top of page
Background.png

Crítica | A Casa do Dragão (3ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Temporada representa um avanço em relação à anterior, mas ainda escancara as fragilidades de uma série continuamente à sombra de Game of Thrones.

Divulgação


Após um segundo ano que, na melhor das hipóteses, poderia ser descrito como morno, A Casa do Dragão retorna para esta nova temporada com a árdua tarefa de reconquistar a confiança do público. É inegável que esta nova leva de episódios consegue superar a temporada anterior (o que não era muito difícil), mas ainda é perceptível em vários momentos como a série carrega problemas estruturais e narrativos que a essa altura parecem incontornáveis, especialmente levando em conta que a próxima temporada será a última.


A temporada começa com um verdadeiro estrondo, com seus dois primeiros episódios dando conta de deixar de lado aquele gosto ruim deixado pelo ritmo quase letárgico da temporada anterior. O primeiro episódio, Salt and Sea, Fire and Blood, encadeia traições, reviravoltas, batalhas e a morte de um dos personagens principais, Jacaerys "Jace" Velaryon (Harry Collett), enquanto o segundo, Queen’s Landing, finalmente consolida a tão aguardada conquista de Porto Real por Rhaenyra (Emma D’Arcy) na ausência de Aegon (Tom Glynn-Carney) e Aemond (Ewan Mitchell). São episódios grandiosos, de fato, lembrando alguns dos momentos mais épicos, catárticos e trágicos de Game of Thrones.


Entretanto, também são episódios que em determinados momentos parecem sobrecarregados pela quantidade de eventos que acontecem neles, bem como a rapidez e a conveniência com a qual eles acontecem. Além do mais, não deixam de parecerem finais de temporada, e não o começo delas; o que ficou evidente quando se noticiou que eles foram de fato planejados para serem os episódios finais da temporada passada, mas foram remanejados para esta devido aos cortes de gastos da HBO. Trata-se de uma decisão curiosa – e certamente errônea, visto que tê-los na temporada anterior poderia elevá-la um pouco mais, enquanto a presença deles aqui faz parecer que esta terceira temporada de A Casa do Dragão é composta apenas de seis episódios... e a julgar pela maior parte desses episódios, o cenário não é lá muito animador.


Tendo em vista seu material original, é de se esperar que a série enfoque o espetáculo e a grandiosidade dos eventos aqui narrados, e quando ela aposta nas batalhas, nas lutas e na presença dos dragões em cena há um nítido acerto – como atestam as batalhas do primeiro e último episódios, ou a rinha de dragões no sétimo. Mas o lado do drama político – uma das grandes características desse universo – continua subdesenvolvido, o que fica ainda mais flagrante numa temporada que, ao enfim consolidar Rhaenyra nessa posição de poder como rainha, intenta desconstruir a personagem a partir dos desafios e perdas que enfrenta e as escolhas difíceis que ela precisa tomar, mas acaba por privá-la de sua própria agência. Emma D’Arcy sustenta e muito a personagem, mas é frustrante ver como muitas das decisões dela são guiadas pelo que os outros personagens – sobretudo Daemon (Matt Smith) e Mysaria (Sonoya Mizuno) – ditam ou aconselham, de modo que até aquilo que seria tido como “questionável” ou “problemático” é resultado dos erros de outros personagens e nunca dela.


É como se Ryan Condal e seu time de roteiristas, temerosos de que o caminho de Rhaenyra rumo à tirania fosse ser mal visto pelo público depois do gosto amargo deixado pelo fim de Daenerys em Game of Thrones, quisesse tentar impedir que o mesmo acontecesse aqui. O problema é que isso é feito se retirando qualquer possibilidade de nuance, o que diz muito a respeito da situação do público atual e sua incapacidade de lidar com personagens controversos, mesmo que essa sempre tenha sido uma marca deste universo. O mais bizarro é ver como essa falta ou retirada de nuances se estende a outras personagens femininas, como Alicent (Olivia Cooker) – que, de coprotagonista e destaque do elenco nas temporadas passadas, é escanteada ou jogada em subtramas difíceis de engolir –, Helaena (Phia Saban) – reduzida à melancolia ou visões premonitórias – ou Rhaena (Phoebe Campbell) – cujas ações no início da temporada desencadeiam a tragédia que abate Jace, mas só por causa de um “mal-entendido” entre ela e seu dragão (o uso contínuo de mal-entendidos para justificar certas ações dos personagens continuam a ser um dos elementos mais covardes da série).


