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Crítica | Devoradores de Estrelas

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 21 horas
  • 4 min de leitura

Um blockbuster simpático e esperançoso que tem em seus personagens o seu maior trunfo.


Divulgação


Em meio à onda incessante de remakes, legacy sequels, adaptações em live-action de animações – ou de videogames e produtos de outras mídias – e tudo mais que escancara a falta de criatividade de Hollywood e sua busca desesperada por novas IPs (como brilhantemente apontado por minha colega Aianne neste texto), é cada vez mais raro ver blockbusters que confiam no poder de sua estrela principal para conduzir um filme inteiro. Uma das poucas exceções dos últimos anos foram Tom Cruise e Top Gun: Maverick, e mesmo o ator não conseguiu repetir o feito com os dois últimos Missão Impossível.


Nesse sentido, o sucesso que Devoradores de Estrelas vem fazendo se torna ainda mais curioso quando nos lembramos que o último filme de Ryan Gosling, O Dublê (que eu adoro) foi também um veículo para seu estrelato e fez uma bilheteria bem abaixo do esperado. Talvez diga um pouco das tendências atuais do público – ou da saturação dos modelos que listei no primeiro parágrafo – que tenhamos como segunda maior bilheteria do ano até o momento um longa-metragem de 2h30 ancorado sobretudo na relação de um astronauta e um alienígena em formato de rocha.


Mas antes que Rocky (o alienígena) entre em cena, temos um primeiro ato que estabelece a premissa do filme: o Sol, assim como outras estrelas, está sendo vítima de uma espécie molecular alienígena, os astrófagos, que consome seu calor, o que fará com que a Terra resfrie entre 10ºC e 15ºC nas próximas décadas, extinguindo no mínimo metade da população mundial. Ryland Grace (Gosling), um professor que foi descredibilizado por defender a tese de que outras formas de vida podem prosperar mesmo sem a existência de água num planeta, é recrutado para o misterioso Projeto Hail Mary, que enviará uma nave espacial até Tau Ceti, a única estrela imune aos astrófagos, mesmo que se trate de uma viagem sem passagem de volta.


É inevitável não tecer comparações entre Devoradores de Estrelas e Perdido em Marte, de Ridley Scott. Não só porque ambos são adaptações de livros do mesmo autor, Andy Weir, mas por serem ficções científicas de cunho mais leve (inclusive na maneira como expressam o didatismo científico necessário à compreensão da trama), com fortes doses de humor e estreladas por atores carismáticos e renomados. Lá, porém, havia um elenco estelar servindo de coadjuvante ao protagonista de Matt Damon; aqui, mesmo que tenhamos nomes como Sandra Huller, Lionel Boyce e Ken Leung, o protagonismo é quase que inteiramente de Gosling. E de Rocky, é claro.


Se a direção de Phil Lord e Christopher Miller (voltando à cadeira de direção depois de mais de uma década) no início aposta em cortes rápidos – até demais – para expressar a desorientação de Grace ao acordar na nave depois de mais de uma década de viagem, aos poucos ela se assenta para dar conta das idas e vindas temporais, intercalando a jornada do personagem em redescobrir suas memórias com os flashbacks que mostram como ele foi parar no projeto. Mesmo com uma trilha sonora cativante de Daniel Pemberton (evocando o trabalho de Hans Zimmer em Interestelar e de Steven Price em Gravidade), Lord e Miller inteligentemente sabem usar o silêncio do vácuo ou dos interiores da nave para conferir ainda mais peso à vastidão do espaço, ainda que boa parte do filme se ambiente em espaços fechados, seja a nave (com um trabalho de direção de arte magnífico) ou na Terra, apresentada numa paleta de cores cinzenta e melancólica que contrasta com a cor encontrada no espaço, sobretudo no planeta Tau Ceti-E – onde o filme encontra seus melhores momentos, inclusive).


O cuidado com o som do filme se estende para a própria figura de Rocky, que antes de ganhar sua “voz” se comunica com sons e estalidos que fariam Ben Burtt (designer de som e dublador de personagens como R2-D2 e Wall-E) se orgulhar. Quando ele enfim passa a ser dublado com a voz robótica de James Ortiz, ampliando ainda mais sua comunicação com Grace, é a oportunidade do filme enfim encontrar sua alma e coração na relação e amizade dos dois personagens. Tal qual o ET de Spielberg ou o Grogu de The Mandalorian, Rocky chegou para ingressar o panteão dos alienígenas mais queridos e adorados do audiovisual.


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E nisso reside a magia e o milagre do cinema: nos emocionarmos com um alienígena rochoso sem rosto, com a amizade genuína construída entre ele e Grace. Este, nas mãos de Gosling, é uma oportunidade do ator flexionar tanto seus talentos cômicos quanto dramáticos, o que permite que ele não necessariamente repita o que já vinha fazendo em O Dublê ou Barbie. Seu timing para a comédia física continua ali, ou os gritinhos (que me fazem lembrar do seu personagem em Dois Caras Legais, ainda meu papel favorito da sua carreira), mas também há uma expressão genuína da gama de sentimentos que perpassam o personagem em face das decisões difíceis que precisa tomar.


Ainda que o filme acabe se excedendo na duração, ou perdendo força após a dita sequência de Tau Ceti-E (sobretudo nos flashbacks, que diluem o impacto climático da obra), ele sempre se encontra no trato dado aos personagens. Isso é visto nas sequências no passado – a cena de Huller cantando Sign of the Times é uma das mais bonitas do filme todo, e curiosamente conversa com a de Emily Blunt cantando Against All Odds em O Dublê –, mas é inegável o quanto o filme sempre cresce ao centrar-se em Grace e Rocky. Não é à toa que os flashbacks se tornam mais escassos à medida que o longa progride (ao ponto de se tornarem uma pequena interferência nos quarenta minutos finais), porque Lord e Miller vão assumindo a confiança de que essa relação cativará o público.


Portanto, mesmo com seus percalços narrativos, Devoradores de Estrelas resgata o espírito de um tipo de cinema industrial que tem sido cada vez mais incomum nesta década, embora o fosse nas décadas passadas. É satisfatório ver que ainda há espaço para um cinema grandioso e intimista em igual medida, otimista para tempos tão cínicos e desesperançosos, e que não precisa de multiversos ou easter-eggs para apreender a atenção do seu público. Apenas o star power de Ryan Gosling e de um alienígena.


Nota: 3.5/5

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