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Crítica | Trago Seu Amor

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Filme encontra frescor ao colocar uma história LGBTQIA+ no centro de uma comédia romântica assumidamente popular.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Existe uma armadilha comum quando falamos sobre comédias românticas. Frequentemente elas são cobradas por não serem originais o suficiente, como se o gênero precisasse se reinventar a cada novo lançamento para justificar sua existência. Trago Seu Amor segue pelo caminho contrário. O filme, que chega aos cinemas em 11 de junho, sabe exatamente quais ingredientes compõem uma boa história romântica, confia neles e encontra sua força não na ruptura, mas na execução.


Dirigido por Cláudia Castro, o longa parte de uma premissa irresistível: Mia, uma jovem bruxa que ganha a vida manipulando sentimentos, possui o poder de fazer qualquer pessoa se apaixonar com um beijo. Acostumada a controlar os afetos dos outros, ela acredita ter domínio absoluto sobre o amor até que se vê apaixonada justamente por René, a mulher que deveria ser apenas mais uma peça em um de seus trabalhos.


A partir daí, o filme desenvolve uma narrativa que entende algo fundamental sobre as melhores comédias românticas: o público não está ali para descobrir o destino dos personagens, mas para aproveitar o caminho até ele.E esse caminho é extremamente agradável.


Grande parte do mérito está na construção de Mia. Giovanna Grigio conduz a personagem com uma mistura eficiente de autoconfiança, impulsividade e vulnerabilidade. A atriz evita transformar a protagonista em uma figura excessivamente caricata e encontra nuances que tornam sua jornada emocional genuinamente envolvente. É uma atuação que sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro se aproxima das convenções mais conhecidas do gênero.


Mas Trago Seu Amor funciona especialmente porque compreende a natureza do próprio clichê. Em vez de fugir dele, a obra o encara de frente. O roteiro brinca com arquétipos clássicos da comédia romântica, flerta com situações familiares e faz disso uma qualidade. Há algo reconfortante em assistir a uma história que não tem vergonha de ser romântica.


A fantasia serve como ponto de partida para reflexões discretas sobre controle, desejo e idealização. Afinal, o que acontece quando alguém acostumado a manipular os sentimentos dos outros finalmente perde o controle sobre os próprios? Sem transformar essa questão em um grande tratado filosófico, o filme encontra pequenas observações interessantes sobre a forma como construímos expectativas afetivas e projetamos desejos em quem amamos.


Visualmente, o longa também demonstra identidade. A direção de arte é um dos grandes destaques da produção. As cores vibrantes, os elementos místicos espalhados pela narrativa e a fotografia carregada de tons neon ajudam a criar um universo que parece existir entre a fantasia e o cotidiano. É uma estética pop, jovem e assumidamente brasileira, que evita copiar modelos estrangeiros e encontra uma linguagem própria.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Outro aspecto que merece destaque é a naturalidade com que a narrativa trabalha sua história de amor. Em um cenário audiovisual que ainda costuma transformar personagens LGBTQIA+ em símbolos de sofrimento ou conflito, Trago Seu Amor escolhe outro caminho. Aqui, a sexualidade não é tratada como obstáculo, trauma ou segredo. É apenas parte da vida das personagens.


Essa escolha pode parecer simples, mas possui um peso enorme, especialmente em um lançamento que chega aos cinemas durante o Mês do Orgulho. Existe algo profundamente importante em permitir que personagens LGBTQIA+ ocupem o espaço da fantasia, da leveza e do romance sem que suas histórias precisem ser justificadas pela dor.


E talvez seja justamente isso que torna o filme tão simpático.


Sem pretensões grandiosas, sem a necessidade de parecer mais complexo do que realmente é, Trago Seu Amor entende que entretenimento também possui valor. É uma obra feita para arrancar risadas, provocar suspiros e fazer o público se importar com seus personagens. E consegue fazer tudo isso com competência.


O resultado é uma comédia romântica que dificilmente mudará os rumos do cinema nacional, mas que aponta para algo igualmente importante: a possibilidade de um cinema popular brasileiro mais diverso, mais colorido e mais interessado em contar histórias afetivas para novos públicos.


No fim das contas, o maior truque de Trago Seu Amor não está nos feitiços de Mia. Está em lembrar que, às vezes, uma boa história de amor continua sendo tudo o que precisamos.


Nota: 3.5/5


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