Crítica | Razão e Sensibilidade (2026)

há 4 horas
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Nova adaptação do clássico de Jane Austen aposta no sensível para revisitar dilemas amorosos e sociais que continuam atuais mais de 200 anos depois de sua publicação.

❝Por mais fascinante que seja a ideia de um único e constante amor e apesar de tudo que se possa dizer sobre a felicidade de alguém depender completamente de uma pessoa determinada, as coisas não devem ser assim, nem é adequado ou possível que o sejam.❞
Mais de dois séculos depois da publicação de Razão e Sensibilidade, em 1811, Jane Austen continua encontrando novas formas de conversar com o público. As adaptações de suas obras para o cinema e a televisão atravessam gerações justamente porque seus textos tratam de questões que permanecem atuais: as expectativas impostas às mulheres, as convenções sociais, a busca por autonomia e as contradições dos relacionamentos amorosos. Uma nova adaptação do clássico, dirigida por Georgia Oakley, chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro, reafirmando a permanência das histórias da escritora britânica.
Seja na Inglaterra do período da Regência, em que Austen ambientou tantas de suas histórias, seja na contemporaneidade, seus personagens continuam despertando identificação porque os conflitos que enfrentam vão além de seu contexto histórico. O amor, a pressão para corresponder às expectativas alheias e a dificuldade de conciliar sentimentos e escolhas individuais não desapareceram com o passar dos séculos. É nessa permanência que a nova adaptação de Razão e Sensibilidade encontra sua força.
A trama acompanha as irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que, após a morte do pai, perdem a casa e enfrentam dificuldades financeiras ao lado da mãe e da irmã mais nova. Ao se mudarem para uma propriedade distante, elas também precisam lidar com as limitações sociais que afetam suas perspectivas de futuro e de casamento. Enquanto Elinor procura agir com prudência e manter os sentimentos sob controle, Marianne se entrega à intensidade das emoções e acredita na força do amor romântico. O contraste entre as duas conduz a narrativa e dá forma ao conflito central da história.
Com uma direção sensível, Georgia Oakley demonstra compreender o material que tem em mãos. O roteiro respeita o texto de Austen e preserva as particularidades das protagonistas, sem transformar a oposição entre razão e sensibilidade em uma disputa simplista entre certo e errado. A adaptação entende que o amadurecimento das irmãs passa justamente pelo modo como cada uma precisa lidar com as próprias convicções, vulnerabilidades e expectativas.
É possível que parte do público considere a narrativa lenta em determinados momentos. Ainda assim, o ritmo parece coerente com a proposta do filme, que privilegia o desenvolvimento das relações, os silêncios e os conflitos internos das personagens. Em vez de acelerar os acontecimentos para adequá-los a uma dinâmica mais imediata, a produção respeita o tempo necessário para que os sentimentos se construam e as tensões sociais sejam percebidas. É uma escolha que pode não funcionar para todos, mas demonstra compreensão sobre o que está sendo adaptado.
As atuações também estão entre os pontos altos da produção, especialmente as de Daisy Edgar-Jones, como Elinor, e Esmé Creed-Miles, como Marianne. As atrizes constroem protagonistas distintas sem reduzi-las a estereótipos: enquanto a contenção de Elinor revela o esforço constante para não deixar transparecer o que sente, a expressividade de Marianne evidencia a dificuldade de esconder suas emoções. A dinâmica entre as duas sustenta boa parte do interesse da narrativa e reforça a importância do vínculo entre irmãs em meio às incertezas amorosas e financeiras.

Um dos aspectos que prejudicam a experiência, porém, é a fotografia escura, que incomoda em determinados momentos da trama. Embora a estética contribua para a atmosfera de época, algumas cenas perdem legibilidade, tornando difícil apreciar plenamente os detalhes visuais. É um problema pontual, mas que afeta a imersão em uma produção cujo cuidado com a ambientação tem papel importante.
No fim, Razão e Sensibilidade reafirma a capacidade de Jane Austen de criar histórias que continuam ressoando muito tempo depois de escritas. A autora não se limita a narrar romances ou a acompanhar a busca de suas protagonistas por um casamento: ela observa as estruturas sociais que condicionam suas escolhas e questiona o lugar reservado às mulheres dentro delas. Por isso, suas histórias seguem encontrando novas plateias, mesmo quando os costumes e os cenários mudam.
A oposição entre Elinor e Marianne também permanece relevante porque nenhuma das duas oferece, isoladamente, uma resposta definitiva sobre como viver. A razão pode funcionar como proteção, mas também exigir que sentimentos sejam reprimidos; a sensibilidade permite reconhecer os próprios desejos, mas pode tornar as decepções mais dolorosas. Ao acompanhar as irmãs, o filme sugere que talvez seja necessário encontrar um equilíbrio entre essas duas dimensões, sem abrir mão da individualidade.
Afinal, como lembra uma das frases mais famosas do livro, a felicidade não deve depender inteiramente de uma única pessoa. Em uma sociedade que ainda associa tantas vezes a realização feminina ao amor romântico, essa ideia continua tendo algo a dizer. Mais do que uma história de época, Razão e Sensibilidade é um lembrete de que as obras de Austen permanecem vivas porque suas perguntas sobre amor, liberdade e autonomia ainda não perderam a relevância.
Nota: 4,5/5



















