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Crítica | Industry (4ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 7 horas
  • 5 min de leitura

Série demonstra mais uma vez seu poder de reinvenção em seu ano mais ousado – e sombrio.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ao longo das suas três primeiras temporadas, Industry nunca escondeu seu apreço por se reinventar e recomeçar do zero tal qual seus personagens faziam. Conforme abordei na minha crítica da terceira temporada, a série foi vendida como um cruzamento entre Succession e Gossip Girl, mas ainda que essa definição não estivesse longe da verdade, era mais correto assumi-la como a herdeira direta de Mad Men e Halt and Catch Fire, ambas séries que também ousadamente souberam se reiniciar e alterar profundamente seu status quo entre um ano e outro.


Após o final da temporada passada, que parecia tão definitivo, esta começa não com figuras familiares como Harper (Myha’la) ou Yasmin (Marisa Abela), mas com duas novas figuras – o jornalista investigativo James Dycker (Charlie Heaton) e a assistente Hayley (Kiernan Shipka, a Sally de Mad Men). Vemos o primeiro seguindo e se aproximando da segunda ao som de True Faith e Fine Time, do New Order, tudo capturado por uma câmera quase voyeurística e com predominância de zoons lentos remanescentes dos melhores thrillers paranoicos dos anos 70. É um começo ousado e que me faz lembrar da abertura da segunda temporada de The Leftovers, no sentido de nos jogar de cabeça em um novo mundo, com novos personagens, antes de nos oferecer alguma familiaridade com as pessoas que até então acompanhávamos na série. Mesmo quando Harper, Yasmin, Eric (Ken Leung) ou Rishi (Sagar Radia) são reintroduzidos em tela, está claro que muita coisa mudou. Estamos num novo capítulo da jornada de Industry.


Não que os jargões complicadíssimos do universo financeiro não continuem lá, ou o comportamento amoral dos personagens e o despudorado uso do sexo (já no primeiro episódio temos uma singela cena envolvendo um dildo gigantesco). Mas o que se vê aqui é praticamente um soft reboot, ou uma reinicialização: com a venda da Pierpoint e o fechamento da sua sede em Londres no final da temporada anterior, os poucos personagens que sobraram no elenco principal estão em esferas distintas, cada um fazendo seu próprio jogo e movimentos. Harper convence Eric a sair da aposentadoria para juntos criarem um novo fundo, onde conta com os serviços escusos de Rishi (em desgraça após a morte brutal da esposa) e o apoio de Sweetpea (Mirian Petche, um dos destaques da temporada anterior e que ganha mais espaço aqui) e do recém-chegado Kwabena (Toheeb Jimoh, mais conhecido como o Sam de Ted Lasso). Por outro lado, o casamento de Yasmin com Henry (Kit Harrington) se revela cada vez mais disfuncional, mas também abre portas para novas e importantes figuras, seja no meio político ou empresarial.


É o caso de Whitney Halberstram (Max Minghella), cocriador da startup Tender, a qual se popularizou por processar pagamentos de plataformas como sites pornôs, mas que agora busca “regularizar” seu negócio como uma fintech a qualquer custo, contratando Henry para ser seu novo CEO. Enquanto Yasmin suja cada vez mais as mãos em favor do seu marido (e em seu favor também, claro), Harper e Eric vão atrás das irregularidades da Tender, e é nessa dinâmica que a temporada se sustenta, ampliando seu escopo para mostrar como o jogo da indústria está enraizado em cantos muito sombrios, sua sujeira se estendendo até o alto escalão do governo britânico.

Imagem: Divulgação
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Ao longo dos seus oito episódios, a temporada se revela uma verdadeira montanha-russa, com quase ou nenhum momento de respiro para seus personagens e para nós, espectadores. Os jargões técnicos continuam incompreensíveis, mas a essa altura é evidente que eles pouco importem para entendermos a dimensão emocional dessas pessoas quebradas e amorais, dispostas a abrir mão da sua humanidade (ou de tentar recuperá-la) conforme preciso. Os showrunners Mickey Down e Konrad Kay, contando com a carta branca da HBO para fazer da série uma das mais nobres da sua programação, também não têm medo de eles próprios sujarem as mãos, tirando personagens da tela sem hesitar (incluindo alguns que já acompanhávamos há um bom tempo) se eles não agregam mais à narrativa, como visto nos episódios 4 e 6.


É notório que o clima e a atmosfera da série mudaram, mas conta muito em favor de Down e Kay como eles conseguem fazer uma transição tão abrupta soar tão orgânica, como se tudo que vimos nas temporadas anteriores tivessem servido a esse propósito. E fazendo por valer suas comparações com Succession, a capacidade de Industry de posicionar sua trama e seus personagens no contexto geopolítico contemporâneo, seja do Reino Unido quanto a nível global, é tão brilhante quanto aterradora. Nesse sentido, vale destacar a conversa entre duas personagens no último episódio, quando uma percebe que a outra vendeu sua alma em um nível além de qualquer salvação; trata-se de uma sequência que ecoa não só a brutalidade da violência de um trauma, mas também como valores pessoais podem facilmente ser corrompidos e negados num mundo cada vez mais sujeito às forças opressivas do neoliberalismo e da extrema-direita. 


Claro que essa avalanche emocional e narrativa não seria minimamente convincente se a série não dispusesse de um dos melhores elencos da TV atual. Após ficar um pouco mais escanteada na temporada passada, Myha’la abraça o protagonismo dessa com uma ferocidade tamanha, tendo a chance de oferecer novas nuances a uma personagem que por si só já era brilhante com sua faceta um tanto sociopata e autodestrutiva. Já Marisa Abela oferece tantas e tantas facetas à sua personagem, à medida que a vemos em uma derrocada não menos que devastadora, especialmente por a vermos encontrar seu propósito nos cantos mais sombrios. E Kit Harrington, alçado ao posto de protagonista masculino da série, tem a chance de entregar uma atuação superior a qualquer coisa que tenha feito em Game of Thrones, fazendo do seu Henry uma figura patética e, ainda assim, fácil de se solidarizar (mas nem sempre). Poderia citar tantos outros nomes: Leung, Petche, Shipka, Minghella, Radia e etc., mas mesmo as participações diminutas deixam uma marca indelével em uma temporada que consegue balancear e dar o tempo de tela devido a cada membro do seu gigantesco elenco.


Talvez pela primeira vez evitando um fechamento definitivo (visto que a série foi renovada para a quinta e – infelizmente – última temporada), o quarto ano de Industry se sagra pela proeza de oferecer uma renovação quase completa à série sem perder de vista suas características principais e suas maiores forças. Mais do que nunca antenada com os tempos sombrios que vivemos, ela incorpora esse espírito para nos desferir diversos socos no estômago, um após o outro, não apenas por um choque vazio, mas por confiar na inteligência do seu público e que este apoiará suas decisões para reconfigurar sua narrativa sempre que necessário. E a julgar pela sua capacidade de se reinventar sem perder a qualidade, esse apoio é mais do que merecido. 


Nota: 5/5


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