Entrevista | “Brasil 70: A Saga do Tri”: Hugo Haddad fala sobre viver Félix e os bastidores da seleção que marcou a história do futebol brasileiro
- Gabriella Ferreira

- há 14 horas
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Ator interpreta o goleiro da campanha do tricampeonato mundial na nova série da Netflix e fala sobre preparação física, pesquisa histórica e o lado humano por trás de uma das equipes mais icônicas do esporte.

Lançada nesta quinta-feira (29), na Netflix, Brasil 70: A Saga do Tri revisita os bastidores da campanha que levou a Seleção Brasileira ao tricampeonato mundial no México. Mais do que reconstituir partidas históricas, a produção acompanha os conflitos, desafios e relações humanas de um grupo de jovens que entraria para a história do esporte.
Entre eles está Félix, goleiro titular da equipe campeã. Interpretado por Hugo Haddad, o personagem ganha destaque em uma narrativa que busca apresentar ao público figuras que muitas vezes ficaram à sombra de nomes como Pelé, Jairzinho e Rivellino.
Em conversa com o Oxente Pipoca, o ator falou sobre a responsabilidade de interpretar uma pessoa real, a intensa preparação física exigida pela produção, o contexto histórico retratado pela série e como sua trajetória como diretor e documentarista influencia sua atuação.
Confira a entrevista completa abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou Gabi, pode me chamar de Gabi também. Faço parte do Oxente Pipoca, estou falando aqui de Sergipe. A maioria da nossa equipe é daqui do Nordeste. É um prazer falar com você. Quando eu estava lendo sobre a série, pensei em como esse é um tema que mesmo quem não gosta de futebol conhece de alguma forma. Aquela seleção está no imaginário coletivo. Imagino que, quando recebeu o papel, tenha sentido o peso da responsabilidade. Como foi isso?
Hugo Haddad: É uma seleção muito emblemática e a gente conhece algumas lendas dessa seleção. Então a gente conhece o Pelé, o Rivellino, o Jairzinho. E a parte mais legal, pessoalmente, foi conhecer o Félix, porque honestamente eu não sabia quem era o goleiro dessa seleção icônica. E acho que isso faz parte também da forma como o Félix foi tratado antes, durante e depois da Copa.
Eu achei muito interessante como eles retrataram os jogadores por um lado humano e como eu pude conhecer o goleiro dessa seleção através da série. E outros personagens também. Eu não conhecia o Saldanha, que foi o primeiro treinador daquela seleção e depois foi trocado pelo Zagallo. Eu não sabia que o Parreira já estava naquela comissão técnica, muito antes de conquistar o tetra.
Então tem várias pessoas dessa seleção icônica que eu realmente não conhecia e o Félix era uma delas. Fiquei muito feliz de poder conhecê-lo e entender a história dele. Tem um lado muito humano em todos os jogadores apresentados. O Félix tem família na série, tem filha, tem esposa. Mostra um outro lado desses jovens, porque eram jovens que estavam competindo e ficavam meses longe de casa. Então acho que vai ser uma boa oportunidade para a gente conhecer outros personagens dessa seleção tão icônica.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu imagino que também tenha sido diferente de outros papéis por ser baseado em uma pessoa que realmente existiu. Como você lidou com isso? Foi atrás de pesquisa ou preferiu construir o personagem mais a partir do roteiro?
Hugo Haddad: Eu pesquisei bastante sobre o Félix e não consegui encontrar muitos materiais dele daquela época. Eu encontrei entrevistas, encontrei documentários, mas quase tudo quando ele já era um senhor de idade. Então tive que criar uma versão do Félix a partir de tudo o que eu li e estudei. O sotaque dele, por exemplo, foi uma dessas questões. Ele era paulistano, morava no Rio de Janeiro e eu sou mineiro. Então fiquei pensando como era o sotaque dele naquela época.
Outra coisa que fui descobrindo é que ele era um cara muito amado pelos outros jogadores. Todo mundo gostava dele. Isso já vai mostrando um caminho de construção do personagem. Eu encontrei uma entrevista de um ex-treinador do Fluminense que dizia que queria o Félix no time não apenas por ser um ótimo goleiro, mas porque ele organizava toda a defesa. Enquanto o capitão estava comandando do meio para frente, o Félix comandava lá atrás. Isso também me dava pistas da personalidade dele. Então ele não era um cara inseguro com a equipe. A equipe confiava nele. Era um cara muito querido, muito amoroso com a família.
Tem muitas entrevistas das filhas, da esposa dele, e a gente vai juntando essas peças. O trabalho do ator também é esse. Você pega uma pessoa real e traz camadas do seu conhecimento artístico para transmitir os sentimentos daquele momento. E teve uma outra questão. A gente fez uma série de ação. Futebol é muita ação. Então além de entender como o Félix falava, como ele se portava, a minha postura mudou muito enquanto eu fazia o personagem.
Eu também precisava aprender a fazer aquelas defesas incríveis que ele fazia. A gente tinha dublês, mas conseguiu gravar praticamente tudo sem precisar deles. Então teve essa camada também. Além de tudo, eu precisava pegar essa característica de goleiro mesmo.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É uma preparação física também, né?
Hugo Haddad: Sim. Eu estava muito mais forte antes da série. Quando fiz os testes, me perguntaram se eu toparia emagrecer e eu aceitei. Teve uma preparação diária. Ficamos dois meses treinando em campo de futebol de verdade, com treinadores de verdade, ensaiando cada jogada e tendo uma rotina parecida com a de uma concentração de seleção mesmo.
