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Crítica | Carcereiras (É Tudo Verdade 2026)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 6 horas
  • 2 min de leitura

Docudrama encontra força no cotidiano de suas protagonistas no sistema prisional sem apelar à desumanização.


Divulgação


O Brasil é o país com a terceira maior população carcerária feminina do mundo, com mais de 31 mil mulheres presas em 2025. A maioria destas mulheres são negras, pobres e estão presas por crimes sem violência, como tráfico de drogas e crimes contra o patrimônio. Apenas 7% das unidades prisionais do país são destinadas à essa população feminina, e são em duas delas que trabalham as agentes prisionais Ana Paula e Mariana, as protagonistas de Carcereiras, longa-metragem de Julia Guggisberg Hannud.


Apresentando em paralelo as duas personagens (que nunca chegam a se encontrar), Carcereiras se ancora na tradição do docudrama presente no gênero documental brasileiro para construir um panorama deste sistema prisional, das relações entre agentes prisionais com as presas e com suas famílias. E, embora seja sempre ingênuo que um documentário retrata a realidade tal qual ela é – e não a partir de escolhas formais e também políticas dos seus realizadores –, Hannud escolhe este tênue equilíbrio entre encenação e registro documental para acompanhar essas duas mulheres, encontrando força justamente na naturalidade com a qual sua câmera se imiscui com esses ambientes e com as vidas destas personagens.


Em essência, cada uma das duas se encontra em momentos diferentes da vida profissional: Mariana acaba de ser transferida para uma unidade prisional no interior de São Paulo, marcando um recomeço da sua vida, enquanto Ana Paula anseia por uma transferência que a leve de volta para a capital paulista. A primeira, jovem, encontra espaço para as risadas e para a leveza mesmo naquele ambiente muitas vezes opressivo, enquanto a segunda já carrega anos de experiência e um certo desgaste e desilusão.


Divulgação


Evitando muitas vezes dar rosto às presas conforme elas interagem com as protagonistas (salvo algumas exceções), a câmera de Hannud faz dessa decisão uma escolha de preservá-las humanizá-las, mesmo que as capte de costas ou fora de campo, com apenas suas vozes sendo ouvidas quando conversam com Ana Paula, Mariana e suas colegas. Há um esforço constante em tratar com uma certa naturalidade as vidas dessas mulheres e seus crimes (muitas vezes apresentados apenas pelos artigos do Código Penal), evitando-se julgamentos para retratar essas figuras como seres humanos, repletos de contradições mas nem por isso menos dignos de cuidado ou visibilidade. Até em instantes onde a violência invade aqueles ambientes, a câmera opta pelo fora de campo ou pelas reações das agentes prisionais, destacando como são profissionais já acostumadas – ou em certa medida anestesiadas – àquele cotidiano.


Assim, Carcereiras é uma obra que, mesmo carregando certo aspecto de encenação em si (sobretudo em alguns diálogos), não opta por uma narrativa clássica, com altos e baixos emocionais ou alguma espécie de catarse. Há uma escolha por acompanhar esse cotidiano, o qual pode muitas vezes ser tedioso, e o longa abraça esse tédio, goste o espectador ou não. Mas mais do que funcionar como um manifesto político ou filme-denúncia, escancarando as condições muitas vezes precárias nas quais essas agentes e presas podem viver, o trabalho de Hannud aqui encontra êxito em conferir humanidade a essas mulheres, independentemente de que lado das grades elas estão.


Nota: 4/5

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