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Crítica | Euphoria (3ª temporada)

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

No fim, o maior excesso da série foi acreditar na própria genialidade.


Divulgação


Quando estreou em 2019, Euphoria parecia destinada a se tornar uma das séries definidoras de sua geração. A produção da HBO foi celebrada por abordar dependência química, saúde mental, sexualidade e violência juvenil sem o verniz moralista que costuma acompanhar esse tipo de narrativa. Havia excessos, claro, mas eles existiam a serviço de personagens complexos e emocionalmente devastados. Seis anos depois, a terceira e última temporada encerra a trajetória da série de forma melancólica, não pelos destinos de seus personagens, mas pela constatação de que talvez Euphoria nunca tenha sido tão profunda quanto acreditávamos.


O maior problema desta temporada é o vazio. Um vazio tão evidente que faz o espectador revisitar a própria memória afetiva da série. Os episódios se arrastam em narrativas superficiais, diálogos que parecem rascunhos e conflitos que se repetem sem evolução significativa. O resultado é uma temporada que frequentemente se sustenta apenas pelo talento de seu elenco, obrigado a tirar leite de pedra de um material dramaticamente raso.


O salto temporal proposto por Sam Levinson parecia uma oportunidade natural para amadurecer a série. Os personagens deixaram a escola para trás e agora tentam sobreviver à vida adulta. Na prática, porém, pouca coisa mudou. O cenário é diferente, mas os personagens continuam presos às mesmas dinâmicas emocionais de anos atrás.


Rue, interpretada por Zendaya, segue lutando contra a dependência química em uma narrativa que gira em círculos. Cassie, vivida por Sydney Sweeney, passa a explorar a venda de conteúdo adulto, um arco que poderia render discussões interessantes sobre exploração, autonomia e sexualização feminina. No entanto, Levinson reduz a personagem a uma sucessão de humilhações e cenas grotescas.


É impossível ignorar como a misoginia atravessa toda a temporada. Mulheres continuam sendo filmadas, escritas e posicionadas como objetos de desejo, degradação ou punição. O problema não é mostrar personagens femininas em situações extremas. O problema é que a série parece incapaz de enxergá-las para além disso.


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A sensação é semelhante àquela provocada por The Idol, também criada por Levinson. Na ocasião, a série pretendia denunciar mecanismos de exploração da indústria do entretenimento enquanto transformava sua protagonista em um objeto vazio, definido apenas pelos desejos e manipulações dos homens ao seu redor. Em Euphoria, o padrão se repete. Existe uma tentativa constante de vender sofrimento como profundidade e degradação como complexidade psicológica.


O arco de Cassie exemplifica perfeitamente essa limitação. O que poderia ser uma discussão sobre vulnerabilidade emocional, exposição digital e autoestima se transforma em uma sequência constrangedora de imagens que parecem existir apenas para chocar. Há momentos em que a personagem surge em fantasias visuais absurdas, incluindo versões gigantes de si mesma com os seios em destaque ou encenações infantilizadas de forte conotação sexual. Não há reflexão. Não há desenvolvimento. Existe apenas o desejo de provocar reação.


E essa talvez seja a maior armadilha da temporada. Levinson parece acreditar que qualquer imagem extrema automaticamente possui significado. Cobras, dedos decepados, explosões de violência e sequências sexuais intermináveis surgem como se fossem capazes de preencher os buracos do roteiro. Não são.


As influências de Quentin Tarantino aparecem em diversos momentos, mas sem o domínio narrativo necessário para sustentá-las. O que deveria soar estilizado frequentemente provoca constrangimento. A violência surge sem peso dramático. O choque aparece sem contexto. A provocação existe sem qualquer elaboração posterior.


O mais curioso é que o mundo mudou muito mais do que Euphoria durante os quatro anos que separaram esta temporada da anterior. Seu público amadureceu. Seus atores cresceram profissionalmente e se tornaram estrelas muito maiores do que a própria série. Zendaya consolidou-se como uma das atrizes mais relevantes de sua geração. Sydney Sweeney tornou-se um fenômeno da indústria. Jacob Elordi e Hunter Schafer expandiram suas carreiras para além dos corredores da escola. 


Ao reuni-los novamente, Levinson parece menos interessado em concluir suas jornadas do que em submetê-los a uma espécie de ritual de desgaste emocional. Como se a série se recusasse a aceitar que aqueles personagens já deveriam ter seguido em frente. É uma reunião de ex-alunos para a qual ninguém realmente queria voltar.


Se existe algo digno de destaque nesta reta final, está nas atuações. Adewale Akinnuoye-Agbaje entrega um Alamo magnético, capaz de capturar a atenção mesmo quando o material ao seu redor desmorona. Sua presença impõe uma tensão que o roteiro raramente consegue construir sozinho. O retorno de Colman Domingo também funciona como um lembrete doloroso do que Euphoria já foi capaz de realizar quando permitia que seus personagens respirassem.


Talvez por isso o desfecho seja tão frustrante. Porque não estamos falando de uma série medíocre desde o início. Estamos falando de uma produção que entregou alguns dos episódios mais interessantes da televisão recente, como o especial focado em Jules e sua sessão de terapia, capaz de explorar identidade, afeto e autoconhecimento com uma sensibilidade que parece impossível de encontrar nesta temporada final.


Euphoria termina como uma caricatura de si mesma. Uma série que confundiu intensidade com profundidade, sofrimento com desenvolvimento e choque com relevância. O que antes parecia um retrato brutal da juventude contemporânea acaba reduzido a um desfile de excessos vazios.


No fim, resta a sensação de que os melhores momentos de Euphoria pertencem a uma série que já não existe há muito tempo.


Nota: 0.5/5


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