Crítica | Toy Story 5
- Ávila Oliveira

- há 3 dias
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Animação resolve jogar com as cartas que conhece e acerta com gracejo todos os movimentos planejados.

Toy Story 5 traz de volta Woody, Buzz Lightyear, Jessie e a turma para uma nova aventura em que os brinquedos enfrentam um desafio inédito: a tecnologia moderna. Quando Bonnie ganha um tablet inteligente chamado Lilypad, sua atenção começa a se afastar dos brinquedos tradicionais. Agora, os personagens precisam descobrir como continuar relevantes em um mundo dominado por telas e dispositivos eletrônicos.
É no mínimo curioso perceber como a Pixar demorou tanto para dar a Jessie o espaço que ela sempre mereceu. Não porque ela precise ocupar o lugar de alguém ou carregar qualquer tipo de representação de agenda programática, mas porque sempre foi uma personagem forte o bastante para sustentar a própria história. Toy Story 5 entende isso e simplesmente a coloca no centro da narrativa, sem discursos ou grandes anúncios. A confiança está nas ações. E funciona muito bem. A presença dela, somada à de Bonnie e da mãe da garota, cria uma dinâmica familiar que o quarto filme jamais conseguiu desenvolver de forma convincente. Pela primeira vez em muito tempo, a franquia fala sobre abandono, crescimento e substituição sem transformar tudo em um espetáculo emocional. Toda a camada emotiva aqui é mais discreta, mais próxima da experiência real e, por isso, mais tocante.
A ideia de colocar tablets e dispositivos eletrônicos como elemento central do conflito poderia facilmente soar como uma reclamação rasteira nostálgica de um espírito tiozão saudosista que está sempre falando "no meu tempo a gente brincava na rua". Felizmente, o roteiro evita esse caminho. A tecnologia em si não é tratada como vilã. O filme reconhece seu fascínio, sua utilidade e sua presença inevitável na vida moderna, e deixa claro que está em jogo não é uma disputa entre passado e presente, mas entre atenção dispersa e afeto, conexão genuína. Existe até certa ironia no fato de a franquia abordar esse assunto apenas agora, quando a discussão já parece antiga. Ainda assim, o atraso acaba jogando a favor do filme. Afinal, quem cresceu acompanhando Woody e Buzz também cresceu vendo o mundo mudar diante dos próprios olhos. Toy Story 5 conversa tanto com as crianças quanto com os adultos que passaram décadas ao lado desses personagens.
A trama paralela envolvendo um exército de Buzzes tecnológicos inicialmente parece uma decisão puramente comercial. Só que o filme rapidamente encontra um propósito para esses personagens. Eles acabam funcionando como um reflexo distorcido do próprio Buzz Lightyear: versões programadas para cumprir funções, mas sem personalidade, imaginação ou individualidade. Aos poucos, deixam de ser uma simples piada visual para se tornar uma peça importante da narrativa. O mais interessante é que a Pixar não força essa transição. Quando o espectador percebe, já está investido na jornada daqueles bonecos e torcendo para que encontrem algum significado na trama mesmo.

Quem espera sair da sessão emocionalmente destruído como aconteceu com Toy Story 3 talvez encontre algo diferente aqui. O impacto existe, mas surge de forma mais silenciosa. Em vez de apostar em grandes cenas de despedida, o filme encontra força nos detalhes: Bonnie deixando o tablet de lado para brincar, Jessie sendo escolhida mais uma vez, Woody observando de longe as mudanças inevitáveis da vida. São momentos simples, mas carregados de significado. A emoção nasce exatamente dessa compreensão de que crescer não é uma tragédia, é só uma parte do inevitável processo da roda da vida. E sim, às vezes, aceitar isso dói mais do que qualquer cena construída para arrancar lágrimas.
Ao mesmo tempo, talvez este seja o filme mais engraçado da série. As piadas aparecem em sequência, com um ritmo acelerado que acompanha a forma como crianças consomem entretenimento hoje. Há sempre alguma observação inesperada, uma piada interna, uma alfinetada ou um recurso visual pronto para interromper a melancolia antes que ela se instale por completo. Os adultos devem encontrar uma camada extra de humor nas entrelinhas, enquanto os mais novos vão se divertir com a energia constante da narrativa. É engraçado que a animação reproduz justamente a hiperestimulação que está discutindo, mas faz isso de maneira consciente.
Se todo mundo fingir que Toy Story 4 nunca aconteceu, Toy Story 5 certamente funciona melhor como continuação direta da trilogia original. Não porque tentou superar seus antecessores ou reinventar a franquia, mas porque entendeu o que torna esses personagens especiais para o público. O filme não busca respostas grandiosas e absolutas nem pretende transformar seus temas em lições definitivas, ele coloca Woody, Buzz, Jessie e os demais diante de um mundo que mudou e observa como eles reagem a isso. Há soluções previsíveis e algumas ideias recicladas, mas existe também uma sinceridade difícil de ignorar. Não dá para ser ingênuo em acreditar que em pleno 2026 a Disney esteja querendo fazer mais uma continuação apenas com boas intenções e coração puro. Porém numa época em que tantas sequências parecem existir apenas por obrigação (Toy Story 4), encontrar uma interessada em fazer seus personagens avançarem, ainda que um pouco, já é algo admirável. Quase trinta anos depois e esses brinquedos seguem encontrando novas maneiras de falar sobre afeto, pertencimento e memória para novas gerações. E isso, por si só, já tem seu valor.
Nota: 4/5



