Divulgação


Para além dessa falta de nuances, outro problema que eu já tinha apontado na minha crítica da segunda temporada e segue firme e forte nesta é a incapacidade de saber o que fazer com alguns de seus personagens e por conta disso prendê-los em subtramas enfadonhas que parecem andar em círculos. Exemplo disso é a própria Rhaena, que passa a maior parte da temporada presa no Vale remoendo suas ações no primeiro episódio, ou Aemond, que de principal antagonista da temporada passada é relegado ao hóspede da vez em Harrenhall ao lado da misteriosa – e maçante – Alys Rivers (Gayle Rankin), numa subtrama que é provavelmente a pior da temporada (seria Harrenhall tão amaldiçoada que amaldiçoa até os roteiros da série?). Há também o road movie que vai do nada ao lugar nenhum de Aegon e Larys Strong (Matthew Needham), embora este ainda ganhe algum peso porque Tom Glynn-Carney é muito bom em fazer do seu Aegon um personagem tão patético e ao mesmo tempo digno de simpatia em certos momentos. E nem vamos falar de Criston Cole (Fabien Frankel), que encontra seu fim inglório no sexto episódio, mas vinha sendo tão escanteado desde a temporada passada que é difícil até mesmo comemorar sua morte, visto que o sentimento em torno dele parece mais próximo da indiferença.


Em contraste, há acertos dignos de nota, especialmente no núcleo dos Hightower, que ganha mais escopo nessa temporada com tudo que envolve a cidade de Tumbleton. As introduções de Ormund (James Norton) como o grande antagonista da vez e de Daeron (Benjamin Evan Aisworth) como um novo pretendente Targaryen podem soar tardias e convenientes, mas ajudam a renovar o gás da série e a complexificar o tabuleiro desta guerra, especialmente com a influência das ações de Ormund sobre os cada vez mais catastróficos acontecimentos em Porto Real que minam a autoridade de Rhaenyra, ou na presença desestabilizadora de Ulf (Tom Bennett) e Hugh (Kieran Bew). Mas provando que às vezes menos é mais, os melhores momentos deste terceiro ano muitas vezes residem no embate de Ormund e Gwayne (Freddie Fox) pela alma e futuro de Daeron. Gwayne, aliás, é talvez um dos melhores acertos da série em relação ao livro, visto que de um personagem menor tirado de cena cedo demais, ele ganha espaço como talvez a única figura razoável em meio a este mar de lordes orgulhosos, tiranos e jogadores, especialmente pelo carinho genuíno que tem pelo sobrinho.


Ao final, o saldo geral desta terceira temporada de A Casa do Dragão é de uma série que continua a lutar para afirmar sua identidade, mas ainda permanece presa ao legado deixado por Game of Thrones (para o bem ou para o mal) e também da própria obra de George R.R. Martin, seja mantendo certos traços dos personagens e linhas narrativas, seja se desviando quase que por completo. Frente a essa tensão quase inerente à sua própria identidade como série, o que se vê aqui é uma leve de episódios que até lava um pouco do gosto ruim deixado pela temporada passada, mas é fragilizado por suas irregularidades e desperdício de um ótimo elenco, embora ocasionalmente construa batalhas épicas e povoe o céu de dragões para nos fazer esquecer (mesmo que só por um instante) dessas fragilidades.


Nota: 3/5

LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page