Crítica | Fjord (Mostra de SP 2026)

há 4 horas
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Cristian Mungiu transforma o confronto entre uma família conservadora e o Estado progressista em um desconfortável teste de hipocrisia.

Defender os direitos de quem discorda de nós talvez seja um dos exercícios mais árduos do convívio democrático. Especialmente em tempos de polarização política, quando o mundo parece dividido entre certos e errados, bons e maus, vítimas e vilões, as áreas cinzentas se tornam cada vez mais inconvenientes. É fácil advogar por quem compartilha nossas crenças, valores e princípios – mas até que ponto nosso compromisso com a liberdade permanece intacto quando seu exercício produz comportamentos que desaprovamos?
É justamente essa provocação que Fjord, escrito e dirigido por Cristian Mungiu, propõe ao espectador. Inspirado no caso real da família Bodnariu, que protagonizou uma controversa disputa com o sistema de proteção infantil norueguês, o longa acompanha Mihai Gheorghiu (Sebastian Stan), um engenheiro de software romeno que se muda com a esposa norueguesa, Lisbet Gheorghiu (Renate Reinsve), e seus cinco filhos para uma pequena comunidade cercada pelos fiordes da Noruega. Cristãos evangélicos profundamente conservadores, os Gheorghiu educam os filhos sob uma rígida disciplina religiosa, restringindo desde o consumo de determinados produtos culturais até comportamentos considerados incompatíveis com suas crenças. Quando professores, já insatisfeitos com as diferenças culturais, identificam hematomas em uma das crianças, os serviços sociais intervêm e retiram os cinco filhos da guarda do casal.
De um lado, uma família que acredita ter o direito de educar os filhos conforme suas convicções religiosas. Do outro, um Estado reconhecido por suas políticas progressistas e pela defesa dos direitos individuais, que considera inaceitáveis determinadas práticas disciplinadoras. Entre ambos, cinco crianças cujos interesses são reivindicados por todos, embora suas próprias vozes raramente sejam ouvidas.
A partir dessa premissa, Mungiu constrói uma espécie de thriller político e judicial no qual o suspense não depende exatamente de descobrir quem cometeu um crime (afinal, a própria definição de crime aqui é bastante subjetiva), mas de saber qual interpretação dos acontecimentos prevalecerá. O que está em julgamento ultrapassa a conduta dos pais e alcança suas crenças, nos fazendo questionar os limites da intervenção estatal na vida privada.
Para que essa tensão funcione, o diretor faz uma aposta corajosa, embora um tanto arriscada: parece presumir que seu público compartilha unanimemente de valores progressistas e rejeita o conservadorismo religioso. Boa parte do desconforto provocado pela narrativa depende justamente dessa identificação. Somos apresentados a uma família cujas práticas e convicções dificilmente despertariam nossa simpatia imediata: Mihai é autoritário, reproduz discursos homofóbicos e acredita que a obediência constitui uma virtude fundamental na educação dos filhos; Lisbet é demasiadamente passiva e subserviente ao marido. Ainda assim, conforme acompanhamos a escalada do conflito, somos levados a desejar que esses dois recuperem a guarda das crianças.
Evidentemente, crianças possuem direitos próprios, que não podem ser reduzidos às convicções dos pais, e a proteção contra a violência não deveria estar sujeita ao relativismo cultural. Mas não seria o próprio relativismo cultural… relativo? O mérito do filme está em nos obrigar a considerar que reconhecer a legitimidade dessa proteção não significa necessariamente concordar com todos os procedimentos empregados em seu nome. É possível condenar os excessos religiosos e, ao mesmo tempo, defender que eles existam.
Esse dilema, apesar de muito pertinente, se apresenta de modo mais pontual no nosso dia a dia. Não é algo que pensamos com frequência ou que verdadeiramente tememos. E, por isso, o filme tenta intensificá-lo, nos obrigando tomar uma posição. Para esse efeito, porém, Mungiu recorre a algumas estratégias narrativas que comprometem a complexidade que pretende construir.
A primeira delas é um maniqueísmo que se manifesta sobretudo na representação das instituições norueguesas. Os profissionais responsáveis pela proteção infantil são frequentemente retratados como figuras frias, inflexíveis e quase caricatamente desprovidas de empatia. Embora essa caracterização contribua para o sentimento de injustiça experimentado pelos protagonistas, também simplifica o conflito ao transformar uma instituição potencialmente complexa em um antagonista relativamente previsível. Com isso, um filme interessado em questionar nossos julgamentos precipitados parece conduzir o espectador a um julgamento igualmente apressado sobre aqueles que representam o Estado.
A segunda fragilidade está na construção da própria família Gheorghiu. Na tentativa de preservar nossa simpatia pelos protagonistas, apesar de suas convicções conservadoras, o roteiro acaba reduzindo suas personalidades ao conflito que enfrentam. Sabemos no que acreditam, conhecemos suas regras e acompanhamos seu sofrimento, mas descobrimos muito pouco sobre quem são para além dessas circunstâncias. Suas contradições pessoais, desejos e conflitos internos permanecem subordinados à necessidade de sustentar a disputa judicial. Lisbet é o exemplo mais evidente dessa limitação. A personagem parece concebida como uma figura quase santa, cuja benevolência, serenidade e obediência se mantêm mesmo diante das situações mais desesperadoras. Sua aparente incapacidade de se revoltar ou confrontar o marido produz uma passividade que, embora possa ser compreendida dentro da estrutura religiosa e
patriarcal da família, raramente é explorada com a profundidade necessária.

