendiz. A relação entre os dois varia entre mentor e protegido, pai e filho e até mesmo assume contornos homoeróticos, o que se revela uma das maiores forças do filme — como na excelente cena dos dois no espelho ao som de Naquela Mesa, de Nelson Gonçalves, onde os movimentos dos corpos ditam não só um ritmo próprio, mas sintetizam a própria temática do filme. Divulgação Mesmo que trilhe caminhos óbvios, justamente por causa das referências a que alude (como O Abutre), o filme encontra força no tratamento dado à dupla de protagonistas e seus intérpretes. Chega ser bizarro que somente agora em 2025 um ator do porte e com a carreira de Gero Camilo finalmente tenha a oportunidade de estrelar num papel principal, e ele abraça esse papel com ferocidade, mas também sutileza e nuance, criando uma figura emblemática por si própria, especialmente na sua apresentação visual (a maquiagem, a peruca, os ternos). Já Ruan Aguiar, se ainda deixa transparecer sua inexperiência em alguns momentos, consegue enquadrar um papel ainda mais difícil que o de Camilo, dada as tendências progressivamente sociopatas de Beto. Às vezes ele é restrito a olhares carregados e outros clichês desse tipo de personagem, mas no geral o ator consegue dar conta da dubiedade do seu protagonista à medida que a relação entre Tunico e Beto se constrói e desconstrói. Ainda que perca força justamente quando antagoniza o par (descambando num final ligeiramente anticlimático, para além de previsível), Papagaios consegue costurar esse universo ligeiramente perturbador, onde vale tudo pela fama. Não reinventa a roda nem se propõe a isso, mas trata-se de um impressivo trabalho de antropofagia que nos aproxima de uma realidade tão brasileira através da sátira e da tensão. Ou como cantaria Kid Abelha e Léo Jaime (este com um papel significativo no filme) em A Fórmula do Amor: Eu tenho a pose exata pra me fotografar Aprendi no vídeo pra um dia usar Um certo ar cruel, de quem sabe o que quer Tenho tudo ensaiado pra te conquistar Eu tenho um bom papo e sei até dançar Não posso compreender, não faz nenhum efeito A minha aparição será que errei na mão As coisas são mais fáceis na televisão Nota: 3.5/5
- Crítica | Desenhos
Filme é suspense aventuresco cheio de sentimento para público infantil Divulgação Quando o caderno de desenhos de uma garota cai em um lago estranho, suas criações perigosamente reais ganham vida. Conforme a cidade se torna um caos, ela e o irmão precisam rastrear as criaturas antes que elas deixem danos permanentes. Desenhos é um filme que surpreende pela maneira como equilibra suspense, drama e comédia em uma narrativa coesa e envolvente. O longa não se apoia em truques fáceis: sua força está na forma como constrói emoções genuínas a partir do olhar infantil, sem cair na armadilha da caricatura ou do sentimentalismo exagerado. O resultado é uma obra emocionante, que entende a infância como um território de complexidade e contradições. O roteiro se destaca pelo texto inteligente, que valoriza e valida a experiência emocional das crianças. Ao invés de simplificar suas dores com metáforas bobas, ele as reconhece como parte central da história. Essa escolha faz com que o espectador se conecte não apenas com a aventura, mas com a humanidade dos personagens. A produção entende que a infância é também um espaço de enfrentamento, onde as emoções podem ser tão densas quanto na esfera da vida adulta. Divulgação O elenco infantil é o grande motor do longa. Não é com tanta facilidade que se vê um grupo de crianças carregar uma narrativa com tanta segurança. A naturalidade das atuações sustenta a tensão e o humor em igual medida, criando uma dinâmica crível entre as personagens. São atuações que não apenas conduzem a trama, mas dão corpo e voz às emoções impressas em crianças que muitas vezes são negligenciadas como luto, tristeza e encorajamento para vivenciá-las. As camadas e a intensidade das vozes infantis são tratadas aqui com respeito. A proposta narrativa de usar monstros como alegoria funciona bem como representação da repressão dos sentimentos, traduzindo em imagens aquilo que as crianças ainda não conseguem expressar plenamente. Essa solução dramática reforça o impacto do filme e amplia sua potência simbólica, trazendo a experiência completa de um sensível cinema comercial que parece ser ingênuo, podendo ser tanto entretenimento quanto reflexão. Desenhos é um filme surpreendente e sensível, capaz de dialogar com públicos de diferentes idades. Nota: 3,5/5












