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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | A Vida Mentirosa dos Adultos (1ª temporada)

Quando a Netflix consegue netflixzar até uma Elena Ferrante

Divulgação: Netflix


Já dizia Reese Witherspoon: "women's stories matter! They just matter!" (histórias de mulheres importam! Elas simplesmente importam). E, no momento, não tem ninguém que saiba contar essas importantes histórias melhor que Elena Ferrante, pseudônimo de uma das autoras mais aclamadas e bem recebidas da última década. Ninguém narra as dores e as delícias de ser mulher como ela. E, coincidência, consequência ou timing, suas obras ganham notoriedade no mesmo período que Hollywood anseia por trazer às telas mais mulheres em local de protagonismo sem o apego/apelo de um par romântico masculino. Como 1 + 1 são 2, as histórias de Ferrante vêm sendo disputadas por estúdios e ganhando adaptações audiovisuais.


A primeira delas é a irretocável 'A Amiga Genial' (My Brilliant Friend), atualmente em sua quarta temporada pela HBO e uma série que recomendo para todo mundo. Daí em 2021 a Netflix nos trouxe 'A Filha Perdida' (The Lost Daughter), estreia triunfal de Maggie Gyllenhaal como diretora de cinema. Agora, é a vez de 'A Vida Mentirosa dos Adultos' (The Lying Life of Adults), série de seis episódios recém-lançada também pelo streaming do tudum. A diferença é que, enquanto as duas primeiras adaptações parecem ter encaixado perfeitamente na mídia escolhida, esta última passa uma constante sensação de que poderia ser um filme. Quiçá um de curta-metragem.


Antes de seguir, preciso pontuar que não li o material homônimo que baseia a série. Não falo isso com pesar ou vergonha – pelo contrário, acredito que não ter contato com a obra original permite uma crítica extremamente valiosa à obra adaptada, afinal, se optaram por transpor a história para o audiovisual e disponibilizaram-na na mais popular plataforma de streaming do mundo, certamente não foi porque acreditaram que a leitura do livro seria primordial ou obrigatória (além que nada mais chato que crítico que esquece de avaliar a adaptação e faz de seu texto uma comparação preciosista e exaustiva de cenas). Mas, ainda assim, faço essa colocação para esclarecer que os parágrafos a seguir se restringem exclusivamente aos seis episódios da série e não pretendem qualquer prolongamento aos méritos do livro.

Divulgação: Netflix


Já na abertura, vemos Giovanna, interpretada por Giordana Marengo, mergulhada em águas profundas para conseguir uma pulseira. A própria internet é ambígua em relação à idade de Marengo, variando seu ano de nascimento de 1997 a 2003. O fato é que, de certo, seja pela idade conjecturada ou pelo corpo propositalmente evidenciado já nesta cena inicial, se trata de uma jovem mulher. Contudo, ao longo da obra, os demais elementos do enredo tratam-na como uma criança por volta da pré-adolescência. Ou seja, a história nos diz uma coisa, nossos olhos nos mostram outra; Giovanna se porta como adulta mas se comporta como criança. Sei que não é a primeira vez que vemos atores muito mais velhos que seus personagens, mas isso que seria um detalhe ou um curioso incômodo em outras produções se torna crucial para o (não) funcionamento desta. Ninguém questiona quando Chaves ou Rachel Berry vão para a escola com rugas no rosto porque o ridículo faz parte daqueles universos, mas quando o mesmo acontece numa série com intenções claramente realistas, o ridículo é só ruim.


O fio condutor da narrativa é a surpresa de Giovanna ao ser chamada de “feia” por seu pai – inquietação perfeitamente autêntica para uma criança, mas deveras boba para uma maior de idade. Em verdade, seus pais, parte da classe média alta, intelectualizada e politizada de Nápoles, nunca usaram este termo, mas a compararam com Vittoria (Valeria Golino), tia da menina, irmã de seu pai, que naquela casa é tratada como um terrível monstro lendário do qual é melhor nem falar sobre. Até as fotos em que ela aparece foram alteradas. Como de se esperar, Giovanna fica obcecada (ou, se nos forçarmos a aceitar a narrativa da criança, genuina e inocentemente curiosa) pela pessoa com a qual foi equiparada e não descansa até conhecê-la e descobrir que a tia, apesar de excêntrica, não é tão ruim quanto lhe foi pintada. É certo que a vida não foi tão generosa a Vittoria quanto foi ao seu irmão, de modo que ela ainda mora do bairro pobre onde cresceram, se apega à religião no lugar da política e tem relações muito menos polidas e corteses, mas, nos olhos de Giovanna, isso faz dela ainda mais atraente. O que era para ser um primeiro e último encontro, vira um convívio.