Essa ausência de nuances compromete especialmente o desenvolvimento da narrativa, que, em determinados momentos, parece girar em círculos. As mesmas discussões retornam, os mesmos impasses são reiterados e os personagens atravessam situações semelhantes sem que novas camadas sejam acrescentadas ao conflito. A insistência em prolongar o desconforto acaba produzindo o efeito contrário.
Felizmente, há uma exceção particularmente interessante nessa construção: Noora (Henrikke Lund-Olsen), a adolescente que vive na casa vizinha e desenvolve uma relação de proximidade com Elia (Vanessa Ceban), uma das filhas dos Gheorghiu.
Criada em um ambiente de valores mais progressistas e permissivos, Noora é rebelde, impulsiva e frequentemente raivosa. Elia, por sua vez, cresceu sob uma disciplina religiosa rigorosa, mas demonstra uma serenidade e uma sensibilidade que contrastam com o comportamento da amiga. É uma inversão interessante das expectativas que poderíamos ter sobre as duas: a adolescente educada em um contexto de maior liberdade parece constantemente em conflito com o mundo, enquanto aquela submetida a inúmeras restrições encontra maneiras de acolher e compreender a outra.
O romance juvenil que se desenvolve entre elas, marcado pela ingenuidade e pela delicadeza das primeiras descobertas afetivas, é uma das escolhas mais acertadas do roteiro. Além de introduzir uma dimensão emocional que escapa à disputa institucional, a relação funciona como uma ponte entre universos culturais aparentemente inconciliáveis. Enquanto os adultos se ocupam em defender suas certezas, as adolescentes descobrem possibilidades de convivência que não dependem da concordância absoluta.
No campo das atuações, o elenco apresenta um trabalho bastante consistente. Merecem elogios especiais os atores mais jovens, cuja naturalidade contribui significativamente para a credibilidade da disputa em questão. Os diálogos, cuidadosamente construídos para reproduzir a espontaneidade das interações cotidianas, ajudam a criar a impressão de que estamos observando pessoas reais, e não personagens empenhados em explicar ao público as questões políticas do roteiro.
Os grandes destaques, contudo, são Sebastian Stan e Renate Reinsve. Conhecidos por personagens bastante distintos daqueles que interpretam aqui, ambos demonstram uma impressionante capacidade de desaparecer dentro dos papéis. Reconhecemos seus rostos, evidentemente, mas pouco encontramos das posturas, dos gestos e das expressões aos quais estamos acostumados. E essa transformação acontece sem grandes artifícios, sustentada por um trabalho minucioso de composição corporal e emocional.
Stan, em particular, impressiona durante uma das cenas no tribunal, quando Mihai é questionado com veemência sobre a educação dos filhos. Sua atuação é composta por três registros: a voz tenta transmitir convicção; o rosto revela insegurança e ressentimento; e o corpo, rígido, denuncia a revolta que o personagem se esforça para conter. Ao agregar elementos que discordam entre si, o ator nos permite perceber conflitos internos que o próprio roteiro pouco se dispõe a investigar, acrescentando ao protagonista uma complexidade que ultrapassa aquilo que suas falas expressam. Um masterclass de artes cênicas.
A direção de Mungiu também encontra força em sua abordagem formal. A montagem privilegia planos longos e poucos cortes, permitindo que as interações se desenvolvam em um ritmo próximo ao da experiência cotidiana. A câmera frequentemente observa os personagens a certa distância, recusando a facilidade dos closes dramáticos que “ensinam” ao público o que sentir em cada momento. Essa escolha reforça o naturalismo das atuações e, sobretudo, concede ao espectador tempo para elaborar seus próprios julgamentos. Em um filme construído sobre a dificuldade de estabelecer certezas, essa recusa em manipular excessivamente nossas emoções é especialmente pertinente.
A fotografia de Tudor Vladimir Panduru também merece destaque pela maneira como subverte as expectativas visuais de um thriller. Em vez de recorrer às sombras intensas e aos ambientes claustrofóbicos frequentemente associados ao gênero, Fjord se desenvolve em paisagens abertas, amplamente iluminadas e cercadas pela imponência natural dos fiordes noruegueses. A claridade, embora fria, confere à narrativa uma aparência de tranquilidade quase infantil, coerente com a centralidade das crianças na história. As montanhas, as águas e os espaços abertos sugerem um país onde a liberdade parece fazer parte da própria paisagem. É uma ótima ironia visual para retratar uma história que levanta justamente os limites desse liberalismo.
O desfecho, quase abrupto, reforça essa contradição ao evidenciar que as consequências da intolerância ultrapassam aqueles diretamente envolvidos no conflito. As disputas entre convicções individuais e autoridades institucionais produzem efeitos que se espalham pela comunidade, atingindo inclusive pessoas que, à primeira vista, pareciam ocupar posições periféricas na história. Assim, oo evitar uma resolução plenamente conciliadora, Mungiu preserva parte do desconforto que sustenta a narrativa, fazendo com que deixemos a sessão ainda com a história em mente.
Fjord funciona como um valioso teste de moral democrática. Ainda que por vezes mais didático do que deveria, recorrendo a simplificações narrativas e escolhas políticas discutíveis, Mungiu constrói um filme provocativo, sustentado por excelentes atuações e por uma direção que compreende o valor do desconforto. Suas fragilidades impedem que a obra alcance toda a complexidade prometida pela premissa, mas não anulam o mérito de nos fazer desconfiar das nossas próprias certezas.
Nota: 3,5/5



