Pensa: dois meses acordando todos os dias às 4h30 da manhã para ir a um estádio que ficava a uma hora de onde a gente estava hospedado. Outra coisa muito legal é que todos os jogadores ficaram no mesmo prédio. Cada um tinha seu apartamento, mas existia essa sensação de concentração.
Quando alguém tinha dúvida sobre alguma coisa, a gente recorria aos jogadores profissionais que estavam ali com a gente. E quando dava vontade de descansar, a gente se inspirava neles, porque eles treinam faça chuva ou faça sol. Foi uma preparação física e mental muito intensa. Depois desses dois meses, realmente parecia que a gente estava defendendo uma seleção.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou uma grande fã de futebol e acho muito interessante como a série pode apresentar essa história para novas gerações. Muita gente conhece um ou dois nomes daquela seleção, mas não sabe exatamente como tudo aconteceu.
Hugo Haddad: Sim. A gente cristalizou um momento histórico do nosso país. O tricampeonato foi o que tornou o Brasil a maior seleção de todos os tempos até então. Não existia nenhuma seleção que tivesse conquistado três Copas do Mundo. E isso também ajudou a transformar o Pelé nesse ícone global que ele se tornou.
Mas existe uma coisa muito interessante. Hoje a gente olha para a seleção de 70 e vê expressões como "a maior seleção da história", "a seleção do século", "o time imbatível". Quando assistimos à série, percebemos que eles eram humanos. Eram jovens. Tinham conflitos muito parecidos com os que a gente vê em outras gerações da seleção.
Em 1970, a seleção era desacreditada. As pessoas não acreditavam mais no Pelé. Achavam que ele já deveria se aposentar. Hoje é impossível imaginar isso. Além disso, os jovens vão ter a oportunidade de conhecer uma parte importante da nossa história que vai além do campo.
Enquanto a seleção estava concentrada no México, o Brasil vivia a ditadura militar. Isso influenciava tudo ao redor deles. A série mostra essa relação, como o regime tentava usar a seleção para reforçar um patriotismo naquele momento e como os jogadores também estavam isolados dessa realidade. Eles queriam trazer a taça para o povo brasileiro. A ditadura passou. A taça ficou. E é isso que a gente carrega até hoje.
Também fico querendo que os jogadores atuais assistam à série, porque eles vão se identificar. Tem jogador desacreditado, jogador machucado, mudanças no time, pressão da torcida. São situações que continuam existindo no futebol.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu estava olhando sua trajetória e vi que ela passa muito pela direção também. Como essas experiências influenciam seu olhar como ator?
Hugo Haddad: Esse é um ponto interessante. É muito mais comum um ator começar a dirigir do que um diretor começar a atuar. Eu já tinha uma carreira consolidada na direção. Dirigi documentários, dirigi longas-metragens e trabalhei dez anos como editor.
Na edição você vive dois mundos ao mesmo tempo. Você escolhe os melhores takes, observa atuação, direção, ritmo. Depois, quando fui dirigir documentários, comecei a lidar com pessoas muito diferentes umas das outras. E isso me ensinou muito sobre comportamento humano.
Hoje, como ator, eu uso tudo isso como uma caixa de ferramentas. Às vezes percebo que estou usando uma palavra, um gesto ou um jeito de falar que aprendi observando alguém anos atrás.
Você passa a prestar atenção em como as pessoas andam, respiram, se sentam. O Félix tinha uma postura um pouco mais curvada do que a minha. Tinha um olhar mais fechado. Tudo isso foi entrando na construção do personagem.
A direção também me ajudou porque eu entendia o funcionamento do set. Eu sabia onde a câmera estava, qual lente estava sendo usada, o que me permitia focar mais na atuação e na escuta do diretor.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Depois de toda essa experiência, qual é a principal coisa que você leva da série?
Hugo Haddad: Eu aprendi muitas coisas durante essa produção. Eu não sou formado em uma faculdade de artes dramáticas e considero que esse projeto foi uma faculdade intensiva para mim. Aprendi muito com os outros atores. Quando alguém tinha dúvida sobre uma cena, uma fala ou um personagem, a gente se ligava, se encontrava e ensaiava junto.
Também aprendi que o ator precisa desenvolver uma certa autoria sobre o personagem. Você precisa entender o roteiro, entender o que os roteiristas escreveram e pensar como aquilo vai ganhar vida através de você. Aprendi também que a escuta ativa talvez seja a maior habilidade que um ator pode desenvolver.
Mas o que eu vou levar para a vida são os amigos que fiz. Essa seleção se amou, se odiou, brigou, comemorou. Quando assisti à série, fiquei muito emocionado.
E percebi que me emocionei mais vendo meus amigos atuando do que vendo a mim mesmo. Saber que esse trabalho pode mudar a vida de muitos deles me deixou muito feliz.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca) Para encerrar, eu sempre faço a mesma pergunta para todos os entrevistados. Queria uma dica de filme ou série brasileira para o nosso público.
Hugo Haddad: Como um bom mineiro, minha dica vai ser um filme mineiro. Eu recomendo No Coração do Mundo. É um dos meus filmes favoritos. A Kelly Crifer, que é a protagonista, foi minha professora e é uma amiga muito querida. Aprendi muito com ela. É um filme da Filmes de Plástico e considero indispensável para quem gosta de cinema nacional.
O mais interessante é que eles fizeram primeiro um curta-metragem e depois transformaram a história em um longa. Então assistam aos dois para perceber também as diferenças entre eles. Essa é a minha dica de hoje.



