Assim, Giovanna vai vivendo nesta troca de farpas entre irmãos que se odeiam e se culpam por ser o mal da vida um do outro. Enquanto adentra a rotina das classes mais baixas de Nápoles, observa sua própria vida com nova perspectiva, enxergando a hipocrisia de seus pais e seu meio. Troca sua família e amigas igualmente privilegiadas pelo ciclo social de Vittoria, e se acha especial por isso. Até que percebe que essa aproximação arruinou tudo que conhecia. Vilaniza a tia e perde respeito pelos seus pais. Sem nenhuma figura adulta para admirar e tendo repelido as amizades que conhecia, a nossa “criança” se vê perdida, tomando sucessivas decisões tolas (ou infantis) em busca de ser dona da própria narrativa e se desprender das mentiras dos mais velhos. Para surpresa de ninguém, acaba ela mesma se percebendo em sua própria rede de dissimulação.

Divulgação: Netflix


Ainda que o título denuncie toda a trama, os detalhes e coadjuvantes tornam esta uma história potencialmente interessante. As pequenas mentiras são essenciais para a formação de nossas personas e é mesmo doloroso crescer e perceber não só que teremos que recorrer a elas, mas também que todos aqueles que amamos e confiamos vinham fazendo o mesmo conosco. O ponto aqui é que, assim como essas mentiras, a trama pede uma sutileza que não é entregue – e não apenas devido à confusão em relação à idade da protagonista. Para mostrar que Giovanna está mimetizando os trejeitos de Vittoria, a série a coloca repetindo palavra por palavra o que a tia falou cenas antes, no mesmo episódio! Fica a sensação de que a obra se entende por demais complexa, intelectualmente inacessível, de modo que precisam mastigar esses detalhes para o tolo público poder compreender. Na verdade, não passa de um come of age X rebelde sem causa não muito diferente de tantos outros que já vimos.


Em troca dessas explicações escusáveis, nos sobra uma série de ritmo lentíssimo e repetitivo, com tramas que parecem estar lá só para preencher uma quota de episódios e minutos que ninguém pediu. Por sorte, o lindo plano de fundo napolitano e as belas locações, capturados por uma fotografia de primeira, ajudam a vista, tornando ao menos uma bela experiência. Destaco também a excelência de Valeria Golino, que convence todas as nuances de Vittoria em apenas uma tragada de cigarro, e de Giordana Marengo, que, mesmo em seu papel de estreia, carrega a série sem transparecer muitos desafios. Porém, roteiro e, acredito eu, especialmente direção trazem problemas estruturais difíceis de serem ignorados.


Ferrante é conhecida por duas coisas: (1) abordar belissimamente a formação identitária de mulheres italianas; e (2) construir personagens realistas, com defeitos e qualidades humanas. Em A Vida Mentirosa dos Adultos, vemos esses dois elementos bem claros – só não são tão bem trabalhados quanto se espera. As questões que moldam Giovanna não nos parecem relevantes o suficiente para isso. Sequer o terrível ódio mortal entre seu pai e sua tia se mostra tão coerente. E o realismo das pessoas dessa vez não as torna mais interessantes, apenas chatas. Se não são totalmente passivas e entediantes, são arrogantemente prepotentes. Não gostaria de sentar numa mesa de bar com nenhuma delas, assim como pouco me agradava assisti-las em minha TV.


Sim, Reese, women's stories matter. Mas, sem uma boa base artística para contá-las, ouso dizer que elas parecem importar um pouquinho menos.


Nota: 2,5/5

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